Há várias coisas que deves saber.
Uma delas, quiçá a mais importante, diz que não cabe a mim oferecer-lhe as respostas de teu inquérito, tampouco a qualquer um. Peço que não consterne-se, não busco, de tuas indagações, minha diversão.
Busco a razão que já me falta, ou a falta de razão que a todos toma, fazendo com que antigos ensinamentos voltem a tona, cada passagem de cada dia lembrando-me em minha sabedoria precária que tudo que é verdade para sempre se ressalta.
— Senhorita. Garota. Criança. É necessário que eu insista para que você...
— Como disse? — abriu seus olhos, subitamente. O sol de início de tarde mostrou-se violento, ainda represando raios pertencentes ao meio dia, agredindo sua visão; tal como, ela descobriu eventualmente, o desconfortável assento do ônibus agredira vários de seus músculos.
— Última parada, garota. Você precisa descer.
Piscou, aturdida. Os olhos correram por toda a extensão do ônibus, encontrando não mais que três silhuetas mal moldadas, cuja visão lhe era concedida por uma janela deveras embaçada que se encontrava próxima ao posto do motorista.
Com câmeras e bagagens nas mãos alheias, conjecturou que fossem turistas, pela obviedade dos fatos. Surpreendeu-se, então, ao dar-se conta da ambientação em que os turistas encontravam-se.
Alice repudiara Geografia até onde lhe parecia possível desprezar uma matéria escolar, pouco sabia sobre o englobamento de todos os assuntos cujos olhos captavam-se no livro por pouco mais tempo do que ela levava para concentrar-se em rachaduras da parede, que sempre pareceram-lhe mais aptas a receberem sua atenção (se antes o acabamento fora perfeito, como o tempo, maldito era e sempre fora, lhe traíra de tal forma? como, talvez, futuramente trar-lhe-ia a própria ruína?, mesmo seus mais estranhos devaneios não convenciam-na estar delirando, enquanto a mesma recusava-se a cruzar os olhos por uma nova linha).
Entretanto, não precisava encontrar-se no auge de sua avidez no estudo, sequer necessitava de muito mais que o conhecimento básico, para conscientizar-se de que quando saíra do centro comercial de Virginia — em sua resplandecência repleta de prédios e lojas — seu destino, ao adentrar o ônibus, era uma praia repleta de crianças deslizando por sob seus olhos, jovens jogando-se no mar, gritando a cada onda que atacava-os e adultos observando seus filhos — algo ainda mais sublime que o cenário anterior —. Não aguardava, porém, uma praça, intercalada pelo que lhe aparentava um centro comercial seguido de uma série de apartamentos que estendiam-se pelo longínquo campo de visão que Alice possuía.
— Ei! — protestou quando sentiu o par de mãos do motorista arrebatar-lhe do assento em que outrora se sentara, dando-lhe apenas tempo para que defendesse-se de sua própria bolsa, que fora de encontro a seu rosto, antes que a porta do ônibus se fechasse inopinadamente. — Onde eu...
Mas o ônibus se fora.
Há várias coisas que deves aprender.
Perdido, porém, entre o infinito de necessidades imprescindíveis que o universo dita a falta como inconcebível, tu deves exorbitar da busca pela paciência. Não digo ou aconselho que venha a tornar-se alguém de alma fleuma. Mas a vida é bela, não vês? Tudo que tens de fazer é acalmar-te para que admire o sol perto de sua queda, as estrelas que gritam e correm céu acima na mais bela das canções, a beleza efêmera de todo um infinito.
Tudo que tens de fazer, criança, é acalmar-te para que admire um sorriso e uma lágrima, a clemência de um ninguém no meio de quem se denomina alguém, três estória de contos de fadas, ou mesmo a deformidade deplorável e arrastada do reconto de uma.
