Notas iniciais
Nada me pertence, nem minha vida.

Um muro caído sinalizando uma guerra jamais terminada. Dois mundos destruídos, agora unidos pelos machucados das iras dos revoltados.

Embora quebrado ao solo, a vingança sedenta no orgulhoso olhar do derrotado jurava para si mesmo que arrancaria aquele maldito sorriso dos lábios do vencedor, o qual derrubava os símbolos socialistas, ultrapassando cada fronteira do inimigo, impondo sua cultura e sistema, somente para demonstrar poder.

Estendendo a mão num ato heroico, o humilde vencedor sugeriu:

- Segure minha mão, eu irei lhe levantar.

- Fico agradecido pelas suas falsas condolências, Alfred. – Retrucou educadamente raivoso, estapeando aquela mão e utilizando a parede como auxílio. O corpo inteiro doía, a mente, a alma... Virando o rosto para o lado, esquivava daquele cheiro de morte, daquelas vidas perdidas, ideologia massacrada.

O primeiro ano atormentado pela crise da transição econômica. Preços controlados pelo inimigo, o qual ainda lhe ofereceu uma cadeira especial em seu clubinho, àquela que antes pertencia a União Soviética, para sempre relembrar a passada posição e quem agora ditava as regras[1]. “Mantenha os amigos perto e os inimigos mais perto ainda” era o secreto lema do astuto americano.

Para o russo, a dor foi amenizada pela presença de suas irmãs lhe transmitindo força, permanecendo unidos. No começo, foi complicado ensinar que o Estado não era mais o responsável pela nação, sendo encargo de cada um o provento diário, incentivando o individualismo, conforme pregado pelo inimigo americano devido à influência inglesa. Quase uma década depois, ele conseguia integrar o G7, tornando-se um dos principais países industrializados do planeta.

Um novo inimigo surgia para democracia[2], já bem conhecido pelos aliados, que afinal o criaram, destituindo o império otomano. Sangue negro espalhado por bombas, ataques, mas as altas torres onde estavam os mandatários raramente eram feridas.

O novo século trouxe um novo chefe de governo e de estado. Outro daqueles frágeis humanos determinados e com promessas. Recuperava-se o hino[3]. Velhos signos, exaltando os esforços, tradições e virtudes do povo, valorizando a riqueza ambiental como se tentasse fechar as feridas da remota, jamais esquecida, identidade nacional.

Já recuperado, o antigo inimigo se desenhava como aliado, embora o americano mantivesse o receio. Um plano? Uma conspiração? Poderia confiar naquele auxílio ou segurar aquela agressiva mão? Alfred começava a utilizar as bases russas, as quais eram pontos estratégicos de subsídio fornecidos pelo novo inimigo. Ainda assim.... Dentre formalidades, ao final de pactos e viagens, a distância continuava, carecendo aquele inexistente pretexto.

Planos. Conversas. Alianças... Aos poucos, o russo se tornava mais livre, sociabilidade restaurada, autonomia retomada, não existia motivos para exclui-lo de nada. Aqueles olhos de calma era o que mais Alfred detestava. Desconfiado da mudança, o americano gostaria de explorar aquela mente assim como fazia a cada pedaço do território daquela nação, principalmente os segredos noturnos entre aquela pessoa e o parceiro chinês jamais olvidado. Mesmo assim... Reuniões. Bebidas. Recordações...

- Alfred, como eu te odeio... – Brincava o russo entre risos na privacidade, jamais embriagado, embora culpasse a extrovertida bebida.

Incomodado pela direção da estranha afinidade, verificando as conversas em rede sociais entre inimigos/aliados e aquela pessoa em especial, o americano pensou “por que não especializar?”. Um aparelho digital, um escritório eletrônico, uma sede de tecnologia prontificada para a espionagem mundial.

- Você é um irracional. Isto não tem cabimento.

- Você que é um autoritário, ditador...

- Fale.

Alfred desviou os olhos, desconfortável por está ali, naquele lúgubre canto onde jazia o único bebedouro daquele andar.

- Comunista? – Complementou Ivan, retirando um copo também e aguardando a vez. – Eu não preciso obedecer ao seu ego, Alfred. O campo de xadrez está arrumado, então... Deseja jogar? Ou tem medo que o seu rei seja bombardeado desta vez[4].

- Saia da minha casa, Ivan. – Irritando-se, quase derrubou a água coletada em consequência do gradativo furor. — Saia da minha vida.

- Você me ligou no meio da madrugada.

- Pedindo que retirasse seus espiões daqui[5]. Não distorça as coisas, pois não sou culpado pelo fuso horário.

- Não importa tant.... – Aquele calmo riso tímido faceiramente delineado em contraste aos olhos repletos de malicia. Incomodado, o americano deu de ombros, após terminar de encher o copo pela metade. Voltava para a reunião quando Ivan, repentinamente, segurando-o pela traseira do pescoço, trouxe este para mais perto de si, segredando em advertência — Também quero pedir que não fale mais com minha família e nem entre nos meus negócios[6] ou não me responsabilizo por certas medidas.

- Certas medidas... – Ressaltou o americano erguendo a sobrancelha esquerda em provocação. Pondo-se em frente ao inimigo, permanecendo segurado pelo pescoço, retribuía a intensidade do odioso olhar.

- Eu lhe odeio, Alfred, mas estes seus olhos mesquinhos... – Observou em sarcasmo por meio de um frio sorriso, estando mais próximo, podendo sentir o desagradável ar expelido pelos vigorosos pulmões daquele verme. Por que ele ainda respirava? Gostaria de esmaga-lo até aquele rosto perder aquela arrogante aura de felicidade.

- Alfred, por favor, ajude-me aqui! – O inglês chamou, passando próximo ao bebedouro e estranhado aquela perturbadora “amizade”.

À contragosto, o americano obedeceu. Recomeçando a reunião, o orgulho guiava permitindo que interesses particulares acinzentassem o assunto principal. Casualmente, Afred, voltava à atenção para os papéis, amassando a ponta superior pela necessidade de dispersar a imensa raiva. Ivan respirava, ignorando aquele país como não conseguia fazer ao intragável ódio crescendo dentro de si. O russo tinha consciência acerca da espionagem e perseguições. Como o americano rastreava seus passos, pulsações, respiração. Como almejava seus pensamentos... Derrubando os papéis num contido ato de impaciência, era incomparável a antipatia consigo mesmo por saber que todos aqueles atos infantis e egoístas eram recíprocos. Certamente, um dia, terminariam enlouquecendo... Como se não já houvessem enlouquecido.

Notas finais
[1] A Rússia assume a cadeira da antiga União Soviética no conselho de segurança da ONU.

[2] 1998 – Ataque terrorista a embaixadas dos EUA

[3] O velho hino soviético, com uma letra modificada, é adotado como o hino da Rússia - substituindo o hino introduzido pelo ex-presidente Boris Yeltsi

[4] O então presidente russo, Boris Yeltsin, critica os EUA pela intervenção nos conflitos em Kosovo e ameaça com o uso de armas nucleares. | Projetos militares norte-americanos na Polônia e na República Tcheca revoltam o governo russo, que inaugura seu míssil balístico intercontinental. | Em 2008, os EUA apoiaram a invasão de um estado russo pela Geórgia, gerando um conflito diplomático entre as potências.

[5] Dez pessoas são detidas nos EUA, suspeitas de atuar como agentes do governo russo em território americano de maneira ilegal.

[6] Os EUA apoiaram a invasão de um estado russo pela Geórgia, gerando um conflito diplomático entre as potências
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