341 𝑨𝒏𝒐𝒔-𝑳𝒖𝒛 | sᴛᴀʀ ᴡᴀʀs
4 iii. a rainha dos cisnes e a princesa intergalática
CAPÍTULO TRÊS
A Rainha dos Cisnes e a Princesa Intergalática
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DARIA LILJA ERA UMA ADOLESCENTE COM MUITAS CERTEZAS e convicções na vida. Ao menos, era essa a imagem que ela gostava de mostrar ao mundo: a jovem promissora e ajuizada, sem dúvidas e nem conflitos, que podia muito bem sustentar a irmã mais jovem e garantir um futuro brilhante para as duas sem a interferência da assistência social ou de seus vizinhos intrometidos que só sabiam encher de defeitos a mulher que a havia criado e que ela tinha como mãe.
O leitor, diferente das pessoas que com ela conviviam, tem, no entanto, o privilégio de saber que não era exatamente assim que ela se sentia o tempo todo; Daria tinha consigo muitas incertezas.
E não falamos aqui de seu hábito constante de duvidar de si mesma e seu medo do que o futuro reservava para ela, nem de seu irracional medo da falha e da vulnerabilidade, e muito menos de suas dúvidas sobre o que era, de fato, o melhor para ela e para sua irmã tão querida, porque esses detalhes diretamente relacionados ao próprio estado mental ela era muito boa em esconder. Falamos, no entanto, de algumas dúvidas óbvias para alguém com a vida como a dela, que ela, quando se sentia confortável com alguém, reafirmava: era muito estranho não ter lembrança nenhuma de seu passado antes dos oito anos de idade.
Isso não significava, no entanto, que ela não possuía nenhuma conexão com sua vida antes das partes que seu cérebro era capaz de recordar. Ela carregava algumas cenas desconexas de seu passado em seus sonhos, e de acordo com Lília, era muito parecida com sua mãe biológica. O mais importante e palpável detalhe de seu passado, no entanto, consistia em um anel — uma peça de joalheria das mais delicadas, forjada em ouro puríssimo e cravejada de minúsculas pedras vermelhas, arrematadas bem no centro por uma pedra maior.
Usara-o em uma corrente igualmente dourada, na qual à época desta história repousava um pingente de borboleta no lugar do anel, até os seus quatorze anos, quando o anel enfim serviu em seu dedo. Ele não saíra de lá desde então; pensara em vendê-lo para custear alguns meses de sobrevivência após a perda de Lília, mas apesar da proposta generosa de pagamento por parte do joalheiro interessado na beleza da peça e na pureza de seu material, ela não fora capaz de concluir a venda. Isso porque aquele era o anel de casamento de sua mãe biológica.
Daria tinha um afeto especial pela peça por ser, de certa forma, sua única ligação direta além da genética com aquela que lhe dera a vida. Muitas pessoas haviam tido o prazer de admirá-lo em seu dedo, mas poucas haviam tido a honra de tocar nele — e menos pessoas ainda possuíam o privilégio de conhecer o segredo que ele escondia em seu interior. Havia, afinal, uma gravação — uma declaração de amor eterno, para ser mais exato. A peça era uma obra de arte, daquelas tão bem pensadas, que a gravação aparecia somente sob a incidência de uma frequência de luz tão específica que Daria e Ella não souberam de sua existência até a construção do laser caseiro de Ella para uma feira de ciências no segundo ano do ensino médio.
Somente as duas sabiam que a gravação existia. Somente Daria sabia o que ela significava. E, ainda assim, no momento em que paramos nesta história, o lunático autodenominado Obi-Wan Kenobi acabara de recitá-la, palavra por palavra, e em uma tentativa desesperada de fazer com que Daria lhe desse ouvidos.
A este ponto está claro que Daria não dava margem em sua vida para o fantasioso; e, assim sendo, ela não podia achar que aquelas palavras haviam sido um mero chute bem sucedido. Seria específico demais para ser coincidência.
E isso fez com que ela parasse de andar.
— O que foi que disse? — Ela quis saber.
— Zaberi vsyu moyu zhizn’. — Ele repetiu. — É a gravação do seu anel, não é?