Momentos depois, Alice ainda não viera a descobrir a exata localidade de onde estava, mas deduzira, pela distância que aquele ônibus disponibilizava-se a ir — sendo um dos poucos, presumira antes de embarcar no mesmo, enquanto lia sem realmente ler todas as localidades em que ele viria a se deslocar, que aventuravam-se tão longe — supôs estar em alguma região entre Maryland e Delaware, apenas pois descera, ao que o homem falara, na última parada, e o ônibus não poderia ter ido muito mais longe.
Avistava uma série de pessoas caminhando, sozinhas ou em grupo, mas disse a si mesma que não deveria ir. Um dia Alice possuíra dez anos, agora possuía dezessete, em futuras décadas haveria cinquenta luas por ela cruzadas, e ela poderia afirmar para si mesma que sua incapacidade em falar com alguém — por achar ser muito inconveniente — sempre prevaleceria.
— Atrasado. Oh, Deus, estou atrasado. Atrasado, atrasado, atrasado.
Piscou uma, duas, três vezes, até que seu cérebro aceita-se a informação de que havia, de fato, um garotinho de cabelos tão loiros que quase brancos, correndo rua abaixo — diretamente na direção em que ela encontrava-se —, olhando um relógio de pulso com a mesma frequência que se observa uma bomba minutos antes dela explodir.
Sua dificuldade em falar com crianças sempre fora menor, por julgá-las menos sérias e centradas, permitiu-se suspirar por um segundo.
— Garoto! Ei, você, garoto! — puxou-lhe o braço, esperando que o menino de cabelos brancos pusesse um limite na própria corrida e cedesse-lhe atenção, entretanto, decepcionou-se horrendamente, pois o mesmo desvencilhou-se, mantendo sua marcha de passadas rítmicas e contínuas.
Torvada, Alice obrigou-se a levantar-se, ignorando — até onde lhe era cabível — a dor exagerada em certas partes do corpo, resultantes do cochilo inoportuno do ônibus, pondo-se a seguir o garoto.
Há coisas que deves recordar.
Certamente, lembra-te da resolução de dois mais dois. É provável que tu ainda lembres que não deves falar com estranhos — entretanto conversas comigo, presumo que não obedeças a ordens com frequência —. E há a possibilidade de que tu lembres que oito vezes oito resulta em sessenta e quatro.
Te recorde, criança, acima de qualquer coisa, que não deves embalar-te em uma corrida em busca daquilo que te procura. Quem quer ser achado, deve ficar deveras parado.
Eventualmente, encontrou-se perdida.
Não sabia para onde o garoto de cabelos brancos correra, ou de onde viera durante seu desespero — desprovido de uma explicação — de alcançá-lo. Tudo que sabia é que encontrava-se confusa, cercada por quatro ruas cujo pouco conhecimento da cidade não lhes permitia saber qual delas seguir.
De um estabelecimento com a placa Fechado, aparentemente um restaures, Alice não precisou de muito para realizar a existência de uma série de sons repetitivos de vidro espatifando-se, — talvez vidro, talvez porcelana, sempre acabando por quebrar-se de um modo que ela não saberia dizer qual; assiduamente —, espirros e lamentos. Olhou ao seu redor, buscando pessoas que demonstravam ter ouvido o som, e delatou que todos o faziam, então encolhiam-se e passavam a correr, fugindo da culpa de nada fazer.
Bateu na porta, repetitivamente, ruidosamente.
— Não vão ouvir. — um homem que passava virou-se e afirmou. Ela supôs que fosse um carteiro, e perguntou-se se em toda a vida já houvera visto um. — O barulho, digo. E é terrível, um saco, todo dia, ou quase isso, sempre assim. Não vão conseguir escutar você.
— Eu preciso entrar.
— Faria sentido que batesse, — continuou o carteiro sem prestar atenção a ela, — se nós tivéssemos a porta entre nós. Por exemplo, se você estivesse dentro, você bateria, e eu poderia deixa-la sair. — Ele olhava para cima todo o tempo que falava. — Mas a mulher daí? ‘Nhá. Ela é louca, veja bem. Absolutamente maluca.
— Eu realmente preciso entrar.
