1º Desafio Sherlolly
1 Volte para mim
Notas iniciais
Sherlock acabara de se despedir de John e dirigia-se para o pequeno avião. Não se arrependia do que tinha feito. Salvara o futuro de seus amigos. Magnussen nunca mais incomodaria Mary e eles poderiam viver em paz.
Não quis dizer em voz alta que não voltaria vivo. Que não estaria ali quando o filho deles nascesse. Tinha uma extrema dificuldade em segurar as lágrimas e sua garganta parecia em chamas. Sentiu um alívio tomando conta do seu corpo quando entrou no avião e viu-se sozinho.
Foi então que começou a ouvir os gritos.
=== === ===
Uma hora antes, Molly Hooper soube por Lestrade o destino que tinham traçado para Sherlock. Entendeu no mesmo instante que ele nunca mais voltaria. Ninguém voltava vivo fazendo esse tipo de trabalho na Europa Oriental. Pânico tomou conta dela. Precisava ver Sherlock, precisava ao menos se despedir.
Como viveria sem ao menos olhar para ele mais uma vez?
Molly pegou o primeiro táxi que apareceu na rua. Ofereceu dinheiro a mais pra que o taxista a levasse o mais rápido possível para o aeroporto.
No caminho pensava em Sherlock. Em como aqueles olhos a prendiam ao mesmo tempo em que pareciam fazer seu corpo flutuar. Lembrou-se de como ele parecia mais próximo dela agora, chegara a pensar que eles teriam a chance de sair juntos algum dia. Eles estava ficando mais íntimos, mas o trabalho dele era prioridade e isso os tinha afastado nos últimos dias. Ela esperava que quando o problema com Magnussen terminasse eles fossem ficar juntos finalmente.
Então, agora tudo estava indo por água abaixo.
Sherlock... O que vai ser da minha vida sem você?
Molly encostou-se na janela do carro. Via Londres passar por ela cada vez mais rápido, conforme o motorista acelerava. Como viveria naquela cidade a partir de agora? Como olharia para todos aqueles prédios se tudo a fazia ter lembranças dele?
Pode ouvir sua voz rouca tão perto, como se ele estivesse ao seu lado.
“Você sempre importou.”
Sentia frio. Tinha esquecido seu casaco no hospital quando saiu correndo e agora tremia. Mas não se preocupada com isso no momento. Toda sua preocupação era voltada para o relógio. Precisava chegar a tempo. Era o mínimo que poderia fazer e não falharia agora. Não podia falhar. Nunca se perdoaria.
Quando o táxi parou, jogou o dinheiro para cima do motorista e correu, sem esperar pelo troco.
Via ao longe o pequeno avião que seria usado para levar Sherlock. A distância era longa, mas Molly não teve escolhas. Se xingou internamente por ter ido trabalhar de saltos aquele dia. Não tinha tempo para frescuras agora, rapidamente tirou os sapatos e pisou no chão frio. Se não chegasse até Sherlock, teria ao menos uma hipotermia.
Correu como nunca tinha corrido em toda sua vida. Via Sherlock despedindo-se de Mary. Seus pés doíam aos pisarem nas pedras do asfalto e ela sentia dor em seus pulmões toda vez que aspirava aquele ar gelado.
Que esse esforço não seja em vão. Não vá, Sherlock. Por favor, não vá antes de mim.
Sentiu que começava a ficar com a visão nublada pelas lágrimas. Não sabia se era o medo de não conseguir, a dor que sentia em seus pés, o frio que a castigava ou o sentimento de perder Sherlock para sempre. Agora, ele despedia-se de John.
Pensava em tudo que queria dizer a ele. Tudo que sempre esteve engasgado e, por timidez, ela nunca tinha dito. Não teria outra chance. Esperou por tanto tempo e agora, se conseguisse, o veria pela última vez.
