38 graus
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Ochako suspira em satisfação e acaricia a barriga de leve, o almoço estava ótimo! Mas ótima mesmo será a tarde que ela terá pela frente, vai arrumar algumas coisas em seu dormitório, ler os mangás que a Mina lhe emprestou e simplesmente não fazer mais nada até a hora do jantar. Como ela adiantou a rotina de exercícios na academia e a limpeza mais pesada de seu quarto hoje de manhã, assim como o dever de casa ontem à tarde, pode se dar ao luxo de relaxar pelo resto do domingo sem grandes preocupações!
É ótimo estar livre assim, mas ela fica pensando no porquê de ter que aproveitar seu dia sozinha, calhou de ser um daqueles fins de semana no qual todos os colegas voltam para a casa dos pais, não acontece sempre, é mais comum que uns ou outros amigos passem a tarde de sábado e o domingo nos dormitórios, então ela quase nunca fica sozinha, mas às vezes acontece. Todas as meninas voltaram para suas casas a fim de passar um tempo com os pais, o Deku e o Iida, garotos mais próximos dela, também foram. Não que Ochako fizesse muita questão da companhia de pessoas com quem não tem muita intimidade, como o Aoyama, ou pessoas com quem não se sente confortável, como o Mineta, mas… os corredores dos dormitórios parecem até mais escuros de tão silenciosos, ficar sozinha é… meio estranho.
Mas ela entende, também iria para casa se pudesse — leia-se se as passagens de trem não fossem tão caras, ainda assim Ochako não se lembra da última vez em que se sentiu tão solitária desde que o sistema de dormitórios foi instaurado.
Ela entra no elevador e respira fundo, recapitulando o que tem que fazer antes de poder relaxar, mas é interrompida por uma mão se enfiando entre as portas do elevador, impedindo-as de se fecharem completamente, ela se surpreende, mas logo se acalma ao ver a pessoa que entra no pequeno cubículo espelhado com ela.
— Boa tarde, Todoroki-kun! — ela o cumprimenta educadamente, ele apenas acena com a cabeça, mal olhando-a — E-esqueceu alguma coisa e veio correndo pra pegar, né?
— Não. — ele diz, uma conversa normal se seguiria com ele explicando o porquê de tê-la corrigido, mas Ochako às vezes se esquece que o Todoroki não é muito dado a conversas sobre amenidades — Vou ficar aqui hoje.
— Ah sim. — ela sorri, mais por hábito do que por estar realmente feliz. Nada contra ele, o Todoroki é extremamente educado e gentil, o problema é ela que nunca sabe o que dizer e como agir perto dele. Eles interagem bastante em exercícios de combate nas aulas e quando almoçam juntos na mesma mesa, mas sempre há mais pessoas ao redor. Em saídas casuais, sempre tem o Iida, a Tsuyu e principalmente o Deku, que é a grande cola desse grupo, para preencher qualquer silêncio. Foram raras as vezes em que ela ficou sozinha com o Todoroki e, em todas, Ochako sempre teve a sensação de que estava se esforçando demais para ser simpática, o que deve deixá-lo desconfortável e ainda menos inclinado a jogar conversa fora. Complicado! Mas ela resiste à própria timidez, determinada a não ser só a menina que tem amigos em comum com ele — Eu também vou! Se você… se você quiser companhia pra jantar, a gente pode- AHHHH! — ela não consegue terminar o convite pois o Todoroki se joga em cima dela, empurrando-a contra uma das paredes do elevador no processo. Ochako sente o rosto pegar fogo ao notar a respiração pesada dele contra seu pescoço — T-T-Todoroki-kun, o que você está fazendo? — ela tenta soar firme quando o empurra, não acreditando na possibilidade de ter que fazê-lo flutuar para ensinar-lhe uma lição, Ochako achou que um dia faria isso com o Mineta ou mesmo com o Bakugou quando ele vem com grosserias gratuitas para cima do Deku, mas o Todoroki? Ainda mais por… por algo assim? — Eu tenho certeza que nunca… que nunca te dei essa liberdade, Tod- — ela já se prepara para o sermão quando o afasta, chocada ao ver o rosto dele diretamente — Todoroki-kun? Você tá bem?
