24 de Janeiro, 1996.

Querido diário, estou aqui a completar meus 8 anos, do mesmo jeito de sempre: Uma festa mais feita para a família, do que pra mim, e eu trancada no meu quarto, sabendo que nos outros dias será a mesma coisa, mesmas pessoas, mesma solidão. Odeio isso, odeio essa vida, ter que ficar sozinha e sofrer na escola, por “saber demais”.

A única coisa boa nisso tudo, é que eu sei que mais para frente vou ser superior aqueles que me maltrataram.

Vou para a festa, até amanhã.

25 de Janeiro, 1996

Estou aqui de novo, na escrivaninha do meu quarto, esperando meus tios chegarem para viajar, para a praia, amo a praia, rs.

Lógico que levarei você, não vivo sem você, diário, único amigo de verdade que eu tenho. ):.

Minhas malas estão lá embaixo, já estou arrumada e pronta para ir. Vamos ficar numa casa de praia, distanciada da parte movimentada, amo ficar lá. A vista é linda, posso até desenhar, sou mestra nisso, rs.

Ah, são 23h45min agora, estive muito ocupada hoje à tarde, arrumando as coisas, desculpe por não escrever.

Ah, minha prima vai com a gente também, eu adoro ela, pena que não nos vemos muito... Eles chegaram, até mais, querido diário.

Reler o que eu escrevi há 13 anos, onde eu podia perceber tudo, porque era simplesmente fácil, com esse meu “dom”, que não funciona no mundo de hoje. Ainda não posso acreditar, que dia 25 de Janeiro de 1996 não era uma viajem que tiraria minhas preocupações, era o lugar que tiraria minha vida. Fiquei presa naquele lugar escuro, sujo, não podia ver a luz do sol, não sabia o que era a natureza mais. Meu diário e meu caderno de desenho foram tirados de mim, os pertences mais preciosos que eu tinha.

Vivi lá por esses 13 anos, e só hoje, dia 29 de Março, 2009, consegui sair daquele inferno. Estou num trem, tem pouca gente, a tecnologia avançada estragou o que era bom de verdade. Estou indo para a casa de meus pais, se aqueles traidores ainda estiverem vivos. Se tem uma coisa que eu aprendi naquele lugar, foi ser vingativa. Se meus “pais” não estiverem mortos, eu termino o trabalho que a morte não pôde fazer.

~*~

Cheguei lá, estava totalmente diferente do que eu era, e certamente, 13 anos fazem muita diferença. Bati na porta, como antigamente. “Mamãe” atendeu, sabia que não tinham morrido. Dei um sorriso sarcástico e ao mesmo tempo malicioso, disse “olá, posso entrar?” e ela permitiu minha entrada.

Entrei e vi a casa que eu vivia, totalmente mudada. “Mamãe” me ofereceu um café, -estranho, antes era chá.- E sumiu do meu campo de visão. Vi uma sombra, saindo do quarto do ultimo corredor, provavelmente seria algum prisioneiros do casal de exploradores de crianças com poderes sobrenaturais inocentes.

Entrei no quarto e vi um jovem, de aproximadamente 19 anos estudando, podia perceber que ele estava perturbado. Cheguei perto e ele recuou, eu o avisei que estava tudo bem e disse “Por que você está aqui? É filho deles? Ou te raptaram?” Soltei um riso, para parecer bobeira, porém ele afirmou que foi raptado, e, amedrontado, sussurrou no meu ouvido “Na verdade, sou sobrinho deles, me mandaram aqui porque tenho um ‘dom’. Fizeram isso com a filha deles, sabia disso?”.

Veio tontura, calafrios, tudo. Meu estômago revirou, ele estava falando de mim. Eu afirmei, nervosa, e ele, tem o “dom” de saber o que a pessoa está sentindo, eu acho, pois ele disse “Você está louca? Eles podem te prender de novo a qualquer momento!” Ah, como a inocência é boa...

Eu balancei a cabeça e perguntei o nome dele: Pedro. Estranho ele não sofrer o que eu sofri, talvez seja coisa particular de meus tios, sabia que ele falava a verdade. Perguntei a ele se ele não queria sair dali comigo, ele balançou a cabeça dele afirmando. Ótimo, alguém para me ajudar e me acompanhar nessa “missão”, nunca tive alguém em quem podia confiar.

Fui até a sala, fingindo não existir a conversa com Pedro, quando Dona Amélia voltou, com uma bandeja com xícaras de café. Ela sentou-se e colocou a bandeja na mesinha de centro, enquanto eu sentava na poltrona reclinável que antes era uma poltrona velha. Ela começou o diálogo “Então, por que você bateu em minha porta?” ela realmente não sabia quem eu era. No momento que eu ia responder a pergunta, Carl Belzegner, que seria meu pai, havia chegado de seu trabalho, acomodando-se ao lado de Amélia.

Ele também não se lembrava de mim, pelo que percebi. O que era bom. Ele acenou para mim, virou, e ligou a TV, para assistir ao jogo que estava passando. Decidi usar um pretexto para minha primeira vítima. Quando Amélia foi pegar o café, eu, com minha mente brilhante, fiz a xícara virar, e sujar a mesinha. Amélia, sem graça, disse “Isso acontece, rs” e se dirigiu a cozinha. Ótimo, quando ela saiu, peguei meu frasquinho de veneno, e coloquei umas gotinhas na xícara que seria para Carl.

Quem dera fosse questão de tempo para ele se servir do café, mas não, ele tinha que dormir. Mas nada que uma telepatia ou outra mudasse isso, não é? Simplesmente com meu pensamento, o guiei até o café, fazendo-o beber até a última gota. “Menos um!”.

