45%
8 Telhado
Estava ao telhado, chorando grossas lágrimas, a soluçar, durante muito tempo, sem a menor coragem de voltar.
45% apareceu depois de algum tempo quando meu maço já estava acabado. Ela se sentou ao meu lado e suspirou, respirando o mesmo ar que eu, o ar pesado e sujo que todos respiravam.
—Meus cigarros acabaram. – rasguei meu maço e guardei meu isqueiro, fiz uma bola com todo aquele papel e joguei no estacionamento, para longe de mim.
—Você não tem mais guardados? – ela me olhou, estava sem seus óculos escuros, era linda, mas não acho que iria ter um ataque novamente.
—Tenho, mas daí teria de descer e bom... Eu não quero isso. – limpei meu rosto cheio de lágrimas ficando um pouco vermelha.
—Pegue os meus. – ela mexeu em seu casaco e retirou um maço vermelho, daqueles de Marlboro que não vendem mais, estava surrado.
—Não sabia que você fumava. – peguei aquele amontoado de papéis que tinha certeza que iria se desfazer em minha mão.
Não gostava daquela marca, mas eram tudo que eu tinha naquele momento, então acendi um.
—Parei quando comecei a fazer a rádio, quando disseram que meu câncer tinha se espalhado. Estava com medo que ele fosse para meu pulmão... Mas acho que não adiantou muito já que eu vou morrer de qualquer forma. – ela pegou o cigarro da minha mão e tragou como só quem já tinha parado fazia, com aquela face nostálgica e um sorriso satisfatório de saudade.
—Acho, então, que tem muitas coisas que eu não ousei descobrir sobre você ainda. – acendi um outro cigarro.
—Não fique mal assim, tem várias coisas que eu ainda não sei sobre você. Principalmente coisas que envolvem seu curioso caso de ataques de pânico a mudanças positivas em sua doença, a suas curas. É quase como se você, no fundo, quisesse morrer.
—Você não entenderia, eu preciso de Hazel.
—Como eu preciso dos meus óculos?
—Não, a verdade vai bem longe disso. Preciso de Hazel como você precisa de roupas para ir a escola ou de um nariz. Sem ela eu não levanto da cama, eu não vivo, mesmo que sobreviva. É algo psicológico, algo dentro de mim que nem eu mesma entendo. – traguei profundamente.
—Ainda acho que deveria estar feliz, não no telhado chorando como uma criança, fumando mais cigarros do que pode e ainda se manter viva.
—Você deveria estar estudando e tendo uma vida, não doente com meses para viver, muito menos fumando no telhado comigo. A vida e injusta e nos trouxe até aqui, para a morte certa e próxima. – sorri.
—Sim, eu queria viver, mas ter uma vida e fumar com você no telhado. – ela colocou sua cabeça em meu ombro.
—O que você vê de tão especial em mim? – me irritei, era insano o quanto ela estava desperdiçando seu tempo comigo, não era para tudo isso acontecer.
—É bem simples. Você podia ser muito mais que a sua doença, mas escolheu não ser. Violet você podia ver o mundo ou ser veterinária. Sobreviveu cinco anos sufocando, Deus sabe quanto tempo a mais ainda tem em sua lista. Você nunca foi terminal, sua doença sempre esteve controlada e isso nunca afetaria em nada da sua vida cotidiana, mas você se trancou aqui. Poderia estar lá fora, tentando, a escolha foi sua em ser apenas a triste garota ácida da embolia pulmonar com a história triste sobre um cachorro sem graça. Isso me intriga. Eu quero entender, quero fazer parte dessa loucura suicida, dessa sua ideia maluca de ser uma pessoa horrível, quero te proteger do que você tem tanto medo que prefere morrer. – ela dizia aquelas palavras como se fosse uma fala decorada, cantarolando todas as rimas com um sorriso no rosto e olhos cheios de argumentos.
Bruni, mesmo sendo cega, era a única que conseguia enxergar além do que era apenas aparência. O humor negro, o sarcasmo e a falta de me apegar as coisas era sim um caimento perfeito em todas as suas suposições.
Sorri, porque sabia que tinha achado a única pessoa que me entenderia e isso era suficiente para mim. Acabei o meu cigarro, estava pronta para encarar a minha mãe e a minha falta de doença.
45% se levantou e segurou minhas mãos, me fazendo parar a sua frente.
—Ainda vai gostar de mim quando meu câncer falar e não eu? Quando eu estiver quase morrendo e não for responsável pelas minhas ações? – gentilmente, ela passou seus braços ao redor da minha cintura, em um abraçado calmo.
—É esse seu medo? – junte as sobrancelhas, então retirei uma mexa de cabelo do seu rosto, segurando seus ombros.
—Não... Meu medo sempre foi acabar sozinha. Agora, eu descobri que poderia ficar sozinha no mundo se tivesse você, então meu medo é te perder.
—Não vai me perder, nem ao menos se seu estúpido câncer falar coisas estúpidas usando a sua boca maravilhosa. – sorri e beijei a sua testa, queria não ter dito aquilo, não ter feito promessas que eu não saberia se poderia cumprir, era incerto demais.
Bruni ficou na ponta de seus pés, equiparando a nossa altura e eu segurei sua nuca. Sem minutos de tensão, toques excessivos ou toda aquela dança da noite anterior. Eu, em meu moletom, na minha falta de sutiã, com pantufas brancas de ursinho consegui beijar a garota que queria durante quase um mês. Nosso primeiro beijo, no telhado, com gosto de cigarro e remédio de cirurgia. A primeira vez na qual eu estava absurdamente feliz por não conseguir respirar.
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