Ela estava chocada. Parcialmente indignada, e subitamente em alerta. Parte de si queria agarrar-se à ideia de que aquele estranho muito parecido com quem jurava ser havia apenas investigado sua vida extremamente à fundo para enganá-la, e que ouvir o que ele queria dizer resultaria em ela e a irmã sendo levadas pelos traficantes de órgãos. A outra parte desejava proteger a realidade que ela conhecia; apesar disso, a última parte de si sabia que esta realidade estava a um sopro de desmoronar por completo.
Daria respirou fundo.
— Qualquer um sabe disso. — Afirmou com convicção, desejando poder apenas retomar sua caminhada raivosa para longe daqueles dois e arrastando Ella pelo pulso.
Apesar disso, ela não podia; não conseguia; seus pés se mantiveram firmes no chão.
— Ninguém sabe. — Retrucou o suposto Obi-Wan.
— Mas não importa. — Ela insistiu.
— É o anel de casada da sua mãe. — Continuou ele, ignorando por completo o estado de negação da jovem atrás de si. — Ela colocou em uma corrente, e você usou como pingente até que ele servisse em seu dedo.
— Todo mundo sabe disso. — Foi a vez de Daria retrucar, e de o homem respirar fundo.
— Mas ninguém sabe da gravação. — Ele explicou. — Ela só aparece sob uma frequência específica de luz. — Não é possível, foi o que Daria pensou. — Quem sabe disso é você e Ella, que descobriram acidentalmente; sua mãe e seu pai, que agora são um com a Força; e eu, que levei o anel na cerimônia do casamento.
Não é possível.
O pensamento insistiu. Ecoou em repetições sobrepostas e atropeladas na mente de Daria; ela não queria ouvir, ela não queria saber.
Mas Obi-Wan caminhou até a frente dela e olhou-a nos olhos, exibindo o vislumbre de um sorriso quase nostálgico nos lábios, como se olhasse para alguém querido que não via há muito tempo — um olhar sincero, que vinha do fundo do espírito. E que a impediu de fugir do que ele tinha a dizer:
— Daria, eu sou Obi-Wan Kenobi. Um cavaleiro jedi. Meu mestre, Qui-Gon Jinn, é seu pai.
Fez-se novo silêncio. A informação despejada afundou na mente de Daria em conjunto com todas as outras que ela recebera naquela manhã, e deslizou ardilosamente direto para seu coração, que se encontrava tão acelerado que chegava a ser incômodo.
— Isso é ridículo. — Foi o que ela disse em resposta, ainda determinada a rejeitar aquela súbita curva nos rumos de sua realidade.
— Sua mãe era uma jedi também. — Obi-Wan continuou, ainda que diante da adolescente mais contrariada daquela cidade. — Isso tornava o relacionamento deles um tanto... complicado. Por isso a inscrição no anel é tão escondida; se tivesse a lido por inteiro, teria visto as iniciais dele gravadas ao lado.
Não. Era o pensamento que ecoava na mente da garota desta vez.
— Absurdo.
Não. Ela havia abandonado aquele tipo de fantasia havia muito tempo. Havia construído uma vida para ela e para a irmã, e uma carreira para si aos quinze anos de idade, e havia feito isso sozinha. Quando Lília morreu, não houveram amigos de seus pais para buscá-la e proteger sua adolescência de todo o estresse e pressão aos quais ela fora submetida. Não. Agora era tarde. Apesar de parte de si estar, aos poucos, aceitando o que Obi-Wan dizia como a verdade, a parte racional que ainda restava ainda repetia uma única palavra: não. Ela não queria saber.
— Nós viemos buscar você e Lady Elowan, — Fez-se ouvir uma terceira voz: a do garoto, Anakin Skywalker. — para levá-las de volta à galáxia de origem. A nossa galáxia, no caso.
Naquele momento Daria lembrou-se de que Ella também estava ali, e também ouvira alguma história fantasiosa sobre o próprio passado — e deveria estar tão confusa e abalada quanto ela própria se sentia. Virou-se para a irmã mais nova.
— Lady Elowan? — Questionou.
— Lady Elowan Naberrie. — Foi a resposta de Ella. — Dos Naberrie de Naboo. São minha família.
