4 Muros

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Olá leitoreeees! Primeira fic aqui, comentários e criticas construtivas são muito bem vindos! :3

Um jovem artista vaga pela cidade, sem rumo, isso já não lhe importa mais, já perdeu algo de muito importante. Agora não basta de uma mera casca do homem que já foi. Agonizado com o mundo que o rodeia, sua confiança se perdeu, assim como seu amor.

Traição, essa palavra antes nunca conhecida se mostra em sua frente, encarando-o com um olhar malévolo, sua boca jorrando veneno. Não há como lutar contra a fera, então ele corre, ao fundo com o som de um rugido misturado com o canto de uma sereia, é encantador e o chama de volta. Porém, o rugido o abafa, sua própria raiva o abafa, e no final, é ignorado.

Correr, essa é a única palavra que lhe vem à cabeça, mas para onde? Todo esse mundo lhe traz tristeza, todo esse mundo o magoa. Para onde correr então? Assim, um pensamento lhe surge.

- Se não quer sofrer, não corra — Diz uma voz suave e calmamente – Se livre do mundo, se livre da dor, se livre de tudo. Se isole, construa muros ao seu redor, tão altos e fortes que não se machucará mais.

Sem pensar novamente, ele o faz, ele constrói uma torre ao seu redor, sem portas e sem janelas, apenas quatro paredes. Por um tempo, vive feliz, a voz lhe dá companhia, mas logo se sente vazio novamente. Pensa então em pintar os muros que o cercam.

Um muro pinta uma praia em um dia de verão, um sol radiante, um céu azul, um calmo oceano e areias brancas. Em outro, pinta um clareira na primavera, flores crescendo em seu meio, delicadas e belas, adornando a grama com suas cores e ao fundo altas árvores com seus galhos pulsando com vida.

No terceiro, opta por uma noite típica de dias das bruxas, um campo de grandes abóboras contrastam com as macabras árvores com suas folhas alaranjadas caindo no chão, com uma bela lua cheia como toque final. E para o último, pinta a neve, branca e pura, pinheiros altos se destacam na colcha branca que se estende pelo chão de modo que este seja encoberto.

Mas no final, aquelas pinturas não eram nada. Não sentia o calor do sol, não sentia o cheiro das flores, não via as folhas caírem, não sentia o frio da neve. No final era tudo vazio. O artista revoltado então limpou os muros.

Porém o tédio lhe afligira mais uma vez. Ele se volta ao muro, e a suas memórias buscam inspirações para preencher sua solidão. Em sua mente lhe vem sua mãe primeiro. Uma mulher forte e trabalhadora, sempre esteve ao seu lado com palavras de incentivo e de consolo. Apesar de seu olhar cansado, sempre tinha um sorriso em seu rosto, e desta forma, a representara.

Logo após pensa em sua irmã, jovem e inocente, com um sorriso que sempre iluminava o dia, mas o que sempre a destacava era seus cabelos ruivos. Eles combinavam com ela perfeitamente, eram como uma bela moldura para uma bela pintura. Sua cor rubra também se encaixava com sua personalidade, sempre fora cabeça quente.

Lembra-se de sua primeira namorada, e assim começa a pinta-lá, focando seus olhos. Aqueles olhos não eram bonitos, não tinham uma cor chamativa, eram apenas mistérios, assim como ela. Eles eram um espelho de sua alma, suas emoções e seus pensamentos eram esboçados neles, foi por isso que se apaixonou, ele amava seu ar misterioso.

A última mulher que pôde pensar foi seu amor, a mulher que o traíra, a mulher que quebrou seu coração. Ele ainda a amava e disso não tinha dúvida, queria poder sentir seu toque, seja num beijo, num abraço ou apenas tocar em sua mão, só queria que ela estivesse ao seu lado.Portanto dedicou o último muro a ela.

Novamente termina seu trabalho, orgulhoso o admira. Olha para sua mãe, mas logo percebe que seus lábios não lhe dizem nada, seu sorrio é vazio. Imediatamente se vira para a irmã, seus cabelos que sempre esvoaçavam ao vento, não se mexiam e pareciam mortos. Vira-se para sua ex-namorada, seus olhos estão opacos, não tem uma alma que resida neles. Em desespero, olha para seu amor. Mesmo que lhe doa olhar, ela parece estar perfeita, mas ao tocar na pintura, não sente o calor de sua amada, ele é abraçado pelo frio.

Os muros então voltam a sua cor original. O ciclo se repetiu varias vezes. Pintou os muros novamente, mas no final sempre se angustiava e os apagava. Pintou flores, árvores, animais, cidades, florestas, lagos e pessoas. Pintou de tudo um pouco, mas ainda se sentiu sozinho.

Esse vazio o devorava, consumia teu corpo e tua alma. Sua raiva só crescia, já não aguentava mais, estava cansado desses muros, cansado de pintar seu mundo, só queria fugir. Estava com saudade... saudade? Saudade do que? Seria do mundo lá fora? O mundo que o machucou tanto? No final sentia falta disso?

Sim, era verdade que o mundo o feriu, mas também lhe deu muitas coisas boas, sua mãe, sua irmã, suas obras que antes traziam felicidade a todos ao seu redor. Gostaria mesmo de acabar ali, em um mundo vazio e desolado sem uma alma para lhe fazer companhia?

A resposta era obvia, não queria viver isolado para sempre. Queria ver o mundo ao seu redor, até mesmo sua amada queria ver, mesmo que fosse um encontro melancólico e doloroso, queria vê-la novamente.

Então começou a tentar quebrar os muros. Mas rapidamente a voz lhe aparece:

-Ora ora, o que aconteceu? Por que quer sair? Não está sozinho aqui, você tem minha companhia, não é mesmo?

Ignorou a voz e continuou seu trabalho firmemente. Tentou durante dias, mas seu corpo fraco só ia definhando. No décimo dia, parou. Queria gritar, mas estava fraco demais, já não adiantava mais. A morte estava ao seu lado nesse mundo, assim, duas certezas lhe atingiram. Nesse tempo viveu sua vida não a vivendo. E por último...

Morreria na companhia da Solidão

Notas finais
Espero que tenham gostado, obrigada por lerem! :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!