45%
19 Despedidas
Tudo havia mudado, e, isso, estava mais do que claro uma semana após aquele dia horrível.
Dentro do quarto, não havia muita interação. Não via os olhos do loiro, ou o seu sorriso, desde aquele dia fatídico. Seus vultos vazios e quietos não eram meu melhor amigo, mas se remetiam a saudade que sentia dele.
Sem trocar palavras, não nos esbarrávamos no banheiro ou pelo pequeno próprio quarto, mas não haviam deveres juntos, músicas a noite ou confusões a se meter. Evans era só alguém que dormia perto de mim, sem se comunicar ou existir na minha vida.
Se isso já não fosse horrível por si só, havia várias coisas piores, como o fato de que ele estava triste e deprimido ou como Bruni havia mudado completamente.
Era difícil assistir o meu melhor amigo chorar todas as noites e perder a vida em suas ações cotidianas, e, a garota que você ama, virar uma vadia. Não me levem a mal, isso foi realmente como as coisas aconteceram. O loiro ficou realmente mal. 45% realmente fazia de tudo para ser aceita e agradar as outras pessoas, pessoas erradas.
Queria fazer alguma coisa, agir rebeldemente e colocar esses dois em seus devidos lugares, mas, honestamente, não conseguia. Estar ao lado de Evans por poucos momentos de manhã e a noite já era uma tortura enorme, olhar para Bruni de longe me matava. Tentava fugir deles, dessa decepção. Então, passava todo o tempo possível ao lado da única pessoa que me fazia sentir melhor, Abby.
Sua grossa voz e largas mãos me faziam quente, seguravam ao chorar, proporcionavam prazer e não me abandonavam nem por um segundo. Não éramos namoradas ou alguma coisa séria, até mesmo porque ela podia morrer à qualquer instante, e é assim que todos os problemas começaram a se resolver, antes de tudo explodir de novo.
No meio da noite, senti alguém mexer em minha perna. Meu primeiro pensamento fora, obviamente, algum espírito maligno ou demônio, então trouxe minhas pernas para perto do corpo e puxei a minha coberta em um pulo, me encolhendo na ponta da cama. Liguei o abajur tremendo e, para minha surpresa, Abby estava sentada em minha cama com um sorriso enorme, como se tivesse acabado de ver sua cena preferida de seu filme preferido.
—Você parece um anjo dormindo. – ela riu, baixo.
—Qual o seu problema? – esbravejei.
—Preciso falar com você.
—Você está completamente maluca! Quase me matou e vai acordar o Evans. – continuei com o cenho fechado em uma careta irritada.
—Ele está no banheiro, provavelmente cortando os pulsos. Já você estava muito gelada, precisava de um susto para circular melhor seu sangue. – o sorriso de Abby queria me contagiar, mas na verdade não conseguiria.
—Má oxigenação. – sorri.
Ela se levantou e foi para porta. Suspirei, tentando me acalmar, aquele susto e raiva não ajudariam em nada. Desliguei minha máquina de dormir e liguei Hazel, peguei um casaco em minha cadeira, vesti e saí pela porta.
Abby estava sentada ao chão, ao lado da porta, mexendo em seu tubo. Sentei-me ao seu lado, colocando Hazel em um canto.
—O que aconteceu? – segurei sua mão.
Antes, ainda estava meio fora de mim por toda a questão do sono, mas agora, a vi abatida. Com certeza, aquilo tinha de ser algo sério.
—Tenho algo muito sério para te contar. – ela colocou a sua cabeça em meu ombro.
—Espero que seja absurdamente sério, já que me acordou agora. – coloquei a mão em seu cabelo, o acariciando.
—Essa história de aparição é verdade? – ela se levantou e ficou olhando para frente.
—Moro aqui há cinco anos, nunca houve um mísero caso para desmentir essa história. – a observei com cuidado.
—Se é verdade, eu tenho dois dias. – seus olhos acharam os meus, estavam desesperados.
—Deus, realmente, está tentando tirar tudo que importa de mim. – apertei sua mão.
— Eu sabia que ia e que estava próximo, mas isso... É perto demais. – as lágrimas inundaram seus olhos e estavam prestes a transbordar.
—Ei, Abby. Você tem uma lista? – a abracei.
—Não.