Daria podia sentir seu Q.I. diminuir em dez, vinte pontos, conforme aquela conversa progredia e continuava a queimar seus neurônios com o fervor da raiva que inflamava em seu peito. Naquele momento, ela se sentiu, de certa forma, traída; como Ella podia estar do lado de dois estranhos com uma conversa esquisita, e não do lado dela? Como Ella tinha coragem de deixar explícito que, sim, ela achava a história daqueles dois homens bastante razoável, e, em sua concepção, a louca ali era a própria irmã?
— Não acredito que você realmente está do lado deles nisso. — A garota indignou-se.
— Você ainda está em negação. Era de se esperar. — A raiva em seu peito inflamou com ainda mais fervor quando a voz do suposto Obi-Wan Kenobi fez-se novamente presente na conversa. — Mas, Daria, ouça seus sentimentos; assim você enxergará a verdade. E ela está em tudo o que eu lhe disse, e no que mais tenho a dizer. Se você quiser ouvir, é -
— Não quero! — Daria levantou a voz. — Eu me recuso a escutar mais um segundo sequer desse absurdo sem sentido! Não sou filha de Qui-Gon Jinn! Não tenho pai!
— Você é. — Insistiu ele, ainda com o tom calmo e sereno, que fazia com que Daria quisesse lhe acertar um soco no nariz. — Filha de um dos cavaleiros jedi mais brilhantes que a Ordem já viu. E, claro, há de se tornar uma também, se ouvir o que eu tenho a dizer.
— Não vou ouvir. — Ela buscou acalmar-se, subitamente envergonhada dos próprios gritos um minuto antes; afinal, o quão louca ela pareceria se alguém da companhia a ouvisse histérica daquele jeito? — Não sou jedi.
— Como pode saber? — Questionou o homem.
Mas Daria não queria mais conversar sobre aquilo. Desistindo do almoço e aceitando o fato de que precisaria continuar o resto do dia de ensaios com a pressão baixa graças ao exercício intenso aliado ao estômago vazio, ela virou-se novamente na direção da porta, pronta para abri-la e sair por ela, independente da companhia ou da ausência de Ella. Ela podia confiar nos dois se quisesse; era adulta o suficiente para isso. Daria estava cansada daquela conversa, e, secretamente, cansada de ter por Ella o senso de autopreservação que ela própria parecia ter nascido sem. Acontecesse o que acontecesse, a Daria racional não queria mais saber.
Havia uma faísca de esperança em seu coração, no entanto, que desejava que os dois homens lhe provassem que tudo aquilo era verdade. Mas ela era inteligente demais para dar ouvidos a esse tipo de sentimento. Baixou a maçaneta e entreabriu a porta, mas foi incapaz de sair; ouviu um suspiro do suposto Obi-Wan, e olhou-o por cima do ombro, como quem sabia que ele tinha mais alguma coisa a dizer. Ele a olhava por cima do ombro também. O suposto Anakin parecia derrotado, assim como Ella; encontrava-se parado ao lado dela, com o olhar de quem apenas desejava ir para casa. Mas Daria sabia que a conversa ainda seria longa. Esperou.
— Nunca fez nada acontecer? — Obi-Wan quis saber. — Algo incomum, que não pudesse explicar; nunca?
Ela não respondeu.
Sentiu o próprio estômago embrulhar, sem saber se era pela fome ou pela lembrança de um incidente que ela jurava ter sido um sonho.
— Eu vim até aqui convicto do que te disse. — Ele se virou na direção da garota. — Você é, indubitavelmente, a filha do meu mestre. Não pretendo voltar atrás nessas palavras. Te prometo, no entanto, que uma palavra sua me calará para sempre. É só responder.
Foi a vez de Daria suspirar.
— Nunca.
— Pare de mentir. — Daria assustou-se quando a voz de Ella entrou novamente no impasse.
— Não estou mentindo. — Ela insistiu.
— Está, sim. — Ella rebateu. — Você sempre faz. Sempre lê a mente das pessoas, ou pelo menos parece ler.
A mais velha respirou fundo, ainda desacreditada na traição da irmã mais nova; não queria, no entanto, fazer um escândalo, então esperou a raiva dentro de si acalmar-se novamente antes de responder:
— Se chama empatia. Não é a Força falando comigo; são sinais óbvios que as pessoas dão a respeito do que sentem. — Ela explicou.
