4º Desafio Sherlolly
1 I Will Let You Go
Notas iniciais
Ele havia começado sem explicações e Molly sabia que terminaria assim. Mas não conseguia deixar de se sentir triste. Sozinha e abandonada em seu apartamento naquela noite fria. Noites frias... Sherlock costumava dizer que gostava mais ainda da companhia de Molly nas noites frias. Aninhava-a em seus braços e parecia um pássaro protetor. Esfregava seus narizes até que o nariz de Molly deixasse de parecer congelado e fazia-a uma bela xícara de chá para que ficassem quentes e confortáveis enquanto conversavam e namoravam deitados ao lado da lareira. Molly sentiu-se congelar com esse pensamento. Três semanas de intimidade com Sherlock Holmes... Ele se afasta por um mês e ela se sente orfã. Esse é o tamanho do controle que ele tem sobre ela.
Não! "Ele não tem nenhum controle sobre mim." Molly pensou enquanto se levantava e vestia um casaco por cima do pijama. O frio estava incomodando-a, não a falta de Sherlock. Caminhou até a sala e checou seu telefone mais uma vez. Nenhuma mudança. Nenhuma chamada. Nenhuma mensagem. Nem mesmo para algum caso... Se ele estivesse em um caso, Molly saberia. Saberia?
Voltou para o quarto com uma xícara de chá e o telefone. Encarou-o por alguns segundos e então não conteve o impulso. Discou o número de Sherlock — que já estava grudado em sua mente e em seu movimento habitual dos dedos pelo teclado do celular — e hesitou. Não hesitou por mais de três segundos. O telefone já estava chamando... O som familiar da chamada e o conhecido sentimento dentro de Molly nesse último mês — a vontade de ouvir a voz de Sherlock por pelo menos alguns segundos...
No último mês tinha tentado ligar, mas ele não atendia. Nunca atendia. Molly não fazia ideia do que estava acontecendo e isso só deixava-a mais irritada. Sherlock se aproximou do nada. Com jantares, passeios, beijos de surpresa e até pequenos presentes de lembranças... E sumiu da mesma forma. Se afastou. Distanciou-se de Molly como se nada tivesse acontecido. Apesar de continuar ligando — pois sua esperança lhe pedia para que continuasse —, Molly já estava cansada. Até de namoro o detetive havia falado... Dois dias antes de se afastar.
Para a surpresa de Molly, ouviu a respiração de Sherlock do outro lado da linha.
"Alô?"
"Sherlock..."
Ela definitivamente não deveria ter ligado tantas vezes. Se sentia idiota agora que Sherlock tinha finalmente atendido o telefone... O que ela ia dizer? "Liguei mais de trinta vezes no último mês e apesar de você me evitar, continuei ligando..." O quanto aquilo soaria estúpido? Molly sentiu um nó enorme na garganta. Queria chorar.
"Só precisava... Ouvir sua voz."
"Eu também precisava." Foi só o que ele disse. Molly queria saber se ouviria mais alguma palavra de Sherlock... Um pedido de desculpas, talvez? Mas era esperança demais. Ele não daria-a algo assim. "Mas prefiro que não ligue mais."
Seus olhos encheram-se de lágrimas enquanto ouvia o barulho conhecido da linha muda. Sherlock havia desligado. Deixou que as lágrimas rolassem pelo seu rosto. No dia seguinte tinha que trabalhar cedo, mas não se importava... Contanto que Fitz parasse de cercá-la no Barts... Realmente não se importava.
Molly repetiu que não se importava dentro de sua cabeça mais de vinte vezes enquanto chorava antes de dormir... Ela sabia que isso era mentira. Ela se importava.
Put your hands in the water
Watch them go under
Put your hands to the light
Watch the light come through
And I will let you go
And I will let you go
–
— Eu só queria saber... — Ezra estava parado no batente da porta, observando-a enquanto trabalhava. — Saber se gostaria de sair um dia desses.
— Eu... — Molly gaguejou.
