Notas iniciais
Ciborgue pisca algumas vezes, acordando. Olha em volta um pouco desorientado, tentando lembrar onde está.
Ah, sim. Sentado diante das televisões de segurança em seu quarto, que transmitem as imagens das câmeras por toda a Torre. Ciborgue passa o olho por todas elas, não realmente prestando atenção no que está vendo, até que decide pegar um pouco de café.
Por que estava acordado mesmo? Geralmente ia dormir, mesmo com as telas ainda ligadas. Vira a cadeira e, assim que o faz, vê inesperadamente uma Estelar andando em direção a ele com uma expressão um tanto preocupada, e então tudo se encaixa.
Mutano.
— Como vão as coisas, amigo? — Estelar pergunta.
— Eu… eu não sei. — Ciborgue se ajeita novamente na cadeira. — Eu estava de olho nos dois, mas acabei pegando no sono.
— Mutano não a machucou? — Estelar coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Não, da última vez em que olhei Ravena estava apenas limpando os cortes dele. — Ele vira a cadeira novamente em direção às telas e começa a procurar aquela com o melhor ângulo do sofá da sala. — Ele ainda estava desacordado.
Os dois varrem o olhar pelas dezenas de telas: uma garagem com o carro de Ciborgue e a moto de Robin, alguns corredores escuros, uma sala de musculação vazia, uma enfermaria propositalmente já iluminada e operante (com uma maca de algemas já pronta, preparada pelos três assim que deixaram Ravena com Mutano na sala), uma cozinha banhada apenas por uma luz pálida, um Robin sentando logo do lado de fora da porta automática que dá na sala (segurando um bastão na intenção de estar pronto para atacar, mas com a cabeça abaixada pelo sono)...
E então Estelar aponta para uma das telas.
— Lá estão eles! — Ela franze o cenho. — O que estão fazendo?
Ciborgue acompanha o dedo dela e se depara com um borrão verde e outro de pele clara, ambos com manchas vermelhas, sentados no sofá. Ele fita a imagem por alguns segundos, tentando processar o que está vendo e identificar o que processou, pois a imagem não tem uma qualidade tão boa e a penumbra do ambiente não ajuda.
— Ah, meu Deus… — Ele desvia o olhar rapidamente, na fração de segundo em que entende a situação.
— O que foi? — Estelar pisca para a imagem e então para o amigo que quase caiu da cadeira e já está se engasgando na própria saliva.
— Ah… meu… Deus. — Ele se levanta e vai para o outro lado da sala com passos rápidos e balançando a cabeça como se quisesse desver o que viu. — Ah, meu Deus.
— O que houve? — Estelar semicerra os olhos para a imagem e olha confusa para Ciborgue. — O que você viu?
— Ele não… ela não… eles não… Eu não acredito. — Ele murmura mais para si mesmo do que para Estelar.
— Mas que coisa, Ciborgue! — Ela começa a flutuar e cerra os punhos. — Diz logo o que é.
— Ah, cara… — Ele passa a mão pela cabeça ao parar sua marcha subitamente. — Se eu vi direito, e eu espero não ter visto, eu acho que eles… você sabe.
— O quê? — Ela dá de ombros, sem entender.
— Você sabe…
— Não, o quê? — Ela olha confusa para a imagem. Ciborgue corre para segurá-la pelos ombros e fazê-la desviar o olhar.
— Ah… eles, hã… ah, meu Deus… fizeram… você sabe… — Ele entrelaça os dedos lentamente e comprime os lábios. A expressão no rosto de Estelar vai se atenuando enquanto seus olhos se arregalam. Ela vira para a tela rapidamente e então novamente para Ciborgue.
— Não… — seu queixo cai.
— Se eu entendi direito! — Ele completa, mas ambos sabem que ele entendeu direito.
— Ele não estava todo machucado e… quase homicida? — Estelar pergunta. — Ravena também estava muito abalada.
Ciborgue não responde então ela continua.
— Eu sabia que eles se consideravam namorados — Estelar pisa no chão ao parar de flutuar e Ciborgue assente —, mas eu acho que nunca nem os vi se beijando. Há quanto tempo será que eles fazem isso? Não é algo que ele teria te contado?
— Eu não sei… — Ciborgue se senta na cadeira e fita o chão. — Sabe, agora que estou pensando, mais ou menos no último mês não foram poucas as vezes em que eu os encontrei pelos corredores de madrugada ou mais grudados do que de costume. E aconteceu também aquele incidente no balcão da cozinha. Na época pensei que tivesse sido um fato isolado, mas agora que eu tenho essa informação…
— É, anteontem eu vi os dois na lavandeira e eles estavam bem estranhos. Por causa de tudo que está acontecendo com Mutano, achei que tivesse a ver com isso, mas, quer dizer… — Estelar hesita — Mutano estava com aquela roupa de policial do Mumbo desabotoada…
— Ah, meu Deus — Ciborgue faz uma careta —, na lavanderia?
— Eles sabem que há câmeras, certo? — Estelar gesticula em direção às telas. — Quer dizer, Robin está logo atrás da porta.
Ciborgue se sobressalta.
— Robin! — Ele se levanta e volta a andar frenético pelo quarto. — Lembra quando ele os encontrou no balcão da cozinha? Ele surtou. A bronca que eles levaram chegou a me dar medo. E olha que ele também me deu um sermão.
— Se ele vir isso… — Estelar une as mãos nervosamente e volta a flutuar.
— Eu vou até lá e dizer para ele ir dormir ou algo assim… — Ciborgue começa a andar em direção à porta. — ... Porque parece que Ravena e Mutano já estão bem...
Ele abre a porta e, no instante em que dá um passo para fora, dá de cara com Robin, com o braço esticado para bater.
— Robin! — Ciborgue pula, e olha instintivamente para as telas de segurança.
— Vim ver como eles estão pelas câmeras. — Robin entra no quarto. — Não quis entrar na sala porque Ravena me disse para deixá-los em paz.
Ele caminha em direção às telas e Estelar rapidamente flutua mais alto para ficar bem em frente à televisão que mostra o sofá e bloquear sua visão.
— O que foi? — Robin avança para olhar as telas mais de perto e foca em uma bem abaixo do braço de Estelar. Seus olhos focalizam justamente na cena do sofá e ele franze o cenho. — O quê? Não…
Ele fica cara a cara com a tela. Estelar flutua para longe, para ficar ao lado de Ciborgue, ambos prendendo a respirção. E então Robin desvia o olhar, cerrando os punhos.
— Robin… — Estelar fala com cautela.
— MUTANO! RAVENA! — Robin berra. Tão alto que, quando os três se viram novamente para a imagem, veem um Mutano e uma Ravena, nus e conversando, se encararem de repente e então olharem assutados na direção do som.
Robin corre até a porta e vira para o corredor, indo para a sala, e Estelar o segue, voando. Ciborgue só tem tempo de olhar novamente para imagem e ver Ravena e Mutano, desesperados, pegando suas roupas do chão, até que ele se vira e corre atrás deles também, agora segurando a risada.
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