Notas iniciais
Só espero que vocês gostem! :D Música: https://www.youtube.com/watch?v=RBumgq5yVrA

Estou imóvel em minha poltrona. Em minha mão, escorregando dos meus dedos está uma foto. Só agora percebi que tudo que eu fiz, tudo que deixei para trás, tudo que abri mão... De nada serviu. Nada.

Não era tão simples como eu imaginei.

Fazia mais de um mês que não via Molly. Havia recebido a primeira ameaça um dia antes de deixá-la. Fazia só alguns meses que estávamos juntos quando recebi uma correspondência com uma foto de Molly, tirada sem que ela percebesse. Um alvo aparecia sobre a imagem dela. E atrás da foto, a frase: "Quando sentimentos viram arma, quem sai perdendo?"

Eu soube o que tinha que fazer. Pelo menos achei que sim. Consultei Mycroft, que ficou meio reticente mas acabou concordado comigo. Teria que me afastar de Molly. Não havia outra alternativa por enquanto. Ela estaria segura enquanto acreditassem que eu a tinha deixado, que ela não importava.

As imagens passam por minha mente. Ela chegando com um sorriso no rosto ao meu apartamento, começando a me contar algo sobre seu dia. Eu estava sério e ela não demorou a perceber, sentando-se à minha frente na poltrona de John?

— O que houve?

Droga, a voz doce dela. O amor estampado em seus olhos. Ainda doía. Ainda parecia uma flecha atravessando meu coração.

— Eu não te amo mais. Talvez eu nunca tenha te amado.

Os olhos dela. Nunca esquecerei daqueles olhos. Nunca esquecerei de como eles passaram de felicidade, para preocupação e depois para uma tristeza profunda. Mágoa.

Vi lágrimas brilharem neles. Não sei como elas não brotaram nos meus também.

— Como?

Eu mal ouvi o que ela disse. E não conseguia dizer mais nada. Qualquer coisa que eu dissesse agora me trairia. Eu sentia um nó enorme em minha garganta, precisava que ela fosse embora. Dei de ombros. Indiferença.

Ela veio até mim, abaixou-se próxima a minha poltrona, suas mãos em meus joelhos. Me encarando com aqueles olhos castanhos e brilhantes. Lágrimas escorriam por sua face agora. Achei que ela fosse dizer algo e eu não podia suportar mais isso. Levantei-me e fui para o meu quarto, fechei a porta e sentei em minha cama, escondendo meu rosto em minhas mãos. Mycroft tinha razão sobre os sentimentos. Eles doem. Mais do que eu achei que poderia suportar.

Ouvi a porta do apartamento sendo fechada. Ela se foi. Eu a deixei ir.

Agora, mais de um mês depois, outra foto de Molly chegou até mim pelos correios. Antes de ler qualquer ameaça eu analisei a foto. Ela não sorri, seus olhos não brilham. Está diferente da Molly que eu conheci profundamente. A Molly que entrava sempre como um furacão pela minha porta, que me puxava para dançar com ela mesmo que desajeitadamente, que preparava café da manhã para mim. A Molly que arrumava a gola do meu casaco todos os dias, e despenteava meus cabelos. A Molly que sorria timidamente quando eu a elogiava, mesmo sem perceber, em público.

Onde está você, Molly?

Atrás da foto, outra anotação. "Se ela morrer, você ainda sofrerá?"

Quem estava me ameaçando sabia. Sabia que Molly era meu ponto fraco, mesmo que eu a tenha deixado. Suspirei e a foto caiu de meus dedos. Mycroft entrou na sala nesse instante, erguendo a sobrancelha ao meu ver assim. Eu sei o que ele deveria estar pensando "Eu avisei, eu avisei desde o começo.". E ele estava certo, ele me avisou o que envolver causaria à minha sanidade. Mas eu me envolveria com Molly mil vezes se fosse preciso.

— O que aconteceu, Sherlock?

Nem precisei dizer nada e ele viu a foto. Pegou-a do chão e leu o que dizia atrás.

— Eu não acredito que você vai ficar sofrendo feito um adolescente rejeitado sentado nessa poltrona e não vai matar a pessoa que está enviando essas fotos para você. Já foi melhor, irmãozinho.

O que Mycroft estava dizendo? Acho que ele leu essa pergunta no meu rosto, porque sorriu ironicamente.

— Vai dizer que em meio a sua dor você não viu todas as pistas que existem nessa foto?

Me levantei num pulo, arrancando a foto das mãos dele. E foi então que meu cérebro desanuviou e puxe enxergar. Quase dei um beijo em Mycroft. Argh.

Foi necessária uma semana para que chegássemos ao maldito que me ameaçava. Se o idiota que esteve atrás do celular de Irene no passado ficou como se tivesse caído da janela dez vezes, esse caiu de um prédio de cinco andares umas vinte vezes. Fazer o que, ele gostava de adrenalina.