Merda. Ela nem estava interessada. Queria apenas deixar para lá a noite inteira que chorara no travesseiro há horas atrás. E agora o americano bonitão do estágio estava chamando-a para sair. Era um teste? Saber se sobrevivia ao gelo de Sherlock e às investidas do Fitz?
— Eu... — Ela precisava pensar rápido. Não era um desastre... Era a chance perfeita caindo em seu colo. Um americano. — Eu te mando uma mensagem com os detalhes, Fitz.
Ele sorriu. Era bonito. Céus, como era bonito... Mas era americano. Qual era a graça de namorar um americano? Se não tivesse o sotaque de Sherlock. O sorriso de Sherlock. Não fosse Sherlock..."Molly, esqueça Sherlock!" Se advertiu. "Não consigo" sussurrou para si mesma.
— Aqui está meu telefone. — Ele sorriu e entregou-a um papel. — Te vejo mais tarde.
Faltava o sotaque! Era bonito. Moreno. Alto. Sorriso maravilhoso. Educado... Mas não era um Lorde Inglês como seu Sherlock... Seu Sherlock. O cérebro de Molly estava começando a derreter com essa situação. Não aguentava mais todo esse mistério. Sherlock não aparecia, não atendia e quando atendia... Sentiu os olhos começarem a arder novamente. Queria chorar só de pensar na forma com que ele havia atendido-a. Frio como gelo. Como ela poderia lidar com isso?
Ezra era sua melhor chance. A última tentativa.
–
Talvez aquela tinha sido a pior ideia que Molly já havia tido em toda sua vida. Na porta do teatro, esperando o horário da apresentação começar... Suas mãos suavam e ela não sabia para onde olhava. Será que Sherlock estaria lá? Enquanto se perdia em seus pensamentos e desejava mais do que tudo que Sherlock realmente fosse à apresentação de violino, viu Ezra se aproximar.
— Boa noite. — Ele sorriu e mostrou-a uma rosa. — Combina com sua beleza sensível...
Molly sentiu-se mal. Não queria estar com ele. Estava usando-o... Ele era um cara legal. Era gentil. Era inteligente. Queria sair com ela de verdade. Gostava dela... E então ela estava usando-o como desculpa para estar em um lugar que apostava que Sherlock estaria. Ele havia comprado os ingressos para aquela apresentação há meses — o dele e o de Molly — e prometera que iriam juntos.
Agora ele estava ignorando-a e sendo um boneco de neve... Mas Molly sabia o quanto ele gostava daquilo. Sabia o quanto ele queria ver. Apostava que ele não perderia isso nunca. Então comprou mais duas entradas e foi com Ezra. Aceitou a rosa com um sorriso.
— Não precisava, mas... Ei, obrigada. — Ela queria parecer animada, mas continuava olhando para todos os lados à procura do Holmes. — Vou até a cabine pegar nossos ingressos. Espere aqui.
É claro que era apenas uma desculpa para checar se Sherlock estava ali. E se não estivesse, poderia esperar por mais um tempo na entrada... Esperá-lo chegar. Ela sentia que ele estaria ali. Não perderia aquilo por nada.
— Boa noite. — Molly se aproximou da cabine de ingressos. — Dois bilhetes para Hooper?
— Aqui. — A moça ruiva de dentro da cabine entregou-a os bilhetes.
— Obrigada. — Molly hesitou. Devia ou não devia perguntar? — Ahm... Você tem dois para Holmes aí?
A mulher de dentro da cabine, muito simpática, logo achou os bilhetes de que Molly estava falando e pegou-os, fazendo menção de entregá-los à ela. Sherlock não estava ali! Os ingressos dele ainda estavam na cabine.
— Ah, não. — Se atrapalhou quando viu que a moça ainda segurava os bilhetes, esperando que ela pegasse-os. — Eles não são meus. Só achei que um amigo já estaria aqui...
