28 Anos.
1 Bloco EVA
Notas iniciais
Em relação ao horário de postagem, aqui onde moro naõ tem horario de verao. :)
O homem de 46 anos estava numa cama de um hospital na Barra em Salvador no Hospital Português. Impaciente com aqueles malditos bipes da maquina ao seu lado. Com o Alzheimer precoce em seu estágio terminal, ele morreria logo, os médicos já foram informados que não há tratamento para o caso dele, os familiares e amigos foram preparados para o pior, a previsão: 28 dias.
Todos apenas tinham um pensamento: fazer com que ele não partisse sem se lembrar, afinal todos somos feitos de memórias. E aquele homem era um que tinha muitas historias para contar, ou melhor, historias a ser contadas a ele.
Era noite de três de fevereiro, um último pedido foi feito pelos parentes. Carlos receberia uma visita todos os dias, antes que partisse para sempre. Como era um c aso especial tiveram que pedir permissão da diretoria do hospital, que depois de dois dias do inicio de fevereiro decidiram aceitar o pedido de apelo da família.
Alguém bateu na porta. Carlos mal pareceu ouvir. A pessoa entrou.
Ele não reconheceu, mas aquele era o seu amigo de muito tempo, mais conhecido como Cadu. Se conhecem desde moleques e o seu primeiro carnaval foi com ele.
– Oi Carlinhos, como você está?
– Quem é você? – Cadu suspirou e olhou para o amigo em compreensão.
– Eu vou lhe contar.
– Marta, sai logo do chuveiro, vou me atrasar. – Carlos batia freneticamente na porta do banheiro, onde sua irmã estava há mais de 10 minutos.
– Nunca ouviu falar que a água do mundo está acabando não menina?
Carlinhos estava muito empolgado, era seu primeiro carnaval e já que tinha completado 18 anos sua mãe finalmente atendeu a seu pedido, dando como presente essa permissão. O carnaval de 1987 prometia muitas atrações, dentre elas o Bloco da Banda EVA, banda muito popular na época por relembrar canções das raízes da Bahia, além do mais sabiam como agitar uma festa. Carlinhos economizou três anos para isso. As duas da tarde já estava pronto, uma bermuda, sandália de couro e o abadá.
– Mãe, já estou indo!
– Espera filho! Está levando a identidade? O dinheiro está bem guardado, você sabe que tem que ter cuidado nessas festas não é?
– Está tudo bem mãe, já tomei as precauções e não vou sozinho, o Cadu vai comigo, vou passar na casa dele para a gente ir junto, tá bom?
– Tudo bem, se você vai com o Cadu eu fico mais tranquila.
Carlinhos saiu de fininho antes que sua mãe lembrasse de mais alguma coisa e o prendesse por mais tempo. Andou dois caminhos acima do seu e entrou no prédio onde morava o amigo. Depois de três batidas na porta a mãe dele abriu.
– Oi Carlinhos, o Cadu já vai sair, ele está terminando de se vestir, pode entrar querido.
– Obrigada tia Telma.
Carlos sentou no sofá para esperar seu amigo. Enquanto Telma estava na cozinha cuidando da louça, uma porta se abriu, dela saiu a irmã do Cadu, Ana, namorada secreta de Carlinhos, ele pretendia esse ano pedir aos pais dela em namoro, nenhum dos dois mais aguentava viver na clandestinidade, nem mesmo o irmão dela sabia e a culpa estava corroendo-o por dentro, sentia que estava traindo o amigo. Mas Ana queria que esperasse só mais um pouco.
Apenas alguns olhares foram trocados e um pequeno sorriso que surgiu no canto da boca da menina de 16 anos, que parecia mulher. Carlos não tinha vergonha alguma em admitir para si mesmo que era totalmente controlado por ela, estava definitivamente apaixonado.
Dias antes eles tinham conversado sobre a festa que Carlos iria.
* * *
– Você tem certeza que estamos bem com isso? – Carlinhos repetia mais uma vez.
– Claro, não se preocupe. – ela estava muito tranquila sobre isso, mas ele podia perceber um relance de irritação em seus olhos.
– Eu te conheço Aninha, sei quando mente pra mim, porque não me fala o que você quer falar.
– Tá bom, quer mesmo saber? – Carlos assentiu – Eu acho que você quer ir nessa festa só pra poder pegar essas piranhazinhas na Avenida Sete, ou você pensa que eu não sei que vai ter mulher da vida lá.
– Meu amor, isso é lenda, mesmo se tivesse alguma dessas mulheres lá, você acha que elas me dariam bola?
– Eu daria... – ela disse sem jeito.
– Não confia em mim? Eu vou só para curtir a festa, você sabe que é o meu sonho desde quando era menino.
– Eu sei, confio em você, eu não confio é no meu irmão com você. Ele não sabe que estamos juntos, e do jeito que ele é vai querer empurrar aquelas piriguetes para você. Romance de carnaval. Um beijo, uma noite.
– Não se preocupa não menina, eu só tenho olhos pra você. – disse cobrindo o rosto dela de beijos.
– Tudo bem, se você diz. – disse com um sorriso estampado no rosto.
* * *
Cadu já tinha avisado que estava quase pronto, com um adeus silencioso Ana fechou a porta.
