21 anos

1 Capítulo 1


Notas iniciais
E vamos pra mais uma atualização.

Misericórdia. A cada ano que passa eu fico mais assustada com minha capacidade de lembrar de voltar aqui na mesma época do ano, pontualmente, para atualizar minha vida.

Pois é, já se passou mais um ano e agora é 21 baby. Falta menos de uma década para eu chegar aos 30. Tô assustada pra caramba e tentando não pensar nisso.

Então, seguimos com nossas atualizações anuais:

Eu segui com minha ideia e tentei mexer com o biscuit. Até comprei um curso de funko pops, mas no fim não rolou por falta de tempo. Algumas semanas depois do meu aniversário passado, apareceu uma oportunidade para eu acompanhar uma mulher que estava em tratamento de câncer em Cuiabá. Pela primeira vez na vida fui num hospital exclusivo para tratamento de câncer e fiquei muito reflexiva sobre o quanto não valorizamos certas coisas. E em como eu realmente amava a área da saúde e gostaria de trabalhar nesse setor.

No meio dessa viagem rápida, recebi uma ligação inesperada. Era a Janaina me chamando para voltar a trabalhar no departamento de nutrição onde eu tinha sido estagiária anos antes. Eu só não surtei porque estava numa casa de apoio e já tinha gente estranha o suficiente lá. (abrindo espaço para falar que na primeira noite em que eu dormi lá, outro paciente enfartou e morreu. Deu uma confusão enorme com os outros residentes, chamaram o SAMU, depois a funerária e a assistente social para resolver o negócio e tudo isso durou a noite toda e uma parte da madrugada. Onde eu estava? Dormindo plenamente. E só fiquei sabendo porque a mulher que eu fui acompanhar me perguntou se eu tinha sido incomodada pela barulheira toda).

Voltei para casa super ansiosa para a entrevista de emprego no dia seguinte fui conversar com a Jana e confirmei minha admissão. Em três dias tive que arrumar toda a papelada para voltar a ser servidora pública. Tudo foi estranhamente nostálgico, me relembrou meu fatídico primeiro ano do ensino médio.

E ai fomos viajar para o aniversário de 80 anos da minha avó. Ficamos quase todo o mês de agosto fora da cidade. Fomos para São Paulo, na casa da minha tia, e demos um role bom por lá. E já adianto que odiei SP.

Num dia fomos para Aparecida do Norte e passamos o dia visitando o Santuário. Isso foi legal. No outro fomos para a praia de Bertioga, nossa primeira vez numa praia, e dessa vez não gostei tanto. Na minha primeira vez entrando no mar eu caí de um jeito vergonhoso demais para explicar, na frente de todo mundo. Iemanjá não foi com a minha cara.

Agora eu tenho uma cicatriz linda no joelho. Uma eterna lembrança praiana.

Pelo menos comi a melhor porção de cebola frita da minha vida. Tenho vontade de voltar lá só para comer de novo.

No outro dia fomos para o centro e lá confirmei que de fato não gostaria de morar em São Paulo nunca. Achei a cidade tão pesada e cheia. O cheiro do rio Tietê é algo memoravelmente péssimo. E tem ladeiras demais até para mim que sou naturalmente do Sul.

Passado isso, fomos para o Paraná. Só que no meio do caminho recebemos a noticia que uma tia havia falecido (ela era esposa do irmão da minha avó, minha tia avó). Queríamos tê-la visto mais uma vez antes do fim.

Chegamos em Cascavel e alguns dias depois foi a festa da minha avó. Ver a família toda reunida foi estranho. E legal. Vi primas que não via a anos, conheci tios que jamais havia visto sequer fotos, aturei estranhos querendo botar carne no meu prato. Nada que uma boa festa de família brasileira.

Minha avó amou e foi isso que importou. Já faziam mais de 30 anos que ela não via todos os filhos reunidos. Então ela era só sorrisos a festa toda. Foi uma festa legal. Não era o que eu esperava, mas tudo deu certo no fim. Eu estava com saudades de participar dessas reuniões familiares. O caos brasileiro sempre deixa tudo melhor.

Se passou mais alguns dias e fomos embora. Aproveitei para fotografar várias coisas da casa da minha madrinha para guardar na lembrança e nas mãos. Aquela casa tem locais nostálgicos demais para eu não ter uma recordação.

Fomos para a casa dos meus tios avós e passamos duas noites por lá. Foi melancólico. Ver meu tio chorar de saudade da minha tia foi doloroso. Embora eu entenda tudo o que aconteceu, jamais vou esquecer a cena de quando fomos embora. Eram 5 da manhã e o céu ainda estava totalmente escuro, ele parado na área, a luz da cozinha fazendo contrate com seu corpo, sua tristeza visível por nos ver partindo. Para mim, foi o pior momento da viagem toda.

