3 Chances
3 2º Chance - Parte 2
Notas iniciais
– E então vocês mantiveram contato. — Aoi sentenciou sorrindo. Tinha algo de doce naquela história, se ele não soubesse como tinha terminado. — Você é um completo idiota sabia? Como pode ter feito isso?
Reno fechou os olhos e se recostou novamente na cama, um pouco cansado. Ele também se achava um idiota e se xingava internamente sempre que podia.
– Não me diga que nunca passou por esse momento de provação, Aoi. Sabe muito bem como é difícil aceitar.
– Mas eu não fiz a besteira de afastar a pessoa de quem gostava. Comigo as coisas foram bem diferentes.
– Agora eu sei como aquela atitude era idiota. Negar foi a pior coisa que fiz. Eu devia saber que sentimentos não tem nada a ver com ética ou moral.
O loiro deu um suspiro pesado, ficando cada vez mais aborrecido com as lembranças. Ele tinha sido tão injusto.
– O Shino também não te reconheceu? — Aoi perguntou depois de um tempo, voltando a se jogar displicente na poltrona.
– Claro que não Aoi. Já tinham passado uns 7 anos, a memória dele não é tão boa assim. — Sorriu com o próprio comentário. Na verdade a memória de Shino era péssima.
– Como descobriu então?
O loiro olhou pela janela para observar a lua, que parecia sorrir pra ele. Aquele dia ficara marcado em sua mente pra sempre.
*O*O*O*O*O*
Já fazia um ano que nos conhecíamos e sempre nos encontrávamos na biblioteca. Eu havia descoberto que ele sempre ia lá para estudar, e acabava indo também. Ele me atraia de uma forma tão estranha. Era como se tivesse um magnetismo natural. Estava sempre sorrindo e alegre com tudo.
Era totalmente o meu oposto.
Eu tentava a todo custo ignorar o que começava a sentir por ele. Nem lembro mais das desculpas que havia dado pra ansiedade que eu sentia sempre que ele me chamava pra almoçarmos juntos, ou em como eu me derretia sempre que o via sorrindo. Eu negava de todas as maneiras possíveis que eu o considerasse mais que um amigo.
Por que era aquilo que ele deveria ser: um amigo.
Chegou a um ponto, que acabei tendo que me afastar dele. Evitava ir até a biblioteca e sempre arranjava desculpas, achando que assim essa fase estranha iria passar.
Doce engano.
Percebendo que eu continuava pensando nele o tempo todo, coloquei na minha cabeça que eu só o considerava um grande amigo, então não teria problemas de ir me encontrar com ele e ter vontade de vê-lo, não é? Amigos se sentem assim.
Foi com esses pensamentos que eu fui naquele dia até a biblioteca, encontrando ele lá, naquele mesmo lugar de sempre com a cara enterrada nos livros.
– Posso te acompanhar? — Eu disse puxando uma cadeira, vendo ele me olhar um pouco surpreso e abrir aquele sorriso que eu tanto senti falta.
– Faz tempo que não te vejo. Resolveu voltar a estudar aqui?
– Eu tava meio ocupado... — Menti. Aquela altura eu já sabia mentir muito bem, principalmente pra mim mesmo. — Mas agora está na época das provas né.
– Nem me fale. Estou com tanto medo de ficar em recuperação!
– Você em recuperação? — Acabei rindo. — Nunca vi alguém estudar mais que você!
Ele sorriu e corou, abaixando um pouco a cabeça como se tentasse disfarçar. E aquele sentimento estranho que eu vivia negando já começava a me cutucar.
– Ah, eu tinha um livro pra te entregar! São sobre leis criminais, achei que você iria gostar. — Ele disse de repente, me tirando dos devaneios.
– Sério?! Eu tenho que fazer um trabalho sobre isso pra semana que vem! — eu falei um pouco mais alto do que deveria, chamando a atenção de algumas pessoas. Ele acabou se encolhendo novamente, constrangido. E eu não pude deixar de rir. — Desculpe. Vim aqui exatamente pra isso na verdade.
– Quer passar em casa hoje? Nós podemos ir pra lá e eu te entrego o livro. Eu estava carregando ele sempre que vinha para a biblioteca, mas como eu não te encontrava, desisti de trazer. — Ele disse como se estivesse se desculpando.
Eu gostei do convite. Até mais do que deveria na verdade. Amigos vão pra casa um dos outros né? Eu deveria parar de ficar tão tenso a cada coisa que ele fazia, ou então ele poderia perceber e eu certamente não conseguiria explicar o motivo.
– Claro. Assim que você terminar aqui, podemos ir.
– Hm, já terminei. — Shino fechou seu caderno e esticou os braços para cima, dando uma espreguiçada. — Não entra mais nada na minha cabeça hoje.
