1977

4 Chuva de calcinhas


E os dias foram passando, de maneira bastante despreocupada e aprazível até mesmo para os meus padrões. Contudo, nem tudo são flores. E o tumulto correu solto em uma ensolarada manhã de sábado.

No primeiro dia de Prongs como capitão da nossa equipe de quadribol.

Bem... digamos que os testes foram recheados de surtos de violência e compostos, durante mais da metade do tempo, por lançamentos de calcinhas.

— Tudo bem então! — James estava no meio do campo, encarando, com a testa franzida, os vinte e poucos candidatos que o rodeavam. — Dividam-se em grupos de quatro e cinco e deem uma volta completa em torno do campo!

Ele ditou as regras e nós obedecemos.

Fiz parte do último grupo, juntamente com Marlene, um sextanista cabeça-de-palha e Lucinda Johnson.

Voamos até bem. Se desconsiderar a parte em que o sextanista loiro e uma garota pequena de outro grupo deram as mãos e começaram a girar em suas vassouras, proferindo juras de um amor quente e bem úmido para a eternidade.

Então ocorreu. A primeira calcinha foi atirada aos pés de Prongs.

— Eu hein. — escutei Alice Wonder reclamar para Marlene, enquanto pousava próximo a elas. As duas apresentavam os três principais sintomas de um saudável ataque de risos: respiração ofegante, bochechas ruborizadas e movimentos descontrolados com as mãos. — Mesmo que eu não consiga nem mesmo a função de limpar o barro das goles, já vai ter valido a pena!

E nós três desatamos a rir, lembrando do murro mata-leão que James desferiu em um balaço errante.

— CALA A BOCA, PORRA! — berrou Prongs, enquanto as veias de seu pescoço pareciam prestes a explodir. Todos calamos, embora a diversão ainda não estivesse totalmente morta em nossos rostos. — Todo mundo presta atenção! Os primeiros testes serão para goleiro que, por consequência, já definirão os melhores artilheiros da equipe. Agora, os candidatos à batedores permaneçam do lado esquerdo do campo e o restante me acompanhe!

Ele montou sua vassoura, deu um impulso e partiu para a direção leste, onde três aros, de diferentes alturas, se encontravam. Nós três e mais uma dúzia de candidatos fomos atrás.

Um quintanista careca foi o primeiro a ser testado como goleiro. Não jogou terrivelmente, porém não defendeu nenhum dos três arremessos direcionados ao aro da direita, sob o pretexto de "não querer arriscar ser amaldiçoado pelo aperto-você-sabe-onde do 3º aro", um mito que eu mesmo comecei a fim de impedir que a Lufa-Lufa levasse a taça no meu quarto ano.

Prongs e eu nos entreolhamos, ambos com um sorriso ardiloso no rosto. Aparentemente uma vez executados, os mal-feitos permanecem surtindo efeito por um longo período e isso nos dava uma doce sensação de dever cumprido.

Progressivamente, mais quatro candidatos foram testados, sendo eu o último deles.

Na minha vez, subi até os aros e aguardei a investida dos vários artilheiros. Um, dois, três, quatro. Breve pausa. Mais duas defesas e chegou a vez dela.

— No três então, Marlene! — disse James, voando vagarosamente na lateral do campo. — Um, dois, três!

Então eles vieram, em alta velocidade, desde a outra extremidade do campo. Caius Finnigan subiu e passou a goles para Alice, que deu um giro (muito maneiro!) na diagonal e passou para Marlene.

Parecia que éramos os únicos lá, tamanha a tensão do momento. Lene estava bem séria e focada, avaliando cuidadosamente qual seria sua estratégia. Quanto a mim, eu era um descarado da pior espécie, principalmente agora, que não tinha James para regular meus passos. Simplesmente... não conseguia tirar o sorriso do rosto.

E ela deu o seu melhor, só que eu também dei. Portanto, como esperado, eu havia vencido. Ocuparia mais uma vez a vaga de goleiro da Grifinória. Número 11.

— Foi ótimo, galera! Agora que já temos nosso goleiro, precisamos analisar quais dos artilheiros conseguiram manejar mais agilmente a goles para seus companheiros, ou quais possuíram a sutileza pedida para um perfeito roubo de goles, e ainda, aqueles que apresentaram melhor química com seus parceiros.

Ele fez uma pausa e os candidatos a batedores se uniram à nós.

— Por ter feito o maior número de acertos da manhã, Montgomery é o primeiro nome!

Salva de palmas.

— Por ter a melhor desenvoltura das quatro casas, Wonder é o segundo nome!

Novas salvas de palma.

