40 Dias
8 Insônia.
Notas iniciais
Já era a minha última semana na França, mas, por algum motivo, pensar nisso me causava um certo aperto no coração, como uma pontada, que parecia machucar um pouco mais a cada dia que passava. Talvez tivesse a ver com o fato de eu ter me habituado à nova rotina; ao Lynx e, até mesmo, ao Scorpius. Aos poucos, eu aprendi a apreciar a sua companhia e, incrivelmente, a sua amizade, e ter que deixá-lo para trás me incomodava. Afinal, eu não tinha a menor ideia de quando o veria novamente. Embora eu odiasse ter que admitir, eu sentiria a sua falta. Mais do que eu gostaria e menos do que eu imaginara sentir um dia.
Mais uma madrugada passando em branco. Peguei o meu celular na mesa de canto e olhei a hora, duas e trinta e sete da manhã. Bufei, consideravelmente irritada e virei para o outro lado, na esperança do sono milagrosamente aparecer. Cinco minutos. Dez minutos. Quinze. Nada aconteceu. A insônia estava se tornando cada vez mais frequentemente e piorando com o passar do tempo. Eu já estava quase me acostumando com isso, o que eu sabia que era bastante errado. No entanto, era inevitável deixar que isso afetasse o meu humor.
Levantei-me e caminhei em direção ao guarda-roupa, onde peguei um sobretudo. Coloquei a veste de frio e, sem pensar duas vezes, saí do quarto, rumo ao terraço, que era um dos meus lugares favoritos naquela casa gigantesca.
Quando finalmente cheguei ao meu destino, senti arrepios percorrerem meu corpo assim que o vento gélido o atravessou. Era sempre frio demais no terraço, provavelmente por ser o local mais alto da casa. Automaticamente, encolhi o meu corpo sob as minhas vestimentas e fiz uma careta.
— Perdeu o sono de novo? — escutei a voz de Scorpius, que me fez saltar.
Eu realmente me assustava muito fácil.
Virei-me para trás, na direção a qual ouvira a sua voz, encontrando-o sentado em um dos bancos. Sem hesitar, sentei-me ao seu lado.
— Sim e, pelo visto, você também.
— É. — Deu de ombros, como se já estivesse acostumado. — Ansiosa para voltar para casa?
— Sim — respondi, sem pensar duas vezes, com um sorriso nos lábios. — Mal posso esperar para ver a minha família.
— Eu nem imagino o quanto sente falta deles, Rose. Espero que estejam todos bem.
— Eu falei com o Albus ontem, ele disse que todos estão bem e estão seguindo o protocolo. Eu ainda terei que esperar quatorze dias para revê-los, completamente sozinha. — Bufei, chateada.
De repente, lembrei-me que Scorpius passaria o resto da pandemia sozinho, e isso partiu o meu coração. Apesar da nossa relação conturbada, ele era uma boa pessoa, e ninguém merecia passar por uma situação tão grave, quanto uma pandemia, sozinho. Muito menos alguém tão gentil e solitário quanto o Malfoy, porque, se não fosse por ele, eu não sei o que seria de mim nesse momento.
— O que foi? — perguntou, de repente, provavelmente por ter notado a minha mudança de expressão repentina.
— Não é nada, eu só estou pensando — falei, sem dar muitos detalhes.
— E no que está pensando? — Ele parecia genuinamente curioso.
Eu hesitei por um momento e encolhi os meus ombros, receosa. Algo na minha cabeça me mandava fingir não tê-lo ouvido, mas um pedacinho do meu coração parecia gritar: “Rose Weasley, deixe de ser infantil, não tem nada a perder contando a verdade a ele, você irá embora em breve”. Por mais racional que eu fosse, ou gostasse de ser, eu sentia que devia aquela resposta a Scorpius Malfoy. Trancados naquela casa, por quase quarenta dias, vivemos mais aventuras e desventuras que encararíamos no mundo exterior. Coisas que, agora, eu tenho plena consciência que só suportaria e gostaria de viver ao lado dele.
Era um pouco engraçado olhar para trás e pensar na nossa trajetória. Nós começamos como arquirrivais, pessoas que brigavam o tempo todo e, de repente, nos tornamos amigos. Ok, talvez não tão de repente assim, mas, de algum modo, o tempo parecia ter passado de modo exageradamente rápido. Recordei-me da nossa adolescência, que parecia ter acontecido há uma vida atrás. Ainda assim, lembrava-me de cada detalhe; cada dia; cada segundo que passara ao seu lado. Invadida pelas mais variadas lembranças, eu tenho certeza que sorri. Dessa forma, eu obtive a minha resposta. Eu precisava ser sincera com Scorpius Malfoy.
