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4 Capítulo 4 - Vitamina de abacaxi com chantilly
Notas iniciais
Conversar com o Higgor era definitivamente como falar com uma criança hiperativa.
— NOSSA! Seus desenhos são realmente muito bons! — ele passa a mão pelo cabelo, como sempre fazia com um sorriso animado no rosto — posso tentar também? Não lembro da última vez que desenhei, vou tentar fazer igual!
— Você não lembra nem daonde veio — suspiro — pega essa folha aqui, nem PENSE em tocar no meu caderno — entrego um papel com alguns rabiscos na parte de trás a ele
— Você jogou ele na minha cara, então tecnicamen...
Olhei para sua testa e percebi que estava inchada e vermelha.
— Eu já pedi desculpas! — interrompi, me levantando e revirando os olhos — eu vou ver como eles estão — cruzo os braços — não mecha em nada senão quebro sua cara, ouviu?!
— Pode deixar, gatinha misteriosa — ele ri e começa a desenhar na folha que eu havia dado
"Gatinha misteriosa é o seu c..." — pensei andando até a cozinha
Os dois estavam na mesa tomando a vitamina de abacaxi com chantilly.
Taylon lia seu livro com o canudo na boca e Ephar parecia ter dado apenas um gole, estava entretido com um jogo de moto do celular. Olhei fixamente para as bebidas e encaro os dois com os punhos cerrados.
— Vocês estavam tomando a vitamina e NÃO ME CHAMARAM?! — bati as mãos na mesa, colocando o peso nas mesmas
"Simplesmente NÃO ACREDITO QUE ME DEIXARAM SOZINHA COM AQUELE DEMENTE ESSE TEMPO TODO!"
— Ei! Você fez eu perder! — Ephar reclama cerrando o punho, deixando os músculos do braço bem expostos
— Achei que seria interessante deixar vocês a sós — Taylon ri, me olhando com uma das sombrancelhas levantadas — senti que estavam gostando bastante de conversar, se é que me entende — os dois se entreolham com cara safada
— IDIOTAS! — senti meu rosto borbulhar de tão vermelho
Porque será que não estava esperando por isso? Havia alguns dias que eles não faziam algo pra me irritar. Higgor brota atrás de mim, os dois começam a rir descontroladamente e resolvo respirar fundo, minha raiva andava muito descontrolada ultimamente, a ideia de ter mais alguém no prédio novamente não parecia me agradar muito. Lá no fundo sei que de certa forma gosto quando Taylon e Ephar fazem isso, as risadas das pessoas que mais gosto animam o clima do lugar de uma forma que me deixa realmente feliz por dentro.
— Estão rindo de quê? — Higgor pergunta, confuso
— Nada não — Ephar sorri, vermelho de rir — as vitaminas de vocês estão perto da pia
Pegamos os copos e nos sentamos, fiz questão de sentar do lado contrário da mesa.
— Precisamos explicar algumas coisas a você, Higgor Ciffer — Taylon fecha o livro tomando o restinho da bebida e colocando o copo na mesa — assim como perguntar também, você aceita ajudar?
— Claro — responde ele brincando com o canudo
É impressionante como ele consegue ficar calmo com tudo isso e confiar tão rápido em pessoas que conheceu faz menos de um dia, ou ele é um tremendo retardado ou está apenas fingindo. Taylon havia dito que não conseguiu achar nada em sua memória, será que isso afetou seu cérebro? Se bem que sua aura é estranha, talvez nem seja humano. Talvez seja alguma raça que não conhecemos ou algum feitiço neutralizador escondeu sua identidade ao ponto até mesmo do Taylon não conseguir diagnosticar... Nunca presenciamos nada parecido, agora entendo o fato de quererem observá-lo.
Cruzo os braços e me encosto confortavelmente na cadeira, tomando a vitamina.
"Como sempre, Ephar se superou"
— Então, você sabe o que somos? — Tay pergunta, levantando o dedo indicador e fazendo ele brilhar com uma fumaça roxa saindo dele
— Como assim? — ele parecia começar a ter um pouco de medo daquilo
— Você deve ter percebido que não somos humanos normais, consegue ver o que estou fazendo?