— Então espere aqui, espere toda essa barulheira cessar, eles vão lhe escutar quando tudo estiver mais calmo. De qualquer forma, o restaurante está fechado, menina. O que você quer aí dentro? Só espere.
— Eu não posso esperar! — alegou, cruzando os braços. Sequer sabia o motivo, mas talvez ela não fosse realmente alguém paciente; teimosa, também, e quando queria algo, tal ela conseguia.
— É evidente que todos nós podemos. — sorriu, pôs a carta sob o tapete e se foi.
Sem razão aparente, enfurecida pela conversa anterior e movida por nada mais que o instinto do pensamento de que alguém estava sendo violentado ou agredido naquela casa, abriu a porta, esgueirando-se para dentro furtivamente, seguindo na direção dos ruídos — a cozinha —.
No momento em que abrira a porta, entretanto, um prato repleto de flores vermelhas e negras voou em sua direção, acertando a parede a poucos centímetros de seu rosto.
Alice poderia ter gritado, mas impediu-se, dizendo a si mesma que quem quer que fosse — ela viria a notar ser uma mulher — já gritava por todas as atenções da rua suficientemente — sem sua ajuda.
Inspirou, observando a senhora que atirava pratos arduamente para todas as direções enquanto esforçava-se para fazer um alimento — alimento esse que ela não encontrou-se capaz de denominar —. Notou, então, a presença de uma criança — talvez duas luas desde o nascimento — sendo embalada por outra mulher, e um garoto recostado no batente fora de alcance dos pratos violados pela senhora.
— Eu...
— A sopa está pronta! — anunciou a Cozinheira, distribuindo os pratos a todos ali. A mulher de roupas vermelhas, Alice notou por sua expressão, já estaria com um telefone em mãos caso não estivesse cuidado da criança no momento. O garoto olhava a mesma como se sua fúria necessitadamente contida o fizesse regozijar-se. — Sopa! — repetiu. — Espero que gostem, vejam bem, pois meu marido sempre odiava. Aquele tolo, estúpido, crápula. Sempre odiou minha comida, essa é a verdade! Pergunto-me se foi por isso que ele me traiu com aquela— e mais um prato foi ao chão.
Alice — assustada demais com a possibilidade de acabar por ser presa para considerar correr porta afora — ousou experimentar o alimento, apenas como uma forma de correr os olhos para longe dos da mulher. “Pimenta”foi tudo em que conseguiu pensar.
Alice pôs-se a tossir, sendo acompanhada pela criança — que recebera parte do alimento pelas mãos da cozinheira — e pela mulher de vestido vermelho. Ao recompor-se alegou cansaço, e recolhendo suas roupas adjurou— Alice supôs — que iria jogar xadrez com a prefeita.
Enquanto deixava o local, olhou para a cozinheira e então para a criança que desabava-se em lágrimas, como que pedindo que ela cuidasse do menino.
A Cozinheira — que não tossira ou sequer aparentara desconforto — encarou o bebê, que chorava hediondamente, e aparentando uma irritação ainda pior que a de outrora, retirou-se da cozinha e lançou-se escada acima, ainda murmurando:
— Um estúpido, isso que era! Minha comida nunca foi tão ruim!
Horrorizada, Alice aproximou-se da manta em que a criança estava, mesmo que com sua garganta ainda ardendo e os músculos ainda desconfortáveis e tensos. Suspirou, tomando a pequena pessoa nos braços e tentando — a criança — apaziguar. Surpreendeu-se, porém, quando o garotinho foi retirado de seus braços, e correu os olhos mais acima apenas para ver o garoto que estivera no balcão. Pensou em irritar-se, conclamar que ele devolvesse o menino para si, mas não possuía tal direito.
— A Cozinheira... Bem, ela... — interrompeu-se ao ter consciência de que as sobrancelhas negras do rapaz erguiam-se cada vez mais, encarando-a de modo libertino, como se soubesse o que ela estava prestes a falar. Irritou-se. — Onde... — oh, pare com isso! — Você sabe onde eu posso pegar um ônibus aqui? Para Virginia.