Ela percebeu que teria pouco tempo, tentou correr mais. Sentia dor percorrer por seu corpo, dor que se misturava ao medo de não conseguir chegar a tempo. Quando ela se aproximou quase o suficiente para ser vista, Sherlock entrou no avião.
– Não... NÃO! PAREM!
Chegou até John, não conseguia falar. Ar faltava em seus pulmões e ela estava completamente gelada. John e Mary olharam atônitos para a figura em sua frente.
– Mary... Não deixe...
Ela não precisou terminar a frase para que Mary entendesse e corresse até Mycroft gritando e deixando Molly aos cuidados de John.
– Mycroft! Espere um momento! Não deixe que o avião parta! UM MINUTO, MYCROFT!
Molly conseguira recuperar um pouco de fôlego e se aproximou de Mycroft, agarrando seu casaco.
– Me dê cinco minutos. CINCO MINUTOS.
Sentia que estava histérica. Ou era a falta de ar ou o frio já tinha levado embora parte de sua sanidade.
Mycroft a olhou com uma expressão assustada. Por um momento, ela teve vontade de rir. Então, ele solicitou que a porta do avião fosse aberta novamente e a escada abaixada. Molly suspirou com alívio.
Veria Sherlock.
=== === ===
Sherlock não sabia o que estava acontecendo. De dentro do avião não conseguia enxergar o que seria motivo para aquela bagunça. Ouvia gritos de Mary e uma voz que parecia ser... Molly? Molly Hooper está aqui?
Sentiu seu mundo desabar. Uma pontada atingiu seu coração. Não queria vê-la. Não queria encarar seus grandes olhos amendoados sabendo que não voltaria para eles. Evitou deliberadamente despedir-se dela. Desde que viu a fúria que a tomou quando ela o viu drogado, tudo que Sherlock queria era abraçá-la e ali ficar para sempre.
Bom, talvez esse sentimento tenha vindo há mais tempo na verdade, mas não importa agora.
Era com ela que sempre se encontrava em seu palácio mental. Nele, ela sempre estaria ali para ele. E agora que ela estava de verdade, ele queria evitá-la. Não queria fazê-la sofrer.
Viu que não teria escapatória quando ouviu a porta se abrir e a escada ser baixada novamente. Molly entrou hesitante. Um rápido olhar foi o bastante para Sherlock ver que ela mancava, estava descalça e sem um casaco. Levantou-se num pulo, tirando seu sobretudo.
– Vista isso, Molly. Agora.
Encararam-se pelo o que pareceram horas enquanto ela vestia seu casaco. Molly conseguia ver as profundezas da solidão que Sherlock sentia naquele momento. Não resistiu em correr para os seus braços. Após um breve momento de surpresa, Sherlock a envolveu e a apertou contra o peito.
You keep me so near you
And see me so far
And hold me and send me
And deep in your heart
Molly sentiu que lágrimas voltavam a escorrer. Sentiu raiva delas, não queria chorar e demonstrar toda a tristeza que sentia.
– Ei, acalme-se. – Sherlock falava baixinho, quase sussurrando, enquanto acariciava os cabelos dela.
– Não me deixe, Sherlock. – Ele tentou interrompe-la, mas ela se afastou e colocando um dedo sobre os lábios dele, continuou:
– Não, me escute. Nós temos pouco tempo antes de Mycroft me tirar daqui. Me deixe falar antes que eu perca a coragem. Eu amo você, Sherlock. – Ela disse de supetão e se surpreendeu. Nada do que tinha planejado no caminho era semelhante a isso. Viu quando os olhos de Sherlock arregalaram-se. E então, para total terror de Molly, ela viu os olhos dele começarem a inundar.
– Não, não, não... Não faça isso, Sherlock. – Molly começava a se desesperar. Ele a abraçou de novo. Quando a soltou, suas mãos subiram para seu rosto, lentamente acariciando-o. Então ele se aproximou dela e a beijou.
O beijo durou um longo minuto. Quando se separam, Sherlock sentou-se e a puxou para seu colo, ficando abraçado a ela. Olhou com atenção para os pés dela e viu o quanto estavam machucados.