No momento em que se virou, viu um táxi chegar. Era Sherlock. Ele parecia extremamente desanimado e bagunçado. Parecia estar largando sua própria vaidade e parecia estar... Vestido para dormir? Molly nunca vira-o tão mal vestido. Mas nunca sorrira tanto ao vê-lo. Céus... Sentia muita falta daquele homem. Pensou ter visto um sorriso no rosto de Sherlock, mas quando deu dois passos na direção dele, viu Ezra entrar em seu caminho.
— Podemos ir? — Ele sorriu, estendendo o braço.
Merda, merda, merda, merda! Por que isso tinha que acontecer? Ezra não podia simplesmente sumir? Ela se deu conta de que deveria ter ido sozinha... Seria muito mais fácil. Aceitou o braço do Fitz enquanto ainda olhava na direção de Sherlock. Ele já não sorria mais. Mas Molly ainda tinha uma esperança... Poderia encontrá-lo lá dentro.
O que não aconteceu. Assistiu a apresentação inteira com seu corpo ao lado de Fitz, mas sua mente procurando pelo Holmes. Queria que ele estivesse na saída esperando-a... Mas não tinha tantas esperanças assim. O olhar no rosto de Sherlock quando viu-a ao lado de outro homem... Aquele olhar incendiaria ou congelaria uma vila inteira, Molly sabia disso.
Quando saiu, para sua surpresa, no lugar de Sherlock encontrou Mary Watson. O que Mary estava fazendo ali? Olhou para Ezra com aquela cara de "Americano? Você vai me explicar tudo isso depois, Srta. Hooper" enquanto Molly apresentava-o como Ezra Fitz. Deu um abraço apertado na amiga logo em seguida.
— Não sabia que estaria aqui... — Molly começou. — Eu achei que...
— Oh, Sherlock ligou-me de última hora.
— Sherlock Holmes? — Ezra parecia interessado. — Você conhece Sherlock Holmes? O famoso detetive?
— Ah... Eu conheço. — Mary deu um olhar interrogativo para a amiga. Quem era aquele? — Se ele não tivesse escapado antes dos primeiros dez minutos de apresentação dando uma desculpa esfarrapada de que estava passando mal... Você o veria.
— Ele... — Molly suspirou. — Ele estava passando mal?
— Casos... Grandes casos... — Mary fez uma careta. Sabia da situação entre Molly e Sherlock, não queria complicá-la ainda mais. — Ele anda confuso, Molls. Você o conhece.
Ezra fez uma careta de entendimento. Como se um trem tivesse passado em cima dele. "Oh", ele sussurrou. Molly soube naquele momento que até Fitz já tinha entendido seus sentimentos por Sherlock... Só o próprio banana não conseguia entender.
— Bom, vou indo... — Mary acenou enquanto caminhava. — Espero vê-lo de novo Sr. Fitz. Boa noite!
–
Ela dizia que gostava do sotaque dele! Por que de repente agora estava saindo com americanos? O que aconteceu no cérebro de Molly Hooper enquanto Sherlock se afastou? Ele tocava violino freneticamente — tentando entender a cena que vira mais cedo no teatro — quando a porta se abriu. Mary entrou furiosa. Tirou o violino da mão do detetive e encarou-o com uma careta horrível.
— O que foi dessa vez? — Sherlock revirou os olhos.
— Você me deu o bilhete de Molly... E você... — Ela revirou os olhos logo depois do detetive. — Você nem ao menos se presta à esclarecer as coisas com ela.
— Eu não tenho o que esclarecer. — Ele levantou-se e caminhou até a janela, colocando as mãos no bolso. — Ela já arrumou outra companhia, de qualquer forma.
— Com um desleixado sotaque americano... — Mary comentou em tom de elogio com uma risadinha. Queria irritá-lo. Isso funcionaria.
— O que quer, Mary? — Sherlock virou-se para ela. Estava nervoso. O trunfo do sotaque havia funcionado. Mary sorriu internamente.
— Você gosta dela, pelo amor de Deus! — Ela implorou. — Só se acerte... Seja sincero consigo mesmo e com ela. Ela não merece mais um mês de tristeza... E não merece um moço de sotaque engraçado... Sabe que Molly não gosta disso!
