Notas iniciais
Música: http://www.youtube.com/watch?v=k8RyI-WWe2k

— John, eu preciso de ajuda! — Sherlock repetiu pela segunda vez na porta dos Watson, estava treinando. Estava tremendo. — John, me ajude pelo amor de Deus! Oh Sherlock, seja corajoso...

Então tomou coragem e bateu na porta. Não demorou muito até ouvir os sons de passos femininos. Veria o rosto da Sra. Watson em poucos seguntos. Contou até cinco e pronto: Mary estava em sua frente. Segurando a porta aberta e olhando-o com uma careta de mau-humor.

Sherlock não pediu licença, apenas entrou. Não era muito normal bater na porta da casa de seus amigos às sete da manhã do domingo, mas era uma emergência. Ele precisava dos amigos!

Mary caminhou novamente até a mesa. John também estava com sua pior cara de mau humorado. A única pessoa sorridente na mesa de café da manhã era a pequena Astoria. A garotinha tinha só um ano de idade, e por Deus, Sherlock a adorava mais do que tudo! Sorriu para a pequena garotinha que revirava um pote de iogurte — fazendo a maior bagunça possível — enquanto seus pais continuavam com aquelas caretas de poucos amigos.

Sherlock havia ensaiado. Entrar, pedir desculpas, pedir ajuda, explicar a situação... Mas aquelas caras de maldade estavam deixando-o amedrontado. Todas as palavras sumiram de sua cabeça! Já não bastava a situação em que se encontrava? John e Mary precisavam estar em um momento ruim? Ele precisava da ajuda deles! Tudo saiu do controle quando o detetive abriu a boca.

— John eu... — Mary levantou-se da mesa. — Aconteceu algo e eu preciso da sua ajuda...

— Muito cedo para problemas, Sherlock. — Mary revirou os olhos. — Já temos muitos problemas por aqui, certo John?

— Eu vou ser pai. — Sentiu seu corpo inteiro reagir às próprias palavras.

Era a primeira vez que dizia em voz alta. A primeira vez que se ouvia dizer aquilo. Era mágico. Sentiu sua pulsação aumentando consideravelmente. Estava apavorado, sim estava. Mas nunca esteve mais apaixonado por uma ideia.

Quando voltou sua atenção aos amigos, soube que não deveria ter dito aquilo daquela forma. John e Mary pareciam engasgados. O iogurte de Astoria estava caído na mesa, enquanto a pequena encarava seu padrinho com o mesmo olhar distante dos pais. Astoria nem sabia o que estava acontecendo... Mas provavelmente achou engraçado imitar a reação dos pais.

Sherlock deu a volta na mesa e pegou-a no colo — com um enorme sorriso no rosto —, não conseguia suportar a inteligencia da pequena Watson sem pegá-la no colo e apertá-la contra seu peito.

— Preciso da ajuda de vocês! — Ele repetiu, tentando tirar os amigos do transe. — Molly...

— Por que ela não me disse nada? — Mary colocou as mãos na cintura. — Isso é lindo! Meu Deus, Molly está bem? Ela deveria estar louca para contar isso... Sherlock! Você não podia ter dado essa notícia sem ela! Ela vai ficar arrasada! Tem algo errado com a Molly?

— Ela não sabe. — John ainda estava com a mesma careta de mau humorado. — Molly não sabe que está grávida.

— Então... Esse é o grande problema. — Astoria puxava um dos cachos de Sherlock e ele ignorava isso. Deixava a pequena fazer o que queria consigo sem reclamar. — Eu não sei como contar a ela. Molly não percebe! Ela simplesmente age como se... Como se nada estivesse acontecendo!

— E qual é a explicação para isso? — John levantou-se e caminhou até o amigo. — Isso não dói? Toria tentando arrancar seus cachos?

— Ah, não. — Definitivamente doía. — Ela pode fazer o que quiser...

Mary e John sorriram. Era a primeira vez que sorriram para o detetive naquele dia. Ele estava começando a se sentir melhor. Sabia que não era legal aparecer de surpresa e tão cedo — e com uma notícia bombástica daquelas —, mas precisava de seus amigos. O que mais poderia fazer?

— Talvez seja culpa minha. — Assumiu. John e Mary pareciam ainda mais chocados. — Talvez eu tenha sabotado o... Sabotado o preservativo.

— Sherlock Holmes! — Mary deu um grito. — Você é louco? Molly... Oh meu Deus, Molly... Molly vai ficar apavorada! Um filho! Vocês nem ao menos firmaram um compromisso!

