30 dias para se apaixonar
2 Capítulo 1 - Família Folks
Notas iniciais
—Boa viagem — Gritei acenando para os amigos que adentraram o carro novo de cor verde-musgo, parado em frente à grandiosa casa amarela da esquina do bairro mais calmo de Onópolis, a cidade universitária mais badalada das redondezas. Qualquer Onopolense sentia inveja de quem conseguia morar por aqui.
Onópolis é uma cidade pequena, porém devido à presença de uma famosa universidade, alguns bairros eram conhecidos como barulhentos e movimentados demais para uma cidade com tão poucos habitantes, por esse motivo, a grande maioria dos nativos gostaria de residir por aqui, já que se tratava de um bairro mais afastado dos pontos movimentados, principalmente das casas de show.
A casa dos Folks me fizera babar desde a primeira vez que a vi, há três anos atrás quando me mudei para o bairro. Depois de anos tentando, mamãe finalmente conseguira alugar uma casa no bairro. Era o sonho dela. Foram anos correndo atrás de corretores, anos comprando jornais todos os dias na espera de um anúncio interessante (vulgo que coubesse no nosso orçamento), até que num certo dia, um dos corretores que ela mais perturbara durante esses anos, mandara uma mensagem avisando que uma das casas estava disponível num precinho camarada. Sem brincadeiras, eu tenho quase certeza que aquele dia entrou para a lista dos dias mais felizes da vida da minha querida mãe.
Lembro como se fosse ontem, quando mamãe parou o carro em frente da nossa quase casa nova e dei de cara com aquela casa amarela. Meu Deus! Ela era linda.
Havia janelas para todo lado, até hoje me pergunto para que tantas. Os ciprestes plantados de forma minuciosa para completar a estética rústica do quintal, a grandiosa e luxuosa porta de madeira que devido ao muro alto só conseguira ver o topo, e principalmente a cor amarela, chamavam atenção de todos que passavam na rua, e não foi diferente comigo. A partir daquele dia, um dos meus sonhos se tornara entrar naquela residência.
Mais ou menos um ano depois da mudança, comecei a trabalhar de babá na casa dos Folks, os donos da casa amarela. Katlyn e Paul eram estadunidenses e vieram morar no Brasil após Kat se apaixonar pelo país depois de vê-lo numa série romântica de uma plataforma de stream. De início, Paul achou loucura uma mudança tão grande só porque viram uma adaptação cinematográfica, mas em alguns meses acatou o desejo da esposa e após conseguirem emprego, se mudaram.
Luz e Pietro, os filhos do casal, eram os gêmeos mais simpáticos do mundo, porém os mais endiabrados também. Graças a Deus eu só passava a noite com os pestinhas, já que seus pais trabalhavam em outra cidade durante três dias na semana, então pernoitavam por lá.
Após os dois saírem para mais um dia de trabalho, voltei para dentro da casa onde as duas crianças permaneciam em pé me encarando. Algo aprontariam. Eu tinha certeza daquilo, e isso me assustava.
Esperando pelo pior, rapidamente peguei as duas crianças no colo e fui para a cozinha, onde comecei a preparar o jantar. Com certo custo, coloquei os gêmeos em suas respectivas cadeirinhas e lhes entreguei um brinquedo qualquer na tentativa de distraí-los. Dependendo do brinquedo, funcionava.
Ao som de muitos gritos, risadas e latidas de Dallas, o bernese da família Folks, terminei o jantar e me sentei à mesa, junto às crianças. Estava morta de fome e não acreditava que finalmente comeria algo que não fosse biscoitos e fast foods.
Minha vida corrida devido ao trabalho e a universidade, estava fazendo com que minha alimentação se tornasse uma tremenda bagunça. Sabia que se continuasse naquele ritmo, em pouco tempo estaria precisando de um médico.
Após me desdobrar para comer e alimentar as duas crianças juntas, decidi colocar um desenho para distraí-los e finalmente poder estudar um pouquinho. As semanas de provas já estavam chegando e eu sequer tinha aberto o caderno.
Deitada no sofá, começo a ler um dos livros recomendados pelo professor mais exigente do semestre, justamente o professor da matéria em que eu estava mais perdida. Sabe quando um assunto não entra na sua cabeça nem por reza braba? Então, era o meu caso. Por mais que eu me esforçasse nas aulas, era como se eu nem estivesse ali. Era complicado admitir, mas trabalhar e estudar não era fácil, estava prejudicando muito o meu rendimento acadêmico.
Não havia lido nem cinco páginas quando percebi que os gêmeos haviam dormido deitados no tapete. Larguei o livro sob a mesa de centro, os levei para o quarto e após me certificar três vezes que estavam realmente dormindo, apaguei a luz e desci, voltando ao sofá e retomando a leitura entediante.
