3º Desafio Sherlolly
1 Até o fim
Notas iniciais
__ Promete?
__ O que?
__ Que nunca vai me abandonar.
Enlacei minha mão na dele. Estava tão quentinho ali, deitada com a cabeça em seu peito. Sentia seu braço em volta dos meus ombros, como se quisesse me proteger de alguma coisa. Conseguia ouvir o bater do coração, o ritmo incessante, por debaixo da pele. Eu nunca queria sair dali.
__ Prometo – deixou um beijo na minha testa.
O remorso bateu. Eu ainda tinha uma coisa para dizer. E, infelizmente, essa coisa poderia – ou não – estragar a nossa vida juntos.
Eu tinha que contar. Ele não ia demorar muito a perceber, então esconder não era uma das possibilidades. Mas eu tinha medo. Tinha medo de que ele sumisse, e me deixasse sozinha para sempre. Ou que ele simplesmente surtasse.
Eu tinha que contar. Eu ia contar.
__ Sherl...
__ Hm...? – ele mastigava uma porção de pipocas.
__ Tenho que te contar uma coisa.
__ O que foi? – ele engoliu as pipocas, enfiando a mão no pote em busca de mais. Acabaram todas.
__ Eu... – tomei fôlego. As palavras pareciam ter grudado na garganta, não queriam sair de jeito algum. – Eu... fui a farmácia hoje. Comprei um teste de gravidez.
Sherlock endireitou as costas no sofá. Seus olhos brilharam, olhando para mim.
__ E ai...?
Soltei os ombros. A essa altura, com o tanto que minhas mãos tremiam, ele já adivinhara a resposta. Levantei os olhos, encontrando os dele, me denunciando com o olhar. Seu rosto se iluminou com felicidade, ele mal teve tempo de dizer alguma coisa. Me envolveu com os braços, me agarrando o mais forte que podia. Não fazia ideia do que fazer. Do que dizer. Meus olhos desabaram em água quando percebi que ele também chorava. Baixinho, esperando que ninguém o visse, as poucas lágrimas descendo pelas bochechas, quase encontrando o maior sorriso que já tinha visto em seu rosto.
Não havia nada a dizer. Nada a fazer. Somente sentir.
O filme corria na tela; eu não conseguia prestar atenção. O que vai acontecer, de agora em diante? O que vamos fazer? É uma criança, mais um ser humano, mais uma vida. A casa é pequena, vamos precisar de mais um quarto. Será que vai ser menino ou menina? Precisamos escolher um nome, mais para frente. Vamos gastar muito comprando tudo, vou ter que apelar para o dinheiro extra que guardei durante tanto tempo. Vai ser uma boa causa.
A animação do momento me deu sede. Levantei e, descalça, corri até a cozinha. Puxei um copo do escorredor e enchi de água. Lembrei-me dos remédios que tinha que tomar. Mais uma coisa para a lista: preciso perguntar a médica o que eu posso tomar enquanto estiver... grávida. É, está na hora de admitir e se acostumar a usar essa palavra como descrição para mim.
De repente, vi um vulto surgindo na porta. Soltei a cartela da droga, deixando que alguns comprimidos soltos caíssem no chão. Quando notei quem era, suspirei aliviada.
__ Você tem que parar de me assustar!
Ele riu. Encostou-se ao batente, me observando enquanto eu deitava o comprimido na língua e o engolia com um pouco de água. Devolvi a cartela na bancada de pedra e passei por ele com a maior normalidade do mundo. Bom, pelo menos tentei passar.
Ele me agarrou pelo braço, puxou minha cintura e me beijou. Tudo foi tão rápido que, quando percebi, a única coisa que conseguia ver no campo de visão eram aqueles olhos verdes-esmeralda, me encarando enquanto nossos lábios dançavam juntos.
Quando parei para respirar, ele me manteve próxima, afagando meu cabelo e depois meu rosto. “Nunca, nunca mesmo, eu te abandonaria. Você é um pedaço da minha vida agora, Molly Hooper. É um pedaço de mim” ele sussurrou. Minhas pernas perderam a força. “Te amo”.