— Mary, por favor. Molly mora comigo há seis meses. — Revirou os olhos. — O que significa firmar um compromisso para vocês? Nos conhecemos há anos... Estamos juntos há um ano... Eu só queria...

— Você queria? — John se aproximou mais do amigo, pegando Astoria no colo.

A pequena reclamou ao ser tirada do colo do padrinho. Ela o adorava. John e Mary não sabiam o motivo, mas desde seus primeiros meses Astoria se demonstrava apegada à ele. Achavam que a criança fosse ficar apavorada, mas ela era literalmente apaixonada por ele... Pensando bem, como não se apaixonar por Sherlock? Apesar de ser um completo idiota, era inevitável.

— Sherlock Holmes, você queria isso? — John perguntou novamente diante do silêncio do amigo. — É uma vida, Sherlock. Uma criança. Olhe para Toria...

— Eu olhei bastante para Toria antes disso. Não gosto de chamá-la de Toria, John... Pare com isso! O nome dela é Astoria. — Mary deu uma gargalhada.

Sherlock sempre discutia quando John chamava a pequena de Toria. "Não vai começar a me chamar de Sherly agora, John?" Ele perguntava ironicamente. "Esses apelidos todos desnecessários." Insistia. "Se Mary quisesse uma filha chamada Toria, ela batizaria a garota de Toria." Mary adorava quando Sherlock defendia o nome de Astoria.

— E me devolva Astoria. Eu estava segurando minha afilhada. — Pegou a garota do colo do pai. — E claro... Claro que olhei para Astoria um milhão de vezes antes de fazer isso. Em todos os domingos que eu passava com Astoria e Molly... Por que eu não posso querer isso? Qual o problema? É ótimo com Astoria... Não tem como dar errado com um Holmes!

— Oh, Sherlock! — Mary deu um sorriso aberto. — Você sabe que Molly vai ficar apavorada, não sabe?

— Eu a conheço. — Ele balançou a cabeça e pareceu preocupado. — Molly vai ficar louca. Ela vive dizendo que não precisamos ter um "relacionamento" porque tem medo de me incomodar... Céus, nós temos muito mais do que um "relacionamento". Molly salvou minha vida. Eu salvei a vida de Molly. Nós não podemos viver separados, é isso. É mais do que um namoro, um noivado ou um casamento. Me desculpem.

O casal Watson parecia petrificado, mas então sorriram juntos. Sherlock estava crescendo! Molly estava causando uma enorme revolução dentro daquele homem! John agora se lembrava de algo que Greg havia dito-o na noite do primeiro crime que ele e Sherlock resolveram juntos... “Sherlock Holmes é um grande homem — se nós tivermos muita, muita sorte, ele pode até se tornar um homem bom.” Ele tinha razão. E eles tiveram sorte... Sorte e Molly Hooper.

— Mas como eu vou contar isso à ela? — Sherlock beijou a bochecha da afilhada. — Não quero assustá-la. E também não quero que ela... Vá embora. Se Molly me deixar... John, se Molly me deixar... Mary, eu não sei se posso lidar com isso.

— Eu vou te ajudar, grande bobão. — Mary riu, abraçando-o e levando Astoria no meio do abraço.

— Posso participar disso? — John estava fazendo manha.

— Venha até aqui, Sr. Watson. — Mary respondeu. — Ainda estou bastante nervosa com você, mas lidamos com isso mais tarde. Agora precisamos lidar com essa notícia linda e... Eu não conseguiria negar um pedido tão nobre.

Em Baker Street, Molly virava-se de um lado para o outro na cama. Por que aquele idiota havia saído tão cedo? Logo hoje! Era dezenove de julho... Aniversário de namoro dos dois! Se Molly conseguisse sentir raiva de Sherlock, ela sentiria! Sentiria muita!

Levantou-se da cama sentindo-se vazia. Não por estar sozinha em seu aniversário de namoro. O vazio que sentia era de fome. Muita fome. Era como se pudesse comer tudo que achasse naquele apartamento. Então se arrastou até a cozinha e tirou tudo o que era comestível de dentro da geladeira. Olhou para todas aquelas frutas, verduras e doces e começou à trabalhar numa forma de juntar todas aquelas coisas no mesmo alimento.