Enquanto eu sorria para meu “pai” tossindo, morrendo, eu pude ouvir minha “mãe” falando ao telefone. “Não, ela não pode ter fugido, não pode!”.

Esqueci de contar. Para sair daquele lugar, precisei eliminar uns guardinhas. Porém, lá estava meu tio no fim do corredor que levava para a porta para a liberdade. Com certeza, ele deveria contratar guardas melhores. Aprendi a manusear um facão rapidinho.

Voltando a atualidade, depois que Amélia ouviu a notícia vinda de minha tia, ela olhou, tremendo para a sala, e logo me avistou sorrindo para Carl. Quando notei isso, chamei Pedro, que me trouxe meu facão. Andei em direção a minha mãe querida, com um sorriso malicioso no rosto e sensação de satisfação ao ouvir o ultimo suspiro de Carl.

Cheguei perto dela, olhando bem nos olhos, sem sentir nenhum remorso sobre o que eu fiz com aquelas pessoas. “Ah, mamãe, não deveria ter feito aquilo comigo... haha” Logo depois disso, enfiei o facão em seu abdômen, vendo o sentimento de pura dor, sua expressão contorcida. Só o que fiz foi rir. A casa deles era distante da cidade, seus gritos não seriam ouvidos.

A cena era linda de se ver. Duas das pessoas que mais me fizeram sofrer, já não farão isso com ninguém. Enquanto saia com Pedro da casa, pude avistar uma garota sentada na praça que havia em frente à casa de meus falecidos pais. Ela usava Jeans claro, uma blusa de mangas amarela, estava lendo um livro, um livro familiar... Ela olhou na minha direção, a expressão que antes era séria e concentrada, se transformou num belo sorriso.

A guria fechou o livro e andou na minha direção, e disse “Bianca! Você voltou! Não acredito, que saudades!” Era Lara, a única amiga que eu tinha, fora meu querido diário. Conversamos por um tempo e ela me disse que meus pais disseram que eu havia ido para um internato, e que eles sentiam muito por eu não poder me despedir. Nessa hora, eu queria matá-los se eu não tivesse feito isso.

Tive que contar a triste verdade sobre minha “vida” para eles. Eles ficaram boquiabertos, tudo aquilo de ruim acontecia comigo, e eu estou aqui, via, e pronta para acabar com a vida de quem quis acabar com a minha.

Lara me disse que a família dela também estava olhando para ela, desconfiados. Eles diziam que a inteligência dela era muita, ultrapassava até os que tinham sabedoria de vida. Ok não é só eu nessa cidade que sou sobrenatural...

Fomos andando até o hotel onde eu ficava. Pedro ficou comigo numa Suíte ao lado e Lara, decidida a sair daquela casa, dividiu o quarto comigo. Arrumamos nossas coisas e enquanto Lara tomava seu banho, eu fiquei observando a paisagem da janela do 7º andar, a praça antiga que se encontrava em frente ao hotel agora era uma boate.

Esse mundo não é normal. Onde estão os brinquedos do playground que agora é uma lanchonete? E a loja de brinquedos que ficava na esquina, agora virou uma loja de videogames. Perguntei a Lara o que havia acontecido com o mundo de hoje. “A tecnologia aconteceu, Biah. Tudo mudou, não existe infância mais.”

Sentei-me na beirada da cama de casal e refleti: O castelo do qual eu ficava no porão apodrecendo por dentro, nunca havia mudado, pelo menos não ao que eu podia ver no local. Mas ao ver outras crianças e até adolescentes sofrendo, achei que aquele lugar era abandonado pelo mundo “lá fora”, porque torturar crianças inocentes à procura de informação que elas não sabiam, era coisa de gente do século XIX.

Resolvi pegar uma bebida do frigobar e tentar usar uma daquelas coisinhas chamadas computador. Lara estava mais por dentro desse assunto tecnológico, então me ajudava e ficava brava demais mexendo com uma pessoa aparentemente burra. Ela me perguntou “Mas o que você quer ver na internet afinal?” já dando a impressão de “Me fala logo que eu faço tudo para você, tá?”.

Eu respondi, suspirando inocência “Quero encontrar os meus antigos coleguinhas da nossa escolinha.” e todo mundo pode imaginar o porquê. Eles foram os primeiros a me isolar dessa coisa que hoje em dia chamam de sociedade.

Lara fez um gesto de “Com licença, a mestra aqui precisa entrar em ação” me expulsando da cadeira de rodinhas. Saí da cadeira e me ajoelhei ao lado dela. Fiquei surpreendida com a rapidez que ela tinha ao digitar tudo que precisava naquela maquininha. “Pronto, aqui está.” Em quinze minutos ela já havia imprimido toda informação que eu precisasse saber sobre os antigos alunos da escola. Peguei as folhas e as analisei enquanto Lara apagava toda a busca do histórico.

Ela se levantou concentrada e pegou sua mochila com padrões de camuflagem cinza e olhou pra mim, dizendo “Você não vem? Vamos à busca deles, também tenho coisas a acertar.” E eu pensando que aquela menininha inocente era uma menininha inocente até hoje...

Levantei como se fosse uma garotinha de dez anos não querendo ir para a escola sendo puxada pela Lara. Ao entrar no que parecia ser um “elevador” senti calafrios ao descer. Aquelas coisas novas estavam me deixando confusas já. Ao ir para a recepção, avistei Pedro apoiado no pilar de mármore olhando vagamente pela porta de entrada do hotel.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.