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16 Realidade


Notas iniciais
Tudo se quebra e tudo se junta ao mesmo tempo. É como filhos voltando para sua mãe. O fim se inicia com um novo começo, ou realmente o começo é a definição do fim, ou vice-versa.

Sempre adorei poesia, teatro, roupas, tudo bem feito, arte em geral. Durante todo esse tempo presa (literalmente, dessa vez) perdi a noção do que significa realidade pra mim. Não sei se alguém atrás das grades consegue ter tempo para raciocinar a realidade. Ao meu ver, realidade é algo singular, onde a minha realidade pode ser diferente da sua. A realidade de quem vive acima dos outros é completamente diferente da realidade daqueles que estão abaixo.

Desde pequena eu fui hostilizada e tratada como descartável. Minha realidade era dura, mas infelizmente era real, tão real quanto meu desejo de mudá-la, e consegui. Na verdade não consegui sozinha, minha realidade mudou graças às pessoas que estão acima de mim, que me colocaram aqui, que sempre me hostilizaram para o bem delas. Eu não tenho voz. Sou pobre, dou trabalho.

Parece fantasioso da minha parte acreditar que algum dia o dinheiro, o status, o desejo de estar por cima, sejam coisas que não façam parte da prioridade humana. Existem pessoas de bem, pessoas que querem mudar isso, mas não têm voz, os silenciam, porque são uma ameaça. Você percebe que está surtindo efeito quando os que estão em cima finalmente começam a se mexer, sem precisar que os que estão embaixo façam isso por eles.

O nazismo deu certo, eles aprendem com isso, e também aprenderam suas falhas. Hoje o nazismo usa terno, está mais bonito, camuflado e agradável, realmente o nazismo nunca esteve tão inteligente como nos dias atuais. Mas quem sou eu pra julgar, se o mesmo nazismo que me esfaqueia, molha a mão do outro com prazeres e necessidades? Gostaria de pensar diferente, mas também gostaria de ser mais inteligente que eles, a ponto de mostrar que sempre haverá um erro na crueldade. A crueldade nunca me pareceu tão esperta como agora. Será que devo fazer como sempre aconteceu na humanidade, esperar dar errado no ápice dos seus feitos?! Eu acho que não. Estive cansada por muito tempo, mas dessa vez não vou esperar!

Fui em direção ao farol e vi uma grande fumaça no céu, saindo justamente de lá, o que me deixou mais preocupada. Corri o mais rápido que pude, minha sede de justiça (pelo menos a minha justiça) saciava minha fome e meu sono. Eu finalmente cansei de esperar as coisas darem errado de uma vez, eu queria evitar esse erro.

Eu estava perto do farol, e tudo estava em chamas. Sabia que lá dentro ainda guardava mais informações sobre o lugar. Corri, corri não só por mim, mas por eles. Eu li o histórico de cada um que esteve conosco, exceto os de Matheus e Joanna. Eu corria, mas corria chorando e, desviando do fogo, consegui entrar no farol. Vi que, na entrada, havia uma outra porta, outra que não foi derrubada. Era ela que dava realmente para subir ao farol, ao topo. Não pensei duas vezes e peguei um pedaço de madeira próximo que estava com fogo e tentei abrir um buraco na porta. Deu certo, eu pude passar sem me queimar. Subi as escadas, mas eu fui tola. O fogo tomou conta das escadas e quanto mais eu subia, mais sabia que não tinha volta. A escada era de madeira, e seus degraus estavam se desfazendo com fogo. Subi em círculos até finalmente chegar no topo. A "porta no teto" parecia já estar aberta. Não pensei duas vezes e a escalei.

Lá dentro vi coisas antigas, coisas que pareciam não dizer muito sobre o que estava acontecendo comigo, com os outros. Só faltava o topo do farol pro fogo finalmente consumir, mas por minha sorte começou a chover. Mesmo que isso ainda não apague o fogo, isso ia ameniza-lo logo logo.

"Luiza, você não irá encontrar as respostas aqui", dizia uma voz estranha, que parecia estar comigo no mesmo local. Eu perguntava 'quem está aí?' o tempo inteiro. A voz já era muito familiar, era a de Matheus. Matheus se levanta, ele estava num cobertor completamente enrolado.

