3 Chances
7 3º Chance - Parte 3
Notas iniciais
Reno POV
Olhei para o relógio de pulso mais uma vez, constatando que quase chegara atrasado dessa vez. Fui até a recepção avistando a já conhecida mulher gordinha que eu havia apelidado mentalmente de "Fã do Aoi".
— Suzuki-san. Achei que não viria hoje. — Ela lançou um sorriso.
Depois de algum tempo frequentando aquele hospital, ela começara a me tratar melhor e era simpática na maioria das vezes. Perguntava sempre sobre Aoi e eu sempre disfarcava, mudando de assunto ou simplesmente fingindo não escutar.
— Me prenderam no trabalho. — Retribui o sorriso. — Ainda tenho tempo?
— Só mais 20 minutos. Melhor se apressar.
— Obrigado. — Acenei e dei passos rápidos até o elevador, logo entrando e apertando o botão referente ao quinto andar.
Acabei pegando o costume de ir visitar Haruo toda a semana. O garoto que tinha câncer estava sempre alegre, mas ultimamente o quadro dele ia piorando e me senti na obrigação de ir visitá-lo para que ele se distraísse um pouco. Descobri aos poucos que Haruo era muito parecido comigo quando pequeno em vários aspectos, e embora no começo fosse visitá-lo na intenção de conseguir ver o rosto de Shino, mesmo que só de longe e por poucos segundos, acabei aos poucos me apegando ao garoto.
O elevador parou no segundo andar e abriu as portas, revelando um Shino surpreso e parecendo um tanto irritado em me encontrar ali. Me ignorou e se pôs ao meu lado em silêncio. Não era a primeira vez que nos trombávamos no hospital, e eu já havia cansado de ser ignorado por ele em todas as ocasiões. Ok que ele já tinha deixado bem claro que não havia me perdoado, mas não custava nada tentar ser simpático.
— O horário de visitas da área infantil já acabou. — Yutaka disse e eu quase pulei com a surpresa de escutar sua voz sendo dirigida a mim por sua própria vontade.
— Ainda tenho 15 minutos. — Respondi o encarando. Vendo que ele não me olhava de volta. — Haruo está bem?
— Não sou o médico dele. — disse seco.
Suspirei e voltei a olhar em direção a porta. Pelo menos ele havia dito alguma coisa, o que já era algo bom. Antes ele nem mesmo devolvia o olhar. E pensando melhor, percebi que nós nunca mais conversamos depois daquele dia, então não teria como o menor saber que eu ia ao hospital visitar alguém. Ainda mais na área infantil.
Senti vontade de perguntar alguma coisa, mas o elevador chegou ao seu destino e abriu novamente a porta. Shino saiu a passos rápidos pelo corredor, parecendo querer manter a maior distância possível de mim. Eu segui na posição oposta, não tendo muito tempo pra ir atrás dele.
Me apressei a chegar rápido a ala infantil, praticamente correndo.
— RenRen! — Vi Haruo exclamar assim que apareci na porta. Seus olhos estavam levemente inchados e fundos, o que fez meu coração apertar. A quimioterapia estava acabando com ele.
— Cheguei atrasado, desculpe. — Acenei para a enfermeira que estava ao seu lado e me sentei de frente para a cama. — Como se sente?
— Mais ou menos.... Esses remédios me fazem ficar com sono. — Ele deu um sorriso curto, quase forçado. Mas depois seu sorriso pareceu se iluminar um pouco. — Ah, ontem o pessoal da escola veio me visitar!
— Que legal! E a Kari veio também? — Ele corou totalmente e olhou para a enfermeira por um momento. Ela entendeu a indireta e se retirou pedindo licença. Eu ri da sua atitude, tão fofo. — Ela veio! E eu criei coragem e disse pra ela voltar amanhã, que eu queria falar uma coisa muito importante pra ela.
— Woow. E pretende se declarar então?
— Claro, é a minha chance!
— Espero que dê tudo certo. — Eu disse sorrindo. Conversar com aquele garoto me acalmava, ao mesmo tempo que me fazia inevitavelmente pensar em Shino.
— Ren... Como nós sabemos se estamos amando uma pessoa? — Haruo corou ao me perguntar aquilo, desviando os olhos para um ponto qualquer no quarto.
Eu pensei por um tempo antes de abrir a boca. Aquela não era uma pergunta muito fácil de responder e o que eu tinha em mente não era exatamente uma boa resposta.
— Quando percebemos que essa pessoa seria o único motivo do qual você abriria mão dos seus sonhos. — Dei uma pausa. Parte daquilo era verdade, mas não foi o modo pelo qual eu havia entendido o significado daquele sentimento. Só havia uma resposta certa na minha mente. — Acho que só sabemos realmente o quanto amamos uma pessoa quando a perdemos.
