Notas iniciais
Espero que gostem e comentem.

Era cedo da manhã. O velho aeroporto de Newark estava quase vazio, com exceção de algumas pessoas que acabavam de chegar de viagem, ou que ainda iam embarcar em algum vôo. A maioria das pessoas parecia ser empresários, com seus ternos, gravatas, maletas e caras sérias; mas via-se também grupos maiores de pessoas, como famílias voltando de suas férias prolongadas.

Ao olhar ao redor, percebi o porquê de o aeroporto da cidade (Newark Liberty International Airport) ser tão conhecido. Meu pai, após a morte de meu avô, resolveu pegar o dinheiro da herança e sair viajar pelo mundo. E, pelo jeito, o velho tinha bastante dinheiro, pois ficamos quase cinco meses na estrada. Mas isso foi há quase um ano. Agora, meus pais decidiram que eu era uma criança sem futuro que deveria sair da cidade para receber educação de qualidade. Mas enfim, voltando ao assunto, o fato é que o aeroporto de Newark era lindo. Não era igual aquela besteira de LAX, todo arrumadinho e cheio de pessoas ricas com cara de superior.

O tempo estava bom. Era, decididamente, mais frio que em Los Angeles – cidade onde eu costumava morar com meus pais -, porém, era mais quente que na cidade de Portland, no Maine, onde fui obrigado a passar uns dias com os parentes. O céu ainda estava azul claro, devido ao sol que havia nascido há pouco. O lugar havia entrado no outono há pouco tempo também e, logicamente, o inverno se aproximava. Eu tinha medo do inverno naquele lugar, mesmo eu amando a estação.

Antigamente, eu me sentia estranho perto de muita gente, não gostava de aeroportos por isso. Hoje em dia, ainda não gosto muito de estar junto de muitas pessoas, mas eu me viro.

Olhei no relógio, 07h30m. Agradeci, mentalmente, a mim mesmo por ter optado por um vôo de madrugada. Foi envolvido nesses pensamentos que resolvi ir à procura de um táxi.

– Ei, aqui! Você! –, gritei, ao avistar o veículo de cor amarela, parado junto aos outros carros. Ao ver o mesmo saindo com outras pessoas, apenas completei para mim mesmo: – Filho da mãe...

Continuei a vagar pelo lugar, que ficava mais cheio a cada minuto. Observei as pessoas irem e virem, até avistar outro táxi.

– Ei, espere! –, gritei, correndo com as malas em direção ao veículo. Sempre odiei andar de táxi com todas as minhas forças, por isso não saía de casa em L.A – ou, quando saía, costumava andar à pé e ir a lugares perto de casa.

Coloquei as malas no porta-malas, com a ajuda do motorista, e entrei no carro. Resolvi que ocuparia minha mente com as imagens da cidade, já que o motorista parecia realmente mal humorado e não parecia querer conversa comigo.

No começo, o lugar parecia meio deserto, morto. Algumas pessoas, de aparência um pouco pobre, caminhavam pelas ruas, provavelmente indo ao centro da cidade para estudar ou trabalhar... Ou os dois, não sei. Avançando mais um pouco, chegamos a uma espécie de subúrbio arrumadinho. Podia-se ver muitas casas, algumas pequenas e humildes; outras grandes e cheias de conforto. Lá havia algumas pessoas andando pelas ruas também, mas a maioria aparecia de carro. Eu sempre gostei de tentar entender a mente das pessoas, as coisas que elas passam, fazem ou pensam. Gosto de estudar-las. Alguns dizem que isso é se meter na vida alheia, mas eu acho que é algo maior.