'M-Matheus, o que faz aqui?', eu já estava certa que ali era meu fim, e que não havia mais volta, nem Guilherme, nem chance alguma de sobreviver. Matheus explicou o motivo de ter uma porta fechada e outra já destruída. "Como acha que só tinha uma aberta?! Eu precisava de um lugar para ficar, para esconder minhas mágoas, para que ninguém soubesse dessa minha fragilidade, mas parece que tudo deu errado no fim das contas...", Matheus parecia estar tão arrependido como eu, mas em circunstâncias diferentes.

O arrependimento é parte do reconhecimento. Eu sabia que Matheus queria tanto sair quanto eu, assim como sabia que não havia mais saída. 'Aonde está Guilherme então?', eu perguntava. "Achei que você soubesse, na verdade você sabe. Se eu te contar, vou estragar tudo, logo na melhor parte", Matheus parecia saber mais do que o esperado.

Desesperada, segurava forte os ombros de Matheus e continuava a perguntar sobre Guilherme, mas ele só estava a sorrir. Cheguei a conclusão de que Matheus estava tentando dizer algo, mas algo bom para mim, para todos, a partir do momento que eu vi lágrimas saírem de seus olhos. Eu parei, ele percebeu que parei, ele percebeu que eu estava começando a entender, aos poucos, o que realmente tem que acontecer. O fogo estava agressivo, mesmo com tanta chuva, e já estava esquentando o chão de madeira da luz do farol, mas algo inusitado aconteceu.

"É AGORA, LUIZA, POR FAVOR, VOCÊ SABE O QUE TEM QUE FAZER!", gritava Matheus, apenas parado e olhando pra mim, e se afastando. Antes mesmo de pensar nas palavras que ele me disse, o chão estava frágil e se abriu, bem embaixo dos nossos pés, de uma vez só. Ele caiu, mas de um jeito esquisito. Matheus caiu mais rápido, sendo atingido por todos os restos de madeira que o fogo deixou das escadas, e caiu no chão, no térreo, ao lado da porta, totalmente empalado e esmagado por outras madeiras que vinham a cair. Eu caí logo depois, mas sem ferimentos graves, por cima, mas o suficiente para me apagar por um tempo. Desmaiei, chorando, com medo...

– ...Desde que acordei estou assim, machucada e com rasgados em minha roupa. Meu cabelo ainda está molhado, mas consegui sair do farol, mas não da ilha, daqui. Vim parar aqui, perto do mar, para me dar uma noção de vida, de realidade, do que fazer. Todas as lembranças foram queimadas, e tudo que resta está preto. Vestígios de minha guerra psicológica. Agora a única coisa bela que posso apreciar é esse mar, que talvez leve a algum lugar. — contava Luiza, estremecida.

– Que história bacana! Você teve sorte em sobreviver — disse um estranho que estava com Luiza por horas, ouvindo-a atentamente.

– Eu não diria que sobreviver a isso é sorte, mas que bom que tenho você aqui — Luiza dá um leve sorriso, olhando para o estranho.

O estranho também estava com machucados e com sua roupa rasgada, tanto quanto Luiza.

– Ah, para! Você não tem só a mim, você precisa conhecer meus amigos — o estranho parecia finalmente estar contente, mesmo depois de ter ouvido pacientemente a trágica história de Luiza. Ele se levanta e a ajuda.

– Então me leve aos seus amigos! Prazer, meu nome é Luiza, mais uma vez! — Luiza estende uma mão ao estranho.

– Ah, eu ia esquecendo seu nome, foi bom você me lembrar! — o estranho sorria com seu jeito desastrado, mas logo apertou a mão da ruiva.

– Você esquece das coisas bem rápido! Não sou tão esquecida como você, mas essa história ainda não foi muito bem contada. Não lembro de todos os detalhes, mas ainda não sei seu nome. Você não me contou... — Luiza parecia estar curiosa a respeito do rapaz.

– Ah, perdão! Prazer, meu nome é Guilherme! — dizia o rapaz, orgulhoso ao levar a garota com ele.

Os dois vão em direção à floresta, saindo da parte negra da ilha, da parte do farol destruído, da beira do mar.

Ilha do Desespero, Asilo, população: 302

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