Caroline PDV

Estamos no ano de 2070 já, e isso significa que sou uma anciã de quase 80 anos. Eu não me casei e nem tive filhos, por isso moro de favor com meu irmão e minha cunhada. Eu os ajudei a cuidarem de seus filhos e duas deles vêm nos ver e cuidar de nós três.

Nosso irmão mais novo teve um ataque cardíaco devido a pressão alta e faleceu há dez anos. Eu avisava para ele desde quando éramos jovens e tínhamos cerca de vinte anos — mesmo eu sendo a irmã mais velha o primeiro a morrer foi nosso irmão caçula. Ele tinha sessenta e cinco anos quando veio a óbito por conta de um infarto.

Ele não quis escutar o alerta de todos nós da família que dizíamos para ele não ingerir tanto sal, mas ele pensava que falávamos só para seu mal, e deu no que deu. Pensava que estávamos apenas enchendo o saco dele, mas não, nos importávamos de verdade com ele. Porém, ele não ouviu.

Agora estou me preparando para dormir e quando me deito na cama vejo o céu estrelado. Lembro-me da promessa que eu fiz há mais de sessenta anos: Jamais esqueci de Esme e Carlisle. Eles estarão no meu coração até meu último suspiro, até em meu último pensamento. Ou se houver algo depois dessa vida não creio que irei esquecê-los.

Eu sei que não viverei muito tempo mais, talvez nem sequer para ver um novo ano. Já estou muito velha, eu queria morrer com 120 anos, mas não acho que eu chegue lá. Nem sei se chegarei ao meu próximo aniversário semana que vem.

“Amanhã é aniversário de Esme, 16/10” penso logo antes de adormecer.

Tenho um sonho estranho que parece um pesadelo. Eu estou ardendo como se estivesse em chamas, no meio de uma fogueira. Não consigo encontrar minha voz para gritar. Não adiantaria mesmo fazer isso. O que posso fazer é esperar pacientemente que isso passe logo. Estou com medo, também não consigo ver nada além de preto e também não ouço nenhum ruído.

Parece como eu imaginava que seria a dor da transformação em vampiro. Mas eu não posso estar me transformando, é impossível, pois não lembro de ter sido mordida por ninguém; e se eu estiver mesmo passando pela mudança não vou acordar como uma senhora, vou?

Será que todos os fãs da Saga Crepúsculo passam por isso quando morrem? Quer dizer, aqueles que queriam ser vampiros.

Eu não sou ruiva e ouvi uma estória de que ruivos quando morrem se tornam vampiros. Ou será que eu era e não sabia? Meu cabelo não era vermelho nem alaranjado, era marrom acobreado quando eu era jovem. É isso, acobreado, cobre. Será?

Vou suportar pacientemente até passar. Vai acabar, não vai durar para sempre essa dor. Será que vai passar ou eu estou no inferno? Aqui é tão escuro que eu nem vejo nada. Mas eu não ouço gritos de outros. Será que ele estão sofrendo como eu mas não podem gritar?

O inferno existe de verdade e eu estava engana a maior parte de minha vida pensando que não existia. Eu deveria ter continuado na minha crença primeira. Mas, por que eu vim para cá? Por que eu queria ser vampira? Isso era pecado, claro. Desprezar Deus é um pecado enorme.

Eu não enxergo nada e isso é apavorante. Eu deveria estar acostumada a não conseguir enxergar, pois eu usava óculos desde os vinte anos. Mas não é o mesmo ver alguma coisa, enxergar bem só de perto, e não ver nada de nada. Quero minha visão de volta, preciso enxergar. Mesmo tendo a visão debilitada, eu ainda prefiro enxergar pouco do que nada. Eu dependo muito desse sentido. Quero poder ver de novo! Não quero ficar cega para sempre!

Mais algum tempo nessa escuridão e a dor diminuiu, não tenho ideia de tempo. Eu poderia contar apenas para ter algo que fazer. Espantada percebo que sou capaz de pensar em meio à dor.

...XXX...

Minutos depois consigo abrir meus olhos – eu não estava cega, estava de olhos fechados! Abro lentamente e vejo uma claridade tão intensa que me deixa um pouco atordoada no começo e por reflexo fecho de novo os olhos. Porém a luz não me incomodou foi apenas uma reação automática.

— Carol! Que bom que você acordou – me cumprimenta uma voz de mulher que me parece familiar, meu corpo reage ao som, mesmo eu tendo certeza de que nunca ouvi antes. Eu não esqueceria uma voz tão melodiosa. – Estava preocupada que tivesse bebido demais.

Minha cabeça se inclina na direção da voz doce e harmoniosa e abro os olhos ficando ainda mais maravilhada ao ver a dona daquela voz linda: minha adorada Esme Cullen me sorrindo afetuosamente.

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— Oi Esme – nem precisei me esforçar e minha voz saiu mais forte do que eu pretendia. Também fiquei admirada, pois minha voz não parecia velha. Era clara e límpida como cristal de gelo. – Onde estou?

Antes que ela pudesse responder eu já estou agarrando ela em um abraço. Eu não me lembro de ter pensado em fazer isso, então como eu fiz?