— Isso depende muito de para onde quer ir.
— Virginia — atordoou-se — Já disse.
— E para qual lugar de Virginia deseja ir?
— Não me importa muito.
— Então não importa em qual ônibus você vá. — ele sorriu. Alice encarou-o, irritada, sabendo que ele apenas fazia aquilo para irritá-la.
—... Desde que eu chegue a algum lugar. — completou.
— Você certamente vai chegar a algum lugar — retrucou com obviedade.
— Não pode me responder? Fala sério, o que você ganha com esses jogos idiotas? Está me deixando louca.
— Oh, isso você não pode evitar — disse, e Alice simplesmente pensou que o sorriso dele era a coisa mais reverbera e estranha que vira em toda a vida — Todos somos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca.
— Ah, qual é! — permitiu-se desavir — Você não pode saber se eu sou louca ou não.
— Você deve ser, — afirmou — ou não estaria aqui.
—Aqui? Você quer dizer Maryland.
— Você nem sequer está em Maryland — ele, Alice notou, precisou se esforçar de modo acerbo para não acabar em gargalhadas — Isto é Delaware.
— Que seja — envergonhou-se. — O que é aqui?
— Todo lugar.
— Nem todos são loucos, você sabe. Não pode simplesmente me dizer onde consigo um ônibus sem insinuar que todas as pessoas são loucas? Não pode saber, não conhece todo mundo, e me conhece tão bem quanto conheço você.
— Meu nome é Alexandre Cheshire. —sorriu — Mente, garota. Sabe mais sobre mim do que sei sobre você.
Alice sentia-se realmente tentada a esbofetear-lhe até que ele calasse a boca, e talvez o fizesse, se ele não houvesse sorrido uma última vez — os olhos azuis, sob os cabelos negros de tão negros quase azuis, riam incessantemente dela — e, ainda com a criança embalada nos braços, pôs-se a subir a escada, recuando sem realmente olhar para onde ia — seu sorriso fora a última coisa que Alice pudera ver antes que ele chegasse ao andar superior.
Há coisas que deves guardar.
Liberdade é algo que a todos caça. Deves guardar o que bem entender, eu não chegarei a desavir de tal noção, não a pregarei incorreta, porém tuas escolhas podem não serem assim tão certas. Talvez tu mantenhas contigo dinheiro, talvez um livro velho ou resquícios de um caderno, talvez lembranças, talvez tudo, talvez nada.
Mas lembre-se de manter o nada do tudo a cada momento constante; de um bom dia de fim de rua, que sequer foi direcionado para você, o monstro que perecera debaixo de sua cama. Tu deves se lembrar de tudo, mesmo de respostas inúteis de indagações não fúteis.
Qual a semelhança de um corvo com uma escrivaninha?
Quando Alice entrou em uma pequena cafeteria — que na verdade, ela notou, vendia uma variação de bebidas — nunca fora sua intenção primária achar três garotos na mesa que, ela observou, era a maior do local, tampouco que eles estivessem rindo em uma altura pouco suportável e menos ainda que ela precisasse se sentar ali após fazer o pedido, uma vez que todos os outros assentos estavam ocupados.
— Não temos espaço — disseram todos — A mesa está ocupada.
— Há espaço suficiente — alegou, irritada o suficiente para não cogitar começar uma nova discussão. — E não é muito correto da parte de vocês ocuparem tanto espaço sem precisarem dele — acrescentou, em diversão.
— E não foi correto ou educado de sua parte sentar-se sem ser convidada. — retrucou um dos garotos.
— Não havia outra forma de tomar o café!
— Nada lhe impediria de tomá-lo em pé. Até onde eu...
— Qual a diferença entre um corvo e uma escrivaninha? — arguiu o garoto mais afastado, não parecendo, pela falta de expressão ou foco no olhar, realmente referir-se a alguém.