– Você correu uma maratona sem sapatos para chegar até aqui?
Ela sorriu e assentiu.
– Praticamente.
Sherlock suspirou. Como a deixaria agora? Sentia o doce perfume que emanava de seu pequeno corpo, tão junto a ele. Poderia ficar assim a vida inteira e nunca mais se sentiria entediado.
Não tinham o que dizer um ao outro. Apenas se olhavam e se beijavam. Molly queria gravar cada pedacinho das feições de Sherlock bem fundo em sua mente, para nunca mais se esquecer. Ainda não acreditava que se despediria dele para sempre. Logo agora.
Ele enrolava uma mecha dos cabelos dela entre os dedos. Pensava em uma forma de parar o tempo. Em como a vida era injusta em fazê-lo escolher entre salvar Mary e John, e continuar com sua vida e ter a oportunidade de ficar para sempre ao lado de Molly. Por que não assumira seus sentimentos antes? Agora, toda sua vida estava se resumindo naqueles poucos minutos com ela. Tristeza era facilmente visível em seus olhos. E dessa vez sua morte não era um artifício para enganar algum vilão. Dessa vez ele não tinha um plano para escapar do seu destino.
Quando Mycroft entrou no avião para buscar Molly, assustou-se com a cena que viu. Molly Hooper sentada no colo de seu irmão, abraçada a ele, que por sua vez fazia carinho em seus cabelos.
Quando foi que o mundo virou de cabeça para baixo?
Mycroft entendeu, então, toda a urgência de Molly em despedir-se de Sherlock. Era por essa razão. Seu irmãozinho, contrariando todos os conselhos, tinha se envolvido. E pela sua expressão, tão profundamente que nunca mais se recuperaria.
– Molly, preciso que você saia. Sherlock partirá. Você tem um minuto.
Molly assustou-se com a voz às suas costas. Então voltou seus olhos para Sherlock. Dor. Era tudo que Sherlock via neles. Ela o beijou ardentemente.
Quando o abraçou, sussurrou em seu ouvido:
– Volte para mim.
Caught up in your wishing well
Your hopes inside it
Take your love and promises
And make them last
You make them last
Ela saiu do avião sentindo como se vivesse um pesadelo. Mary e John a ampararam. E ela chorou quando o avião partiu.
=== === ===
Mycroft salvaria seu irmão de qualquer forma. Mas a cena que presenciara fez com que quisesse isso mais do que nunca. Não deixaria Sherlock sofrer ainda mais. Pegou seu celular e enviou uma mensagem: Ok. Estamos prontos.
Em pouco tempo toda Inglaterra via o vídeo com o rosto de Moriarty. Seu celular tocou, precisavam de Sherlock.
Conforme ele previra.
=== === ===
Quando viram o avião de Sherlock voltar, Molly estava sentada no carro de John, que cuidava dos ferimentos em seus pés. Ela mal podia acreditar em seus olhos. Ouviu vagamente John falar algo sobre um vento leste.
Sherlock estava voltando? Para ela?
O avião pousou e um Sherlock sem casaco desceu do avião. Sorria.
Abraçou John e Mary e então aproximou-se de Molly, que estava de pé, esperando-o. Encarou-a por alguns instantes e a puxou para seus braços.
– Você voltou rápido. – Ela franziu o cenho para ele, brincalhona.
Ele meneou a cabeça. Dando um lindo sorriso de canto. Correu um dedo pelo rosto dela, enquanto sua expressão ia ficando séria.
– Eu não disse que te amava no avião porque pensei que iria morrer. Não consegui dizer.
Ela sacudiu a cabeça, dizendo que não importava.
– Escute. Agora é minha vez de falar. Eu amo você, Molly Hooper. – A beijou ternamente. — E agora nós temos que salvar a Inglaterra.
Espere. Sherlock disse “nós”?
Molly sorriu abertamente quando percebeu que sim, ele dissera.
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