E então voltamos ao bom e velho Mato Grosso. Ficamos alguns dias na casa dos padrinhos da nenê, em Cuiabá, e finalmente voltamos para casa. Chagamos domingo a tarde e segunda-feira pela manhã já comecei a trabalhar.

Voltar ao departamento de nutrição foi incrível. Alguns funcionários que já trabalham aqui quando eu era estagiária, permanecem em seus cargos. A equipe é muito unida e eu ainda sou a mais nova do setor. O que realmente me pegou de surpresa, foi a noticia que a Jana sairia da prefeitura. Foram algumas semanas até eu me adaptar a ideia de que teria uma chefa nova em alguns meses.

Mas na verdade, a ansiedade pela chefia desconhecida fora parcialmente esquecida com o meu foco em mim mesma. Comecei a fazer terapia com psicólogo, voltei para a academia e comecei a fazer acompanhamento com nutri. Cuidar de mim foi minha prioridade por meses. Conseguir entrar numa calça 44 depois de anos me emocionou e me fez acreditar que eu estava no caminho certo. Até a morte do Max, em novembro.

Ver meu cachorro ir foi doloroso. A gente sempre sabe que vai acontecer, mas nunca consegue aceitar plenamente. Ele fora nosso mascote por quase seis anos e chegar em casa e não mais vê-lo foi muito depressivo. Ele lutou por duas semanas, mas no fim a pancreatite venceu. As vezes sinto vontade de chorar ao relembrar dele em determinados lugares do quintal. Quando vejo fotos dele, a saudade sempre volta.

Mas mal tive tempo para sentir meu luto. Alguns dias depois, ela chegou: a nova nutricionista e minha nova chefe.

A Anna é MUITO diferente da Janaina, em vários aspectos. Mas não de uma forma ruim. Elas apenas são diferentes, possuem ideias diferentes e atitudes diferentes. Foi super estranho pra mim no começo, aceitar essa nova liberdade que eu não tinha com a Jana. Mas hoje já está tudo bem.

Acho chato dizer isso, mas prefiro trabalhar com a Anna do que com a Jana. Gosto mais dessa nova etapa do Departamento de Nutrição, de como as coisas estão caminhando para um lugar que jamais chegaria sob a direção da Janaina.

Dezembro foi o mês mais caótico do ano. Ai sim eu surtei. Foram quase três consultas com o Tiago de puro choro e ansiedade. Absorver tudo o que aconteceu foi difícil, mas eu sobrevivi. Porém, definitivamente 2021 não foi um ano do qual eu gostei.

E pra fechar com chave de ouro: uma das minhas primas com quem mais convivi anunciou que estava grávida. E foi naquele momento que eu percebi que eu já sou adulta. Que meus tios estão velhos. Que meus primos estão se casando e tendo filhos. Que o tempo passou e jamais voltará.

Eu quase chorei com esse choque de realidade. Foi doloroso entender que as coisas só vão evoluir. Jamais voltarei a minha infância, esse momento pertence aos mais novos.

Obviamente que fiquei muito feliz com a notícia que minha prima estava grávida. E enquanto eu procurava algo para dar de presente pra ela, lembrei que sou técnica em enfermagem. E o que poderia ser mais útil do que informação de verdade? O melhor item de enxoval é sempre o conhecimento.

Ai resolvi comprar um curso de cuidados infantis de uma pediatra que eu admiro muito (inclusive a sigam @umamaepediatra no instagram) e dei para minha prima. Acabei que comecei a assistir algumas aulas e me imaginei fazendo aquilo, sabe? Não gestando e parindo. Mas ensinando e instruindo, cuidando de bebês.

Outro choque de realidade: eu queria trabalhar com gestantes puérperas, mais preferencialmente com bebês.

Tá bom, aqui eu admito que chorei. Finalmente entender que é isso a minha missão, me deu alivio. Saber que poderei ajudar pessoas gestantes e bebês a sobreviverem o caos que é os primeiros mil dias de vida, me fez ter um ânimo que não sentia a muito tempo.

Por isso comprei um curso de consultora em amamentação e comecei a faculdade de enfermagem. Sim, eu jamais teria essas ideias um ano atrás, mas é que tudo fez tanto sentido no momento, que eu entendi que as coisas sempre tem um propósito. Precisamos apenas ter paciência.

O que é bem difícil num mundo tão imediatista.

A terapia me ajudou muito a conseguir processar tantas informações ocorridas em questão de semanas. Ter alguém para me escutar e me guiar pelo labirinto da vida é algo sem igual. Não é a mesma coisa que conversar com a mãe ou com um amigo. De longe, conseguir pagar a terapia foi a maior conquista da minha vida.

E depois de um ano: aqui estou eu, levando quase duas semanas para conseguir escrever e organizar todos esses acontecimentos.

Nessas últimas semanas eu estava enlouquecida organizando várias licitações. Amo trabalhar na área administrativa do meu setor, até acho terapêutico organizar o planejamento da semana. É enlouquecedor? É. Mas eu gosto.

