45%
28 Você não é o homem da relação?
Peguei as minhas coisas, e caminhei em direção a sala de aula, assim como todos nós. Para mim, Evans e 45%, aquela caminhada silenciosa em direção a nossa classe era uma marcha para o maior discurso das nossas vidas.
Todos entraram nas salas, se sentaram em seus lugares. O loiro beijou a minha testa e foi para a primeira fileira, Bruni assentiu e o seguiu. Eu tinha de ser o homem agora?
Olhei para a professora, assim que ela viu que eu tinha de ficar em pé, abaixou a cabeça e se sentou. Fui para a frente da classe. Todos, que antes conversavam, se sentaram retos na cadeira olhando para frente.
Engoli seco. Preparei as palavras, a minha boca se abriu, mas não consegui dizer nada.
Virei-me para Evans e ele assentiu.
—Eu não acho que consiga falar isso. – fiz que não com a cabeça.
—Você não é o homem da relação? – ele sorriu.
Fiz que não com a cabeça novamente.
Meus olhos se encheram de água. Respirei fundo, limpei meus olhos. Apertei as minhas mãos, as abaixei e as segurei em minhas costas.
—A despedida do Evans vai ser no telhado, amanhã as seis. – suspirei.
A coisa mais estranha do mundo aconteceu. Nunca, antes, dentro dos cinco anos que estava no hospital aconteceu aquilo.
A palavra “despedida” ecoou em minha cabeça, me fazendo lacrimejar, mas isso não era tudo. Não queria começar a chorar, então segurei meu rosto com a minha mão. Assim que abaixei a cabeça, notei pessoas se movendo no fundo da sala.
Cada pessoa de cada fileira, de forma organizada se levantou veio a minha frente, encostou a mão em meu ombro e foi abraçar o loiro. Em dez minutos, toda a nossa classe o rodeava em um abraço grupal gigante.
Foi a coisa mais linda que eu já vi em toda a minha vida.
Fui ao final e abracei o grupo, seguida da professora. Então todos nós nos sentamos e a aula começou.
Como se nada tivesse acontecido, as pessoas que costumavam conversar, conversaram, as pessoas que prestavam atenção na aula, prestaram, as que desenhavam, que dormiam, tudo seguiu o seu curso.
O mundo girava novamente, da mesma forma. Tudo estava em seu curso e aquilo me deu um aperto no peito desesperador.
Queria voltar lá na frente, gritar para todo mundo parar e: “Meu Deus, o Evans está morrendo!”. A cada segundo que a professora ensinava alguma matéria ridícula de história, escrevendo coisas inúteis no quadro, se passava um segundo a menos em sua contagem regressiva.
Bruni segurou a minha mão e a apertou.
—Você está tendo outro ataque de pânico. – ela sussurrou em meu ouvido.
—Não estou!
No momento em que disse, não sabia que estava gritando, mas a classe parou e me encarou.
Isso não poderia estar pior.
Minhas mãos, suadas, começaram a me incomodar, como se agora, a vazão aumentasse. Minha nuca estava molhada. Minha respiração começou a ofegar, meu ar estava sumindo, mas não da forma usual com a falta de respiração natural que me atacava. A sala parecia estar menor e menor, os olhos das pessoas me esquentavam.
—Está tudo bem, Violet? Você está pálida. – a professora se ajoelhou bem a minha frente.
Fiquei olhando para todos os lados, para todas as pessoas, seus olhos me julgavam.
O que eu tinha feito de errado?
Sim! Eu estava roubando o momento dele. O momento de Evans.
—Eu estou tendo uma crise de pânico? – olhei fundo nos olhos de 45%, meio assustada.
—Sim. – ela assentiu, apertando ainda mais as minhas mãos – Você quer sair?
Assenti.
Bruni fez alguns sinais para o loiro. Segurando a minha mão, ela me levantou e eu me agarrei em seu braço ao me levantar. Ela colocou a mão em minha cintura e caminhou comigo e com Hazel até a saída, então ela suspirou, olhou para os quartos e para o elevador.
