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Sempre e Nunca

Lawlieth

Sempre e Nunca
Capítulo 112 min de leitura

Capítulo único

Estava recostada ali uma bela figura de homem.

Seu rosto era inexpressivo mas seus olhos, em meio ao negror, exibiam uma intensa e cruel saudade.

A luz do ocaso esbatia em sua pele queimada de sol naturalmente. E um vento vindo da varanda assanhava-lhe os cabelos ondulados e pretos.

Dentro de si, estava repleto de uma paixão tão estranha que mal se encontrava em si mesmo.

Já amara, certa vez, ele podia vagamente se lembrar. Mas fora tão severamente separado disso. Dedicou-se mais tarde ao trabalho, ao corpo. Esqueceu-se do coração e pensava que não podia mais sofrer. Mas estava enganado.

Naquele momento, então, levantou-se de onde estava e se colocou sob a correnteza fria e triste da água do chuveiro.

Sentiu todo o pesar se indo com as gotas que lhe assediavam a pele.

E num instante empolgou-se em qualquer lugar abaixo de seu ventre; desejou algo, desejou alguém. Mas quem?...Ali, ele não ousou descobrir.

Terminou o banho e voltou ao quarto.

Vestindo-se de um jeans e uma camisa branca, olhou no espelho e sorriu pra si mesmo.

Aquela seria uma noite maravilhosa, ele bem sabia.

Instintivamente rumou para aquele destino incerto das festas onde costumava se divertir.

Sentou-se junto a um balcão e logo pediu uma bebida; vinho talvez fosse o que queria.

O pequeno copo mal se demorou a passar sobre seus lábios e o líquido enegrecido pela luz tênue queimava ao descer por sua garganta.

Rapidamente, sentiu-se muito desperto em meio ao torpor que lhe envolvia devagar.

A batida da música retumbou dentro dele e ele se colocou em meio àquelas pessoas que de pé não dançavam, ou pelo menos, não como ele.

E passando a mão entre os cabelos, ele deixava escapar alguns poucos suspiros. Mas não imaginava contudo ser observado pela única que lhe mexeu com os sentimentos em todos os seus trinta e poucos anos.

E ela já estava lá bem antes de ele chegar exibindo toda a sua masculinidade delicada para ela.

“Por que”, ela pensava, “ele tem que ser tão maravilhoso?”

Ela não sabia, mesmo agora, depois daqueles quatro longos anos.

Percebeu ali, ao vê-lo, nada mudara.

Lembrou-se do dia em que o conhecera. Lembrou-se de como sentia ciúmes daqueles que não precisavam de esforço para cortejá-lo, enquanto que ela ansiava pelo instante em que ele a olharia com o seu desejo.

Tomada então de intensa decisão, resolveu-se.

Levantou e andou até a pista de dança onde ele ainda brilhava, só para ela.

Mas ficou estática quando ele, ao virar-se distraído, encontrou seus olhos cobiçosos.

Eles se encararam durante um mero instante.

—Vem — estendendo-lhe a mão foi tudo o que ele disse antes de tê-la colada a seu corpo.

A hora já se estava adiantando e ele ainda não cansara. Tudo parecia se mover sozinho. Só sabia que não queria parar a dança.

No entanto, a mente lúcida percorreu várias lembranças. Algumas ele nem mesmo acreditava que tinha. Outras que o regozijaram. Sorriu.

E abrindo os olhos que mantivera fechados até ali, ele mal pôde conceber a figura que avistou.

“Não é possível”, ele pensou.

Como poderia?...Ainda há pouco lembrara aquela menina. Sua retidão. Sua devoção. Sua paixão absurda. Será que ela não entendia? Ele nunca a quereria.

Pelo menos foi assim que pensara durante todo aquele tempo em que não a vira. Foi tudo o que disse a si mesmo no momento em que se dera conta do amor dela.

Mas não foi assim que sentiu quando se deparou com ela ali, depois de tudo.

E por alguma razão que ele preferiu não saber, seu coração batucou no peito.

—Vem.

Era uma sensação incrivelmente familiar e acolhedora. Ao mesmo tempo em que tinha algo de lânguido e excitante.

Ela não conseguia falar tamanha era torrente de sentimentos que lhe serpenteava pelo coração e pela mente.

Virou-se de costas a ele e começou também a dançar.

Regozijou sentindo as mãos dele que se dependuravam em sua cintura esculpida e percebeu que ele queria que ela ficasse.

Mas ainda estavam tímidos quando ele ainda não se encostava de todo em seu dorso.

Suas mãos que até então estavam largadas em seu lado foram colocadas sobre as dele.

—Pode... — sussurrou —... chegar mais perto.

Ele se aproximou, e ela estremeceu de paixão.

“Por que”, ela pensou novamente, “ele tinha de ser tão poderosamente masculino se não podia ser meu totalmente?”

Como querendo olhá-lo nos olhos, ela se virou para ele, encontrando finalmente aquela magnífica figura que lhe punha apaixonada.

Junto com o calor, sentiu a protuberância enrijecida sob a braguilha da calça dele e sorriu de júbilo.