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Mais uma vez estávamos em Baker Street, eu e Mycroft. Eu queria muito ir atrás de Molly e explicar toda essa confusão, mas, por outro lado, quanto tempo levaria até ela ser ameaçada de novo? Quantas vezes ela seria usada de arma para que me atingissem? E como seria se ela se machucasse ou... Pior?

Ainda que tivesse solucionado esse caso, meu coração estava partido ao meio. E eu que achava que não tinha um. Meus olhos se perderam encarando a lareira do apartamento. Lembrava dela comigo ali naquela sala, com aquela lareira.

Mycroft olhava no relógio a todo instante, isso começou a me irritar. O que ele ainda estava fazendo aqui mesmo?

— Está atrasado, Mycroft?

— Não, por que?

Queria arrancar essa falsa expressão de inocência do rosto dele.

— Só pelo fato de que você confere o relógio a cada segundo.

— Ah... — Ele sorriu. — Estou me perguntando quanto tempo mais você vai demorar para procurar Molly Hooper.

Segurei a vontade de me atracar com ele.

— Você sabe que não posso.

— Não, eu não sei.

Bufei. Mycroft estava fazendo de propósito.

— Se eu for atrás dela agora, semana que vem ela vai ser ameaçada de novo. Mês que vem, mais uma vez. Um dia qualquer, ela será ferida. Pode até ser morta. Que tipo de vida eu posso oferecer a ela?

Mycroft riu. Estou falando sério, mais um pouco e ele voa pela janela.

— Sherlock, será que você não aprendeu nada? Faça-me um favor e finja que não estou aqui dizendo isso. Eu nunca acreditei muito que se afastar dela iria resolver o problema. Apesar do que você pensa, as pessoas não são tão ingênuas. Todo mundo que observa você sabe o que você sente por Molly. E dispensá-la de um dia para outro não muda isso. Pessoas morrem, Sherlock. O tempo todo. Pessoas são feridas, pessoas vão embora, pessoas... Ficam. Ocasionalmente. Se você tivesse sido mais cúmplice de Molly e aberto o jogo com ela, tenho certeza que ela ajudaria você. O seu problema é que você vê em tudo uma oportunidade de fugir do que sente. Como agora.

Nossa, Mycroft estava me estapeando com palavras. E eu estava atônito.

— É um caminho sem volta, Sherlock. Eu avisei desde o início: Não se envolva. Mas a partir do momento que você me contrariou e o fez, não adianta fugir. Quanto mais você foge, mais é envolvido por essa rede de sentimentos.

Mycroft pareceu se perder em algum pensamento distante. Por fim, suspirou e continuou:

— Desde que você a deixou, a tenho observado. Não é porque você é um idiota que eu deixaria minha cunhada sozinha. Ela é forte. Confesso que me surpreendi por ela ter tido orgulho suficiente para não correr atrás de você. Gostei ainda mais dela nesse ponto, porque você não merece. Mas ela está sofrendo, Sherlock. Ela já quase não sorri e muitas vezes, pela manhã, seus olhos estão inchados. Pare de ser um covarde, mostre-me que te ensinei alguma coisa. Levante-se dessa inútil poltrona, procure Molly, confie nela, a proteja. Sejam um casal.

Alguém abduziu meu irmão. Observei ele se levantar e pegar seu guarda-chuva.

— Molly vai a um baile de máscaras hoje no Savoy. Eu espero, sinceramente, que você esteja lá.

Dizendo isso, ele saiu. Deixando-me estático e sem palavras.

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Eu estava atrasado, é claro. Acham que é fácil achar um smoking de última hora? E ainda por cima uma máscara que não me deixe patético.

Entrei no táxi e ameacei levemente o motorista para que ele andasse logo. Algo o motivou após isso e cheguei rapidamente ao hotel. Corri pelas escadas e entrei no salão. Quase me desesperei. Como acharia Molly aqui? Todo mundo estava de máscara. Sacudi a cabeça com esse pensamento. É óbvio que sim. Como não tinha pensado nisso antes?

Observei homens passando com roupas iguais a minha. E mulheres com longos vestidos de todas as cores. E máscaras, muitas máscaras. Muito brilho, muitas penas, muito tudo. Já estava ficando zonzo.

Devia ter trazido o esperto do Mycroft para me ajudar a achá-la.

De dentro do salão pude ouvir um trovão. Ótimo. Devia ser o prenúncio da minha tragédia noturna.

Andei pelo salão, bebi algum espumante e nada de Molly. Pessoas dançavam, conversavam e riam. Não queria nada disso, tudo que eu queria era ter Molly em meus braços novamente.

Uma música que praticamente me repudiava começou a tocar. Mycroft devia ter dado um jeito de inserir essa música na trilha sonora da festa, aposto.

Não fiquei refletindo por muito tempo, porque foi nesse instante que meus olhos encontraram o dela.

Senti meu coração saltar no meu peito. Acredito que se as pessoas olhassem bem, poderiam até ver isso acontecer. Meus olhos ficaram presos no dela, que estava do outro lado do salão. Molly não sorriu, não se moveu. Parecia assustada.