Haruo olhou triste para mim, quase como se pudesse entender sobre o que eu estava falando.
— Você perdeu alguém?
Emudeci por um tempo, com receio de estar me revelando de mais para um garoto que para minha concepção, era novo de mais pra entender a situação.
— Eu perdi o motivo dos meus sorrisos Ha-chan. Por isso não quero ver você perdendo o seu. — Senti meu peito apertar. Mesmo que já fizesse um pouco mais de dois meses que eu havia ido até a casa de Shino, exteriorizar o que eu sentia parecia ser um grande golpe.
Haruo esticou o bracinho para me afagar a cabeça de leve. Eu suspirei mais fundo quando senti o toque trêmulo e gelado de seus dedos. Eu havia perdido meu primeiro amor por causa de uma burrice, que até hoje parecia não querer ser apagado. Saber que eu não teria mais chances era perturbador. E aquele garotinho, vivendo com a certeza de que a doenca um dia o separaria do seu primeiro amor, me consolando daquela forma tão terna chegava a ser injusto. Eu não deveria me lamentar daquela forma.
— Sua pessoa especial te deixou?
Eu o encarei e tentei sorrir. Mas acho que o que se formou em meus lábios mais parecia uma careta.
— Fui eu quem o deixou.
— Por que fez isso?
— As vezes Ha-chan, os adultos ensinam coisas erradas para as criancas. E essas coisas erradas crescem a ponto de não escutarmos nosso coração.
— Se arrepende?
— Sim. Mas ele não me perdoôu.
— Perdoar é mais difícil que se arrepender...
A frase foi meio vaga, em um tom de voz que pareceria de um senhor de idade com muita experiência. Mas por ser dita por um garoto de apenas 9 anos, fez muito mais impacto em mim. quase sufocante de tão sincera.
— A hora das visitas acabou Suzuki-san — A enfermeira já conhecida de Haruo surgiu na porta me indicando o relógio.
Esfreguei o rosto com uma mão para me recompor antes de me levantar e afagar os cabelos do garoto.
— Prometo chegar mais cedo semana que vem, Haruo. — disse já cruzando a porta, vendo ele se acomodar mais na cama. — E quero saber com detalhes o que acontecerá amanhã, ok?
Ele sorriu de volta e se despediu em um muxoxo. Parecia estar com muito sono.
Eu também me apressei um pouco para sair de lá. A fã do Aoi podia acabar saindo do expediente exatamente naquele horário e eu não queria correr o risco de encontrá-la. Cheguei à porta do hospital e parei olhando pro céu escuro.
Chuva.
Suspirei pesadamente antes de colocar a touca da minha blusa e me encolher a caminho da minha moto. Aquela estação era um inferno para se andar desprevenido e agora, a chuva me trazia um estranho vazio.
— Odeio isso. — ouvi alguém ao meu lado dizer, e eu quase pulei de susto ao perceber que quem falava era Shino, estendendo um guarda-chuva sobre minha cabeça. Eu parei de andar e fiquei apenas o encarando, sem conseguir dizer nada. — Vai pegar pneumonia de novo desse jeito.
Eu continuei o olhando, não me importando mais se a chuva começava a ficar mais forte. Era irreal de mais que ele realmente estivesse lá, me protegendo com seu guarda-chuva como fazia a tantos anos atrás. E ele pareceu se irritar com minha falta de reação, segurando meu pulso e me puxando até um carro, que julguei ser dele quando o abriu e me empurrou pra dentro no banco passageiro.
— O que...
— Quero falar com você. Mas não aqui.- Shino me interrompeu e deu partida no carro, sem olhar para mim. Eu ainda estava estático e me limitei a ficar calado.
Ficamos o caminho todo em silêncio, embora não fossem nem mesmo 10 minutos, que pareceram longos de mais. Reconheci quando chegamos ao seu apartamento e continuei sem dizer nada, apenas o seguindo de cabeça baixa, encarando as gotas d'água que escorriam pelo meu cabelo.
— Por que continua indo para o hospital? — Ele perguntou logo que entramos em seu apartamento, parando exatamente nos mesmos lugares que no outro dia. — Não disse que sumiria da minha frente depois daquele dia?
— Estou indo visitar Haruo.
— Mentiroso.
Suspirei. Não queria mais ouvir aquele tom de voz vindo dele.
— Ok, é verdade que eu ia apenas para conseguir te ver. Mas agora eu realmente vou para conseguir conversar com aquele garoto. Viramos amigos. — Ele continuou me encarando, parecendo ponderar se acreditava ou não no que eu dizia. — Olha, se é por isso que me chamou aqui, eu...
— É verdade? — Me interrompeu novamente.
— Claro que é.
— Não. Estou perguntando sobre o que disse naquele dia... É verdade?