— Em você — respondi, certeira, com um sorriso saudoso nos lábios.
Por um momento, Scorpius arregalou os olhos, espantado. Eu ri da feição surpresa dele, que era um tanto quanto cômica. No minuto seguinte, ele piscou os olhos fortemente, três vezes seguidas, então, apontou com o próprio indicador para si mesmo, completamente incrédulo.
— Em mim? — perguntou, descrente.
— É, idiota. Eu vou sentir a sua falta — falei, sem pestanejar.
Era bom que eu pudesse compartilhar um pouco do que eu sentia, sem ter medo ou receio. Não que eu tivesse medo dos meus próprios sentimentos, na verdade, eu me considerava uma pessoa destemida, no entanto, não estava acostumada a me abrir dessa forma com as pessoas. Especialmente porque o meu melhor amigo era Albus, e eu raramente tinha conversas tão profundas com ele, mesmo que fosse o meu primo.
Scorpius sorriu, e eu senti como se o meu coração tivesse parado por um milésimo segundo. Acho que eu nunca vi um sorriso tão largo no seu rosto. Apenas com um simples gesto, era como se ele tivesse iluminado a madrugada. Certamente, seu sorriso brilhava mais do que qualquer uma das estrelas no céu. Era encantador e aconchegante.
— Eu também vou sentir saudades, tampinha — ele me respondeu, ainda sorridente.
Aquelas palavras confortaram o meu coração, mas, de algum modo, o fizeram doer ainda mais. Ouvi-lo dizer que também sentiria a minha falta certamente tornaria a minha partida mais difícil, mas, naquele momento, eu não queria me importar com isso. Eu só queria acreditar em Scorpius Malfoy e na veracidade dos seus sentimentos. Isso seria o suficiente naquela noite, e eu me preocuparia com o restante depois.
— Scorpius, será que você pode me responder uma coisa? — indaguei, um pouco tensa. Ele provavelmente percebera isso ao ver os meus dedos tamborilando contra o banco de madeira.
— O que?
— Por que você começou com todo esse jogo de implicância? Foi tão de repente — falei, verdadeiramente curiosa.
Eu nunca entendi o exato motivo para Scorpius começar a implicar comigo, apenas aceitei o fato e o retruquei em absolutamente todos os momentos possíveis, porque eu nunca levava desaforo para casa. No entanto, eu sempre fiquei curiosa acerca do motivo. Albus nunca me contou, e eu também nunca o importunei para fazê-lo. Nunca quis que ele tivesse a impressão de que eu estava interessada nele, por isso optei por me manter em silêncio e passar todos esses anos curiosa. Contudo, a verdade era que eu não fazia ideia do motivo, passei anos pensando nisso, e Scorpius era o único verdadeiramente capaz de me responder.
Parecendo levemente ansioso, ele passou as mãos pelo cabelo, suspirou e fechou os olhos por alguns segundos. De repente, ele me encarou, como se implorasse para que eu mudasse de assunto. Entretanto, eu não disse uma única palavra. Eu precisava daquela resposta.
— Você quer mesmo conversar sobre o passado agora, Rose? — perguntou, em um tom de voz receoso. — Será que não podemos apenas aproveitar o momento?
— Eu fiquei quase dez anos esperando para saber o motivo, Scorpius. Será que não pode fazer o favor de me contar? — insisti.
— Está bem, se você insiste...
Scorpius se levantou do banco subitamente. Estava completamente aflito, de uma forma que eu nunca o vira antes. Vê-lo dessa maneira fez meu coração palpitar em ansiedade. Em passos lentos, ele caminhava de um lado para o outro, enquanto meus olhos movimentavam-se atentamente, acompanhando-o.
Agoniada, levantei-me do banco e parei exatamente na frente de Scorpius, que teve o seu caminho interrompido. De repente, peguei-me presa nos olhos cinzas, que encaravam-me como se suplicassem para que ele não precisasse responder àquela pergunta. Contudo, não cedi.
— Nós somos amigos agora, não é? Isso significa que você pode me contar qualquer coisa. — Mordi o meu próprio lábio inferior, apreensiva. Aquela seria a minha última tentativa.