— Ai! – ela geme – Você está na minha casa, filha.

Meu corpo reage ao ouvir ela me chamar de filha. Ela me criou, eu sou dela como sempre quis ser.

— Me desculpe – fico alarmada por tê-la machucado, não queria fazer isso. – O que aconteceu comigo, mãe?

— Você agora é uma vampira também, eu mesma a transformei. Você me chamou com seu último pensamento.

— Então quer dizer que eu morri?

— Sim, querida. Sua vida humana terminou pacificamente, você morreu dormindo.

Mas minha família não vai perceber a falta de meu corpo? O que eles irão pensar?

— Como eu estou? – eu nunca me preocupei muito com a aparência, nunca fui fútil, mas Esme e Carlisle não merecem que eu seja uma idosa. Eu não quero ser uma vampira de 80 anos. Qual seria a graça? Claro que ainda teria vantagens, mas eu não me imagino uma vampira velha.

Antes que ela pudesse me responder vou até um espelho que vi no quarto. Será que como vampira vou me ver no espelho? Pelo que eu me lembro, os Cullen tinham reflexo.

Para meu espanto vejo a minha imagem refletida no vidro eu não pareço uma senhora, mas uma adolescente de quinze ou dezesseis anos. Eu não percebi muita diferença porque eu não mudei muito de tamanho depois. Eu sorrio para o reflexo que sorri de volta.

A garota do espelho, eu, parece tanto com Esme que realmente pode ser vista como sua filha. Talvez ela fosse assim quando era mais nova. Quando era ainda a senhorita Platt. Isso significa que quando eu era humana não era muito diferente dela!

Tento não reparar muito nos olhos apavorantes... Eles logo vão ser menos indiscretos. Não gostava de chamar atenção e isso não mudou.

— Você está linda, filha – Esme aparece atrás de mim e coloca a mão em meu ombro cautelosamente por eu ser uma vampira recém-criada. – Aliás, você sempre foi.

— Obrigada mãe, você é que é estonteante – agora ela é ainda mais linda, pois posso vê-la muito melhor com novos olhos poderosos. Minha visão agora é perfeita. Se antes quando a vi com olhos humanos e fracos ela já era muito bonita agora é magnífica, deslumbrante. – Obrigada querida, são seus olhos.

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— É verdade, mas até quando eu ainda era humana enxergava sua beleza.

— Muito obrigada, filha.

— Digo apenas a verdade, mãe. – me lembro de que não sei em que dia estamos. – Que dia é hoje?

— Dezenove de outubro.

— Como você conseguiu me transformar? Pensei que fosse muito difícil. Ao menos para você, acho, pois nunca mordeu ninguém antes, mordeu?

— Não, nunca transformei ninguém antes de você, querida.

— Não quis dizer que você não poderia ou fosse capaz, mas eu não queria que você sofra por minha causa. Você está bem?

Observo seus olhos e não estão vermelhos como eu imaginava que estariam após ela ter ingerido meu sangue.

— Entendo o que você quer dizer Carol. Mas não foi tão difícil como você imagina. Eu tive que me concentrar, porque nunca fiz isso antes com a intenção de deixar a pessoa viva para que pudesse se transformar em vampira também. No entanto, se já é mais fácil transformar uma pessoa jovem morrendo, Carlisle diz que o sangue fica mais fraco e menos tentador, é muito menos complicado transformar uma pessoa idosa morrendo, como foi seu caso.

— Então, você esperou até eu morrer? – pergunto não muito zangada por ela ter me feito pensar que não existia.

— Sim – ela admite um pouco envergonhada por ter feito o que fez. – Se você corresse algum perigo eu iria interferir, mas sua vida foi bem tranquila, como você é calma – ao menos foi depois que eu a conheci, mas nem tanto. Lembro que meu pai era bem severo e impaciente. Minha infância não foi das melhores. É claro que aconteceu algumas coisas boas, mas bem raramente. Eu nem tenho muitas lembranças dessa época.

Êpa! Eu me lembro da minha vida humana. Eu não esperava que me recordaria assim tão logo.

— Eu me lembro de tudo que eu vivi! – digo surpresa.

— Isso acontece quando uma pessoa madura é transformada, filha. É normal, não se preocupe.

— Também não doeu tanto quanto eu pensava que iria doer. Eu estava preparada para mais, se é que tem como se preparar para algo assim.

— Isso também acontece porque você morreu como humana e renasceu como vampira.

— Então eu não sou morta-viva apenas imortal?

— Sim.

— É uma sutil diferença que eu vou precisar de um tempo para apreender.

— Outra boa notícia para você é que o cheiro de sangue humano não a provoca.

— Então eu não precisarei me preocupar com isso?! Que bom!

Alguns segundos de silêncio enquanto eu penso em tudo o que aconteceu:

— Se hoje é dia 19, eu fiquei desacordada três dias?

— Na verdade filha apenas dois dias e meio. O dia de hoje ainda não terminou.

— Nem nunca terminará. Para mim a eternidade começa agora.

...XXX...

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