— Por botar medo até na Madame-de-ferro Hooch, McKinnon é o terceiro nome!

A partir daí, já não eram somente palmas. Assovios e vivas eram despejados em cimas dos três, que pareciam visivelmente aliviados.

— Muito bom, muito bom, muito bom, galera! — urrou Prongs, com grandiosas notas de felicidade na voz. — Vocês são sensacionais, só isso! Agora só precisamos fechar com chave de ouro o que já está bom pra caramba!

E ele brilhou até na hora final. Escolheu Marek Peakes, do quinto ano, por ser um monstro de forte e, de quebra, ter uma boa pontaria. Já Estúrgio Podmore, o dono das juras do amor quente e bem úmido, foi selecionado devido á sua extrema facilidade no manuseio de balaços.

— Vocês precisam estar em constante sintonia, praticamente como gêmeos! Mas não se preocupem, ainda temos bastante tempo antes do primeiro jogo. Então é isso, vocês foram demais! Estou orgulhoso de cada um e tenho certeza que se mantivermos a mesma garra que manifestamos hoje seremos campeões, meus amigos!

Então todos nós aplaudimos e choveram inúmeras calcinhas da arquibancada.

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— Pois é, gente, a conversa tá muito boa e tudo, mas preciso ir. — afirmou Alice, enquanto andava entre mim e Marlene de volta para o castelo. — Marquei de ajudar Frank com algumas traduções de Runas Antigas, sabe...

Levantei as sobrancelhas em descrença.

— Pode parar de mentir na cara dura, Alice. Nós três sabemos que você está indo é dar uma rapidinha antes do almoço.

Marlene riu e Wonder paralisou no lugar. Me virei lentamente para analisar sua reação. Ela estava com a boca aberta e com a cara quase roxa de vergonha.

— Nossa, Black... você é bom. — falou ela, sustentando um bico de desagrado. — Mas como você soube?

Fácil, pequena gafanhota. Eu simplesmente passei todos os anos anteriores praticando a escorregadia arte dos subterfúgios. O que me transformou em um mestre no reconhecimento deles.

— Na verdade, é bem simples: você ficou dando detalhe demais, entende? Se você tivesse apenas falado "marquei de me encontrar com Frank" e ponto, estaria tudo dentro da normalidade. — Fiz uma pausa a fim de dar um peteleco no cachimbo. — Mas não! A senhorita "fluente em Runas Antigas" precisar socorrer o pobre namorado, que é um puto dum cabeção pra tudo quanto é matéria dessa escola, é muito estranho, não acha?

Ela deu um muxoxo de desagrado, que fez Marlene e duas primeiranistas a encararem espantadas e, sucessivamente, gargalharem de forma desenfreada.

— AI! Que ódio de você, Sirius Black! — e Alice Wonder saiu andando feito uma louca varrida, sem olhar uma única vez para trás.

— Normal.

Dei uma tragada e pude sentir os olhos de Marlene cravados em mim.

Pronto. Lá vem.

— Pode falar, Lene, o que está te incomodando.

Estávamos parados exatamente embaixo da enorme estátua de Judith, a desbocada. O que era um péssimo presságio.

— Eu só estava pensando na quantidade de garotas que você já enganou, Sirius.

Que merda, viu. Não posso afirmar que estava surpreso, porque eu sabia que cedo ou tarde ela iria tocar nesse assunto. Só que nunca era legal ter esse tipo de conversa.

— Não sei se "enganar" é a palavra certa, Lene, porque eu nunca prometi nada a nenhuma delas. Elas sabiam que eu queria só sexo e mesmo assim vinham. As mulheres, muitas vezes, criam culpados para situações problemáticas que só existem em suas cabeças.

Ela escutou tudo calada, olhando carrancuda para a varinha esculpida na mão de Judith.

— Bom, você é um canalha. Mas não precisa me dar nenhuma justificativa, Sirius... afinal, você e eu somos só amigos. — Ela soltou um suspiro e voltou a olhar para mim. — Que sorte a nossa.

Aí eu fui pra galera. Sustentei seu olhar durante um longo minuto, refletindo sobre o que diabos essa garota queria com tudo isso. Primeiro, vem tirar satisfações sobre o que eu fiz ou deixei de fazer com outras mulheres. Depois vem com essa conversinha mole de amizade imaculada! Decide logo o que quer, porra!

Mas eu estava sacando qual era o jogo e não iria dar meu braço a torcer. Nem fodendo.

— Pois é, Marlene... Que sorte a nossa.

Notas finais
Comentem galerinha, garanto que a mão de vocês não vai ficar igual a do Albus!!!!!!!!