— Certo — ele falou, ainda nervoso. — Bem, no verão daquele ano, você começou a sair com o Finnigan, então vocês começaram a namorar, é. — Ele desviou o olhar para o chão, altamente constrangido.
Minha feição expressava pura dúvida. Nada do que Scorpius havia falado parecia conexo na minha mente. Por isso, permaneci fitando-o por mais um tempo, como se esperasse por uma explicação, que não veio.
— Sim, eu comecei a namorar o Finnigan, e qual foi o problema? — perguntei, pensativa.
Scorpius suspirou e levou uma das mãos ao rosto, em completa indignação, enquanto encarava os próprios pés.
— Para uma escritora de romances, você é bem lenta para ligar os pontos — ele disse e riu, um pouco nervoso. — Eu gostava de você, Rose.
— Você o que? — perguntei, incrédula.
A princípio, ele não me respondeu.
— Scorpius, você o que? — perguntei novamente.
Apenas naquele instante os olhos cinzentos encontraram os meus, tão intensos que eu mal era capaz de decifrá-los. Ouso dizer que, naquela fração de segundo, até mesmo prendi a minha respiração, tamanho o nervosismo que tomava conta do meu corpo.
— Eu gostava de você, Rose — repetiu, tão sincero que eu era incapaz de duvidar. — Como qualquer adolescente normal, eu fiquei chateado e me senti mal por não tomar uma iniciativa. Quero dizer, eu devia ter feito alguma coisa. Eu fiquei magoado e triste. Sei que não foi sua culpa, você não tinha como adivinhar, mas a implicância foi o meu mecanismo de defesa, e, ao mesmo tempo, uma forma de te manter perto de mim.
Fiquei completamente estupefata com a declaração. Aquelas palavras foram tão inesperadas, que peguei-me momentaneamente petrificada. Scorpius também não disse mais nada, provavelmente por estar constrangido demais por ter revelado seus sentimentos adolescentes.
Sinceramente, dentre os milhões de motivos que já passaram pela minha mente, aquele, certamente, não foi um deles. Eu nunca imaginaria que ele já havia se apaixonado por mim alguma vez na sua vida.
Para mim, Scorpius Malfoy sempre fora uma pessoa muito misteriosa. Eu não saberia explicar. Às vezes, eu sentia que sabia pouco sobre ele, mesmo o conhecendo praticamente a minha vida toda. Havia alguma coisa diferente na nossa dinâmica. Era como se ele fosse um livro de mistério, cheio de pistas nas quais eu adorava me aventurar, apenas para desvendá-lo, pouco a pouco. A verdade era que eu me divertia naquele jogo oculto que tínhamos um com o outro. No entanto, mesmo com tantas especulações, eu jamais chegaria àquela resposta inesperada, porque aquilo nunca passaria pela minha mente.
Scorpius Malfoy gostava de mim. Essas palavras ecoaram da minha mente centenas de vezes, antes que eu pudesse despertar dos meus devaneios.
— Rose, será que você pode dizer algo para deixar o momento menos constrangedor? — ele quase suplicou. — Sei lá, nem que seja me chamar de idiota — falou em tom brincalhão, tentando quebrar o clima.
Contudo, eu ainda estava paralisada. Era como se eu tivesse acabado de entrar em um choque de realidade. Então, lembrei-me de alguns dias atrás, quando eu passei a noite no seu quarto, e ele havia dito que gostava de mim. Scorpius Malfoy havia dito que gostava de mim. Será que havia alguma possibilidade de ele ter dito tais palavras romanticamente? Meu coração perdeu uma batida só de imaginar, e eu senti as famosas borboletas no estômago, como nos livros clichês de romance.
Era como se aquela declaração da adolescência tivesse subitamente me alertado de algo que, até então, eu não queria ver. Eu sentia algo por Scorpius Malfoy. Uma coisa que, certamente, estava além da amizade. Amigos se preocupavam uns com os outros; cuidavam uns dos outros quando estavam doentes e, até mesmo, confortavam uns aos outros. No entanto, amigos não faziam o seu coração bater mais rápido e, tampouco, te faziam sentir borboletas no estômago. Scorpius Malfoy, por outro lado, me fazia sentir tudo isso, e eu não podia mais negar.
— Scorpius, no outro dia, no seu quarto, quando você disse que gostava de mim. O que exatamente você quis dizer? — perguntei, direta, tentando esconder o meu nervosismo.
— Eu quis dizer exatamente o que eu disse — Scorpius falou, completamente sério e verdadeiro.