__ Eu também, Sherlock – devolvi, depois de mais um beijo.
***
*Exatamente quatro meses*
__ Que dia é hoje? Já podemos fazer o ultrassom?
Naquele momento, era difícil saber se Sherlock era adulto ou criança. Acordou cedo, se vestiu e só depois me acordou. A primeira coisa que senti foram dois chutes da criança na barriga. Era a coisa mais espetacular do mundo – sentir aquele tipo de coisa que me fazia abrir um sorriso (e os olhos). Havia crescido consideravelmente desde o primeiro mês, e eu começava a me preocupar. O que estava fazendo aquela criaturinha crescer tanto em tão poucos meses?
Coloquei a mão na barriga, tentando encontrar o ponto exato do impacto. Deslizei os dedos até achar, e senti mais um.
__ Coloca a mão aqui – puxei sua mão, colocando-a no mesmo lugar, ao lado da minha. Quando ele sentiu a pontada, não aguentou segurar as risadas e algumas lágrimas. Era lindo vê-lo animado daquele jeito. Era como uma criança que acabara de ganhar um brinquedo novo, doido para se divertir, passar tardes e tardes a fio com o presente.
__ Ainda não respondeu minha pergunta: já podemos fazer o ultrassom?
Fiz as contas nos dedos. De acordo com o número de semanas, sim.
__ Talvez. Não sei se quero saber alguma coisa antes dela nascer.
__ Como assim? – ele franziu o cenho. Entristecera um pouco.
__ Não sei, acho que seria mais legal se mantivéssemos o segredo até o fim do processo. As roupinhas de bebê não vão fugir das lojas. Ou podemos compra-las em cores neutras, para que sirva para os casos.
__ Mas, mas... Mas eu...
Só então notei o quanto ele esperava pelo dia de hoje. Faz exatamente quatro meses que recebi a notícia, e ele estivera cronometrando os dias esse tempo todo, esperando a época em que finalmente saberia o sexo do bebê. Pensei um pouco. Bom, não fará muita diferença se nós soubéssemos agora; mas seria muito mais divertido se não soubéssemos de nada. Não faria mal, eu faria isso para vê-lo sorrir. Suspirei, tirando as cobertas de cima das pernas e encostando as pontas dos pés no chão gelado.
__ Tudo bem. Se quiser, pode ligar para a clínica e marcar o ultrassom. Eu faço.
__ Não – ele disse, me olhando. – Não tem problema. Vai ser mais divertido se soubermos disso no dia do parto. Você está certa, amor. Mas pelo menos podemos ir fazer as compras?
Soltei uma gargalhada sincera. Sim, aquele fora o homem que eu escolhi para passar a vida ao meu lado.
__ Tudo bem. Quer ir agora?
__ Hum... Yep – abriu um sorriso.
Eu jamais poderia resistir à aquele pedido.
***
*Sete meses*
Corri para o banheiro. Atirei-me ao chão, diante do vaso sanitário. Era incontrolável a vontade de colocar tudo para fora. Minha cabeça doía, minha barriga doía, minhas mãos suavam. Eu estava com frio, tremendo um pouco. Aquilo era incomum – a segunda ou terceira vez que um enjoo tão forte me atingia, em sete meses de gravidez. Assim que terminei, fechei os olhos. Não conseguia me acalmar. Era horrorosa a sensação.
Ele me observava de cima. Esperava-me com uma coberta, mesmo sabendo que eu teria que tomar um banho depois daquilo. Sobre a cama do quarto, me esperava mais um pijama e uma xícara quente de chá – embora o cheiro ainda me enjoasse. Limpei a boca com a manga longa da blusa. Apoiei-me em seu braço para chegar perto da banheira, onde uma água quente jorrava da torneira, já inundando o ar de vapor.
Joguei aquelas roupas no chão, deitando dentro da banheira. Estava relaxante. A dor na cabeça começava a passar, e minhas mãos não suavam tanto. Era julho, então aquele frio era, provavelmente, uma febre. Sherlock sentara na borda do recipiente, segurando minha mão. Como era costume, me escaneava de cima a baixo. No início, eu ficaria sem graça – afinal de contas, eu estava nua –, mas aprendi a não me importar de seus olhos correrem em meu corpo.
__ Está melhor? – ele perguntou, depois de dez minutos. Acenei que sim. – Quer sair dai? – repeti o movimento. – Tudo bem.
Ele me ajudou a levantar, me cobrindo com a toalha felpuda que sempre deixo no armário do banheiro. Me sequei, acariciando a barriga – enorme – com os pelinhos macios da toalha. Quando terminei, voltei para o quarto, troquei de roupa e bebi o chá o mais rápido que podia. Estava faminta.