Ele se surpreendia com o quanto que seu corpo o estava traindo. Não queria aquilo, mas... ele já a queria muito, mesmo.

Abraçou-a, então.

Pararam de dançar. E ela correspondeu ao abraço que reacendia nos dois um fogo de outrora.

Eles se separaram por um instante e ele voltou a olhá-la nos olhos.

—Eu... eu amo você — ela disse, corando sem que ele visse.

E perguntou, ao olhá-lo também, súplice:

—Será que as minhas palavras estão alcançando você?...

—Não — ele falou primeiro e de repente. E viu uma lágrima nascer por trás das íris de âmbar dela. Mas então voltou a falar e disse: — Já tinham alcançado, há muito tempo... ”criança” — e a abraçou, envolvendo-a de modo que ela não pudesse escapar, de modo que ele mesmo nunca mais a mandasse embora, de um modo que deixasse bem claro que era ele quem cuidaria dela assim como ela fizera tão veladamente que ele nunca percebia a tempo. Mas isso havia mudado. Nada de desculpas. Nada de entraves. E nada de espera. Porque ele não a deixaria mais esperando. E continuou: — E isso... — beijou então a testa no lugar entre as sobrancelhas unidas para olhar novamente em seus olhos cheios de paixão — ... é realmente “uma felicidade que merece ser chamada de milagre” — e finalmente os lábios dele se repousaram num lugar onde para ela sempre deveriam ter estado.

Amou-a muito, loucamente, desde o momento em que a conhecera de todo. Soubera disso durante todo o tempo em que não a vira, mas nunca quisera admitir.

Seus lábios brincaram juntos, numa ternura e voracidade infindáveis, etéreas.

Novamente ele se separou dela e, segurando-a pela mão, partiram dali; enquanto que ela se ria do modo como ele ainda não a largara, contendo-a fortemente, como se não quisesse perdê-la.

Com um tempo que não importou eles chegaram, e ela adorou a decoração sutil e requintada da sala embora mal a tenha visto.

Quando finalmente estavam no quarto ele ainda não relaxara. Tentou falar e as palavras não saíam.

—Deixa... não precisa falar nada — ela disse, os olhos dentro dos dele, cheios de ternura — Isso tudo pode durar só esta noite, que eu não vou lamentar — ela falou, e ele, transtornado de emoção, não pôde conter o ímpeto de envolvê-la novamente e tomar-lhe os lábios de rubi, beijando-a com força e doçura, apaixonado, como ela sempre quisera.

Enquanto eles iam aos poucos se aproximando da cama, o ar da noite se infiltrava pela janela aberta e nem se davam conta.

Como percebendo o obstáculo das roupas, ele tocou-lhe as costas a procura do zíper que selava o vestido justo que ela trajava. E ela insinuou o corpo para frente enquanto o fecho era desfeito. Um poderoso espasmo a tomou quando as mãos dele, leves, encontraram as alças sobre os ombros e as começou a descer pelos braços dela, baixando o vestido, e deixando à mostra as curvas sinuosas e firmes que ela escondia por sob a roupa. E ficou ele maravilhado tamanha era a beleza nova dela.

Deitou-se vagarosamente sobre ela, os dedos entre os seus cabelos revoltos. Desse modo, acariciou-lhe a fronte, beijando-lhe os olhos, os lábios e as faces do rosto, partindo dali para o vale dos seios quase translúcidos.

Uma miríade de sensações perpassou a mente dela. E mal estava ciente da impropriedade de amar aquele homem que não via há anos. Mas quando deu por si, encontrou os lábios dele que subiam vertiginosa e perigosamente por suas pernas, findando na tépida junção entre elas.

Só então ela se descobriu completamente nua e ele, completamente vestido.

Sentindo um súbito acesso de constrangimento, puxou-o para si, livre para que ela também o despisse. E levantando-se o deitou no lugar onde ela antes estava.

Sabendo que a atenção dele era só sua, languidamente, montou-o, delicada, e se acomodou sobre seu ventre masculino, percebendo a virilidade que a aguilhoava. Sorriu um riso que reverberou, de voz cristalina, que vibrou nos tímpanos dele e tamborilou seu coração.

Depois, ficou muito serena quando aproximou o rosto do dele, como se fosse beijá-lo, mas ficou só ali, colhendo sua respiração pela boca entreaberta, a excitação e o amor que todo o corpo dele estava prometendo. Fez uma nova menção mas frustrou-o quando arrastou-se mais para baixo, iniciando quase a mesma cruzada que ele lhe fizera, mas ainda mais calma, como fosse ela a ter experiência dele, dominadora e absoluta.

Quando ela tornou a descer e o tocou, ele sibilou.

Mesmo ali, ele mal se dava conta do quanto seu corpo mais ainda o traía. E não entendia muito o motivo de aquele agrado fazê-lo tanto ferver, quando vários outras vezes lhe o fizeram. Mas enquanto pensava, os dedos sedosos dela continuavam a queimá-lo e a boca a fazer os círculos lentos e eróticos. Saindo então da divagação vã, sentiu o fim se aproximando; e seus músculos retesados faziam-no senti-la por todos os poros, mesmo onde ela não tocava. Quis que ela apressasse o movimento mas não tentou dar nenhum sinal disso; ela sabia, e no entanto também fez muito além de manter sua própria vontade, torturando-o até que ele cerrou os olhos numa inspiração severa e espremeu os lençóis da cama entre os dedos de nós já brancos.

