45%

1 Prazer


Notas iniciais
Essa é uma historia que eu quis começar a escrever durante muito tempo, mas não conseguia. Muitas das pessoas que acompanham o meu crescimento de autora dizem que ela está bem melhor que as antigas e eu estou muito feliz com ela porque é bem fora da minha área de conforto. Por essas e várias outras razões eu espero que vocês gostem e comentem nessa fic.

Crescendo em uma dessas pequenas vizinhas, o cara da casa ao lado tinha um cachorro. Não tínhamos cercas, era apenas um pequeno caminho de pedras dentro do condomínio que separava as nossas casas, então, seu cachorro podia facilmente entrar e sair da sua sempre que quisesse.

Esse cachorro, o Mister Robins, era o único animal de estimação que tive contato durante toda a minha infância. Não é de se admirar que eu tenha uma família bem doente e a minha irmã era uma daquelas garotas alérgicas que não podem entrar em contato com nada.

O filhote de Beagle é tudo que me lembro da minha antiga casa antes de vir morar no hospital.

Todas as manhãs, exatamente às nove horas, Mister Robins pulava a janela do meu quarto e me acordava, ficando sempre a minha espera na porta da minha casa. Ele era meu cachorro, minha felicidade, mesmo que seu dono fosse na verdade o cara da casa ao lado.

Se vocês já amaram algo que na verdade não é bem seu, sabem exatamente o que aconteceu conosco.

O final é triste, como o da maioria das histórias reais, mas se acalmem, o cachorro não morreu, muito menos meu vizinho se relocou, fui eu quem parti, deixando para trás a minha janela aberta e a minha vontade de abraçar aquele babão mais uma vez.

Minha irmã diz que os dois continuam na mesma casa, ainda que já façam cinco anos que eu estou distante e que todas as manhãs ele ainda tenta entrar pela janela do meu antigo quarto. O quão decepcionante deve ser para aquele cachorro notar que agora, a janela está fechada, todas as minhas coisas não estão lá e eu não vou chegar depois da escola.

Não foi a minha opção abandonar o melhor cachorro do mundo, muitos menos ficar tão severamente doente que não possa mais voltar. Nunca quis toda essa história e quero que tudo isso fique bem claro antes que eu comece a soltar todas essas coisas que me aconteceram para vocês. Na verdade queria ser curada, queria voltar para lá, ir à escola, ter um cachorro, ir para a faculdade, ter namoradas normais, ir a festas, tirar notas horríveis, brigar com meus pais e me sentir livre no mínimo uma vez.

O fato é que, não se pode ter um cachorro no hospital, não há cura para meu caso estranho, não há como voltar para lá, a escola daqui é bem chata, eu nunca vou ir para um dormitório, minhas namoradas sempre morrem, eu não aguentaria uma festa, minhas notas são realmente ótimas, meus pais nunca brigam comigo já que sempre pode ser a última vez que eles vão me ver e não existe liberdade para alguém como eu, que está presa nas próprias incapacidades corporais.

Prazer, eu sou Violet e preciso de pulmões novos. Hoje faço dezoito anos e seis de moradia no Saint Mary’s Hospital. Se você já leu A Culpa é das Estrelas, já viu Red Band Society ou qualquer uma dessas outras histórias de hospitais e câncer, sabe muito bem que essa aqui é uma daquelas que vai coçar a garganta na hora de ser engolida.

Então vamos as perguntas decorrentes sobre o meu estado atual?

O que me trouxe para cá? Eu nasci com dois pulmões esquerdos. Isso significa que os dois são pequenos e sem uma ajuda, não dariam conta de me encher de oxigênio toda vez que respiro. Acalmem-se, nem sempre essa história foi difícil assim. Vivi muito bem até meus dez anos, sem faltas de ar, sem desmaios e com uma oxigenação incrível.

O problema começa com o seguinte fato: se o meu pulmão é pequeno, o espaço que ele ocuparia fica vazio? Não! Tenho uma bolsa de gordura ocupando todo esse espaço das minhas costelas, como se fosse uma banha de porco bem nojenta. Tudo fica bem se a bolsa não estourar, certo? Sim! Mas fui atropelada aos meus dez anos e ela estourou.