__ Quer que eu faça alguma coisa para você?
__ Não, eu faço, amor. Pode descansar, você não tem dormido muito – respondi. – O que está acontecendo com você?
__ Eu... Eu... Eu me preocupo. Me preocupo em dormir, você me chamar para alguma coisa e eu não acordar. Tenho medo que alguma coisa aconteça com você – ele parecia estar sendo sincero. Escondeu as mãos nos cachos, puxando-os para trás e devolvendo os dedos aos bolsos do robe. Eu sabia bem o que aquilo significava.
__ Nem que eu quisesse muito, encontraria um homem que se preocupa tanto comigo quanto você – brinquei, vendo-o esboçar um sorriso leve. – Não precisa ficar tão tenso o tempo todo. Não vou morrer, ainda vou passar muito tempo te atormentando aqui.
__ Por favor, me atormente por toda a eternidade.
***
*No dia do casamento*
__ Sra. Hudson, chame Sherlock! Acho que é agora, a criança vai nascer!
Soltei um grito de dor. Mas, criança, justo hoje! Justo agora! Você adora uma entrada dramática, é igual ao pai. Eu já estava com o vestido no corpo, o salto nos pés e a maquiagem no rosto – porque teve que escolher essa data em particular?
Deitada na cama do quarto, urrando de dor, consegui ouvir os passos dele e de Mary chegando perto. Vi seu olhar encontrar o meu, e consegui me acalmar um pouco. Mais uma contração. O que eu iria fazer? Como iria para o hospital de vestido de noiva?! Soltei mais um grito.
__ Meu amor, vem cá – me pegou no colo, usando toda a força que tinha para carregar nós dois mais o vestido. Mary foi à frente, fazendo a seleta do que levaríamos para ele e abrindo as portas, para que os noivos pudessem ir passando. A dor me cegava, meus olhos ardiam em lágrimas de felicidade misturada com desespero. Todos os pensamentos horríveis e imagináveis passaram pela minha mente durante aqueles momentos.
E se o bebê nascesse morto? E se eu morresse no parto? E se nós dois não sobrevivêssemos? Eram possibilidades consideráveis, mesmo que a médica do pré-natal dissera que as chances de coisas assim acontecerem conosco eram mínimas, já que não tive uma gravidez de risco.
Não me lembro de muita coisa depois disso. Lembro da sensação libertadora do vestido sendo rasgado, para que pudesse ir para a sala de cirurgias. Lembro-me também de alguém segurando minha mão, enquanto me corriam pelo corredor. Depois, durante o parto, não senti mais a mão me confortando.
Quando acordei no outro dia, minha primeira sensação foi de solidão. Eu me sentia incompleta. Meu bebê, minha criança, não estava mais ali, perto de mim, debaixo dos meus cuidados. Eu queria ela em meus braços, e queria naquele instante. Abri os olhos de supetão, sentindo uma pontada da luz clara no cérebro. Com algum esforço, virei a cabeça para os dois lados; na direita, uma mesinha com rosas brancas. Na esquerda, um Sherlock adormecido na poltrona.
Ele parecia menos ele, assim. Digo, ele não parecia Sherlock Holmes, o homem genial que desvenda crimes junto a Nova Scotland Yard e ao lado de seu fiel escudeiro, Dr. John Watson. Ali, agora, deitado naquela poltrona, com as feições relaxadas, ele parecia somente Sherly, o homem mais cuidadoso, carinhoso e preocupado que eu conheci. As olheiras enormes, os lábios em formato de coração que eu tanto gosto, as mãos escondidas nos bolsos do casaco preto.
A porta se abriu. Um médico entrou, jaleco e prancheta, estetoscópio no pescoço. Louro dos olhos castanhos e baixinho, me lembrava um pouco Watson. Olhou os papeis, me olhou, passou os olhos em Sherlock, e voltou para mim.
__ Srta.... Hooper, isso mesmo?
__ Isso.
__ Seu parto foi um sucesso. Tudo está excelente, não houve nenhuma complicação. Mas eu tenho duas novidades, as duas são excelentes.
Esperei ele falar.
__ Bom, a primeira é que vai poder sair daqui amanhã, se quiser. A segunda é que... vai sair daqui com uma dupla de ruivinhos. Parabéns, Srta. Hooper. São gêmeos idênticos.
Notas finais
Beijinho da ruiva,
Lua.
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