Prendi a minha respiração por um instante. Isso significava que Scorpius Malfoy havia se declarado para mim, eu o havia ignorado, e ele simplesmente deixou para lá, como se não fosse nada importante? A minha cabeça estava prestes a dar um nó gigantesco.
Eu tentei falar alguma coisa, balbuciei algumas palavras que, para ele, provavelmente foram incompreensíveis. Minhas mãos estavam completamente trêmulas, e eu sentia como se o meu coração pudesse escapar do meu peito a qualquer segundo; de tão acelerado que batia.
Delicadamente, senti as duas mãos de Scorpius tocarem as minhas, como se ele quisesse me acalmar. Aos poucos e suavemente, seus dedos entrelaçaram-se aos meus, enquanto seus polegares acariciavam a parte superior das minhas mãos. Subitamente, um sorriso surgiu em seus lábios. O sorriso mais sincero que eu vi desde que pisei em sua mansão. Por certo tempo, nós não dissemos nada, e peguei-me perdida nos profundos olhos cinzas, que, naquele instante, não pareciam nebulosos, nem tempestuosos. Na verdade, eles estavam quase tão brilhantes quanto as estrelas que ocupavam o céu naquela madrugada.
— Rose, você leu o primeiro dia da minha agenda, não foi? Três de maio — ele perguntou, com um sorriso discreto nos lábios. — Eu disse que eu sentiria a sua falta. Eu senti, absolutamente todos os dias, até trinta e oito dias atrás. E eu continuei te amando em cada um deles.
Aquela foi a primeira vez, em toda a minha vida, que eu me senti em um livro de romance. Assim como as protagonistas dos clichês bobos, senti como se tudo a minha volta tivesse congelado. Era como se existisse apenas eu e Scorpius Malfoy no mundo, e isso era mais do que o suficiente. Scorpius Malfoy era muito mais do que o suficiente. Ele era alguém que eu queria ter ao meu lado pelo resto da minha vida; para compartilhar minhas alegrias; tristezas; conquistas ou fracassos. Era alguém capaz de me fazer sorrir quando tudo parecia querer desmoronar. Era tudo o que eu precisava, mas era teimosa demais para perceber até então.
Scorpius era o protagonista do meu romance e, naquele momento, eu não me importava em ter um final trágico ou feliz. A verdade é que, quando o amor verdadeiro aparece em sua vida, você não pode deixá-lo escapar. Muitas vezes, a vida não é gentil e não existem oportunidades como as que nós dois tivemos.
Eu conheço Scorpius Malfoy desde os quatro anos de idade; fui sua amiga até os catorze; odiei-o até os dezoito, e odiei-o ainda mais a partir de então. Reencontrei-o quase dez anos depois, no que parecia o fim do mundo; impliquei com ele por dias; tornei-me sua amiga e, aos vinte e sete anos, me apaixonei pelo meu maior inimigo. Demoraram exatos vinte e quatro anos para que eu reconhecesse, em Scorpius Malfoy, a minha alma gêmea. Como eu poderia deixar essa chance escapar? Eu simplesmente não podia. No meio de um mundo caótico, em que tudo parecia perdido, encontramos um ao outro, e isso definitivamente significava alguma coisa.
Nós merecíamos o nosso momento feliz.
Sob o testemunho único das estrelas, nós demos o nosso primeiro beijo. Deixei toda a minha razão de lado quando dei um passo para frente e acabei com a distância entre nós, selando os nossos lábios. Apesar de tantos anos de espera, não havia urgência alguma. Na verdade, era como se tivéssemos todo o tempo do mundo. As mãos de Scorpius, que antes se entrelaçavam as minhas, subiram pelo meu corpo. A esquerda repousou em minha cintura, puxando-me para ainda mais perto, a direita, movimentava-se carinhosamente pelo meu rosto. Como resposta, enlacei os meus braços ao redor do seu pescoço.
Quando o ar pareceu nos faltar, nossos lábios finalmente se separaram. No entanto, eu não me afastei dele. Era como se o meu corpo precisasse de Scorpius e se negasse a, sequer, dar um único passo para trás. Os lábios dele carregavam um sorriso encantador, o que automaticamente me fez sorrir também.
De todos os presentes que o universo já me concedera, reencontrar Scorpius havia sido o melhor deles.
— Eu também te amo, Scorpius — confessei, finalmente, sentindo um peso enorme sair do meu peito. — Mais do que você imagina.