Os outros dois olharam-na, e Alice demorou mais do que deveria para conscientizar-se de que a pergunta era para ela.
— Bom — sem realmente saber o motivo, vasculhou suas memórias sobre tudo que sabia sobre ambas as coisas e todas as adivinhas que, em vida, já houvera presenciado a menção, entretanto não achou resposta, então preferiu manter-se calada. — Hm. — Nenhum dos três, entretanto, demonstrava lembrar de que ela encontrava-se ali.
— Prenderam aquele cara.
— Que cara?
— O que traficava perto da escola. Ele tinha uns remédios, aquele do pote amarelo, o que deixava o Jared acordado — gesticulou para um garoto que tinha os braços cruzados sobre a mesa e a cabeça pendendo por entre eles, sendo escondida pelas mangas da camisa e os próprios cachos loiros do cabelo.
— Isso é um problema.
— Definitivamente é.
Com o silêncio, o último dos garotos pareceu desalento, os cabelos ruivos embaralhando-se no rosto na medida em que balançava a cabeça, alheio, como se preso em uma linha de raciocínio que aparentava consterná-lo.
— Qual a diferença entre um corvo e uma escrivaninha? — repetiu.
— Não sei. —Alice finalmente respondeu, terminando a bebida — Desisto, não sei. Qual é?
— Não faço a mínima ideia.
— E nem eu — acrescentou o garoto que ela falara pouco tempo antes.
Nada respondeu, pondo-se a andar logo em seguida. Na porta do estabelecimento, voltou seu olhar para a grande mesa do lado esquerdo, esperando que algum deles houvesse acompanhado-a ao menos com o olhar, mas tudo que viu foi os dois garotos, rindo, enquanto tentavam acordar o loiro que ainda dormia.
Há coisas com as quais tu deves se importar.
Durante toda uma vida, desde as milenares até as que mantiveram-se por uma década ou pouco mais, irás ignorar fatores aparentemente essenciais e sobre o pedestal colocar coisas que podem parecer tão relevantes — e podem ser ou não ser, tudo depende de você — e no final foram gota d’água correndo sobre oceano. É necessário que veja tudo, pois possibilidades são eternas, mas não tão infinito é teu tempo para decidir-se se as deseja contigo ou não.
Não deves se importar mais com números de loteria que com um pedido de centavos de alguém que necessita. Não deve impor aquele que ganhou a loteria como superior a si. Pois no final das contas, podes ignorar fatores aparentemente essenciais e sobre o pedestal colocar coisas que podem parecer tão relevantes, mas se qualquer uma delas fosse realmente relevante, relevantes seriam todas.
Quando Alice viu a mulher de vestido vermelho ser interceptada por dois policiais — quando aconteceu, estava correndo os olhos por todos os avisos em um pequeno mural eletrônico, buscando qualquer coisa ligada a um novo ônibus ou a volta do que primeiramente a trouxera — não pode evitar sua curiosidade.
Entretanto, o motivo da de outrora começou a desfazer-se em sua mente quando um novo manifestou-se.
— Preste atenção, Torre. Não me empurre do meu lugar — ralhou um senhor.
Alice pensou que fosse um servente, devido as suas roupas. E então passou os olhos por todo o loca, ainda da enorme janela, e notou uma série de silhuetas em formação. Cada uma em um ladrilho, ela contou trinta e duas pessoas ao todo.
— Não posso evitar! —defendeu-se — O bispo está esbarrando em mim toda hora!
— Isso, culpe-me por todos os seus problemas.
— É melhor não inventar coisas, ouvi dizer que...
Quando o olhar de um deles caiu sobre Alice, seguiu-se assim, como em um dominó, a repetição entre todos os componentes do tabuleiro, alguns mesmo curvaram-se, e todos os olhares, por fim, fixaram-se nela.
— Por que — começou incerta — vocês não se movem?
Ouve um silêncio mútuo, onde todas as trinta e duas pessoas do grande salão trocaram olhares entre si, em confusão genuína.