Quando ela finalmente sentiu-o desvanecer entre seus lábios foi que se ergueu para deitar-se novamente sobre ele.

Ele a mirou, leve, perdendo-se em olhar o âmbar profundo do paraíso daqueles olhos.

E quando ela pensou que ele já se satisfizera, ele a puxou mais para si com uma das mãos em sua nuca e a beijou com um beijo simples que pretendia demonstrar afeto. Mas ainda de lábios colados, ela sentiu, de novo, o sangue borbulhando nas veias e inconsciente entreabriu a boca, e ele correspondeu.

Virou-se um tanto brusco e tornou a estar sobre ela. Mas não cessou o beijo. O corpo dele era totalmente leve sobre o dela e, enquanto ele a abraçava, sentiu o desejo chegando de novo.

Ele lhe sugou a carne do pescoço tenro, deixando sua marca violácea na pele branca, e ao ouvi-la grunhir baixinho nem pensou; só queria estar dentro dela.

Então, quando ele se colocou entre suas pernas, ela sentiu-lhe a virilidade que já voltava a aguilhoá-la e encontrou os olhos dele, translúcidos, que continham uma expressão interrogativa.

—Vem — foi tudo o que ela disse. Detestava falar o desnecessário. E ali já não havia mais motivos para indagação. Ela já lhe pertencia. Desde que lhe pusera em cima o olhar cobiçoso. E ambos sabiam: ele queria tomá-la, e ela queria ser dele. Não precisava de permissão.

Ele a adentrou e sentia com perfeita clareza seu interior quente, úmido de paixão. E ainda estava com medo, mas então encontrou a fisionomia dela, cheia de ternura, que o relaxou.

—Agora — e aferrou-se a ela, e entrou tão fundo que ela não pôde conter um suspiro e uma expressão de dor.

—V-Você ainda é...? — ele começou, olhando para ela assombrado e meio maravilhado, estacando o movimento.

Mas ela apenas levou a boca em direção a dele mais uma vez, calando-o, de um modo que ele entendesse que não deveria mais falar.

—Hu-hum — ela fez, agora começando a sorrir — Nós... vamos aprender isso juntos — e ele a colocou de novo sobre si.

E foi o bastante. Já haviam falado todas aquelas línguas do apocalipse, trocando saudações e palavras ácidas. Chegara a hora de finalmente abraçarem o silêncio.

Quando ela relaxou outra vez, deixou-se desabar de verdade sobre ele, o rosto junto ao dele, os seios tocando seu peito de leve, convidando-o a aumentar o ritmo, mas ele nada podia fazer porque ela novamente comandava seus movimentos, comandava seus sentidos, todas as suas emoções, e ainda o seu coração.

Primeiro, foi difícil conciliar o incômodo com a vontade. Ele dentro dela parecia crescer a cada vez em que se retirava a voltava a estar lá.

Depois, quando a dor do amor já não a perturbava, ela apenas se movia devagar e aumentando gradativamente até começar a cavalgá-lo e esqueceu-se de tudo, de todos os momentos em que o quis e não pôde tê-lo, de todos aqueles anos de espera, tudo. Só havia ele dentro dela e mais nada.

Quando então finalmente ele chegou ao extremo do amor, sentiu que os músculos já se embambeciam, mas não parou; era seu dever satisfazê-la e percebeu que ela cansara porque passou ele mesmo a arremetê-la em estocadas mais profundas e rápidas.

Assim não demorou mais muito até que ela inspirasse resoluta em silêncio, casta mesmo em demonstrar o prazer que chegara, dignando-se apenas a deitar-se sobre ele, abraçando-o e ouvindo-o murmurar seu nome.

Muitos minutos se passaram. E ele teve que adormecer. Ela, porém, não conseguia nem mesmo fechar os olhos, queria para sempre gravar a imagem terna dele dormindo, suave, sereno, totalmente dela.

Somente pela manhã foi que resolveu acordá-lo.

—Eu... eu tenho que ir agora — ela disse ao afagar o maxilar dele com as costas da mão com tanta ternura que o seu coração latejou.

—Tem... mesmo? — ainda estava muito sonolento, mas já muito consciente de que não queria que ela se fosse.

—Sim — e começou a se vestir.

—Eu... amo você — ele disse, então, muito espontâneo, simplesmente, enquanto a venerava.

—Eu sei... sim... sempre e nunca — e tornou a se aproximar dele, beijando seus lábios, apaixonada e entregue, mas logo parou e voltou a encará-lo — Você... vai continuar a desejar homens por aí, meu amor, assim como eu nunca vou deixar de amá-lo. Mas... eu não me importo. Você vai me chamar outras vezes, eu sei. E eu vou estar esperando. Mas até lá... adeus por enquanto.

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