— Tanto assim? — ele perguntou, ainda sorrindo.
Eu não o respondi. Ao menos, não verbalmente. Na verdade, eu apenas o beijei. E o beijei de novo. Depois, o beijei mais uma vez. E ele retribuiu a cada um dos meus beijos.
— Isso te responde? — perguntei, e ele sorriu.
— Não, acho que vou precisar de mais respostas — ele brincou, e eu dei um empurrão fraco no seu ombro.
— Idiota — resmunguei baixinho, de brincadeira, mas logo sorri.
— Não comece, tampinha. Quer mesmo estragar o momento? — ele revirou os olhos, risonho.
— Eu sinto muito por ter feito você esperar por tanto tempo.
— É, eu esperei um tempão mesmo — resmungou. — Mas finalmente você deixou de ser cabeça dura.
— Por que você esperou tanto tempo para me dizer? — perguntei, curiosa e, ao mesmo tempo, indignada.
— E adiantaria algo se eu tivesse dito antes?
Abri a boca, prestes a dizer alguma coisa, mas nada saiu, porque, no fundo, eu sabia que de nada teria adiantado.
— Exatamente — ele proferiu, concordando com a minha falta de argumentos.
De um modo um tanto quanto infantil, eu formei um bico com os lábios e percebi Scorpius rir do gesto.
— Do que está rindo? — perguntei, desconfiada.
— É que às vezes, bem raramente, você consegue ser fofa.
— Idiota — murmurei e dei um tapinha fraco no seu braço, risonha.
Subitamente, senti uma gota gélida pingar no topo da minha cabeça e, inevitavelmente, fiz uma careta, enquanto a chuva fina começava a cair. Scorpius achou graça da situação e, rapidamente, entrelaçou os seus dedos nos meus para puxar-me, em passos rápidos, para o interior da residência.
— Achei melhor entrarmos antes que você ficasse doente novamente — ele disse, um pouco ofegante. — Você me deu um baita trabalhão!
— Ei! — resmunguei, fingindo chateação. — Eu nem dou tanto trabalho assim quando estou doente, ok?
— Não, imagina, Rose. Você apenas se recusava a tomar remédios, como uma criancinha de cinco anos faria.
— Não acredito que mal nos entendemos e já estamos prestes a ter a nossa primeira briga — brinquei, tentando prender o riso.
— Chega de brigas, não acha? Foram tantas ao longo desses anos, acho que merecemos os nossos dias de paz. Que tal uma trégua infinita? — sugeriu, com grande expectativa.
Neguei, movendo a minha cabeça de um lado para o outro.
— O infinito é longo demais, tenho certeza que brigaremos até lá — proferi, convicta.
— Tem razão. — Ele ergueu as mãos, dando-se por vencido.
— Scorpius, falando em infinito, eu... Bem, faltam apenas dois dias para eu ir embora e...
— Eu sei — ele falou, interrompendo-me, como se fosse apenas um mísero detalhe. — Não precisamos falar sobre isso, se não quiser.
Não pude evitar em deixar um suspiro completamente frustrado escapar. Era como se tudo estivesse dando certo pela primeira vez na minha vida, mas esse sonho estava prestes a acabar, tão breve quanto um sopro. Não era nem um pouco justo. Existiam amores que perduravam por anos, resistiam bravamente a situações deploráveis e, ainda assim, duravam uma vida inteirinha. Contudo, aparentemente, esse não seria o meu caso. Nós morávamos em países distintos e ambos éramos maduros o suficiente para reconhecer que relacionamentos a distância raramente davam certo.
— Eu tenho uma proposta — ele falou, despertando-me de meus devaneios com um sorriso estampado nos lábios, como se quisesse me alegrar. — Por que não aproveitamos nesses próximos dois dias tudo o que deixamos de viver nos últimos anos? Não vamos pensar no que acontecerá depois. O que acha?
Eu sorri para ele, levemente aliviada, apesar do meu coração doer um pouco.
— Acho que podemos fazer isso.
— Certo — ele concordou, parecendo satisfeito por sua proposta ter sido aceita. Como se aquilo bastasse. — Por que não descansa um pouco? Você tem dormido mal e, se quisermos realmente aproveitar o dia de amanhã, você precisará de uma boa noite de sono.
— Scorpius... — a minha voz soou mais baixa do que eu queria, e as minhas bochechas certamente estavam rosadas. — Será que você pode dormir comigo essa noite? — pedi, mais tímida do que eu gostaria.