— Bom, recebemos dinheiro para isso — respondeu uma mulher, por fim. — E é bastante complicado, se quiser saber. Quase não consegui me oferecer para o papel de Dama, muitas pessoas queriam. Você sabe, ‘uns problemas financeiros ‘aí. Tudo bastante complicado, complicado demais.
Alice torceu os lábios, novamente torvada, sem nada entender, até que ouviu o repetido som de uma buzina, sobrepondo mesmo todo o trânsito da cidade, e virou-se a ponto de ver uma mulher saindo, sendo escoltada por dois outros — aparentes — servos. Esgueirou-se pelo pilar, saindo do caminho de quem conjecturou ser a prefeita, e de todas as pessoas que a seguiam.
Quando já estavam todos amontoados no salão, Alice pareceu, finalmente, ser notada. A mulher posta no centro encarou-a, em uma surpresa que mais parecia irritação.
— Quem é ela? — perguntou, e ninguém pareceu disposto a partilhar a informação. — Como é seu nome? — virou-se para a menina, em fúria contida, ao notar que não conseguiria resposta.
— Alice — respondeu em hesitação, suficientemente baixo para que a mulher precisasse se esforçar para escutar.
— E quem são esses, Alice? — apontou para um grupo de pessoas que Alice não notara ou, pelo menos, se importara em notar. A mulher deveria pensar que ela os conhecia, talvez eles não aparecessem ali com frequência, mas aquilo pouco importava.
— Bem, como posso saber? Não é da minha conta — as palavras, resultadas de todo seu cansaço e fadiga, jorraram de sua boca antes que ela pudesse mudá-las.
A Prefeita tornou-se o que ela pensou ser a exata personificação da raiva, com o rosto em brasas vermelhas e os olhos resguardando tamanho ódio que quase a assustou.
— Quero-a presa! Sob um julgamento! Desacato à autoridade, esse é seu crime, ela...
— Ei! — protestou da janela, incapaz consigo mesma de ver aquela mulher como uma autoridade. Que absurdo, pensou.
— Senhora. — interrompeu um homem desconhecido pela menina — Não acha melhor repensar? É uma criança. Sequer sei sua idade, sequer sei se ela pode ser presa. É uma criança, já disse.
Depois de uma série de problemas criados pela mulher — onde ela deixou claro sua necessidade de mostrar-se superior a cada quero todos presos, sempre amenizados pelo homem, ela voltou-se, novamente, para Alice.
— Sabe jogar Xadrez, menina?
— Sei — ela disse, as suas sobrancelhas erguendo-se.
— Então se prepare. Você está com as peças brancas.
Entrou no salão, firmando-se do lado das peças brancas enquanto finalmente entendia que aquilo era um tabuleiro de xadrez, em tamanho — e peças — real. Horrorizou-se, novamente, perguntando-se que tipo de pessoa governava aquelas cidades.
— Tudo muito estranho — murmurou.
— Sempre é, ‘né? Mas o dia está bonito.
Virou-se, notando o menino de cabelos brancos do seu lado, olhando por sobre seu ombro, em direção a janela em que ela estivera anteriormente.
— Muito. — piscou — Onde está a mulher de vestido vermelho? — sentiu-se estúpida pela pergunta, sabendo que muito provavelmente o menino não sabia de quem se tratava, mas ele apenas olhou em volta, alarmando-se, parecendo menos temerário que anteriormente.
— Se preparando para o tribunal — explicou-lhe, baixo.
— Mas por quê?
— Denunciou um arrombamento, e no final não tinha ninguém lá. Depois deixou a filha da prefeita esperando, e agora, bem, você já sabe.
— Filha da prefeita? — arguiu — Ah, ela não vem?
— Como disse? — pareceu achar graça — Ela ordenou que você fosse presa momentos atrás. — e fez um barulho com a boca, como crianças fazem ao tentar imitar um avião.
Ignorando a onomatopeia inoportuna, ela respondeu:
—Achei que ela fosse a Prefeita.
