45%

33 Diana


A praça estava calma, o que ajudou a nossa conversa a fluir o tempo que fluiu. Ficamos sentadas naquela praça, lado a lado, durante mais de uma hora.

Seu jeito positivo e animado era fácil de conversar para quem já havia se habituado a 45%. Ela se inclinava para falar comigo e mordia os lábios para me ouvir, ato que bagunçava a minha cabeça mesmo nos assuntos mais simples. Diana havia me ganhado da forma mais simples e sincera que poderia, apenas sendo ela.

Com 17 anos e uma identidade falsa, eu tinha algumas ideias sobre como o amor deveria ser. O tremor nas pernas, o coração batendo rápido, as borboletas no estômago e aquela sensação estranha nas mãos. Mas aquilo não era nada se comparado ao que estava acontecendo.

Com 17 anos e uma identidade falsa, eu tinha algumas certezas sobre como ser um cadáver é. A gelidez, palidez, a falta de controle sobre a sua própria respiração e uma incapacidade de fazer quase tudo que os vivos faziam. Todas as coisas que se encaixavam nos meus sintomas.

Com 17 anos e uma identidade falsa eu tinha de ter uma única certeza na vida. Eu tinha de saber o que era viver, mal, bem, mas sentir. Infelizmente, eu tinha acabado de descobrir o que era aquilo.

A ideia de vida se baseava muito no conceito do amor.

Achava que entendia tudo, que passaria a minha vida atrás de Bruni e uma hora ela acabaria e tudo acabaria. Mas 45% não me fazia sentir assim. Era como se eu amasse com todas as minhas partes mortas, enquanto Diana me fez sentir viva o suficiente para ter algo em mim para amá-la.

Por apenas pouco mais de uma hora a garota havia me feito querer lutar pela minha própria vida, algo que eu já havia desistido há muito tempo. Não sabia o que estava acontecendo, apenas que alguma coisa dentro de mim se fundiu quando ela sorriu e eu já não estava mais e pedaços.

Porém, isso só durou uma hora, já que o telefone dela tocou e ela teve de sair correndo para encontrar sua namorada, me deixando de volta no estado de dormência de antes da sua aparição. Como se aquilo tudo fosse um interruptor e só ela podia me ligar.

Não havia muito o que se fazer, então voltei para o quarto de hotel, carregando as minhas sacolas de papel marrom, me conformando que nunca a encontraria de novo e que nunca sentiria aquelas coisas novamente.

Segui meu caminho, devagar e com muito folego, um que não tinha há tempos. Cheguei ao quarto e quis pegar a chave em meu bolso, mas Hazel, sacolas e um bolso pequeno fora uma combinação desastrosa.

Quase tudo caiu no chão, exceto os cafés. Os pãezinhos ainda estavam protegidos pela sacola. Mas sabia que todo o pequeno hotel tinha ouvido o estardalhaço de mãos meio descoordenadas por falta de oxigênio.

Entrei com cuidado e ainda fazendo mais barulho do que sendo discreta, mas passei a agradecer muito por toda aquela confusão. Assim que levantei a minha cabeça, Evans estava colocando a sua camisa, sentado na cama, e Bruni correu para o banheiro, batendo a porta.

Era claro que os dois tinham aproveitado a minha saída para realizarem algo que já tinham feito antes, mas quem era eu para julgar? O loiro precisava ser feliz, nem ao menos que um pouco. Eu tinha o resto de nossas curtas vidas para ficar chateada por uma garota que nem amava tanto assim e hoje não seria o dia que o velório iria começar.

—Vocês querem que eu saia para poderem terminar? – coloquei as sacolas sobre a cama, já me sentando.

—Já terminamos. – Evans terminou de se vestir.

—Você não acha que isso é muito rápido?

—Não, eu acho que estou indo bem para um homem virgem.

—Eu não te chamaria de homem ainda. – sorri.

Esticamos a coberta e usamos as próprias sacolas para expor toda a grande variedade de pãezinhos, que mesmos frios estavam consideravelmente bons.

Pegamos as nossas mochilas e seguimos o cronograma de conhecer a única grande beldade daquela cidade pequena. O parque de diversões.

Não gostava muito desse tipo de aventura, havia algo sobre palhaços que me arrancava um calafrio e qualquer lugar com um tema pouco circense não me agradava aos olhos. Mas o ônibus só saia as cinco horas e tínhamos um dia inteiro para matar, mas não dentro de um quarto fedido.

As tendas vermelhas eram velhas, gastas e já escuras do tempo. Não havia muito o que se fazer nem com quem se entreter, mas andamos de montanha-russa e cada um de nós ganhou para si mesmo um urso de pelúcia em alguma das pequenas barracas de jogos. Comemos algodão-doce, rimos bastante e fizemos planos de sermos enterrados com aquela memória daquele dia.

Não queria que aquele dia fosse apenas aquilo, mas acabou por ser.

O relógio bateu às três horas. Seguimos o meu aplicativo e paramos em um pequeno restaurante de esquina a poucos quarteirões do parque.

Um lugar meio marrom, com mais cara de bar do que de restaurante era o que tínhamos para aquele dia.

Procurei qualquer mesa que não me parecesse nojenta demais e me sentei nela, meio perdida em minha própria cabeça e em meu novo ursinho branco. O loiro se sentou a minha frente, com seu cavalo marrom e suspirou:

—Quanto podemos gastar? – ele pegou o cardápio da mesa.

Olhei ao meu redor. Sem um propósito maior, sem a menos esperança, mas o que eu vi me arrancou o maior sorriso do mundo.

Com seus cabelos crespos ela veio saltitando até a nossa mesa e sorriu.

—Sabia que iriamos nos esbarrar de novo, porque eu não tive a chance de te dar o meu número. – Diana se sentou ao meu lado.

—Talvez a sorte esteja ao nosso favor.

—Acho que está ao seu favor. – ela se inclinou novamente e me entregou um guardanapo amassado com seu número nele, então me deu um beijo na bochecha e voltou a sua mesa.

Desviei o olhar dela por segundos, queria saber qual iria ser a reação das pessoas que eu mais gostava no mundo, mas a única coisa que ouvi foi Bruni dizendo:

—Eu não gosto dela.

—Você não gosta de ninguém. – levantei a minha sobrancelha.

—É ciúmes. Eu acho que a 45% tem algum problema com poligamia ou algo do tipo, ela quer nós dois o tempo inteiro para ela. Mas eu já vou morrer, ok? A Violet será toda sua. – Evans segurou seu braço.

Ela revirou os olhos e eu sorri, porque pela sua expressão o loiro tinha acertado. Então olhei para trás e lá estava ela, com seu sorriso branco e lábios em batom vermelho, me olhando com seus olhos negros.

Podia sentir meu coração batendo.