— Essa fumaça? Claro que sim, a cor é forte e... espera, como vocês conseguem fazer esses brilhos e coisas legais com o dedo?
Todos nós nos entreolhamos, demorei um pouco para entender até que finalmente entendi o propósito daquilo: Humanos que nunca tiveram contato com magia ou seres que tenham relação com outras dimensões não são capazes de enxergar aquilo. Tendo como base o fato de que Higgor conseguiu enxergar claramente, já temos uma pista. Se bem que ele já havia me visto naquela hora, tanto que é por esse motivo que ele está aqui... Taylon só queria ter certeza, talvez?
— Depois você vai entender melhor — Taylon sorri de forma simpática e desenha um coração com a fumaça para descontrair — poderia deixar eu checar suas memórias novamente?
— Tudo bem — Higgor não parecia hesitar nem estar nervoso, me deixando desconfortável
"Ou ele atua muito bem ou é um completo retardado."
Tay tocou sua testa como havia feito antes, o poder de ver as memórias de outra pessoa era um feitiço que apenas ele sabia fazer. Mais especificamente falando, uma magia muito avançada para mim aprender no momento. Pelo que percebi em todos esses anos de treinamento, os feitiços mais poderosos e completos são os mais limitados, por exemplo, só se pode usar Memorium se a pessoa a ser examinada permitir.
A testa de Higgor parou de brilhar assim que ele retirou a mão.
— Ele nem mesmo sabe o que são exorcistas, tudo o que havia dito era verdade — Taylon suspira, colocando a luva branca de volta na mão e olhando para nós — a lembrança mais antiga que achei foi acordando em um beco e enxergando Ayles perfeitamente, como se nem ao menos estivesse usando o feitiço de neutralização — ele olha novamente para o garoto — algo grave pode ter acontecido e acabou perdendo suas memórias
Higgor apenas concordava com a cabeça, mas estava na cara que não fazia ideia de nada do que estava acontecendo.
— Mas então... — Ephar cruza os braços — descobriu algo quanto á aura dele? Talvez possa ser um exorcista especializado em alguma área diferente que acabou perdendo a memória, não?
"Até que... faz sentido" — pensei, olhando atentamente para o garoto
Seu cabelo azul continuava bagunçado e as roupas estavam sujas como um mendigo. Apesar de sempre parecer animado, dava para perceber que estava mais cansado do que nunca, as olheiras pareciam maiores do que antes. Odeio admitir, mas mesmo com todo aquele aspecto acabado, Higgor era bonito.
— Não, ele não é exorcista de jeito nenhum — Taylon me olhou tentando não rir e depois voltou á expressão séria — agora vamos nos concentrar. Cheguei a uma certeza até agora: Higgor com certeza não é humano, e se for um metamorfo, com certeza é um chefe de tribo.
— Olha, desculpem mesmo por interromper — pela primeira vez, o garoto parecia sério de verdade — eu não faço ideia do que está acontecendo, de como vocês fazem essas mágicas e muito menos o que são exorcistas, meta-não-sei-o-quê e o porquê de vocês parecerem tão familiarizados com isso... Só sei que algo me diz que não sabia dessas coisas antes de perder a memória e... e...
Higgor fica parado por um segundo e fecha os olhos, caindo rapidamente no sono com a cabeça na mesa. Nós três nos levantamos sem falar nada, a expressão de Taylon nos passava um "depois conversamos sobre isso". E de fato, quando olhei no relógio estava mais tarde do que esperava, todos pareciam exaustos. Dei uma última olhada para trás antes de sair da cozinha e percebi que ele não havia dado nem um gole na vitamina de abacaxi, peguei o copo e coloquei na geladeira.
"Se ele não quiser, eu mesma tomo amanhã"
Volto para o quarto e arrumo os cadernos espalhados pela cama, jogando fora algumas folhas desnecessárias até que encontro um desenho de uma garota de palitinho com longos cabelos, a expressão de raiva estava estampada em seu rosto.
"POR QUE TODOS AMAM ME ZOAR!?"
Amasso o papel e jogo no lixo, como todos os outros rabiscos.
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