Mais pra frente, pude ver uma pracinha. Prestei uma atenção especial àquele lugar, adoro lugares que lembram minha infância. Algumas crianças brincavam pelo gramado verdinho. A maioria delas usava muitas roupas de frio e parecia feliz só por estar lá. Também havia alguns pais preocupados que não deixavam as pobres crianças se divertirem e aproveitarem a infância; já outros, as deixavam fazer o quê bem entediam. Mas algo tirava um pouco do ar feliz e divertido do lugar. Havia algo que não pertencia àquele lugar. Olhei mais pra frente e avistei, perto das árvores, um homem. Mas ele não era igual aos outros pais, que estavam lá para cuidar de seus filhos. Ele parecia diferente. Tinha cabelos totalmente pretos e quase do mesmo comprimento do meu. Vestia calças pretas, uma camisa branca e um colete da mesma cor das calças. Estava sentado à sombra de uma das grandes árvores e tinha consigo alguns papeis. Segurava, também, um cigarro. “Objeto estranho para se levar a um parque infantil”, pensei. Mas não foi só isso que o fez parecer tão diferente. O problema é que ele parecia atordoado no meio das crianças que corriam, felizes. Ele, definitivamente, não se encaixava.

– Você não é mesmo daqui, certo? –, perguntou o motorista, sem desviar a atenção do volante, mas exibindo um sorriso. Ao voltar minha atenção ao homem, pude perceber que não se tratava de um homem, mas de um rapaz. Uns vinte anos de idade, eu diria. Ele tinha cabelos num tom castanho, nem claro e nem escuro. Seus olhos eram verdes e ele sorria, ainda esperando minha resposta.

– Ah... Eu pareço tão perdido assim? –, perguntei, soltando um riso leve. Eu havia perdido tanto tempo analisado-o que esqueci de responder à sua pergunta. – Sou de Los Angeles. Vim morar em Newark e estudar em Belleville, fica aqui pertinho. –, resolvi para por aí. Primeiro: ele era motorista de táxi, é lógico que sabia onde a cidade ficava! E, segundo: eu estava dando informações da minha vida a um completo estranho. Digo, eu tinha a impressão que deveria continuar falando, mas algo que dizia que fiz certo ao calar a boca.

– Ah, sim. –, respondeu, ao ouvir a minha informação inútil a respeito de Belleville, dando um riso leve, logo após. – Então... Belleville High School, estou certo? É uma escola muito boa, realmente. Meu irmão e alguns amigos se formaram lá, no ano passado. –, não sei se eu já estava ficando paranóico, mas, agora que ele falou em irmão, me lembrou o cara da praça. Acho que eu só estava louco para saber que infernos ele fazia naquele lugar. – Sou Michael, aliás. Mikey, para os mais próximos. Tenho dezenove anos e curso o último ano na sua nova escola.

Ele, realmente, não era uma pessoa mal humorada e, depois que você o deixava falar, ele não calava mais a boca. Mikey era uma boa pessoa, simpatizei com ele e torci para tornar-mos amigos.

– Sou Frank Iero. Tenho dezessete e farei o segundo ano. –, respondi, sorrindo.

– Gostei de você, Frank. Tenho a impressão de que nós dois nos daremos bem –, declarou, sorrindo também. Fiquei feliz ao ver que ele pensava como eu. – Então, Frank, é aqui que você fica. Deixe-me te ajudar com as malas.

Retirei minhas malas do carro com a sua ajuda e, após agradecer, rumei ao meu apartamento. O prédio não era o que a maioria das pessoas chamaria de “bonito”. Era grande, velho e vandalizado. Parecia que estava prestes a cair aos pedaços a qualquer momento. Sorri com a imagem do lugar, eu adorava lugares assim. Esses lugares me lembravam liberdade, onde as pessoas podem fazer o que bem entendem.

Subi as escadas lentamente, tentando prestar atenção a tudo. Durante a subida, passei por algumas pessoas que apenas falaram um simpático “Bom dia”, e seguiram o que estavam fazendo. Não pareciam pessoas ricas e metidas, nem pobres. Eram pessoas normais, como eu.

Meu apartamento não era muito grande, mas era bom. As paredes eram pintadas de um azul escuro e o piso também era escuro. Havia uma cozinha; um banheiro; uma quarto e uma sala, que dividia espaço com a cozinha. Meus móveis já estavam no local, e havia um estoque de comida na geladeira também. Meus pais me mandariam dinheiro para essas coisas e para a mensalidade da escola. Se eu quisesse algo a mais, teria de trabalhar.

Para a maioria dos adolescentes, era o inferno. Pra mim, o paraíso. Sempre quis morar sozinho.