Os médicos descobriram a minha doença e me deram uma nova bolsa, dessa vez protética de silicone que deveria se sustentar melhor e facilitar na minha respiração por não ser pesada. O problema é que meu coração rejeitou a ideia. A bolsa de porco nojenta voltou e agora ela é controlada... Até a minha embolia pulmonar.

Ninguém sabe explicar exatamente o porquê, mas meus pequenos pulmões entraram em colapso a primeira vez que vi Brenda Isle. Desde então estou internada.

Há lados positivos nessa história. Brenda ficou comovida com o fato de que quase morri porque a achei a garota mais bonita do mundo e eu ganhei um beijo. Acho que com doze anos ela não sabia que estava fazendo algo gay, mas eu sabia.

Atualmente, passo meus dias com meu respirador chamado Hazel fazendo de tudo para que meus pulmões não se encham de gordura e eu pare de respirar como já aconteceu algumas várias vezes. É uma tarefa bem interessante que envolve além da minha magnífica capacidade de fumar um maço de cigarros a cada três dias, ser paparicada pelos meus pais e tentar de todas as formas possíveis fazer alguma coisa idiota.

Violet, como é viver em um hospital? Existe apenas uma regra de sobrevivência, na verdade e ela é bem simples: não se apegue para não amargurar. E foi assim que eu virei essa garota meio perturbada, me apeguei e aqui segue a história dos cinco maiores casos de apego que eu infelizmente errei em deixar acontecer.

Primeiro teve Ernie. Era um garoto realmente legal, mas era um paciente terminal, então, eu já tinha meu aviso. Ele tinha uma lesão no fígado e um amável problema com drogas, não estava apto a ganhar um transplante. Contava cartas como ninguém, quase não fizemos trabalhos escolares naquele semestre. Ele foi sem nem cumprir um ano letivo. A sua mãe ainda vem me fazer cortes de cabelo a cada três meses, é uma senhorinha sem mais ninguém no mundo, realmente gosto dela. No velório de Ernie eu fechei meu discurso dizendo que não perderia mais nenhum amigo, mas infelizmente, perdi, perdões Ernie.

Jackie. Uma morena, alta, a primeira garota da qual eu realmente tive um relacionamento com. Ela tinha sofrido um derrame não explicado pelos médicos que tentaram durante meses achar a causa e a solução para a sua arritmia, mas infelizmente, um aneurisma não notado a matou. A sua família me odeia, mas me doou todo seu guarda-roupa no verão após a sua morte. O irmão dela é retardado e vive aqui também, ele é bem legal na verdade. Em seu velório eu não ganhei a chance de falar, então bêbada, jurei que conseguia ficar quatro minutos sem meu respirador no telhado o que me levou a quatro meses de cama, um para cada minuto.

Terceiro fora a Callie. Uma loira da qual eu me apaixonei no minuto que a vi, juro que meu pulmão parou novamente e desmaiei, o que foi bem engraçado porque estávamos em aula. Porém, assim que a beijei a sua confusão sexual deixou a sua cabeça insana, a sua depressão deu conta do recado de fazer com que ela ficasse sem comer durante quatro dias. Foi transferida para a ala segura do hospital, onde ela pegou uma infecção fatal – pode dizer, é bem irônico. Não fui convidada para o seu velório, então fui ao necrotério escondido e comi um sanduíche de frango do lado do seu corpo – romântico, não?

O quarto é o meu atual companheiro de quarto, Evans. Ele tem má função renal, uma doença que não tem cura e vai progredir até matá-lo, o que pode ser em anos ou em segundos, tudo depende de quão rápido ele vai ganhar um rim novo. Nossas máquinas fazem muito barulho, então ligamos ACDC bem alto e não deixamos ninguém no andar inteiro dormir.

O quinto é a 45%, uma história que realmente vale a pena contar, mas que não tem um final muito feliz.