1942

9 Capítulo VIII — Esconderijos


Notas iniciais
Oi gente, como vocês estão? Espero que bem, e que não queiram me matar por causa da demora KKKKK Quero me desculpar por minha lentidão em escrever os capítulos, mas, como já disse um milhão de vezes, a faculdade anda consumindo todo o meu tempo, e agora eu estou escrevendo outra fic, e aí fica muito mais difícil de dividir o tempo entre tudo o que está acontecendo ultimamente.Porém, isso são águas passadas, pois agora nós entramos na parte mais legal da fic: faberry!!! Vou deixá-los aqui para lerem o capítulo, vejo vocês lá embaixo, e espero que gostem!

— Rápido, entre! — sussurrou Quinn em tom alarmante, puxando Rachel para dentro de casa.

Rachel caiu no sofá, cansada e fraca demais para fazer um movimento mais brusco. Quinn se aproximou da mulher, temendo por sua saúde. Ela estava surpresa. Prometera a Rachel que cuidaria dela em qualquer momento, mas tivera certeza de que ela tinha morrido no campo de extermínio.

— Ah, meu Deus, você está em chamas! — disse Quinn ao tocar a testa de Rachel. A mulher estava encharcada de suor, tremendo e, mais uma vez, cheia de machucados pelo corpo. O uniforme listrado estava mais rasgado que nunca, e a pele por baixo dele era seca e esticada.

— E-eu... — crocitou Rachel, tentando formular uma frase. — F-fabray, n-não pos-s-so...

— Eu vou pegar um cobertor e uma refeição para você.

Quinn engoliu em seco, com medo de seus empregados acordarem com sua conversa com Rachel e viessem investigar o que estava acontecendo. Ela piscou duas vezes fortemente, tentando conter as lágrimas, e subiu as escadas para pegar o cobertor para Rachel. Quando desceu para a sala de novo, Quinn encontrou Rachel observando o lugar com olhos curiosos.

Ela não disse nada, apenas estendeu o cobertor a Rachel. Foi à cozinha e sentiu o estômago roncar ao ver sua refeição da madrugada intocada. Quinn não merecia a comida, não quando teria que cuidar de Rachel.

— Tome — Quinn ofereceu o prato a Rachel assim que retornou a sala. — Você quer, ahm...

Antes que pudesse oferecer os talheres, Rachel atacou o prato de comida com as mãos, esfomeada demais para se lembrar das boas maneiras. Ela desviou o olhar, constrangida, sentindo como se estivesse invadindo um espaço muito particular de Rachel.

A judia gemeu quando terminou a refeição. Quinn achou que seria seguro olhar para sua hóspede novamente, embora suas bochechas ainda corassem de constrangimento.

— Você quer mais? — ela indagou seriamente, tomando o prato limpo das mãos sujas de Rachel.

Por um segundo mínimo, os dedos de Quinn encostaram na pele seca de Rachel e ela quase deixou o prato cair. Sim, ela havia tocado Rachel para sentir sua temperatura minutos antes, mas aquilo parecia diferente, mais... intenso. Com mais intenções que uma simples checagem de temperatura.

Ela rapidamente tirou o prato das mãos de Rachel e, sem ouvir a resposta da mulher à sua pergunta, rumou à cozinha, sentindo suas mãos tremerem ao colocar a louça na pia. Perguntou-se o que serviria à judia (e a si própria) agora que sua refeição da madrugada tinha sido comida por mãos selvagens.

— Não quero mais nada — Rachel disse sorrateiramente, quase causando em Quinn um ataque do coração. — Eu só precisava de um tempo longe das ruas.

Quinn virou-se para Rachel, que estava no batente da porta, tremendo embaixo do coberto como se estivesse fazendo dez graus negativos. Ela queria abraçá-la, dizer que aquele pesadelo logo acabaria, porém, qualquer espécie de toque entre as duas seria avançado demais para a relação frágil que elas haviam construído ao longo dos anos.

— Você vai voltar lá para fora? — Quinn indagou, convidando Rachel a se sentar na mesa de jantar da cozinha. — Eu não aconselharia tal coisa.

— E eu também não aconselho ser judia em tempos tão tempestuosos — retrucou Rachel amargamente. Quinn sentiu o rosto corar. — Se eu não partir, vou enfiar você em uma encrenca das grandes.

— Rachel... — chamou Quinn atenciosamente, impressionada com a força de vontade daquela mulher. — Você está muito mal. Horrível, se me permite tal franqueza. Não está em condições para fazer viagens grandes para... — ela parou, engolindo em seco — para aonde quer que queira ir.