Ele piscou os olhos algumas vezes, demonstrando surpresa, mas não demorou para assentir, com um sorriso discreto nos lábios.
— Claro, Rosie. — Ele se aproximou de mim e depositou um selar em minha testa. — Venha — ele disse, logo após entrelaçar os seus dedos aos meus novamente.
Em passos lentos, ele me guiou para o seu quarto, embora eu soubesse exatamente qual era o caminho. Nós não dissemos nada até chegarmos ao cômodo, quando Scorpius finalmente se pronunciou.
— Bom, você já dormiu aqui antes, então fique à vontade? — ele falou, em um leve tom cômico, e eu sabia que ele estava apenas tentando, de alguma forma, quebrar o gelo.
— É, dormi, porque um certo alguém resolveu que seria legal me deixar desesperada — resmunguei.
— Você reclama demais, sabia?
— Eu não reclamo! — rebati, fingindo chateação.
— Você está muito irritada, Rose Weasley, sabe o que pode melhorar isso?
— Eu não estou! — retruquei novamente.
— Bem, só existe um jeito de lidar com essa situação — ele proferiu, misterioso, deixando-me curiosa e, ao mesmo tempo, atenta aos seus movimentos.
De repente, senti as mãos de Scorpius sobre o meu corpo, em um ataque de cócegas, algo que ele sabia que eu detestava. Inevitavelmente, com uma reação um tanto quanto exagerada, eu comecei a me debater, enquanto uma gargalhada nada discreta escapava dos meus lábios incontrolavelmente. Em um gesto automático, empurrei o Malfoy para trás, fazendo-o cair sobre o colchão. Antes que ele pudesse reagir, aproveitando-me daquele breve momento de distração alheia, subi sobre a cama e ajoelhei-me sobre ele, apoiando cada um dos meus joelhos de um dos lados do seu tronco.
A minha respiração estava um tanto quanto ofegante, devido às gargalhadas, e Scorpius me encarava com uma feição impassível. Era quase impossível imaginar o que estaria se passando em sua mente, mas eu sabia exatamente o que se passava na minha, e isso bastava.
Aos poucos, inclinei o meu tronco, até que os meus lábios finalmente foram de encontro aos dele, dando início a um beijo lento e calmo. Enquanto uma das minhas mãos mantinha-me equilibrada sobre o colchão, ergui a outra até tocar o seu rosto, acariciando-o delicadamente. Scorpius, por sua vez, levou as suas mãos até o meu quadril, segurando-o firmemente, como se precisasse me manter por perto.
Quando nossos lábios separaram-se por um segundo, Scorpius aproveitou para se sentar na cama, mantendo-me em seu colo, virada de frente para ele. Seus braços agora envolviam toda a minha cintura, mantendo-me tão próxima que eu era capaz de sentir o calor emanando do seu corpo, ansiando por mais, assim como eu.
Em uma urgência inesperada, dirigi os meus lábios até o pescoço de Scorpius, distribuindo beijos por toda a região, em um caminho que me levasse de volta para os seus lábios, dando início a um beijo mais intenso do que qualquer um dos anteriores. Enlacei os meus braços ao redor do pescoço dele, negando-me me afastar até que o ar se tornasse raro para nós.
Assim que os nossos lábios se separaram, levei as minhas mãos até a barra da camisa de Scorpius e a ergui sem pensar duas vezes, e, após retirá-la, atirei-a para um ponto qualquer do quarto. Antes que eu sequer pudesse fazer qualquer coisa, senti os lábios de Scorpius tocarem o meu pescoço, enquanto as mãos subiam pelo meu corpo, por debaixo da minha roupa, causando-me um certo arrepio. Ele trilhou todo um caminho pelo meu pescoço, em meio a beijos e mordidas fracas, até que chegou ao meu ouvido, fazendo-me arfar, desejando por mais.
— Nós não precisamos fazer nada que você não queira — ele sussurrou, fazendo a minha pele se arrepiar por inteiro novamente.
Então eu sorri para ele, aproximei os meus lábios dos seus, e o respondi, também com um sussurro:
— Mas eu quero.
Até então, eu não tinha consciência de que eu precisava tanto de Scorpius Malfoy. Era como se cada célula do meu corpo implorasse para tê-lo; como se eu tivesse aguardado por aquilo por anos. Felizmente, aquela simples resposta bastou para que Scorpius me tornasse inteiramente sua naquela noite.
Fale com o autor