Em poucos segundos, estávamos ao telhado. Ela me entregou cigarros e isqueiro vindos do seu bolso, então se sentou escorada na parede.
Me sentei ao seu lado e acendi o cigarro, traguei profundamente.
O calor que me dava a vontade de fugir, foi saindo junto com a brisa provinda da fumaça.
—Porque essas coisas te assustam, Violet? – 45% colocou sua cabeça em meu ombro.
—Que tipo de coisas?
—Até agora, todas as vezes que te vi ter crises de pânico são pela remota lembrança da sua vida, de que você ainda tem muito tempo nesse mundo. – sua mão abraçou o meu o meu braço.
—Eu não quero viver. – a observei, esquecendo completamente do meu cigarro ou do meu ataque.
Esse era o tipo de conversa que nunca tivemos. Ela não estava preparada para lidar comigo, com a minha proximidade do suicídio, ela não conhecia a história. Isso era aterrorizante.
Quando Evans fosse, não haveria ninguém para cuidar de mim. Ninguém que entenderia.
No fundo, esse era o meu maior medo de perdê-lo. Perder o apoio que eu tinha da única pessoa viva que conhecia meu passado, que não me julgava a respeito e sabia lidar comigo. Não me levem a mal, ele era o meu amigo e eu o amava, mas nem tudo se relacionava a isso.
—Isso é irônico. – ela bufou.
—Não era essa a reação que eu esperava. – voltei ao meu cigarro.
—O que você quer? Que eu pergunte o por quê? Que eu investigue? – ela saiu do seu aconchego e ficou me observando, com os olhos irritados.
—Eu não sei!
—Você não é como nós. Você é estranha, diferente, quebrada. Eu não sei o porquê e duvido muito que vá querer me contar, perguntar irrita e não ajuda. Você quer morrer, vai. Uma coisa da qual eu tenho muita certeza sua, é que você é a merda de um cachorrinho assustado, não vai simplesmente pular desse telhado e acabar com essa história toda de uma vez. Vai esperar a sua doença não fatal agonizar o seu caminho até o final. Eu conto com isso. De que adianta eu seguir seus códigos de conduta quando tudo que você precisa é de alguém que ignore o seu livro de regras?
Seus olhos acompanhavam a sua mão, em sua frente, fazendo gestos. Ela realmente acreditava no que falava. Fiquei compenetrada em suas ações e menos no que tudo aquilo significava.
Parei e pensei, tinha de realmente ouvir o que ela dizia.
Bruni, como na maioria das vezes, tinha razão.
Odiava aquilo naquela garota! Todas as vezes que ela agia por sentimento, acabava tendo umas conclusões bizarras e sem sentido, mas quando raciocinava, suas palavras eram tão lógicas que pareciam ter saído de pequenas equações matemáticas.
—Você tem razão, não faça as perguntas. Talvez eu seja o seu filhotinho assustado procurando um colo. – traguei.
45% suspirou. Ela achava realmente entediante quando eu resolvia não entrar em uma discussão. Infelizmente, não tinha nada a se discutir ali.
—Como Evans descobriu? – ela voltou para um abraço unilateral.
—O que?
—O mistério das suas tendências suicidas.
—Ele juntou tudo, é um bom detetive, ama um quebra-cabeça. – ironizei a verdade.
—Quais são as peças que eu tenho? – ela se sentou em minha frente e tomou o cigarro da minha mão.
—Eu não falo sobre a minha família e você ouviu aquela conversa estranha. Quando sair daqui vou morar com a mãe do meu falecido colega de quarto. Tudo que eu toco, morre. Sofro de uma doença não fatal e estou presa dentro deste hospital. – pausei, olhei fundo em seus olhos, ela estava montando uma espécie de lista em sua cabeça.
—É tudo isso que eu sei?
—É tudo isso que você sabe? – devolvi a pergunta.
Bruni ergueu uma sobrancelha, com um olhar pensativo.
—O que o seu pai fez de tão errado que te trancaram aqui? – depois juntou as duas, em um olhar muito irritado.
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