— Se ela não gosta... Por que estava com ele essa noite? — Ele estava tentando parecer racional, mas no fundo sabia que era só pirraça.
— Ela foi até lá na esperança de te ver, Sherlock. — Mary suplicou pela milésima vez no último mês. — Fitz foi só uma desculpa para não ter de ir ao teatro sozinha... Já que você está ignorando-a e passando o bilhete que comprou para ela para outra pessoa!
— Então você o conheceu? — Ele ergueu uma das sobrancelhas. Agora estava irritado. Mary tinha ultrapassado o limite. — Você foi até lá e ela apresentou-o?
— Sherlock eu... — Mary hesitou. — Quer saber? Você e Molly são adultos. Se continuar ignorando-a vai perdê-la e sabe disso. Para um cara com sotaque americano, inglês, marroquino ou africano. E isso vai ser um problema só seu... Por que eu desisto de bancar a babá. Boa noite.
Mary saiu como um furacão. Sherlock instantaneamente mirou o celular. Queria ouvir a voz de Molly... Mas então se lembrava de vê-la na porta do teatro. O sorriso em seu rosto... A ilusão de que ela caminharia até ele e... Outro homem. Um americano... Não precisou de muito para que as lembranças viessem com força.
Chovia muito naquela segunda-feira. E Baker Street foi o destino de Molly depois de deixar o hospital. Vestiu uma roupa de Sherlock e deitou-se de frente para a lareira com uma xícara de chá que ele havia preparado. Ele se juntou à ela e os dois ficaram ali... Deitados, conversando sobre coisas... Coisas que Sherlock nem se importava em saber... Mas ouvir a voz de Molly e vê-la rindo para ele era mágico. "Satisfaction... Diga isso de novo?" Ela pediu fazendo sua melhor cara de manha. Sherlock ergueu as sobrancelhas.
"Por que quer que eu repita essa palavra?" Ele sorriu confuso. Molly estava aninhada em seus braços e ele não conseguia pensar em nada melhor do que aquilo. Poderia viver assim para o resto da vida. "Porque eu gosto de ouvir... Gosto de ouvir o seu sotaque." Ele sorriu de forma ainda mais aberta. Molly era maravilhosa. "Todos nós temos o mesmo sotaque, sua boba." Ele esfregou seu nariz no nariz gelado de Molly e ela gargalhou baixinho. "Mas eu gosto do seu... Na sua voz." Ele se afastou um pouco — o suficiente para olhá-la nos olhos — e sussurrou "é minha satisfação agradá-la, madame." Molly agarrou-o pelos cabelos e puxou-o para um beijo. Era a melhor sensação do mundo. Sua satisfação.
E agora tudo estava longe. Pegou o violino novamente e se afastou do celular. Duas chamadas perdidas... Não atenderia de qualquer forma. Atender só faria doer mais ainda. Apenas tocaria até a saudade de Molly e a dor irem embora. Ela ficaria segura longe dele. Era o único jeito.
–
Molly estava sozinha no necrotério quando tomou aquela decisão. Daria-o um ultimato. Se Sherlock gostava tanto dela quanto dizia gostar antes de se afastar... Ele escutaria. Se se negasse à estar ao lado dela mesmo depois disso... Então era hora de deixá-lo ir. Decidida, discou o número de Sherlock mais uma vez. Deixou que a chamada caísse na caixa postal e limpou a garganta ao ouvir o sinal que indicava que a mensagem seria gravada.
— Sherlock, eu... Eu estou ligando por motivos óbvios. — Ela respirou fundo. — Escute, eu não quero pensar que nós estamos realmente terminados... Mas se estamos ou se não estamos é algo que deveríamos discutir pessoalmente. Então me encontre hoje às oito na Abbey Road. Se você for significa que ainda há uma chance para nós. E se não for...
A ligação caiu. Molly respirou fundo. Concentraria todas as suas esperanças naquela noite... Se ele não aparecesse — jurou para si mesma —, deixaria-o ir para sempre.
