45%

35 Praia


Estava cansada e queria muito ir para o mundo dos sonhos. Meu corpo doía nas extremidades, sabia que aquilo era causa da falta da máquina de dormir.

A viagem fora longa e cansativa. Assim que descemos do ônibus corremos para o nosso hotel, um pouco melhor, com aquecedor, serviço de quarto e camas separadas. Tomamos banhos quentes, colocamos nossos pijamas, pedimos comida e assistimos um pouco de televisão antes de perdermos a noção do que era estar acordado.

A minha noite fora longa e feliz.

Minha mente fora para todos os lugares felizes que poderia ir. Desde a minha antiga casa ao cheiro de Mister Robbins.

Queria voltar para um tempo no qual as coisas eram fáceis. Tudo que de fazer era ir para a escola e brincar na grama com o cachorro do vizinho, quando a única coisa que me perturbava era que a minha irmã tinha ganhado peitos e era o maior dos centros das atenções.

A casa da qual tinha saudade, de respirar.

Ou ao menos voltar para o hospital, na qual a minha vida era tão insana que eu não tinha segundos para pensar em todos aqueles problemas que me incomodavam.

Aquilo tinha de acabar, mesmo que isso significasse a morte de Evans. Todas as memórias, todos os pensamentos, estava prestes a perder a cabeça.

Na manhã seguinte fui acordada. Evans estava na janela observando o mar e a praia, umas duas ruas abaixo da nossa, enquanto Bruni se deitava ao meu lado.

Estava quente, cansada e aquilo não me parecia ser boa coisa, mas, no dia seguinte, já estaríamos no hospital.

—Sonhando acordado? – me espreguicei.

—Não acredito que estamos tão perto. – ele suspirou.

—Eu ainda não consigo acreditar que você nunca foi a praia. – 45% se sentou.

—O loiro está doente há realmente muito tempo. – me ergui, ainda meio sonolenta.

—Desde os meus três anos de idade. Nunca fiz muitas coisas. A vida que eu poderia ter vivido foi levada de mim há muito tempo. Você acredita que eu passe um período da minha vida sem andar? – ele se voltou para dentro do quarto.

—Porque eu nunca fiquei sabendo disso? – ela continuou.

—Ninguém nunca conta sobre as histórias horríveis da própria doença. Isso a gente tenta esconder e esquecer, reprimir até ir embora. – suspirei.

Na minha cabeça, se passaram algumas das minhas histórias horríveis da minha doença. Como ouvir a minha mãe chorar a noite inteira porque eu ia morrer; tentar fugir de casa, me perder e desmaiar no meio da rua; ou ter de interromper a primeira vez da minha irmã porque tive uma embolia pulmonar enquanto assistia a um filme.

Haviam tantos mais, todos os momentos gravados em minha mente e não podiam se apagar. As vezes, eu acho que se os gênios pudessem realmente fazer algo por nós, algo que não fosse material, eles, com certeza, iriam apagar todas essas memórias.

—Mas você sabe disso, Violet. – Bruni continuou.

—Estamos juntos há dois anos, sabemos de tudo que há para saber. – sorri.

—Vamos pedir logo a comida, quero conhecer lá fora. – Evans se jogou em minha cama.

Peguei o telefone e pedi café da manhã. Levantei-me e coloquei shorts e uma regata larga. Minhas pernas finas ficavam estranhas à mostra, mas não iria me privar de sentir a areia apenas por vaidade.

Evans escolheu uma bermuda estranha e uma regata preta. Já Bruni preferiu um short de renda e a parte de cima de um biquíni cheio de flores, além de um enorme óculos de sol redondo. Comemos e seguimos até a praia.

Não estava quente, já que estávamos no meio da primavera. Nos sentamos em um lugar sozinho. Passamos protetor solar e observamos o mar por algum tempo.

—Isso é muito mais do que eu tinha esperado. – ele sorriu.

—Porque você não vai brincar como uma criança na areia? – segurei a sua mão.

—Isso ainda parece um sonho, deixei que fique assim por mais um tempo, Violet. Não estrague as coisas. – ele suspirou e fechou os olhos.

Seus castanhos olhos, cabelos loiros, eram todos tocados pelo vento, pelo mar, pelo céu. Evans estava em sua casa, ele fora inteiramente feito para estar ali.

Se pudesse viver, se fosse lhe dado a opção de não ser afetado por aquela doença horrível que destruiu seu rim e todas as suas esperanças, ele podia ter descoberto isso ainda criança. Teria aprendido a surfar e ser um biólogo marinho. Sua pele seria mais escura, seus cabelos mais claros, teria tatuagens tribais e estaria sempre sorrindo.

Mas a doença chegou, não só para ele, mas para todos nós.

A doença tirou a praia dele.

A doença sempre tira tudo de nós, as vezes, tira coisas que sabíamos que tínhamos, outras vezes, coisas que não tivemos nem ao menos a oportunidade de descobrir que merecíamos. Eu tinha perdido a oportunidade de amar todos os animais do mundo, talvez me tornar uma veterinária, ter uma casa cheia de bichos. Bruni tinha perdido a capacidade de realmente amar as roupas, de vê-las, senti-las, estudá-las, produzi-las e talvez, fazer muito dinheiro com isso. E ainda não sabíamos o que meu melhor amigo tinha perdido, mas certamente, era a praia.

Então, ele se levantou e foi andar pela areia, perto do mar, onde tudo fica meio molhado.

—Ele parece tão em casa, acho que nunca o vi dessa forma. – ela se ajeitou e colocou a cabeça em meu colo, ainda o observando.

—Porque essa é a casa dele, nós só não sabíamos disso até chegarmos aqui. – acariciei seu cabelo.

—A gente sempre tem que desistir de tudo, não é mesmo? – 45% suspirou.

—Não, Bruni, não temos que abrir a mão de tudo, mas de muitas coisas sim.

O loiro estava se divertindo nas ondas. A água gelada e cheia de bolhas chegava aos seus pés e ele sorria. Acho que nunca tinha o visto tão sereno em toda a nossa amizade.