O garoto represou uma risada, normalmente deslizando os olhos salão acima e abaixo, certificando-se de que ninguém a ouvia.
— Aposto que ela queria. — ela não viu, mas ele deslizou o relógio pelo pulso e arremessou em sua bolsa, porque ele achou ela deveria saber as horas, ela deveria saber de tudo.
Quando o jogo começou, porém, Alice encontrou a si mesma como uma pessoa de pouca firmeza em voz. Sempre que sua vez de jogar pelas peças claras chegava, demorava eternidades sólidas para finalmente enviá-las até algum ladrilho, por vezes perdendo-se no tabuleiro e recontando todas as cerâmicas novamente.
Notou, com certa apreensão, que sua equipe diminuía juntamente com as peças de cor clara. Temeu ser presa caso chegasse a um embate contra a filha da Prefeita, pois a mesma parecia procurar deliberadamente motivos para enjaular toda uma população.
— Como está se saindo?
Alice, pela segunda vez no dia, supriu a vontade de deixar um grito sair de sua boca. Voltou-se para a pessoa atrás de si, apenas para encarar, novamente, o sorriso hodiernamente branco que lhe cumprimentava mais uma vez.
— Não vejo o que há de positivo em jogar com pessoas no lugar de peças — explicou, mesmo que essa não tenha sido a verdadeira resposta para a indagação do outro. — É terrível, bárbaro e...
— A filha da Prefeita, caso não tenha notado, é louca — e sorriu com sua afirmação, claramente referindo-se a antiga conversa de ambos — Não concorda?
— Acho-a mentalmente instável — contrariou, apenas para não concordar com o outro – Alexandre, não era? –.
— Com quem está falando, garota? — Interrompeu a antes mencionada, fazendo com que Alice se tornasse tensa e subitamente consciente de todas as dores musculares de outrora.
— Um amigo — mentiu — Seu nome é Alexandre, senhora.
— Não costumo ter esse tipo de... Pessoa aqui. — refletiu — Mas se achar que o convém, pode beijar minha mão.
— Devo admitir que não julgue isso uma boa ideia — disse.
— Respeito! —conclamou — Prendam-no até que seja julgado.
Sorrindo, o garoto deslizou para dentro da multidão. E quando a polícia chegara em sua busca já não havia garoto para interceptar.
— Onde ele está? — exigiu a filha da Prefeita — Para onde ele foi?
— A mulher de vestido vermelho o conhece. Acho que é a mãe dele. Não acha que deveria chamá-la?
— Ela está aguardando o julgamento. — respondeu, recebendo apenas um olhar calmo da loira em resposta — Tragam-me Elizabeth! — ordenou.
Enquanto a polícia mantinha-se procurando por um garoto que esvaia-se pelos ventos, todos confusos e irritados, não notaram o sutil franzir de sobrancelhas de Alice, que não viu muito mais que — novamente — os olhos azuis e sorriso do garoto antes que ele desaparecesse de sua visão por completo.
Há coisas que deves fazer.
Uma delas, acredite se lhe apetecer, é cozinhar. Ingredientes certos, eu imploro, pois quando partir em uma visita a ti não desejo ser surpreendida por pratos que não vieram de tuas mãos ou feitos de incúria pouco desejosa. /Quando tu fores adulta, não queira nenhuma pimenta em tua cozinha. A sopa é muito boa sem, e talvez seja sempre a pimenta que torna as pessoas com um temperamento tão quente.
E vinagre que os torna azedos, e camomila que os torna amargos, açúcar de cevada e coisas que fazem as crianças docemente humoradas. Deseje que todos saibam disso. Talvez, criança, assim não fossem tão mesquinhos. /¹
O jogo eventualmente tivera seu fim — Alice agradecera tanto quando lhe coube tal possibilidade, já não aguentava ver pessoas agindo como peças, gritando para que o Rei se movesse até a E5.