– Pronto cara, vamos logo que estamos atrasados.
– Culpa de quem mesmo? – disse Carlos acompanhando Cadu que estava voando porta afora.
– Tchau mãe! – gritou quando já estava descendo as escadas.
Quando chegaram no ponto decidiram esperar três ônibus porque todos saiam lotados, finalmente tiveram sorte no quarto e subiram. Sentaram no banco dos fundos e a parti dali os lugares foram preenchidos muito rápido.
– E essa droga de transporte publico que ninguém resolve? – reclamou Cadu.
– Para de reclamar, que já estamos chegando.
Desceram no largo da Avenida Sete que estava lotada de pessoas, muita gente alegre, pulando, indo atrás das marchinhas, cantando musicas. O Bloco EVA estava prestes a sair, eles se embrenharam no meio da multidão e seguiram junto com todo o resto pela movimentada avenida.
Depois de horas de muita folia, passando pela orla de Salvador e encontrando as cenas mais bizarras que só acontecem no carnaval. Carlos notou que já era noite.
– Já está na hora cara, minha mãe vai ficar preocupada.
– Relaxa Carlinhos, tá comigo, tá com Deus.
– Cara, você bebeu? Não tô acreditando nisso. E minha mãe disse que estava tranquila porque eu ia com você... Vamos pra casa.
– Calma, fica relax, nem parece que tem 18 anos cara... primeiro conheça minhas amigas: Carol e Cátia. Gêmeas. – disse apontando duas mulheres muito bonitas.
– Amigas desde quando?
– Desde há dez minutos atrás. – disse e os três riram, mesmo Carlinhos.
– Cara, você não está bem. Vamos pra casa.
– Se quiser ir, não tem ninguém te impedindo não. Sobra mais pra mim.
Carlinhos estava de mãos atadas, queria ir embora, mas não podia deixar o amigo sozinho naquela situação. Ficou por lá não sabe mais quanto tempo, quando viu Cadu cochichar algo no ouvido de uma das gêmeas. Depois disso ela foi em direção a Carlinhos e o beijou, e o pior de tudo foi que ele gostou. Pegou nos cabelos daquela morena e sentiu o gosto amargo da cerveja, não deixando o beijo menos viciante.
Quando voltou a si e afastou ela, viu Ana um pouco distante com agua nos olhos. Sentiu um súbito impulso de correr até ela, mas se fizesse isso riria revelar a Cadu que namorava a irmã dele e que ela estava aqui. Toda a sua atenção foi desviada para o mesmo que agora estava vomitando em seus pés. Quando voltou a olhar para onde Ana estava, ela já tinha sumido.
Cuidou do amigo. Deixou que ele vomitasse tudo aquilo que não comeu e depois o levou para praia, onde os deu um banho de mar nele, para curar um pouco da ressaca, se a mãe dele o visse nessa situação, ele seria morto.
Pegaram o ônibus para casa, com o sol ameaçando se levantar, subiu as escadas e entregou o amigo, para a sorte de Cadu e azar de Carlinhos, Ana atendeu a porta e sem dizer nada levou o irmão até seu quarto. Carlos quis dizer alguma coisa, mas acabou dando meia volta e indo para casa. Abriu a porta bem devagar para não acordar sua mae que tinha um sono leve e foi para o banheiro tomar banho, já que estava com sal no corpo. Vestiu seu pijama e foi dormir.
Quando levantou, levou uma bronca de sua mãe por ter chegado tão tarde e um castigo de uma semana sem poder sair de casa. Ele estava um pouco deprimido por causa de Ana, a garota que ele gostava pensava que ele a tinha traído e ele nem poderia sair de casa para se desculpar.
Depois do castigo ter passado outo desafio foi posto a Carlos. Enfrentar os olhos de Aninha. Foi até sua casa e depois de muito hesitar bateu na porta de sua casa e ela mesma atendeu.
– Oi – ela disse – pode entrar, meu irmão está no quarto, na verdade ele esta de castigo pelo resto da vida.
– Eu quero falar com você.
– Não precisa, eu entendi tudo.
– Não, não entendeu, você entendeu errado, eu nunca quis...
– Tudo bem Carlinhos. – seus olhos brilhavam – Eu também fiz coisas erradas.
“Oh, você não consegue ver?
Você pertence a mim
Como meu pobre coração sofre
Com cada passo que você dá”
– Como assim?
– Eu não fui totalmente sincera com você. Eu também fui para a festa, eu também quebrei minha promessa.
“Cada movimento que você fizer
Cada promessa que você quebrar
Cada sorriso que você fingir
Cada direito que você reivindicar
Eu estarei te observando”
– Mas porque?
– Porque eu não confiava em você. E não pode haver um relacionamento sem confiança. Talvez não fosse a hora.
Depois de muito tempo Carlinhos contou esse episodio a seu melhor amigo, aversão completa e disse que a irmã mais nova de seu melhor amigo quebrou seu coração pela primeira vez, mas que pelo menos pode presenciar um dos fatos históricos mais importantes da vida dele.
Seu segundo beijo.
Seu amigo bêbado.
E aprender a nunca beber em festas.
Seu primeiro carnaval.
– Adeus velho amigo. – Carlos Eduardo saiu com pesar no coração, seu amigo iria lhe fazer muita falta.
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