Em abril, fui para Cuiabá ficar na casa da Bia no feriado de Tiradentes. Fomos só eu e a Kauane e foi muito bom. Encorajada pela ideia do Tiago em me permitir mais, fomos até parar num baile funk incrível e eu amei. Amei esquecer de toda minha vida por algumas horas e poder voltar pra casa as 5 da manhã porque eu sou adulta. Amei dançar livremente e beber álcool porque eu estava curtindo de fato. Chorei ao pagar 25$ num copo promocional mas eu amo revê-lo todos os dias na prateleira da cozinha porque ele simboliza o que eu mais temia: mudanças.

Mudanças são coisas bizarras, boas para uns e péssimas para outros.

Três semanas atrás recebi alta da terapia. Foi muito inesperado para mim. Depois de processar a notícia, fiquei muito feliz e orgulhosa de mim. Eu já percebi o quanto mudei para melhor, me sinto uma nova pessoa depois de quase um ano de terapia.

E para a infelicidade da minha mãe, estou muito que disposta a curtir essa fase da minha vida. Já estou de viagem marcada para Sinop, para o show da Kaya Conky mês que vem. Vou ficar 4 dias fora da cidade, na casa do Erik. Ano passado eu disse que desejava viver de verdade e agora estou de fato o fazendo. Não podia estar mais feliz.

No final do ano passado adotamos dois cachorros: o Tony Chopper e o Zoro. O Tony foi o primeiro, o pegamos da ONG da cidade e demos o nome do Chopper porque ele é caramelo e fofo. Porém ele cresceu e tem a personalidade de um pinscher: pequeno, atrevido e o rei da casa.

Já o Zoro apareceu algumas semanas depois no meu serviço. Nunca imaginei que um cachorro de rua fosse me escolher para ser a dona dele. Desde o primeiro contato ele ficou doido por mim e eu por ele. Dei o nome de Zoro porque ele estava perdido e encontrou uma família. E um irmão mais novo que tem a metade do tamanho dele e que MANDA nele.

Por eu estar tão bem, em vista dos anos anteriores, decidi resignificar meu aniversário. Mandei fazer um topo de bolo e mini topos para brigadeiros de One Piece e encomendei um bolo e meio cento de doces. Ontem, dia 5, arrumei a mesa do jeito que eu queria, botei minha blusa de OP e tirei as fotos que eu queria.

Não teve uma festa, não teve parabéns, não teve dezenas de pessoas. Mas foi um bom aniversário. Assim que tiramos as fotos, cortei o bolo e comi os doces. Feliz por eu ter feito aquilo tudo.

Fui dormir satisfeita e cansada. Hoje de manhã acordei e fui pra academia. Voltei, tomei banho, comi um pedaço do bolo, me arrumei e minha família me deu parabéns. E nesse ano eu aceitei.

Fui trabalhar e logo percebi que minha surpresa seria naquela hora. Dito e feito. Cantamos parabéns e eu ganhei uma blusa da equipe e um shorts de academia da Anna. Passei o dia solicitando NADs no sistema e revisando esse texto. Vim pra casa, experimentei meus presentes, agradeci ao Victor pela felicitações, tomei banho e agora vou dormir. Muito mais satisfeita do que eu imaginava.

Espero que ano que vem eu venha com noticias do tipo: fiz novas amizades, fiquei com tantas pessoas, finalmente comprei um patins e coisas assim.

Mas só daqui um ano para eu saber o que vai ter acontecido. Eu espero de coração que minha vida permaneça assim por mais um tempo. Eu já estava cansada de tanta infelicidade. Eu quero sorrir mais, quero me casar e entrar com a melodia da música Binks No Sake, quero continuar sendo vegetariana, quero ser enfermeira, quero viver. Com toda a certeza essa nova Karine é a melhor de todos esses 21 anos.

Além do impossível
Eu posso chegar
Sim, até a onde o Sol alcançar

Livre sem ajuda de ninguém
Eu sempre eu estive um passo atrás
Do que eu quero está

Meus demônios não me alcançam
Eles sempre cansam
Ao som de uma canção
Que minha alma ressoa

A minha determinação
Sem dor
Contra-ataque a peso
Ninguém nunca apostou
Todas essas fichas em mim
Sim eu causaria até o meu próprio fim
Mas nunca deixaria alguém que amo aqui

E eu sempre pensei
Posso ser melhor, sei
Que dentro de mim tem
Algo que me leva para o bem

Por isso me apliquei
Solitário treinei
Fiz o que ninguém fez
Todos os sentidos elevei

É foda eu sei
Muitas vezes vai ser mais que criticar
Que se pá
Eles até queria o meu lugar
Feras que me querem morto
Com a espada ainda resisto
E respiro
Elas tentam mas eu permaneço vivo

Além do impossível
Eu posso chegar
Sim, até a onde o Sol alcançar

Além do Impossível — VMZ (part. Tauz)

Notas finais
Até o ano que vem (se Deus quiser)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!