—Me diz o que sempre quis fazer.
—Eu já ganhei isso dos gênios. Mas... Eu acho que nunca vi o sol nascer. – ela se apertou contra meu peito com força.
—Eu te levo para ver o nascer do sol. – suspirei.
Depois de algum tempo, ela saiu do meu abraço por vontade própria. Segurou a minha mão e fomos ao telhado, nos sentamos ao chão.
Com cuidado, ela se apoiou em meu ombro, seus cansados olhos estavam pesados demais. Abby estava exausta. Disse que sonhou com a aparição e veio direto para meu abraço. Queria reconfortá-la, mas ela queria viver e a data da sua morte dificultava isso.
Vimos o sol nascer e ouvimos o sinal do telhado. Ela queria ir para a escola, queria uma despedida e, agora, eu só podia fazer com que ela ganhasse tudo que queria.
Então seguimos para a sala de aula, seus cansados olhos me perturbavam. Todos entraram na sala e, antes da professora começar a falar, fui para frente.
Sempre tínhamos de ir a frente e falar quem estava próximo de ir. Quando subi, vi a cara de espanto de todos. Ouvi cochichos.
Foi aí que me dei conta. Eu era uma espécie de lenda do hospital. Cinco anos, estive viva. Desde que cada um havia chegado e, provavelmente, iriam embora, estava lá. Em um hospital para terminais, eu era a sobrevivente.
—Relaxem, não vou morrer. – bufei – Ok, eu vou morrer, provavelmente, bem depois de vocês. O que eu quero dizer é que... Vai haver uma despedida para a Abby hoje, às 18 horas, na primeira sala. Eu sei que a maioria de vocês tem várias coisas para dizer a ela, então eu tenho certeza que vai ser bem divertido. – cruzei os braços.
Naquele momento, não tinha vergonha de falar as coisas, não tinha sentimentalismo. Era apenas eu, em minha forma natural, sendo ríspida.
—Já estamos usando a primeira sala. – alguém disse ao canto.
—Que pena que terão de relocar as suas atividades. – suspirei.
Ninguém se pronunciou mais, o que me fez bem feliz. Fui para o lado de Abby, passando por Bruni e Evans, sentados na primeira carteira, em uma mesa de três lugares, no qual, antes, havia um lugar para mim, mas agora estava sendo ocupado por uma mochila.
Fui recebida com um abraço e um beijo na bochecha. Seu sorriso me dizia que agora tudo estava bem.
A aula correu normalmente, assim como o almoço, meu cigarro e a volta a aula. Abby estava calma, como se já tivesse aceitado a sua morte. Ao final das aulas, fomos para seu quarto. Deitei-me em sua cama e ela se deitou entre as minhas pernas, com a cabeça em meu peito.
—Aposto que as meninas querem te matar agora. Eu estou passando meus últimos momentos com você. – ela passou as mãos por minhas cinturas.
—Eu não ligo, sou imortal.
—Para nós, é sim. É tão errado como cinco anos se tornou algo legendário para um bando de adolescentes.
— Deveria ser pouco tempo. Cinco anos só deveria importar se fossem quantos anos a mais o cara da faculdade é mais velho.
—Estamos todos tão errados.
—Me desculpe.
—Não é sua culpa, Violet. – ela saiu do meu peito, ficando totalmente sobre o meu corpo, me olhando nos olhos.
—É, mas eu não vou embora. – arrumei seu cabelo.
—Você sempre diz que a morte doí mais nos vivos. Eu não vou sentir nada, você vai doer e eu estarei te observando feliz. As coisas vão ficar bem rapidamente. Eu já estou bem. Talvez, você tenha que pagar isso por ficar aqui mais tempo que todos nós.
—As coisas são injustas. – suspirei.
—Não são, você só ainda tem coisa para aprender e eu já aprendi tudo. A única coisa que me faltava era aprender a tratar bem as pessoas, confiar mais nelas e amar alguém de verdade. Precisava de você para ir embora. Vai ver, ainda te faltam algumas coisas.
Abby sabia de tanto e essa fora uma das coisas sobre ela que levei para o resto da minha curta existência. Tudo tinha razão. Ela me beijou e aquilo levou a outras coisas.
Ficamos deitadas, nos satisfazendo até o horário de sua despedida.
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