Ela, novamente, estava prestes a voltar para o quadro de avisos há alguns edifícios dali, mas descobriu-se impedida quando, assim que chegou lá, teve uma visão do que, ela supôs, ser a delegacia e o tribunal. Esperou achar uma série de pessoas prestes a serem presas, mas tudo que viu foi uma dúzia de pessoas — que ela jurou com tudo que tinha já ter visto os rostos em um noticiário, o que a faz concluir que a filha da Prefeita não possuía a autoridade que julgava possuir.
Bom, claramente que não. Alice não era estúpida, e sabia que não seria possível manter um mandato com uma filha mandando toda a cidade para a delegacia por crimes que não foram de fato hediondos — que sequer foram crimes —. A garota parecia fora de si, e Alice não esperava, realmente, que suas ordens fossem feitas a risca.
Sentou em um pequeno banco do lado de fora do tribunal, ainda passando os olhos por todos os avisos que falavam sobre transporte — procurava taxis que passavam pela rua, mas não pode achar algum que já não levasse um passageiro.
Durante longos momentos estivera absorta em pensamentos repletos de consternação, buscando algum ônibus — que fosse até Virginia — ou taxis desocupados, logo, por medidas irrisórias, Alice poderia não ter notado que o ruivo das adivinhas correra para fora do tribunal, mantendo-se abaixado ao lado do banco — porém notou.
A polícia não viera atrás dele, mas a loira esperou alguns momentos para firmar a certeza de que não viriam, até virar-se para ele.
— O que está fazendo?
— Me chamaram como testemunha. Gostaram de mim tanto quanto o Tempo.
— E você simplesmente saiu correndo?
— Não gostaram de meu testemunho — e o menino sorriu, do mesmo modo que todos que ela conhecia sorriam após algo errado ou mesmo infantil. Ela presumiu que ele houvesse sido inconveniente, ou feito piadas que não pudessem ser apreciadas nem pelo mais infame comediante.
— E o que quer dizer com o tempo?
— Ele não gosta de mim, e eles não gostam dEle.
Alguns momentos depois, em um silêncio estranho por parte da menina, que optou nada dizer, o Chapeleiro riu, riu de modo audível, quase que exagerado. Alice virou-se para ele, sem entender.
— O que há de comum entre um corvo e uma escrivaninha? — ele repetiu, o sorriso jamais perecendo nos lábios. Sem entender, os olhos da menina seguiram o lugar para onde os dele olhavam, pela primeira vez parecendo realmente ver.
E ela viu um ônibus.
“Delaware — Virginia”, ele dizia.
— Eu não faço ideia — sorriu, então correu.
Há várias coisas que deves saber.
Outra delas, também de elevada importância, é que somos todos loucos. Uns mais que outros. E eu tenho toda a consciência de sete vidas que sou uma desatinada, não possuo sanidade e sei nada de tudo que sei. O ônibus foi na direção errada, mas isso não mudou tudo, o que tudo muda é a vida e os ônibus quebrados e pequenos cochilos no metrô.
Há várias coisas que deves saber — uma delas, é que não há pré-dito, criança, então desvie teu olhar tão belo da janela, pois a luz que procuras vêm da porta.
— Senhorita. Menina. Acorda!
— O que? — sonolenta, despertou.
— Chegamos garota, levanta. Preciso pedir que saia.
Arregalando os olhos, Alice pulou, assustada com a possibilidade de acabar por retornar a um lugar que não era seu destino, mas tudo que viu foi a praia — e as crianças, e os jovens, os gritos, oh, a praia —. Piscou.
— Achei que esse ônibus levasse ao centro de Virginia.
— Como? Não. Nós saímos do centro de Virginia.
Horrorizada, Alice só conseguiu tentar formular frases que nunca fariam sentido, tendo a bolsa posta nos braços enquanto era empurrada pela porta — por um momento, jurou por sua vida e ainda mais, que vira um relógio cair pelas laterais da bolsa marrom, sendo abandonado no piso do móvel em que ela não mais iria entrar —. Andou sete passos, e mais nada.
Qual a semelhança de um corvo com uma escrivaninha?