Put your time on the table
See who'll sit down with you
Give your love to the ones
Who offer you bruise
After bruise, after bruise
And I will let you go
Sherlock ergueu os olhos para o celular quando ouviu a mensagem chegar na caixa postal. Pegou-o. Encarou os dois botões disponíveis: "ouvir" e "deletar"... Seu dedo foi na direção de deletar — sabia que era uma mensagem de Molly e só doeria ainda mais ouví-la —, quando John Watson chegou. Iam resolver alguns casos juntos essa tarde. Largou o celular e deixou isso para depois. Não se importava com isso... Ou queria muito não se importar. Doeria menos.
Enquanto trabalhava, tudo o que passava pela cabeça de Molly era Sherlock. Ezra não tinha aparecido. Depois da apresentação os dois haviam conversado e ele havia perguntado sobre Sherlock... Então ele disse que não precisava mais vê-lo se não estivesse se sentindo bem. Foi um peso saindo das costas da legista. Não queria se complicar ainda mais... E agora tudo o que conseguia pensar era no dia em que levara Sherlock para Abbey Road.
Enquanto atravessavam a avenida, Molly começou a cantar "Help!" bem alto. Uma ou duas garotas estavam por perto e riram junto com ela... Mas Sherlock pareceu não pegar a piada de primeira. "Sherlock?" Ela chamou. "Canta com a gente!" Ele parecia sem jeito... Será que ele não... Sherlock não conhecia os Beatles? Isso era possível? "Eu não conheço..." Ele sussurrou e foi a conta para que Molly caísse na gargalhada. Foram para Baker Street naquele dia e a castanha encheu a cabeça do detetive de Beatles.
Mostrou-o a famosa foto da Abbey Road, as músicas, os vídeos... Contou-lhe as histórias e sentiu-se extremamente feliz em poder dividir algo com ele. "Eu quero voltar em Abbey Road ainda hoje." Sherlock disse assim que terminaram o estudo sobre os Beatles. "Quero dar uma olhada mais detalhada e..." Molly gargalhou. "Então quer dizer que alguém gostou de tudo que viu e ouviu essa tarde?" Ele sorriu, parecendo uma criança entusiasmada pelo seu primeiro natal. "Vamos Molly, ainda dá tempo de voltar em Abbey Road antes do anoitecer."
Molly já estava sorrindo enquanto trabalhava só de se lembrar daquele dia. Os dois voltaram até a avenida e Sherlock ficou atravessando para lá e para cá feito um tonto. Cantarolou junto com ela e sinceramente não parecia querer voltar para Baker Street no final do dia... Ele era tão infantilmente fofo. Molly queria-o de volta. Mas tinha a chance de Sherlock não querer voltar... "Mas prefiro que não me ligue mais." A cabeça de Molly já estava girando. Teria que abaixar suas expectativas para aquela noite. Não seria nada fácil se Sherlock não aparecesse...
–
Já era noite e aparentava que choveria quando mais uma cliente passou pela porta. Apaixonada, amado desaparecido... Sherlock não aguentava mais aquele tipo de casos. Se o homem tinha desaparecido, talvez fosse por livre e espontânea vontade? Pelo que deduziu da moça que tinha acabado de entrar pela porta, seu amado era noivo de outra há um mês atrás... Era muito fácil saber que ele tinha sumido por livre e espontânea vontade.
Mas quando ela desabou em lágrimas, Sherlock repensou. Se ele era noivo há um mês atrás... Eles poderiam ter sido amantes? Não. Ela não tinha sido amante. Ela não faria isso.
— Ele... — Ela gaguejava depois de quarenta segundos de silêncio. John parecia preocupado com o estado deplorável da moça. — Ele sumiu sem mais nem menos... E...
— Respire fundo, Sra...? — John fez o favor de perguntá-la o nome.
Pra quê o nome? Seria muito mais fácil simplesmente dizer à ela que o "amado" tinha fugido. Saído. Se afastado... Exatamente como ele fez com Molly. Esse pensamentou deixou-o sem ar. Ver aquela moça jovem e bonita em prantos por ter perdido seu companheiro... Será que Molly...