Sorri com a atitude dele. Sabia que provavelmente ele acabaria estudando novamente quando estivesse em casa. Nos levantamos e fomos andando até sua casa, que era bem perto da biblioteca. O dia estava bonito, um pouco nublado e muito frio, mas bonito.
Em meio a tantas conversas aleatórias, percebi como eu sentia falta de estar perto dele. Não só de vê-lo, mas como rir dos seus comentários e ouvir sua risada. Sempre tínhamos muito assunto, mesmo que nossos gostos fossem totalmente diferentes.
Chegamos em sua casa, que ele disse dividir com algum amigo que passava mais tempo fora do que dentro do apartamento. Era um lugar incrivelmente arrumado pra ser lar de dois estudantes. Claro que eu sabia que o motivo daquela limpeza com certeza vinha de Shino.
– Quer um copo d’água? — Ele ofereceu, enquanto ambos retirávamos os sapatos para entrar na residência. Eu apenas neguei com a cabeça, deixando minha mala em algum canto ao lado da sapateira. — Fica a vontade, só tenho que ver onde deixei o livro.
Ele correu até a porta no fim do corredor que eu percebi ser seu quarto. Fiquei um tempo xeretando a decoração do lugar, reparando em como aquela casa tinha livros espalhados por toda a parte. Percebi que ele estava demorando um pouco de mais e resolvi ir até seu quarto verificar o motivo da demora.
– Quer ajuda? — Eu entrei vendo ele revirando seu armário.
– Ah, desculpa! Ele deveria estar aqui em algum lugar.... — Ele me pareceu ficar constrangido e olhou a sua volta preocupado, parecia ter revirado tudo. — Eu vou achar, só deixa eu pensar um pouco.
Eu ri da maneira desesperada que ele falava. Como se eu estivesse brigando com ele.
– Calma, se não achar tudo bem. Tenho até semana que vem pra fazer isso.
– Não acho que uma semana seja bastante tempo.
– Pra mim é o necessário.
Ele sorriu balançando a cabeça, como se não acreditasse naquela minha falta de comprometimento.
– Queria ser mais despreocupado como você. As vezes acho que sou meio paranóico.
– E é mesmo. — Eu disse e ele fez uma careta. Por que será que quando afirmamos um defeito que a própria pessoa disse ter, elas não gostam?
Dei risada da cara dele e continuei, tentando concertar o que disse.
– Mas é bom ser assim as vezes. Todos devem saber que você é esforçado e tenho certeza de que se destaca entre os outros alunos. Queria ter certeza do que quero fazer como você tem. Quase consigo ver seus olhos brilharem quando você fala da faculdade!
– Ah, eu demorei um pouco pra tomar coragem e seguir esse caminho. Eu venho de uma família de professores, e eles queriam que eu me tornasse um também. Mas eu nunca me sentiria bem fazendo algo que eu não gosto.
– Seus pais foram contra?
– Sim. Minha mãe até começou a me apoiar agora, mas meu pai continua decepcionado e diz que eu nunca vou conseguir me formar.
– Não duvido que você se forme. Agora eu... Nunca fui muito sortudo.
– Isso não tem a ver com sorte. — Ele riu e se levantou do meio da pilha de roupas que estavam jogadas ao seu redor. — E mesmo que tivesse, não acho que você não seja sortudo.
– Não? Meus relacionamentos nunca dão certo, tenho poucos amigos, sempre estudo o que não vai cair na prova e sempre chove quando não estou com guarda-chuva. Pra mim isso é azar.
Ele riu alto dessa vez e eu me sentava na beirada de sua cama, o encarando divertido. Sua risada era tão gostosa.
– Mas pense bem. Você tem uma boa família, nasceu sem nenhuma doença terminal e tem todos os membros do corpo. Mesmo com poucos amigos, você tem um pelo menos, o que significa que ele deve ser verdadeiro né? Sabe, acho que todos deveriam listar as coisas boas antes de lamentar as coisas ruins.
Olhei pra ele meio sem acreditar. Eu estava mesmo levando um sermão? Mas isso também me fez sentir um pouco mal. Eu realmente não tinha muito com o que reclamar, vendo por esses termos que ele havia colocado.
– Acho que você é a pessoa mais otimista que eu conheci.
– Acho que você quem é pessimista. — Ele sorriu de novo.
E será que alguém podia, por favor, fazer ele parar de sorrir?
A cada sorriso daqueles que ele dava eu sentia meu peito se aquecer de uma forma totalmente incontrolável e isso só fazia eu me sentir pior. Ele é meu amigo droga, somente amigo!
Ou era nisso que eu queria acreditar.
*O*O*O*O*
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