Seu longo vestido era vermelho, assim como sua máscara. Seus cabelos estavam soltos às suas costas. Ela era a mulher mais linda daquele lugar. Eu precisava chegar até ela. Dei um passo em sua direção.

Então, ela se virou e andou rapidamente para a saída. Droga!

Corri atrás dela, empurrando e me desculpando várias vezes. Ouvi o som de alguma taça caindo e se espatifando no chão. Não me importava. Meu coração estava pior, muito pior que aquela taça.

Quando cheguei à parte de fora do hotel, chovia forte. Olhei para os lados a procura de Molly e a encontrei no meio da rua, tentando achar um táxi. Já estava completamente molhada, seu vestido tinha passado de um vermelho vivo para quase vinho. A máscara estava em suas mãos agora.

Corri até ela, arrancando minha máscara, quando vi que um táxi se aproximava.

— Nem pense em entrar nesse carro.

Ela me olhou espantada. A tristeza era visível em seus olhos.

Puxei minha carteira e tirei praticamente todo o dinheiro que tinha lá dentro, estendendo para o motorista do táxi.

— Vá embora, suma daqui com esse carro.

O homem me olhou assustado, não era para menos. Desconfio que a polícia aparecia a qualquer momento.

Molly ainda me olhava paralisada.

Agora eu via... Lágrimas se misturavam à chuva em rosto. Seus olhos estavam vermelhos.

— Molly...

— O que você quer, Sherlock? O que você está fazendo aqui? Algum crime aconteceu e você precisa de uma imbecil para te ajudar? Eu não sou mais essa pessoa, Sherlock.

Ela se virou para ir embora, andando a passos rápidos novamente e se aproveitando do meu momento de paralisia por não saber o que fazer. Observei ela retirar os saltos, segurando as sandálias na mão e andando ainda mais rápido. Afastando-se de mim. Não.

Meu corpo voltou a responder e corri atrás dela, puxando-a pelo braço e virando-a para mim. Ela me encarou com raiva e de novo eu senti meu coração sangrar quando vi as lágrimas escorrendo por seu rosto molhado.

— Espere.

— Me solte. AGORA.

Ela puxou o braço com um tranco e minha mão escorregou por sua pele molhada. Molly virou-se de costas de novo. Sentia-me derrotado.

— Eu amo você, Molly. Sempre amei.

Molly parou de andar, ainda de costas para mim e eu vi a chuva cair sobre ela. Linda. Mesmo assim ela estava linda. Passei a mão por meu rosto, tentando retirar o excesso de água e continuei:

— Eu menti, Molly. Menti quando disse que não te amava. Achei que isso era o certo, você precisa me escutar. Eu só quis proteger você... E deixei que você fosse embora...

Minha voz foi morrendo. Quase não me ouvi quando disse:

— Me perdoe...

Eu quase perfurava as costas dela com o olhar. Ela precisava me desculpar, eu não posso perdê-la para sempre. Não tive forças para ir até onde ela estava, temia que ela fugisse de novo.

Só o som da chuva e a respiração de Molly eram audíveis para mim agora. Não me importava se tinham pessoas nos observando porque estávamos dando um show no meio da rua, se os carros queriam passar, se eu estava molhado até os ossos. Nada disso me importava. Era como se só existissem eu e Molly no mundo agora.

Foi como se tudo se passasse em câmera lenta quando ela se virou para mim e deu alguns passos vacilantes em minha direção. Seus olhos ainda estavam vermelhos, mas não vertiam mais lágrimas. Ela me olhou desconfiada e eu senti vontade de me bater por ter perdido a confiança dela em meus sentimentos.

— Isso é realmente verdade? Ou você está precisando me usar para algum caso?

A acidez na voz dela me fez desmoronar. Ergui a cabeça, deixando que a chuva molhasse meu rosto. Quando voltei a encará-la, não consegui disfarçar as lágrimas que cismaram em sair de meus olhos. Isso fez com que ela voltasse a chorar também.

— Por Deus, Molly... — Minha respiração estava irregular e eu falava com dificuldades agora. — Eu nunca fui tão sincero em toda minha vida. Por favor, acredite em mim. É tudo que peço agora.

Ela se aproximou ainda mais de mim, ainda cautelosa. Parecia que ela estava travando uma luta interna. Um dos lados venceu e ela quase me derrubou quando pulou em meus braços.

— Eu amo você, idiota. E mato você com um bisturi se você aprontar isso mais uma vez.

Eu suspirei. Afundando meu rosto em seus cabelos molhados.

— Você só vai usar um bisturi em mim quando eu morrer, prometo.

Ri quando ela deu um tapa em meu braço e, com isso, puxei seu rosto para mim. Precisava beijá-la e foi o que eu fiz.

Com uma alívio indescritível, pude sentir meu coração se reconstruindo na mesma velocidade que nossos lábios se moviam. Eu nunca mais a deixaria. Ela era parte de mim.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!