Não. Molly não era assim. Entenderia. Seria forte. Era por isso que gostava tanto de Molly. Sabia ser lógica como ele — apesar de ser bastante emocional. Mas se Molly Hooper estivesse naquele mesmo estado por culpa dele por ao menos um minuto... Ele arrancaria seus próprios pulmões. Vivo.
Não podia suportar a ideia de Molly sofrendo da mesma forma que aquela moça... Será que ela estaria mesmo sofrendo? Seus olhos correram ao celular de forma automática. A mensagem lá, brilhando... "Deletar" e "Ouvir" parecendo convidativos... Queria ouvir a voz de Molly, mas não queria fazê-la sofrer... Merda!
— Srta. Montgomery. — Ela sussurrou. — Olhem... Jake desapareceu sem nenhuma explicação... Pode estar em perigo!
— Você já considerou a ideia de que ele pode simplesmente ter... — John interrompeu-o com um simples "Não." sabia o que Sherlock ia dizer e não deixaria-o dizer isso.
— Não! Jake não me deixou. — Ela entendeu o recado. — Ele estava no último ensaio antes de seu casamento quando nos vimos pela primeira vez... Ele largou tudo por mim. Nunca iria embora sem avisar. Sem levar suas coisas...
— Ele largou o noivado um dia antes do casamento? — John roubou as palavras de dentro da cabeça de Sherlock. Parecia tão espantado quanto ele.
— Sim. Nos apaixonamos no mesmo momento em que nos vimos. — Ela sorriu. — Ele largou tudo... E então a família daquela... A família dela começou à ameaçá-lo quando ele se mudou para minha casa... Eu estou tão preocupada. Já faz dois dias que ele sumiu.
— Ele deixou a noiva para sair com uma mulher que tinha acabado de conhecer?
— Ele se apaixonou por mim.
— Ele ia se casar no dia seguinte. — Sherlock parecia mais irritado do que deveria.
— Exatamente. — Ela sorriu.
— Exatamente o que? — John perguntou, sentindo-se excluído do assunto. Por que nunca entendia nada?
— O amor verdadeiro o salvou de cometer o maior erro da vida dele. — Ela disse como se fosse óbvio. — A família da ex-noiva está perseguindo-o... Imagina o inferno que viveria se tivesse se casado com ela?
— Você acha que isso é realismo? — Sherlock ergueu a sobrancelha. — O amor verdadeiro salvou-o?
— Eu acho que é romântico. — Ela respondeu com um sorrisinho.
— A vida não é sempre romântica. — Sherlock deixou de olhá-la por um momento e encarou seu celular novamente. — Às vezes é realista. Às vezes coisas que não queremos que aconteçam acontecem.
— Estamos falando sobre o caso... Ou...? — John encarou-o com uma careta. Sabia que o amigo estava falando de seu próprio envolvimento com Molly.
— É claro que estamos falando sobre o caso... — Sherlock revirou os olhos e encarou novamente a moça. Ela já tinha entendido toda a situação. — Me desculpe.
— Tudo bem... — Ela sorriu. — "Seja corajoso e forças poderosas virão em seu auxílio." Acho que essa frase é da Basil King... Mas se encaixa perfeitamente na minha história de amor. Talvez se encaixe na sua também, Sr. Holmes.
Sherlock ficou em silêncio. Sentiu-se apavorado de repente. A calmaria antes da tempestade era só uma máscara. Ainda estava apavorado. Tinha medo de ficar sem ela. Tinha medo de viver com ela. Como poderia suportar tantos medos dentro de si? Ele sorriu. Olhou na direção do John.
How we play fight
As we dance slow
The smile you make
Saying yes meaning no
Is so grey, so faint
The words stray in your mouth
With an ache
— Cuide dos seus assuntos, Sherlock... — John revirou os olhos. — Eu vou encontrar o Jake.