Agora é ela quem se aproxima, segurando o rosto dele para vê-lo melhor, a respiração dele continua pesada, Ochako faz o que sua mãe fazia com ela: leva a mão à testa dele para ver se está quente e… está, bom, pelo menos parte dela, incrível que a metade coberta por cabelos vermelhos está ardente, já a outra metade coberta por fios brancos é gelada, o que chega a ser um tanto mórbido. Claro, a individualidade dele deve bagunçar a temperatura corporal, não dá para diagnosticar uma febre só de bater o olho, bom, na verdade, até dá, não é difícil reconhecer os tremores nas mãos, os olhos meio vidrados também denunciam o estado febril, Ochako só não sabe o quão alta está, mas deve ser bastante a julgar pelo estado dele.
— Não se preocupe, Todoroki-kun, eu vou te ajudar!
***
Shouto acorda e não reconhece o teto acima de si, o que indica que não está em seu próprio quarto. Olhando para os lados, ele vê as cortinas esbranquiçadas balançando levemente e se localiza: é a enfermaria.
Como ele chegou aqui? Shouto estava a caminho de seu quarto, esperançoso de que poderia regular a temperatura do ambiente para aliviar o que só poderia ser uma febre considerando como estava sentindo frio. Ele sabia que tinha pegado uma gripe e contava com o fim de semana livre para se recuperar, tanto é que preferiu não ir para casa, a última coisa que ele precisava era a Fuyumi toda preocupada e o pai dele lhe dando um sermão sobre irresponsabilidade e falta de auto-preservação, de verdade, dá para encarar uma gripe, mas não o Endeavor enchendo o saco. Era melhor se cuidar sozinho, foi o que ele pensou, embora agora esteja certo de que isso não é verdade. Shouto mal se lembra do que estava fazendo no elevador, embora tenha conversado com alguém… uma voz melódica, cabelos macios e cheirosos… mas como ele saberia disso a não ser que…?
Ah. Ah não.
Ele empurra a cortina da maca e se depara com olhos castanhos curiosos, suas suspeitas estavam certas.
— Ah, você acordou! — ela sorri e guarda o celular no bolso da jaqueta — Tá se sentindo melhor, Todoroki-kun?
— Sim.
— Ufa, que bom! Eu fiquei tão preocupada! A Recovery Girl não está aqui, a enfermeira assistente que cuidou de você, ela disse que sua febre parecia tão alta que pensou que poderia ser alguma infecção, mas como você não tinha nenhum ferimento mal-cuidado, ela viu que era uma gripe. E a sua febre era de 38 graus, parecia bem pior!
— Não consigo controlar minha temperatura quando fico com febre, por isso pode parecer mais grave do que realmente é. — ele explica.
— Imaginei mesmo. — ela concorda e sorri — Bom, pelo menos você está melhor agora, né?
— Sim. Você me trouxe aqui, Uraraka?
— Hã? Ah sim! A gente se encontrou no elevador, não sei se você lembra. Aí eu te levitei até aqui, se você estiver sentindo algum desconforto na barriga, pode ser por causa disso, inclusive.
— Não, estou bem. — curioso como ele se esqueceu que ela poderia usar a individualidade assim, não lhe pareceu nem um pouco difícil de imaginar que ela pudesse carregá-lo só com a própria força — Me perdoe pelo incômodo e por ter atrapalhado seus planos, Uraraka.
— Ah, imagina, imagina! Eu não tinha nada pra fazer! Só ia ficar no meu quarto tranquila, foi até bom ter algo para fazer… A-argh! Quer dizer, não que seja bom você estar doente, de jeito nenhum! — ela se embanana toda e arregala os olhos, o que o faz sorrir, às vezes ela e o Midoriya parecem irmãos em como se assemelham em suas reações… hum, será que eles não são irmãos perdidos, de fato? Está aí algo a se pensar — E-enfim, fiquei muito assustada porque você estava todo estranho no elevador e não sabia bem o que fazer, m-mas… mas agora está tudo bem!
— “Estranho”? Por quê? O que eu fiz?
— Hã? Ah, nada demais! Você só parecia mais aéreo… — “mais”, o que quer dizer que ela sempre o acha aéreo — e, bom… — Uraraka vai ficando vermelha, o que o deixa apreensivo — ... eu devia ter imaginado que você não estava bem quando se apoiou em mim. — Certo, então é assim que ele descobriu que os cabelos dela são macios e cheirosos… que droga, Shouto!
