45%
14 Gabarito
Enquanto almoçava tardiamente, repassávamos tudo que estava prestes a acontecer para que pegarmos as provas e sairmos rapidamente de lá sem sermos pegos.
Fazíamos isso desde quando Evans chegou ao hospital, o que havia quase dois anos daquele dia.
Seguimos para o estacionamento, no final do mesmo havia outro prédio apenas para os funcionários, com suprimentos salas de descanso e a informática.
Sair pela porta da frente era fácil quando todo o perímetro do mesmo era protegido para que nós, os pacientes, não escapássemos. Então passamos pela mesma e andamos até o estacionamento, acendi um cigarro e seguimos calmamente em meio as ambulâncias até o final.
Brincávamos, riamos, corríamos e gritávamos. Esse era o meu grupo insano de amigos reunido mais uma vez e não havia nada no mundo que me deixaria mais feliz.
Chegamos ao prédio, a única coisa que nos impedia de entrar era uma placa na porta que dizia que apenas funcionários passariam daquele ponto. Evans foi o primeiro, abrindo pouco a mesma para ver se havia alguém no corredor.
Entramos lentamente e caminhamos silenciosamente. Ouvimos passos, então abri uma porta a direita, a primeira que vi, e me joguei lá dentro. O loiro puxou Bruni pelo braço e ela se apoiou em seus ombros, fazendo com que ambos estivessem próximos, colados, corpo a corpo, apoiados na parede em uma daquelas cenas pré beijo clichês.
—Arrumem um quarto, acabamos de terminar e a sua namorada de morrer, não preciso ver isso. – bufei, interrompendo os dois antes que o que eu já havia visto em minha mente se tornasse real.
Bruni me observou com um ódio nos olhos. Evans sorriu e a soltou.
—Agora o que? – ela arrumou suas roupas.
—Liberamos o prédio. – sorri, ainda olhando em seus olhos.
Ela estranhou, então olhei para trás, quebrei um pequeno vidro em uma caixa vermelha e abaixei o alarme de incêndio.
O sinal soou e ouvimos gritos e pessoas correndo. Cruzei meus braços e sorri. Começamos um caos que acabou em minutos, então saímos calmamente e andamos pelos corredores, abaixados por causa das câmeras e desviando das mesmas.
Chegamos na sala de informática. O loiro ficou o digitando freneticamente no primeiro computador que vimos, enquanto 45% observava a porta e eu a janela.
—Evans... – vi enfermeiros se aproximando do prédio e comecei a me preocupar.
—Preciso de mais tempo. – ele se irritou.
—Não temos muito tempo. – os enfermeiros estavam chegando muito perto da porta.
Tornei-me inquieta e fechei a janela. Comecei a correr ao redor da sala, mas isso não fazia ele andar mais rápido, apenas se estressar com meus movimentos nervosos e as rodas de Hazel que vaziam barulho ao me seguirem.
—Acabei! – ele gritou e socou a mesa, então desligou a máquina e corremos para baixo.
Assim que chegamos ao corredor da saída, a porta começou a se abrir, então empurrei todos para o pequeno armário que havíamos entrado no início.
—Achei que seria mais divertido. – Bruni se sentou no chão.
—A primeira vez foi bem divertida, agora é só fácil. – Evans se sentou no chão, aquele dia não estava tendo nada de fácil para meus pulmões.
Sentei-me no canto, não queria ficar no meio dos dois naquele momento.
45% pegou a minha mão e olhou dentro dos meus olhos, perguntou se eu estava bem, então assenti e continuei olhando para frente.
Perder ela, atualmente, era a coisa que mais me doía, seus olhos, suas feições, tudo estava acabando comigo, queria abraçá-la, tocá-la, mas era impossível, porque tínhamos terminado.
Sabia que eu iria acabar chorando, então levantei e fui para o outro canto da sala. Lá fiquei mexendo em algumas caixas que estavam aos meus pés, até achar uma bem especial.
Abri a caixa e lá havia vários arquivos com nomes de todos os residentes do hospital. Comecei a mexer nas pastas freneticamente para achar meu nome.
—Que barulheira é essa? Vamos ser pegos! – Evans esbravejou.
—Os arquivos do hospital! Os nossos arquivos. – continuei mexendo.
O nome de Evans apareceu e eu puxei sua pasta, então comecei a ler. Tudo estava escrito naquele arquivo, desde as nossas infrações em caneta vermelha e a evolução de sua doença em caneta azul. Sorri com algumas passagens, como a que dizia: “correu pelo saguão nu enquanto gritava que seu banheiro pegava fogo. Aos chegarmos em seu quarto, o paciente havia usado uma grande quantidade de sedativos que estavam sendo usados para tratar a sua colega de quarto”.
Então cheguei a última página e tremi. Em uma caneta preta com uma letra de médico, a sua última anotação dizia: “cirurgia falha, rins novos lesionados, o paciente tem uma expectativa de vida de um mês”.
Evans me olhou e tentou se aproximar então fechou a sua ficha. Ele leu seu nome e se assustou.
—Porque está fazendo essa cara com o meu prontuário?
—Não é nada... Aqui só há informações sobre antes da cirurgia. Eu só não tinha ideia de que era tão ruim. – menti olhando em seus olhos.
Joguei seu arquivo no meio de vários e continuei a mexer na caixa. Não queria que ele procurasse por algo que não saberia lidar com ao ler. Nem eu mesma sabia lidar com a informação que tinha acabado de receber.
Meu melhor amigo iria morrer em menos de um mês e não havia nada a ser feito.
O movimento das minhas mãos ficou nervoso, meus olhos se encheram de água e a respiração ofegante.
—Violet, você está fazendo muito barulho, nós vamos ser pegos. – Evans esbravejou.
Bruni levantou-se com calma, saiu do seu canto e veio até o meu lado.
—Meu bem, por favor, largue essa caixa. – as suas pequenas mãos pararam as minhas, ela retirou a caixa do meu colo e a empurrou com o pé para longe.
Então pegou minha cabeça e colocou meu rosto em seu ombro, me abraçando. Cobri o restante da minha face com uma mão, começaria a chorar a qualquer momento.
Vi Evans me olhar, mesmo com meu rosto coberto. Aquilo me feriu diretamente, sem entender muito o porquê.
As lágrimas rolaram pela minha face abaixo, não conseguia segurá-las. 45% me fez carinho na cabeça enquanto eu tentava não fazer barulho para que não fossemos pegos.
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