Eu precisei de um tempo pra entender aquela pergunta. A mudanca de comportamento do Shino era totalmente desconcertante e muito difícil de acompanhar. Meu coração já batia descontrolado somente de ter seus olhos nos meus daquela forma, e lembrar do que tinha acontecido antes não melhorava em nada minha situação.
— Tudo o que eu disse é verdade Yutaka. E se eu não consegui controlar meus sentimentos por todos esses anos, não conseguirei mais mudá-los. Desculpe.
Ele fechou os olhos por um momento, e eu tive a impressão que fora para reprimir algo que ele queria dizer. Abriu novamente quando ouvimos um trovão ao longe. Shino olhou para a grande janela da sala por onde a chuva forte parecia piorar. Me senti estremecer de leve pelas roupas molhadas que eu vestia.
— Odeio isso. — Ele disse ainda olhando pra fora pela janela. Eu voltei a encará-lo sem entender.
— Como?
— Odeio o fato da chuva nos unir dessa forma irracional. É quase como se o destino nos juntasse.
— Acredita em destino?
— Deixei de acreditar depois daquele dia... — Shino voltou os olhos pra mim, parecendo triste. Meu peito doía, eu queria sair de perto dele o mais rápido possível, era quase sufocante estar ali. Mas ele diminuiu a distância entre nós, parando a minha frente. — Por que eu quero tanto acreditar em você?
Congelei com aquilo. Por que ele tinha que me dar esperancas?
— O que quer dizer? — Perguntei quando ele ameaçou erguer as mãos e eu tive de segurar seus pulsos para impedir de tomar o caminho que fosse.
— O motivo de não querer aceitar suas desculpas, é por que as vezes os adultos ensinam coisas erradas para as criancas. E essas coisas erradas crescem a ponto de não escutarmos nosso coração. — Ele sorriu meio amargo e algo estranho no meu peito pareceu se aquecer. — Por que é mais difícil perdoar do que se arrepender.
Soltei seus pulsos meio atordoado. Ele tinha ouvido minha conversa com Haruo.
Mas não tive muito tempo para pensar em alguma coisa. Sentindo ele puxar meu rosto para si e colar nossos lábios por um instante, parecendo testar sua coragem e meu controle. Talvez vendo minha falta de reação, talvez dele mesmo querer isso. Era um prensar de lábios sutil, que começamos a movimentar de forma lenta. Era um beijo diferente dos outros que já tivemos, mais controlado, mais carinhoso. Eu quase não conseguia acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo. Depois daqueles meses em que eu tentava me convencer a esquecer Shino, aquilo pais parecia um dos meus sonhos. Agarrei sua cintura ainda trêmulo, com medo de despertar se apertasse de mais. O senti estremecer com o contato da minha mão gelada em seu rosto e logo recolhi a mão.
— Medo de me tocar? — Shino disse separando nossos lábios, em um sorriso meio torto.
— Tenho medo de fazer a coisa errada... novamente. — Suspirei fundo tentando entender o que acontecia entre nós. Ainda era irreal de mais. — Como posso ter certeza de que não fará o que fez comigo no hospital?
— Não pode ter certeza. Assim como eu não posso ter certeza de que você não fará como fez anos atrás. — Terminou de dizer me abracando, parecendo ignorar o fato de eu estar completamente molhado.
Não sei dizer quanto tempo ficamos daquele jeito, eu ainda com medo de tocá-lo de mais, e ele parecendo não querer me olhar nos olhos. Mil coisas se passavam pela minha cabeça, sem conseguir deixar que eu me concentrasse em algo específico.
Senti o calor do corpo de Shino me deixar, então acordei de meus pensamentos. Ele me encarava parecendo divertido. Tinhamos tanto pra conversar e eu queria perguntar tantas coisas a ele. Mas naquele momento eu só conseguia me concentrar nos seus olhos.
— Eu ainda gosto de você Reno. — Ele finalmente disse, me dando a certeza de que estava mesmo acontecendo. — E também não consegui mudar isso por todos esses anos, e nem vou conseguir.
— E precisamos de um garoto de 9 anos pra perceber isso. — Brinquei, não conseguindo exteriorizar o quanto estava feliz com aquilo. Embora ele com certeza sentisse meu coração palpitando como louco.
Ele sorriu.
Aquele sorriso que fazia meu peito aquecer e que ansiei ver por tanto tempo. Aquela era a certeza de que eu nunca o deixaria. Afinal, era a minha terceira chance. Minha última chance de ser feliz ao lado da única pessoa que amei.
— Vamos logo terminar o que começamos a 5 anos atrás. — Shino disse me puxando novamente para um beijo mais necessitado.
E eu não abriria mão daquilo por nada.
~ Fim ~
Fale com o autor