Um calor lhe sobe pelas bochechas, o que o deixaria preocupado caso ele não soubesse que não tem nada a ver com a febre. Agora que ela falou, as lembranças começam a voltar, Shouto não se apoiou nela, ele praticamente caiu em cima dela, prensando-a contra o espelho do elevador, a sensação do corpo macio foi um tanto reconfortante, qual foi a última vez em que abraçou alguém daquela forma? Shouto se sente corar, sabendo muito bem que esse calor que está sentindo não é sua individualidade, muito menos febre, é vergonha, muita vergonha.
— Sinto muito, Uraraka. — ele se curva um pouco.
— Ah, imagina! Não precisa se desculpar!
— É claro que preciso, fui inconveniente.
— Você tá doente, não tem nada a ver. — ela sorri — Ah, que tal isso? É uma coisa que a Tsu-chan vive me falando pra fazer porque ela acha que eu me desculpo demais, ao invés de dizer que você sente muito, por que não agradecer?
— Agradecer?
— Uhum! Nós somos amigos, não somos? Ao invés de me pedir desculpas por ter “sido inconveniente”, por que não me agradece por estar lá no momento em que você precisava? É o que amigos fazem, né? — Shouto fica surpreso por descobrir que ela o considera seu amigo, ele sabe que não demonstra proximidade tão bem quanto o Midoriya ou mesmo o Iida e pensava que ela o via como o esquisitão que grudou nos amigos dela e por isso agora tem que educadamente tolerá-lo por perto. Saber que estava errado o deixa um tanto… feliz.
— Sim. Muito obrigado. — ele acena com a cabeça, ainda bem constrangido, tão constrangido que sente algumas chamas surgirem em sua bochecha e ombro esquerdos.
— Ahh! — ela pula de susto e olha para o copo de água na mesinha ao lado. Ela tá planejando jogar água nele para apagar as chamas??? Shouto acha isso tão comicamente estranho que as chamas se dissipam no mesmo instante — Ah não, será que a febre tá voltando? Eu vou chamar a enfermeira, não, eu vou checar primeiro! — Uraraka se aproxima, apoiando uma mão no colchão e a outra na testa dele — Hum… o lado esquerdo parece menos quente que antes, mas… ainda tá meio quente.
Shouto não consegue nem piscar com ela parada tão perto dele, mas logo ele acaba desviando o olhar quando seu coração começa a acelerar do nada. Ele tem quase certeza que não tá mais com febre, mesmo que esteja se sentindo um pouco estranho.
— Só com o termômetro pra ter certeza. — ele diz timidamente.
— Ah, claro. — ela se movimenta pela enfermaria e pega um termômetro, aproximando-se dele e o olhando em confusão — Hã, Todoroki-kun, como faz pra medir sua temperatura? Se colocar debaixo do seu braço esquerdo, vai sair que você tá com uma febre altissima, se colocar no seu braço direito, vai sair que você tá morto. — ela fala de um jeito meio direto demais às vezes, é engraçado — Você põe o termômetro embaixo da língua?
— Não, eu costumo usar termômetro retal.
— Ah… — o rosto dela se contorce em uma expressão que ele nunca viu — Ah! Ahhhhh entendi! — Uraraka fica vermelha e começa a se afastar da maca — E-eu… eu vou… eu vou chamar a enfermeira, então! Já volto! Q-quer dizer, não vou ficar aqui enquanto ela... eu não- nnngh! — ela sai quase correndo dali, e ele não tem ideia do que a deixou tão desconcertada, mas é impossível negar que o rosto envergonhado dela é realmente encantador.
Shouto vai garantir que eles tenham um bom jantar quando ele for liberado pela enfermeira, com certeza dá para pedir algo de um ótimo restaurante, de preferência algum que ofereça muitas sobremesas, ele pode não conhecê-la bem ainda, mas sabe que a Uraraka adora doces, é bom que tenha algum lugar com bastantes opções para ela escolher por conta dele. É o mínimo que Shouto pode fazer para se desculpar por hoje.
Ou melhor, para agradecer.
Notas finais
Faz tempo, né? Fiquei o último mês de julho de férias, e agora tô voltando. Não ando com muito tempo pra escrever fics novas, então tô trazendo algumas repostagens, a de hoje é essa todochako bem bobinha que escrevi há uns 3 anos.
Espero que tenha curtido! Obrigada por ler, a gente se vê em breve!
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