A verdade era que Quinn queria saber mais sobre Rachel, conhecê-la de forma mais profunda, entender a mente da mulher que a havia feito repensar seus atos muitas vezes nos últimos anos. Achava que Rachel devia isso a ela, pelo menos. Por todas as vezes em que ela tinha jogado mensagens misteriosas em suas frases sempre que se encontravam.

— Não sabe com o que está se metendo, Quinn Fabray — Rachel avisou em tom de alarme, mas isso não mudaria a decisão de Quinn. — Os outros que me mantiveram escondidas nos últimos anos ou foram capturados ou tiveram a ousadia de me entregar.

Quinn abriu um sorriso maroto.

— Eu não vou entregar você. — Quinn passou a mão direita pelo coração como se fizesse uma espécie de juramento. — Uma Fabray sempre cumpre suas promessas.

— Você pode ser presa — lembrou-lhe Rachel com a voz cansada.

— A filha de Russell Fabray e mulher de Sam Evans jamais seria presa — ela contornou, abrindo outro sorriso.

Quinn notou que o que dissera fez a sombra de um sorriso perpassar pelo rosto de Rachel, e aquilo era a melhor coisa que havia acontecido em seu dia.

— Eu fico, então — murmurou Rachel. — Até eu me sentir melhor para poder partir.

— Trato feito. — Quinn pensou em estender a mão para formalizar tudo, mas Rachel parecia cansada demais até para isso. — Venha comigo. Vou mostrar onde você irá dormir esta noite.

— Vocês não podem contar a ninguém que temos uma hóspede aqui. Ninguém. Estou dizendo a vocês isso porque confio em vocês tanto quanto confio em Sam, e sei que sabem das nossas reuniões do clube anti-Hitler. Sei que não gostam do Führer. Talvez não tanto quanto eu, mas... — ela respirou fundo — gosto demais das duas para demiti-las por causa de outra pessoa.

Ela nunca pensou que teria uma conversa daquelas com suas empregadas. Discutir com as duas calmamente sobre a situação de uma judia que aparecera à sua porta no meio da noite a beira da morte era um tanto peculiar. Na verdade, Quinn pensava que jamais teria aquela conversa com ninguém em sua vida.

Era assustador a perspectiva de transgredir as leis do governo hitlerista por uma única pessoa, uma pessoa que sequer conhecia direito. Finn trazia de vez em quanto contos de outras pessoas que arriscaram fazer a mesma coisa e que agora estavam presos na delegacia de Strausberg. Os judeus escondidos tinham sido encaminhados imediatamente para os campos de extermínio, acusados de “ludibriarem da raça pura alemã”. Ela prometera que não deixaria Rachel voltar a um campo de concentração, nunca mais, e precisaria da ajuda das empregadas para que isso acontecesse.

— Sra. Evans... — Evelyn torceu o pano de prato de carregava nas mãos nervosamente — eu sei que a senhora tem a melhor das intenções, mas não acha que é, ahm, perigoso?

Quinn assentiu seriamente à pergunta da empregada.

— Se alguma coisa acontecer, se algum vizinho a vir e me denunciar, eu assumirei toda a culpa.

Ela havia pensado muito nisso. Não poderia enviar suas empregadas para a prisão. Ambas tinham famílias que seriam perigosamente prejudicadas se fossem presas. Quinn, pelo menos, teria o pai e Sam para lhe apoiarem. Ela não poderia dizer o mesmo das duas mulheres que cuidavam da sua casa há anos.

— E, com essa proteção, estou me assegurando que nenhuma de vocês dê as costas para mim.

Hans e Evelyn ficaram vermelhas com o olhar severo que Quinn lhes deu.

— Se quiserem pedir demissão, compreendo perfeitamente. O que estou fazendo é perigoso. Deus sabe quando essa guerra vai acabar. Pode durar até o fim da década se Hitler não cair na Rússia. Mas nós, mulheres que não lutamos nos exércitos, podemos fazer a diferença.

“Podemos mudar a Alemanha por dentro, mantendo-a em pelo menos um segura em relação aos judeus. Podemos mostrar ao mundo que existem, sim, alemães resistentes a Hitler. Somos todos seres humanos, afinal. Merecemos um pouco de felicidade no fim do dia.”

Quinn viu nos olhos de Evelyn e Hans que as tinha conquistado naquele momento. As mulheres sacudiram as cabeças ao mesmo tempo, emocionadas demais com o discurso de Quinn para falarem algo. Quinn sorriu para as duas, satisfeita consigo mesma. Não imaginara que teria a confiança delas tão rápido.