Maçã, cenoura, doce de goiaba, mamão... Sim, também queria comer pipoca. Deixou todas aquelas coisas em cima da mesa e foi até a casa da Sra. Hudson. Queria pedí-la o chá e a pipoca. Adorava comer todas aquelas coisas esquisitas! Depois voltaria para o 221B e comeria sua cenoura com doce de goiaba e pipoca! Delicioso!

Molly recebeu uma mensagem de texto de seu carinhoso e atencioso namorado pedindo desculpa por ter que trabalhar no dia do aniversário de namoro... E depois uma ligação de Mary chamando-a para passar o dia com ela e John. Tentou negar, mas não deu muito certo.

Em poucos minutos já estava na casa dos Watson. Os quatro comeram de tudo um pouco e assistiram dois ou três filmes a tarde inteira. Molly se sentia milhões de vezes mais leve, mas ainda estava fervendo de raiva por Sherlock. Ele deu um bolo no dia do aniversário de namoro! Nem mesmo Sherlock Holmes tinha desculpas o suficiente para fazer isso...

Molly se despediu às oito da noite. Quando chegou em Baker St estranhou o cheiro maravilhoso que emanava do flat. Entrou sentindo-se hipnotizada pelo cheiro magnífico. Parecia molho branco. Não sentia aquele cheiro há anos... Era sua comida favorita quando era mais nova e morava com seus pais.

Sentiu um pequeno nó na garganta de saudade dos seus pais. Estava se emocionando com mais frequência que o normal... Tinha que se controlar para não chorar à cada vez que Sherlock se aproximava e abraçava-a dizendo que queria ficar ao lado dela sempre.

Passou pela porta chamando o nome do namorado, mas o apartamento estava vazio. Tinha um vestido longo e branco em cima de sua poltrona e um bilhete. "Vista-me." Molly gargalhou. Seu homem ainda era o melhor homem do mundo! Como pôde ter acreditado que Sherlock a decepcionaria?

Marchou para o banheiro com um sorriso em seu rosto. Se despiu e sentiu-se inchada. Se soubesse que jantaria com Sherlock para comemorar o aniversário... Teria comido menos o dia inteiro. Parecia uma máquina enquanto comia mais cedo. Devorou tudo o que encontrou pela frente — enquanto John e Mary sorriam como se ela fosse uma criança.

"Você precisa parar de se entupir de tudo que vê pela frente, Molly." Ela se advertiu enquanto tomava seu banho. Quando terminou-o, vestiu o longo vestido branco. Por que diabos Sherlock queria que ela estivesse tão elegante para jantar dentro do 221B? Revirou os olhos. Sherlock era Sherlock, Molly já estava perdendo as esperanças quando o assunto era entendê-lo. O cheiro de massa e de molho branco já estava deixando Molly com fome de novo. Merda! Desse jeito nunca conseguiria entrar em uma dieta.

Quando deixou o banheiro, Sherlock estava esperando-a com uma mesa pronta. Pratos. O macarrão. O molho. Velas. Duas cadeiras. De terno e gravata borboleta. Molly sentiu sua respiração falhar. Como ele conseguia atingir aquele nível de perfeição? Sherlock sorriu enquanto Molly tentava se aproximar sem desmaiar.

— Você é linda todos os dias, Molly. — Sherlock estendeu a mão. — Mas hoje... Não encontrei uma palavra apropriada.

Os olhos azuis brilhavam, parecendo inundados de emoção. Por um momento Molly ficou confusa, mas deixou isso para lá e aceitou a mão que Sherlock havia estendido. Ele a puxou e abraçou-a. Abraçou-a com força — e não costumava fazer isso com frequência —, escondendo seu rosto nos cabelos da legista. Deixou uma lágrima teimosa rolar e secou-a antes que Molly pudesse reparar. Era difícil segurar seus sentimentos naquela noite. Tudo estava perfeito.

— Pode me dizer o motivo da... — Molly riu. — Gravata borboleta?

— Noite especial. Comemoração. — Ele puxou a cadeira para que ela pudesse se sentar. — Nossa noite, Molls. Agora coma!

— Não tem... Vinho?

— Eu esqueci. — Mentiu.

Não deixaria-a ingerir qualquer tipo de bebida alcoólica.

— Tudo bem. — Sorriu. — Você fez isso?

Apontou a travessa enorme de macarrão ao molho branco. Parecia maravilhoso. O estômago de Molly estava pedindo para comer — novamente.

