1989, após aquele dia em Berlim...
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Um muro caído sinalizando uma guerra jamais terminada. Dois mundos destruídos, agora unidos pelos machucados das iras dos revoltados.
Embora quebrado ao solo, a vingança sedenta no orgulhoso olhar do derrotado jurava para si mesmo que arrancaria aquele maldito sorriso dos lábios do vencedor, o qual derrubava os símbolos socialistas, ultrapassando cada fronteira do inimigo, impondo sua cultura e sistema, somente para demonstrar poder.
Estendendo a mão num ato heroico, o humilde vencedor sugeriu:
- Segure minha mão, eu irei lhe levantar.
- Fico agradecido pelas suas falsas condolências, Alfred. – Retrucou educadamente raivoso, estapeando aquela mão e utilizando a parede como auxílio. O corpo inteiro doía, a mente, a alma... Virando o rosto para o lado, esquivava daquele cheiro de morte, daquelas vidas perdidas, ideologia massacrada.
O primeiro ano atormentado pela crise da transição econômica. Preços controlados pelo inimigo, o qual ainda lhe ofereceu uma cadeira especial em seu clubinho, àquela que antes pertencia a União Soviética, para sempre relembrar a passada posição e quem agora ditava as regras[1]. “Mantenha os amigos perto e os inimigos mais perto ainda” era o secreto lema do astuto americano.
Para o russo, a dor foi amenizada pela presença de suas irmãs lhe transmitindo força, permanecendo unidos. No começo, foi complicado ensinar que o Estado não era mais o responsável pela nação, sendo encargo de cada um o provento diário, incentivando o individualismo, conforme pregado pelo inimigo americano devido à influência inglesa. Quase uma década depois, ele conseguia integrar o G7, tornando-se um dos principais países industrializados do planeta.
Um novo inimigo surgia para democracia[2], já bem conhecido pelos aliados, que afinal o criaram, destituindo o império otomano. Sangue negro espalhado por bombas, ataques, mas as altas torres onde estavam os mandatários raramente eram feridas.
O novo século trouxe um novo chefe de governo e de estado. Outro daqueles frágeis humanos determinados e com promessas. Recuperava-se o hino[3]. Velhos signos, exaltando os esforços, tradições e virtudes do povo, valorizando a riqueza ambiental como se tentasse fechar as feridas da remota, jamais esquecida, identidade nacional.
Já recuperado, o antigo inimigo se desenhava como aliado, embora o americano mantivesse o receio. Um plano? Uma conspiração? Poderia confiar naquele auxílio ou segurar aquela agressiva mão? Alfred começava a utilizar as bases russas, as quais eram pontos estratégicos de subsídio fornecidos pelo novo inimigo. Ainda assim.... Dentre formalidades, ao final de pactos e viagens, a distância continuava, carecendo aquele inexistente pretexto.
Planos. Conversas. Alianças... Aos poucos, o russo se tornava mais livre, sociabilidade restaurada, autonomia retomada, não existia motivos para exclui-lo de nada. Aqueles olhos de calma era o que mais Alfred detestava. Desconfiado da mudança, o americano gostaria de explorar aquela mente assim como fazia a cada pedaço do território daquela nação, principalmente os segredos noturnos entre aquela pessoa e o parceiro chinês jamais olvidado. Mesmo assim... Reuniões. Bebidas. Recordações...
- Alfred, como eu te odeio... – Brincava o russo entre risos na privacidade, jamais embriagado, embora culpasse a extrovertida bebida.
Incomodado pela direção da estranha afinidade, verificando as conversas em rede sociais entre inimigos/aliados e aquela pessoa em especial, o americano pensou “por que não especializar?”. Um aparelho digital, um escritório eletrônico, uma sede de tecnologia prontificada para a espionagem mundial.
- Você é um irracional. Isto não tem cabimento.
- Você que é um autoritário, ditador...
- Fale.
Alfred desviou os olhos, desconfortável por está ali, naquele lúgubre canto onde jazia o único bebedouro daquele andar.
- Comunista? – Complementou Ivan, retirando um copo também e aguardando a vez. – Eu não preciso obedecer ao seu ego, Alfred. O campo de xadrez está arrumado, então... Deseja jogar? Ou tem medo que o seu rei seja bombardeado desta vez[4].
- Saia da minha casa, Ivan. – Irritando-se, quase derrubou a água coletada em consequência do gradativo furor. — Saia da minha vida.
- Você me ligou no meio da madrugada.
- Pedindo que retirasse seus espiões daqui[5]. Não distorça as coisas, pois não sou culpado pelo fuso horário.
- Não importa tant.... – Aquele calmo riso tímido faceiramente delineado em contraste aos olhos repletos de malicia. Incomodado, o americano deu de ombros, após terminar de encher o copo pela metade. Voltava para a reunião quando Ivan, repentinamente, segurando-o pela traseira do pescoço, trouxe este para mais perto de si, segredando em advertência — Também quero pedir que não fale mais com minha família e nem entre nos meus negócios[6] ou não me responsabilizo por certas medidas.
- Certas medidas... – Ressaltou o americano erguendo a sobrancelha esquerda em provocação. Pondo-se em frente ao inimigo, permanecendo segurado pelo pescoço, retribuía a intensidade do odioso olhar.
- Eu lhe odeio, Alfred, mas estes seus olhos mesquinhos... – Observou em sarcasmo por meio de um frio sorriso, estando mais próximo, podendo sentir o desagradável ar expelido pelos vigorosos pulmões daquele verme. Por que ele ainda respirava? Gostaria de esmaga-lo até aquele rosto perder aquela arrogante aura de felicidade.
- Alfred, por favor, ajude-me aqui! – O inglês chamou, passando próximo ao bebedouro e estranhado aquela perturbadora “amizade”.
À contragosto, o americano obedeceu. Recomeçando a reunião, o orgulho guiava permitindo que interesses particulares acinzentassem o assunto principal. Casualmente, Afred, voltava à atenção para os papéis, amassando a ponta superior pela necessidade de dispersar a imensa raiva. Ivan respirava, ignorando aquele país como não conseguia fazer ao intragável ódio crescendo dentro de si. O russo tinha consciência acerca da espionagem e perseguições. Como o americano rastreava seus passos, pulsações, respiração. Como almejava seus pensamentos... Derrubando os papéis num contido ato de impaciência, era incomparável a antipatia consigo mesmo por saber que todos aqueles atos infantis e egoístas eram recíprocos. Certamente, um dia, terminariam enlouquecendo... Como se não já houvessem enlouquecido.
Notas finais
[2] 1998 – Ataque terrorista a embaixadas dos EUA
[3] O velho hino soviético, com uma letra modificada, é adotado como o hino da Rússia - substituindo o hino introduzido pelo ex-presidente Boris Yeltsi
[4] O então presidente russo, Boris Yeltsin, critica os EUA pela intervenção nos conflitos em Kosovo e ameaça com o uso de armas nucleares. | Projetos militares norte-americanos na Polônia e na República Tcheca revoltam o governo russo, que inaugura seu míssil balístico intercontinental. | Em 2008, os EUA apoiaram a invasão de um estado russo pela Geórgia, gerando um conflito diplomático entre as potências.
[5] Dez pessoas são detidas nos EUA, suspeitas de atuar como agentes do governo russo em território americano de maneira ilegal.
[6] Os EUA apoiaram a invasão de um estado russo pela Geórgia, gerando um conflito diplomático entre as potências
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