No outro dia, acordei sentindo algo estranho no rosto. A sensação de dormência me fizera levar as mãos rapidamente ao local, onde percebo que novamente o cansaço havia me vencido e as marcas do livro no rosto eram as provas disso. Pela quinta vez, só nesse mês, os estudos havia ido por água abaixo. Se continuasse assim a reprovação estaria mais que certa.
Lentamente abri os olhos, dando de cara com Dallas. O cachorro, ansioso e faminto, já estava ali esperando para ouvir o barulhinho da ração caindo em sua vasilha azul cheia de patinhas pretas desenhadas. Porém, antes de satisfazê-lo, precisava satisfazer outra pessoa, a mim. Meu estômago estava gritando de fome.
Tateei a mesa em busca do meu celular e após encarar o aparelho por alguns segundos, percebi que não havia tempo, mais uma vez. Quando chegasse a universidade comeria algo, assim evitaria atrasos.
Correndo, meio tonta pela forma brusca que havia levantado, entro no quarto dos gêmeos, encontrando Pietro em uma tentativa de fuga e Luz batendo palma e dando pequenos gritinhos de apoio ao irmão. Com o coração acelerado, vou até o berço do pequeno pestinha e evito um futuro acidente.
Já estava acostumada a lidar com suas travessuras, mas o coração sempre reagia como se fosse à primeira vez. Talvez por amor demasiado as crianças, talvez pelo coração mole ou talvez pelo medo do que poderia acontecer caso ocorresse algo grave a um dos bebês. Receber um processo não era algo muito animador, ainda mais de uma família como a dos Folks.
Arrumados e devidamente postos a mesa, os gêmeos tomam o café da manhã, o que faz meu estômago roncar novamente. Deveria sentar e comer junto deles, mas ainda precisava alimentar Dallas e arrumar a bagunça que estava na sala, antes que os patrões chegassem. A propósito, era melhor atender ao cachorro logo, antes que ele rasgasse o tapete.
O bernese preto com manchas brancas, era um ótimo vigia. Nesse momento mesmo precisava me arrumar rapidamente para a aula e o companheiro da família estava ao lado do cercadinho onde os gêmeos estavam. Qualquer tentativa de fuga ele latiria avisando.
Afobada e sentindo o rosto corado, entro na sala de aula de cabeça baixa. Sabia que se levantasse encontraria vários pares de olhos me encarando e isso faria meu estômago revirar de nervoso, ou talvez de fome, correr sem comer é algo que não dava muito certo comigo. Se não me sentasse naquele instante, iria desmaiar.
Sentindo um alivio absurdo ao me sentar e me livrar de todos aqueles olhares sobre mim, conclui que a vergonha era maior que a fome. A tontura havia sumido num piscar de olhos.
—Ei! "Tá" tudo bem? —Perguntou a garota sentada ao lado da minha carteira. —Parece que está em outra dimensão. —Comentou rindo.
—Estou bem, Gi. Só um pouco afobada devido ao atraso. —Respondi folheando o caderno estampado com um personagem qualquer de desenho animado.
Giovana ou Gi, como preferia ser chamada, era a minha melhor amiga. A garota negra de olhos castanhos e cabelos bem volumosos, chamava a atenção de todos devido ao seu estilo e postura. Além de alta, Giovana transpirava auto confiança e isso fazia com que todos a notasse quando passava.
—Como foi com os gêmeos? —Giovana perguntou sem tirar os olhos do professor e fingindo estar anotando as palavras que ele dizia. Essa era a tática mais usada entre nós duas para não sermos pegas conversando durante as aulas.
Quando você é um aluno falante, principalmente quando você tem amigos que possuem deste mesmo atributo, você, juntamente a eles, cria várias artimanhas para disfarças durante as aulas. Afinal, certas fofocas não davam para esperar um momento apropriado para serem ditas, certo?
—Normal, não fizeram nada absurdo dessa vez. Achei até estranho
—Seria isso um sinal? —Pergunta levando seu lápis a boca de forma pensativa.
—Sinal? Como assim? –Indago sem entender a insinuação da garota lunática ao meu lado.
—Um sinal, ué. Alguma coisa inusitada irá acontecer
—Aff, Giovana. Não venha com essas teorias lunática para cima de mim – Revirei os olhos e desta vez eu realmente começo a anotar o que o professor dizia.
—Não é invenção. Minhas teorias são sempre boas – Disse apontando para a agenda onde eu fazia todo tipo de lista possível. – Alguma coisa diferente vai acontecer na sua vida, estou sentindo. Anota aí
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