O detetive nem ao menos respondeu. Levantou-se num salto levando seu celular. Enquanto ouvia John perguntar mais informações sobre Jake, sentou-se em sua cama e se preparou para escutar a mensagem de Molly.
— Sherlock, eu... Eu estou ligando por motivos óbvios. — Pôde ouvi-la respirar fundo, como se dizer aquilo fosse realmente difícil e doloroso. — Escute, eu não quero pensar que nós estamos realmente terminados... Mas se estamos ou se não estamos é algo que deveríamos discutir pessoalmente. Então me encontre hoje às oito na Abbey Road. Se você for significa que ainda há uma chance para nós. E se não for...
Às oito. Sherlock se desesperou. Já eram oito e quinze. Precisava correr. Não podia perdê-la para sempre... Não se perdoaria. Passou pela sala como um furacão e deixou John sorrindo ao sair pela porta e gritar pelo táxi. Finalmente Sherlock havia tomado juízo... Só esperava que não fosse tarde demais.
–
Molly estava escondida embaixo de uma árvore, encarando a famosa avenida que um dia os Beatles atravessaram. Nunca imaginara que poderia ser um lugar importante para ela e para Sherlock, mas era. Ele sempre falava de voltar lá — quase todos os dias — e Molly adorava isso. Adorava ter mostrado algo para ele que o detetive não conhecia... Isso era raro. E mais raro ainda, ele havia gostado do que ela mostrou. Sentia-se bem quando pensava nisso.
Mas agora, parada embaixo da árvore enquanto a chuva começava a cair e levemente molhá-la, repensava se havia sido uma boa ideia esperá-lo ali. Ele não iria. Tinha deixado claro... Não queria Molly por perto. Não queria que ela ligasse. Ele não apareceria.
A chuva começava à aumentar e aquele aperto conhecido no peito da legista também crescia junto dela. Ele não viria. Já eram oito horas... Não viria. Aos poucos a árvore já não protegia-a totalmente da chuva. Sentia frio. Por que tinha que ter se vestido daquela forma? Colocara um vestido e se arrumara. Achava que Sherlock iria. Sua última esperança era realmente uma enorme esperança... Sherlock não seria assim tão ruim, seria?
Merda! Ele era assim tão ruim. Tinha sido frio no telefone, por que iria até lá? Por que iria ao menos escutar a mensagem de Molly? Tinha quase certeza de que Sherlock tinha apagado-a assim que a mensagem caiu em sua caixa postal... Aquilo era ridículo e inútil.
I'm standing in water
With the light on my shoulder
The weight of the doubt
Turned me to glass
I'm through living in question
Dreaming the answers
No more paving the present
With pain from my past
And I will let you go
Abaixou a cabeça e sentiu uma ou duas lágrimas rolarem. Era a hora de deixá-lo ir. Se despedir de Abbey Road e de Sherlock Holmes para sempre. Talvez fosse embora de Londres... Poderia aceitar uma carona do Sr. Fitzgerald e ir morar na America... Era uma boa ideia, certo? Não, não era uma boa ideia... Ideia nenhuma sem Sherlock era uma boa ideia.
Molly levantou a cabeça de novo e deixou a proteção da árvore. Pronta para ir embora, sentiu a chuva molhar seu corpo por completo quando se afastou da grande árvore e então sentiu-se congelada... Sentiu uma corrente elétrica diferente quando reparou que um táxi havia parado no meio do trânsito. E exatamente como Molly desejou internamente em silêncio, ele saiu de dentro do táxi. Seu Sherlock Holmes. De casaco e cachecol. Com seus cachos sendo desmanchados pela chuva... Ainda havia alguma chance para eles. Molly nunca desistiria, de qualquer forma.
"Molly?" Ele gritou. Seu coração se acendeu novamente. Se aqueceu com uma rapidez imensa enquanto ela corria para o meio da avenida. O sinal agora estava fechado e Sherlock parou exatamente entre as calçadas, esperando-a em um dos lugares favoritos do casal. O meio exato da avenida Abbey Road. Os dois se encararam por alguns segundos quando se encontraram frente à frente.