— Ah... Sim. — Ele parecia sem graça. — E eu peço desculpas se estiver... Se estiver ruim. Eu fiz o meu melhor e... Era uma receita simples na internet e...

Quando Sherlock parou de falar, Molly já estava se servindo.

— Não Molly, eu te sirvo. — Deu um tapa bem fraco na mão da castanha. Ela riu.

Sherlock havia preparado o jantar. E queria servi-la. Ela nunca se cansaria de se surpreender com aquele homem.

— Agora prove. — Serviu-se também.

— Eu nunca comi algo tão... — Ela riu. — Você está completamente aprovado!

— Aprovado? — Ele sorriu daquela forma psicopata que Molly adorava. — Aprovado para que?

— Sabe... Se quiser se casar... — Ela gargalhou.

A ideia de Sherlock casado era praticamente uma piada. Molly riu até a garganta doer, enquanto ele olhava-a admirado, como se estivesse encarando um anjo.

— Tenho algo para te dizer, Molly. — Segurou-a pela mão e se levantaram da mesa.

Assim que Molly estava em pé, Sherlock se ajoelhou aos pés da castanha. Em poucos segundos, ela se sentiu tonta. Sentiu seu corpo amolecer e pensou que fosse desmaiar. "Não faça isso, Molly." Ela advertiu-se.

— Molly Hooper... — Ele respirou fundo e escondeu sua mão dentro do bolso do terno.

Molly já sentia suas vistas embaçando e já podia prever as lágrimas rolando seu rosto. Mas ele a surpreendeu novamente. Molly esperava uma caixinha vermelha e aveludada, mas não foi isso que Sherlock Holmes tirou do bolso.

Eram dois mínimos sapatinhos. Um rosa e um azul. Sapatinhos de bebês. Molly piscou várias vezes, como se estivesse em transe... Sapatinhos? De bebê? Por que Sherlock estava oferecendo-a sapatinhos de bebê e olhando-a como se ela fosse... Divina? Oh meu Deus!

Respirou fundo uma, duas, três vezes até que conseguiu formular uma frase em sua cabeça. Mas da sua boca nada saiu. Molly estava sem palavras. Estivera enjoada enquanto abria os corpos, estivera morrendo de fome e até enjoada muitas vezes... Mas os preservativos... Os remédios... Tudo estava em dia.

— Molly... — Sherlock quebrou o silêncio. — Está me deixando com medo... Então?

— O que é isso? — A voz da legista saiu como um mio de gato. Se sentia apavorada.

— Eu estou te pedindo... Para que seja a mãe dos meus filhos. — Sherlock disse como se estivesse comentando o clima. — Você não tem muitas escolhas. Eles já estão dentro de você.

— Eles? — Molly fechou os olhos enquanto sentia sua cabeça rodar. — Do que você está falando?

— Pegue. — Estendeu os sapatos. — Tem uma surpresa dentro.

Molly tocou os sapatinhos com cuidado. Seu cérebro ainda não conseguia absorver todas aquelas informações. Ia ser mãe? Sherlock tinha armado tudo isso? Ele estava pedindo-a... Pedindo-a em casamento?

Quando Molly pegou os sapatinhos, sentiu alianças dentro deles. Não podia aguentar mais emoções naquela noite. Pela vigésima vez, sua cabeça rodou.

— Você vai se casar comigo, Molly Hooper?— Ele sorria.

Molly desmaiou.

— Sherlock, segure-a direito! — Molly disse apavorada. — Louise não é uma boneca!

— Me desculpe, me desculpe. — Ele beijou a testa da pequena garotinha.

Os gêmeos haviam nascido de sete meses. E agora já tinham seis meses de vida. Sherlock ainda se sentia segurando pequenos bonequinhos de carne e osso.

— Podemos trocar agora? — Sherlock perguntou. — Agora que Benedict já mamou, Louise também precisa mamar...

— Eu sei, querido. — Ela riu. — Acalme-se...

— Eu não sabia que viriam dois, Molly! — Ele balançou a cabeça. — Eu planejei tudo... Todos os detalhes! Eu sabotei a camisinha, escondi seus remédios... Mas isso eu não podia prever!

— Sherlock! — Molly revirou os olhos, tentando fingir-se de nervosa. — Obrigada! Eu te amo.

— E eu... Oh Deus! — Sherlock entregou a pequena nos braços da mãe enquanto pegava o pequeno garotinho. — Eu não posso suportar a ideia de perdê-los... Vocês são minha vida agora, Molly.

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