2017

1 Capítulo 1


Segunda-feira, primeiro de janeiro de dois mil e dezessete. Para alguns o primeiro dia do ano significa recomeço, traz a esperança. Para outros é apenas uma data vazia, como qualquer outra. O que ninguém esperava é que nesse dia o mundo iria mudar, e quatro jovens serão fundamentais nisso.

Giovana havia acabado de acordar. Como de costume pegou o celular e checou as redes sociais, algumas notificações do whatsapp, twitter, facebook, curiouscat, tumblr, snap, flickr, phhhoto, instagram, orkut, msn e algumas outras, mas nada fora do normal. Depois de algum tempo se levantou pra comer algo. Olhou pro céu pela janela, pensou na vida – quantos episódios de Naruto será que vou conseguir assistir hoje? – Saiu do quarto na esperança de não encontrar ninguém pra falar, queria socializar o minímo possível. De pijamas ainda, sentiu uma sensação estranha. Uma tontura, a visão começou a escurecer e a perna começou a balançar. Enjoo, dor de cabeça, parecia que ia desmaiar, não conseguia mais ficar em pé, viu tudo ficar escuro.

Bia estava entrando no táxi. Depois do ano novo iria se encontrar com alguns amigos. Informou o endereço para o motorista e depois disso o ignorou completamente, ficou presa nos seus pensamentos. Será que Alejandro estaria lá? De qualquer forma, estava bonita o bastante pra impressiona-lo, e ansiosa o bastante pra estragar tudo. Pegou o celular, mexeu um pouco nas redes sociais, não conseguia se concentrar, não queria responder ninguém. Tentou um jogo então, flappy bird. Era a única pessoa em 2017 que ainda jogava, tentava bater o próprio recorde que era 32. De repente, sentiu que os dedos começavam a desaparecer, ficou extremamente assustada. Piscou uma vez, duas, a mão toda agora estava sumindo, não havia bebido nada. Estava tendo uma alucinação pela ansiedade? Olhou para o retrovisor, seu rosto sumia também, o taxista parecia não notar nada. O celular caiu, sua mão havia sumido, e as pernas também estavam indo embora. Aos poucos, sumia, e aquilo a fez desmaiar.

Seu Alberto havia chegado finalmente ao endereço dado pela garota, parou o taximetro e olhou pra trás. Ela havia sumido. Maldita – pensou ele – deve ter corrido no último semafóro. Odiava ser taxista, era o mesmo tipo de gente sempre. Odiava quase tudo na verdade. A esposa, os filhos preguiçosos, o emprego de merda. Queria sumir dali, viver em paz. Foi então que teve uma idéia, ele iria se matar. Deu meia volta e acelerou, sessenta, oitenta, cem, cento e vinte, se sentiu livre finalmente depois de tantos anos. Se não dobrasse ia cair na baia do guajará, talvez nunca fosse encontrado. Era isso que queria. Não dobrou, caiu. Seu Alberto e seu fiat uno começaram a afundar. Ele já havia desmaiado com o impacto, mas nos seus ultimos segundos no ar, sorriu.

Gioc ouvia música no celular, estava deitada olhando pro teto. Se perguntava por que os dias estavam passando tão rápido, por que o convênio estava tão perto. Ansiosa porque acabaria o ensino médio, mas com medo do vestibular como quase todos os jovens da sua idade. Não queria mais pensar naquilo, queria aproveitar os últimos dias de férias. Se levantou em um pulo, trocou de roupa, saiu. Não avisou ninguém. Nem os pais, nem os amigos. Só saiu e no caminho ia resolver pra onde iria. Depois de perambular pela cidade vazia com o fim do ano, resolvou que iria andando pro shopping. No caminho, passou por uma mercearia onde encontrou a catuaba com desconto. Comprou uma garrafa e ia bebendo no gargalo enquanto andava.

Há um quarteirão do shopping, bebeu o resto do conteúdo de uma vez e jogou no chão a garrafa. Não conseguia mais andar em linha reta. Entrou no shopping com a ideia de ver um filme. Por sorte, quando chegou ao cinema, a próxima sessão de um filme qualquer era dali a 10 minutos. Comprou o ingresso e entrou na sala. Estava se sentindo mal pelo tanto que bebeu, não havia nem tomado café. Vomitou. Mas o cinema estava quase vazio, quem percebeu, ignorou. Estava muito tonta, então levantou pra ir ao banheiro. Não tinha nem vinte minutos de filme. Ao descer as escadas, tropeçou. Rolando os degraus bateu com a cabeça muito forte e desmaiou.

Calan acordou com o zelador do clube lhe sacudindo. Estava deitado ao lado da piscina abraçado a uma garrafa de vodka. Primeiro veio a dor de cabeça, depois o enjoo. Não lembrava de nada. Se sentou e começou a se perguntar onde estavam os seus amigos – traidores, devem ter ido pra casa sem mim – pensou. Ignorou o braço estendido do zelador e se levantou sozinho. Era melhor ter sido humilde e aceitado a ajuda. Quando ficou de pé a cabeça rodou e ele não conseguiu se equilibrar, caiu na piscina. Foi como se mil agulhas perfurassem o corpo, a água estava incrivelmente gelada. Bom para acordar ao menos. Se deixou afundar um pouco. Quando estava chegando ao fundo, deu um impulso e voltou pra superfície. Saiu da piscina encarando o zelador que segurava uma risada. Tocou nos bolsos. Não sentia a carteira, nem o celular. Era como se todo o sangue tivesse subido a cabeça. Tinham lhe levado tudo, até o relógio. Como iria voltar pra casa? Não havia ninguém ali. Molhado, caminhou até a saída. Fazia sinais para alguns táxis mas nenhum deles parava. A sua situação estava crítica. Resolveu ir andando. Pois não tinha andado nem dois quarteirões quando um moleque, de no máximo 15 anos, lhe apontou um revolver. Pediu tudo, mas Calan não tinha nada. Então ele pediu a roupa, molhada mesmo. Calan hesitou, mas tirou a blusa, depois o sapato. Não tiraria a calça por nada. Então o menino o ameaçou. Calan se recusava, não iria ser humilhado de tal forma no primeiro dia do ano. Então o menino deu um tiro, que passou pelo lado de seu rosto e lhe queimou a orelha. Calan nunca teve tanto medo fora o dia em que sua mãe lhe disse que ele iria estudar em escola pública. Desmaiou.

Notas finais
CONTINUA
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.