Como tinha suportado tanto tempo longe de sua garota? Sherlock não fazia ideia. Mas tudo o que queria era abraçá-la. Protegê-la. Beijá-la. E foi isso que fez. Começou puxando-a para si com vontade e colando seus corpos. Precisava senti-la. Beijou-a logo em seguida. Sentiu seu próprio coração acelerar de forma insana quando seus lábios encontraram os de Molly.
Estava perdidamente apaixonado e o único caminho certo era o caminho que levava até ela. Queria ficar ali para sempre. Se beijaram por pouco tempo — afinal, o sinal abriria à qualquer momento — e então começaram à caminhar na direção de Baker St.
Sherlock tomou a liberdade que não havia tomado antes, agarrou a mão de Molly.
— Eu não sabia se viria. — Ela começou.
— Eu também não sabia. — Ele respondeu simplesmente. — Isso é perigoso, Molly. Você corre perigo se estiver comigo e... E eu queria que estivesse segura. Independente de qualquer coisa... Feliz. Segura.
— Só existe um lugar onde eu posso estar segura e feliz. — Ela parou para encará-lo.
Apesar da escuridão da noite e das gotas de chuva que ainda caiam — agora mais fracas —, Molly ainda conseguia mergulhar nos olhos coloridos de Sherlock. Sentiu-se incrivelmente aliviada em poder fazer isso. Apenas olhá-lo nos olhos por alguns segundos.
— Que lugar é esse, Molly? — Ele perguntou.
Como era inocente... Molly sorriu antes de respondê-lo. Estar com Sherlock era provavelmente o maior prazer que já tinha tido na vida.
— Qualquer lugar. Com você. — Ela respondeu antes de puxá-lo para perto dessa vez e beijá-lo.
Sherlock permitiu-se ser beijado por Molly. Não queria que aquilo acabasse de novo. Não fugiria como um idiota mais uma vez. Ficaria exatamente ali. Ao lado dela.
— Você é louca, sabia? — Ele perguntou com um sorriso enquanto admirava-a.
— Eu sei. — Sorriu de volta para ele. — Só assim para nunca desistir de você, Sherlock...
— Eu agradeço por isso... — Os dois continuaram sua caminhada de mãos dadas. — Mas então... O sotaque...
— Sherlock... Eu nunca tive nada com... — Ele interrompeu-a com um "eu sei". — Eu fui até lá para te ver. Por que amo o seu sotaque. Só o seu.
Ele sorriu. Era maravilhoso ouvir aquilo novamente. Se existia qualquer sensação parecida com "o céu", aquela era essa sensação para Sherlock.
— E eu amo você. — Ele disse, simplesmente. — Só você.
O ar se esvaiu dos pulmões de Molly por alguns segundos. Esse tipo de golpe vindo de Sherlock deveria ser proibido. Ficou em silêncio enquanto caminhavam e paravam na porta do 221B.
— Você vai... Entrar? — Ele perguntou, erguendo uma das sobrancelhas. — Ou melhor, você gostaria de entrar para uma xícara de chá?
— Só uma xícara de chá? — Fez uma careta. — Acho que troco por um banho e a minha cama quente... Mas obrigada pela ofer—
— Gostaria de entrar e ficar para sempre? — Ele perguntou novamente.
— Você... — Ela ficou sem palavras. — Merda Sherlock... Não faça isso!
Ele caiu na gargalhada. Abraçou-a. Ali na porta de seu flat. Não se importava. Estava frio. Ela estava linda. Nada o impediria de fazer exatamente o que seus sentidos mandavam.
— Eu sei que sempre disse que não queria que precipitássemos as coisas e... Você sabe. — Ele pareceu envergonhado. — Mas eu mudei de ideia, Molly. Quero que passe a noite comigo. Uma noite cheia de satisfação...
— Você... — Ela repetiu o mesmo gesto, mas agora seguido de um tapa fraco no ombro do detetive. — Eu também te amo, idiota.
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