— Ok. Mas você sempre sabe quando as coisas vão acontecer; as ruins principalmente. — Argumentou a mais jovem.
— Novamente, só o óbvio. — Daria contra-argumentou. — O óbvio que você, que confia demais nos outros, não consegue ver — e que, diga-se de passagem, se conseguisse, eu não estaria nessa situação agora.
— Todo mundo acredita no que você fala, e faz o que você quer, mesmo que seja idiota.
— Eu só falo o que eles precisam ouvir. Ok, entendi, eu sou manipuladora. Obrigada.
Fez-se silêncio. Novamente o estômago de Daria embrulhou-se, e ela virou-se para encarar a irmã mais nova. Não havia largado a maçaneta até então; segurava-se nela como quem segurava-se à realidade. Ela sabia o que Ella ia dizer, e sabia que não queria ouvir. Mas soube que não podia escapar daquilo. Ella voltou seu olhar para o rosto de Obi-Wan antes de voltar a falar:
— Teve uma vez, quando éramos crianças; eu pedi para ela buscar uma boneca minha, e ela não quis levantar, então fingiu que ia fazer a boneca voar até a gente com a força do pensamento. — Ella começou. — E, realmente, ela voou.
— Isso nunca —
— Acertou ela bem no olho. — Ella não deixou-a falar. -Cortou a sobrancelha. Por isso tem aquela falha ali.
— A gente inventou isso, para a mãe não brigar com a gente. — Afirmou Daria.
Apesar disso, ela sabia que era mentira. Havia se convencido ao longo do tempo que o episódio com a boneca Barbie da loja de 1,99, com péssimo acabamendo nos recortes do plástico e que cortara seu olho depois de voar em sua direção graças à força de seu pensamento havia sido um sonho. A cicatriz em sua sobrancelha sempre estivera lá. Nada de fantástico e inexplicável havia acontecido em sua vida, simplesmente porque ela não dava trela para esse tipo de absurdo.
Mas Ella ter a mesma lembrança que ela mudava um pouco as coisas; afinal, ela nunca contara o sonho a ninguém.
Em seu peito, cresceu um misto de sentimentos confusos que ela era incapaz de explicar; talvez um pouco de esperança, vinda da parte esperançosa de si que desejava que tudo aquilo fosse real, misturada à fascinação de uma garota sonhadora que, enfim, teria um passado e um futuro fantásticos. Grande parte, no entanto, ainda consistia na raiva da Daria que se recusava a perder tempo com aquele tipo de coisa. E esta raiva, sendo o único dos três sentimentos que era familiar à garota, foi o que ela escolheu expressar.
— Chega! — Exclamou com firmeza. — Eu não vou mais ouvir. Cansei de vocês três; não ousem me dirigir a palavra!
O autodenominado Obi-Wan deu um passo para trás diante da súbita explosão da jovem; Ella e o suposto Anakin pareceram mais frustrados do que nunca.
— Eu sou a Rainha dos Cisnes; é o que eu sou, e é o que vou ser até minha carreira acabar! — Ela prosseguiu. — Não sou jedi; não tenho pais jedi; não tenho pais. Ponto. Obrigada, senhores e Ella, pela piada de mal gosto. Se você quiser ir com eles agora, — Apontou para a irmã mais nova. — vá. Não me importo. Faça o que quiser. Rezarei pela sua alma caso você tenha seus órgãos roubados depois de eles te sacrificarem para seja lá qual for o culto do qual fazem parte. Ademais, adeus.
E, com a raiva fervendo em seu peito e o enjoo revirando seu estômago vazio, Daria marchou de volta para o auditório, chamando a atenção de seus colegas de elenco, que caminhavam na direção contrária sem saber o que havia acontecido para deixá-la tão lívida e cheia de ódio.
De volta a coxia, ela considerou novamente a possibilidade de ser um sonho quando parou diante do espelho de uma das penteadeiras, deixadas ali à postos para o dia da estreia.
“Se for um sonho”, pensou para si mesma, “Daria, acorde. Porque eu não gosto disso.”
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