45%

21 Violet, chame a enfermeira


Peguei o elevador e desci até o nosso andar. Tentava de todas as maneiras possíveis não pensar em todas aquelas palavras que tinham sido bombardeadas a mim, atingindo e destruindo seu alvo. Olhava para o teto, para o chão, mas nada tirava 45% da minha cabeça, exatamente da mesma forma que nada nunca antes havia o feito.

Segui para o quarto de Abby. Sua companheira de cama a abraçou, então, ela, com sua camisa de malha e um short largado, veio em direção aos meus braços. Amanhã era o dia e, agora, quem tinha medo era eu.

Seus olhos, sua boca, seu cheiro... Tudo acabaria.

De mãos dadas, chegamos ao meu quarto. Evans já se deitava e nos olhou com compreensão. A deixei sentada em minha cama, guardei meus cigarros no criado-mudo e entrei no banheiro para colocar meu pijama de gatinhos. Quando saí do mesmo, ela sorriu.

Deitei-me quieta, calma e ela se deitou ao meu lado, com a cabeça em meu peito. A cobri, com cuidado, e ela abraçou a minha cintura, passei meus braços sobre ela, a reconfortando. Nossos pés se entrelaçaram e ela suspirou.

A enfermeira chegou e juntou as sobrancelhas para o nosso abraço ilegal. A verdade é que mesmo que violássemos as regras, ela não faria nada, entenderia tudo. Ligou a dialise do loiro e foi embora. Liguei-me a minha máquina de dormir e as luzes se apagaram. Ele se envolveu em sua coberta e ficou parado, virado para o teto.

Em pouco, Abby começou a se decair em sono e acabou dormindo rapidamente, mas não eu. Queria observar seus suspiros, qualquer um poderia ser o último. Cada vez que seus falhos pulmões se enchiam de ar, eu bradava de felicidade.

Acariciei seu cabelo, cheirando as pontas que caiam em meu rosto, queria que ela ficasse em minha memória. Não consegui conter as lágrimas, que rolaram tímidas em meu rosto.

Bastou muito tempo até que o sono me pegasse, mesmo que metade do meu corpo já estivesse dormindo pelo peso de um corpo futuramente morto.

No mundo dos sonhos, fui acometida por lembranças de Bruni e de nossos momentos felizes. Essa garota me levaria à loucura com toda essa bagunça de sentimentos.

Acordei com o sinal. Estávamos espremidas naquela cama de hospital. Virei-me para observá-la.

—Bom dia, raio de sol. – Abby sorriu, ainda com os olhos fechados.

Beijei sua testa e ela suspirou. Virei-me para Evans que sorriu junto comigo, sussurrou um bom dia e se levantou. Estava tudo voltando a sua normalidade.

—Não quero ir para a escola hoje. – Abby se espreguiçou, em seu pequeno espaço na cama.

—Então não vamos para a escola. – puxei a coberta.

—Você vai para a escola hoje. Não quero que esteja comigo quando acontecer. – seus olhos me encontraram.

Suspirei, não sabia que fazer, queria aproveitar seus últimos suspiros, mas tudo que ganhei fora repreensão.

Levantei-me e fui ao armário, peguei calças e uma blusa qualquer. Não ligava para o que usaria naquele dia. Eu a queria.

—Vamos fazer algo insano? – ela se sentou.

—O que?

—Eu vou para a escola se passarmos o dia inteiro de pijamas e pantufas. Quero morrer e ser enterrada em roupas confortáveis.

—Posso, ao mínimo, colocar um sutiã?

—Se eu puder colocar uma calça...

Coloquei meu sutiã e as minhas pantufas de coelho. Estava usando uma regata branca com um gato rosa ilustrado, além de uma calça de moletom rosa cheia de gatinhos coloridos em pequenos doodles. Eu era a maníaca dos gatos.

Abby estava com alguma blusa super larga e detonada de algum jogo, uma calça de moletom cinza e chinelos. Ela parecia um solteirão acabado que passava o dia inteiro na frente da televisão.

Saímos com nossas mochilas e fomos para a cafeteria. Vi os olhos nos acompanharem durante todo o caminho, mas não ligava. Estava confortável e com a garota que me fazia sorrir.

Não tinha vergonha ou algo do tipo.

Ela subiu ao telhado comigo e experimentou eu primeiro cigarro, mas não resolveu seguir esta carreira. Então terminei de fumar e fomos para a sala de aula. Nossos pijamas e mãos dadas eram tudo que tínhamos e por algum tempo, achei que era tudo o que precisávamos.

Infelizmente, o que precisávamos era tempo.

As aulas passaram rapidamente, como sempre passavam ao seu lado. Seu sorriso, o jeito como a mão dela sempre tocava a minha, todas essas coisas iriam embora naquele dia e aquilo estava me matando de um forma tão lenta.

A hora do almoço chegou.

Pegamos a nossa comida e nos sentamos em nossa mesa usual, conversamos e comemos normalmente, até que Abby parou.

Com sua fria mão e unhas roxas apertando forte meu punho, seus olhos olhavam para um vazio que me transpassava e de repente, ela disse:

—Violet, chame a enfermeira.