1977
1 Godric's Hollow
Não havia mais nenhuma linha que me prendesse ao Largo Grimmauld, nº12. Consideração era a última e mais resistente razão para a minha estadia lá, mas nem mesmo ela conseguiu ficar inabalada diante do fato de que o velho Orion abriu os dois braços para receber a bandida da Bellatrix em nossa casa, mesmo ciente de que ela foi a autora do incêndio cruel e criminoso que ceifou mais de cem vidas em um orfanato trouxa.
Um ato de absurda crueldade, e eu seria incapaz de relevar. Por isso, juntei um amontoado de roupas e todos os livros do sétimo ano que dona Walburga já havia comprado e os enfiei de qualquer jeito no malão. Depois me voltei para o armário negro, próximo a uma coleção de vassouras em miniatura que voavam poucos metros para cima e voltavam para seu lugar de origem, e agarrei o telescópio, uma balança dourada e o mais relevante dos meus pertences: uma Nimbus 1700, recém lançada.
Após organizar tudo para uma partida discreta e rápida, desci as escadas e saí pelo portão de emergência localizado na cozinha.
Parti para a madrugada. Estava escuro e frio para caramba, o que me obrigava a parar no meio-fio e preparar um cachimbo de acácia. Feito isso, alcancei minha varinha em um dos bolsos da calça e a levantei. No minuto seguinte, dois faróis gigantes me espreitavam.
Entrei no Nôitibus Andante, sem muita conversa, e parti para Godric's Hollow.
Para a casa dos Potter.
Atravessamos a Londres trouxa inteira até passarmos para uma paisagem campestre cheia de curvas fechadas. Após deixarmos todo o campo para trás, chegamos ao portal de entrada de Godric's Hollow. Pedi para Ernesto me deixar em frente à residência dos Potter.
Ele assentiu e poucos instantes depois, eu desembarcava do ônibus gigante para uma casa que eu tinha certeza que era um lar. Acendi mais uma vez o cachimbo e fiquei encarando a grande porta de madeira, até perder qualquer traço de constrangimento que ainda restava.
Bati na porta. Momentos depois ouvi passos ligeiros se aproximando, com o intuito evidente de não fazer muito barulho. Porém, deu muito errado. Enquanto James andava em direção à entrada, provavelmente na ponta dos pés para não acordar o casal Potter, o imbecil derrubou um objeto. Quebrável.
A porta foi aberta subitamente.
— Você faz um péssimo trabalho como veado, Prongs. — Tentei falar com o cachimbo entre os dentes, enquanto arrastava o malão para frente. — Vim infernizar o restinho de verão de vocês.
Haviam duas pessoas me encarando no vão da porta. Prongs com a varinha — inutilmente — em punho e um sorriso torto no rosto, e Marlene Mckinnon, parecendo intrigada e absolutamente linda, com os cabelos negros soltos em apenas um ombro.
— Isso é hora de aparecer na minha casa, Padfoot? — falou James, à medida que me ajudava a puxar o malão para dentro. Com a tarefa concluída, eu fechei a porta e ele empurrou o malão até um armário lateral. Dei uma tragada e procurei Marlene na enorme entrada dos Potter, ponderando maneiras de não agir como um idiota louco de amores na frente de toda a família dela.
— Vem logo Padfoot, antes que... — Ele atravessou um corredor escuro, falando cada vez mais baixo. Segui seu rumo e logo estávamos em uma aconchegante e quente sala de estar.
— Então... que estardalhaço foi aquele antes de abrir a porta? — Me joguei em um sofá junto da lareira e fiz força para manter alguma conversa, embora meus olhos estivessem fechados e meu coração parecia pesar no peito. Eu sabia que vinha de uma família extremamente preconceituosa e danosa para a saúde mental de qualquer um, mas mesmo assim... era foda partir.
— Marlene, que sabe ser discreta igual a uma mandrágora!
Lene, que estava de costas, agachada cortando toras de madeira, simplesmente continuou concentrada em sua tarefa. Essa menina... sei lá... tinha algo que eu precisava. Muito.
— Então, seu ordinário, tá achando que aqui é a casa das suas primas, é?
Dei risada.
— Não precisa ter ciúme, Potter, você é a única puta que eu faço exclusividade...
Ele riu e me jogou uma almofada, ao mesmo tempo em que Marlene se levantava, com um inconfundível ar de riso no rosto.
— É tão inspirador ver que ainda há fidelidade nos relacionamentos... bem, rapazes — Ela deu um grande bocejo, falhando na tentativa de abafá-lo com a mão. — acho que vou dar mais privacidade para vocês.
Ela veio até mim, pousou a mão suavemente no meu braço, depois foi até Prongs para bagunçar seus cabelos e riu quando ele inclinou ainda mais a cabeça em sua direção.
Então partiu e eu fiquei uns bons minutos observando o crepitar do fogo, completamente incerto sobre o curso da minha vida.
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O dia seguinte foi 1º de setembro, que marcava o início do nosso sétimo ano em Hogwarts. Os Potter nos levaram até King's Cross e, após abraços e despedidas emocionadas, nós três partimos para o trem.
— Gente, eu vou sentar na cabine de vocês hoje. — disse Marlene, ao arrastar o malão para frente e procurar cabines disponíveis nas laterais. — Vocês costumam sentar perto da saída, não? Talvez Remus e Pettigrew já estejam lá.
Então nós três seguimos até a metade do trem. Durante o nosso percurso, cabeças se viravam para assoviar e gargalhar, saudando nossa chegada.
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