— Muito bem — disse Quinn, suspirando profundamente. — Vocês, quero que retornem aos seus afazeres. Eu irei visitar nossa convidada.

— Sempre suspeitei que possuísse o dom da persuasão, Quinn Fabray — disse Rachel assim que Quinn entrou no quarto de hóspedes. Rachel estava sentada na cama observando Quinn com curiosidade. — Só não pensei que seria tanto.

Quinn percebeu que Rachel tentava sorrir, porém seu rosto não mostrou nada além de uma careta de dor. Ela estava definitivamente melhor que na noite anterior, mas ainda parecia muito fraca. Toda sua energia, ela presumia, estava sendo usada para que ela ficasse sentada para poderem conversar. Quinn continuava tendo aquela sensação estranha de querer abraçar Rachel e jamais soltá-la. Rachel ainda usava sua vestimenta listrada e não parecia muito ansiosa em tirá-la.

— Falou com elas como se eu fosse ficar muito mais além de alguns dias — observou Rachel, olhado Quinn sair do batente da porta e sentar-se em uma cadeira em frente à cama.

— Você está muito doente, Rachel — Quinn afirmou em tom de funeral. — Precisa descansar ou quem sabe o que pode acontecer...

— Meu tempo de recuperação é surpreendentemente rápido — retrucou Rachel dando de ombros. Até o mais simples gesto parecia causar-lhe dor.

Quinn a encarou. O que chamava atenção em Rachel desde que se viram pela primeira vez em 1936 era sua perseverança, sua forma de demonstrar força em todas as ocasiões. Quinn sempre dizia que, se fosse uma judia presa, lutaria, mas não tinha tanta certeza agora que via o estado de Rachel.

Cada arranhão, cada marca no corpo dela indicava uma luta contra Hitler. Quanto mais Quinn fitava as mãos e o rosto de Rachel, mais ela tinha certeza de que morreria nos primeiros dias confinada em um campo de concentração. Com um momento de horror, percebeu que as reuniões do clube anti-Hitler não eram nada comparadas ao sofrimento de Rachel durante sua excursão macabra pelos campos de concentração.

— Ficará neste quarto o tempo que precisar. Enquanto isso, eu vou tentar organizar o porão. Se tiver mudado de ideia em relação a ir embora, ficará nele.

Rachel assentiu, e depois franziu a testa como se considerasse a ideia.

— Quero que me conte a sua estória.

Quinn pensara durante o resto da madrugada em como perguntaria isso delicadamente, como descobriria os detalhes da vida de Rachel, mas por fim ela resolveu agir curta e diretamente. Após tudo o que elas haviam passado juntas, achava que merecia saber um pouco mais daquela mulher judia.

Rachel abriu um sorriso zombeteiro.

— Fabray, não me peça isso — disse ela com uma risada sarcástica.

Ela queria pressioná-la, fazer Rachel contar algo além do fato de ser uma judia desafortunada, mas então se lembrou que isso era indiretamente tortura. Sam dissera que faziam tortura psicológica nos judeus, e Quinn não queria que Rachel se lembrasse dela como uma maluca obcecada com a verdade.

“Você é a única alemã para quem eu faria uma reverência, então sugiro que leve isso a sério.” A frase passou pela mente de Quinn como um raio. Não estragaria essa imagem.

— Não é que eu não queira, Fabray — disse Rachel após minutos tensos. — É só que... Ainda não está na hora.

Quinn se levantou, decidida. Estava magoada com Rachel, é claro, mas não demonstraria. Não queria que a mulher saísse de sua casa. Precisava dela ali.

— Deite e descanse — disse, tentando não mostrar o desapontamento em sua voz. — Mandarei Hans ou Evelyn vir checar você de hora em hora.

— Com medo que eu fuja? — Rachel sorriu abertamente apesar das dores em seu corpo, quando Quinn já saía do quarto.

Quinn não respondeu, mas riu com a judia. Algumas horas mais tarde, ela percebeu que, em nenhuma das vezes que Sam e ela haviam dado risada em conjunto, o som havia sido tão harmônico quanto à risada dela e de Rachel.

Quinn passava grande parte do tempo no quarto de Rachel, muitas vezes observando-a dormir e tentando tirar algo importante de sua estória. Na maioria das vezes, no entanto, conversava com Rachel sobre o que acontecia no mundo nazista e na guerra.

Rachel permanecia deitada com a expressão fraca. Não fazia muito esforço, mas seu rosto estava sempre em dor constante, e cada palavra que ela soltava parecia machucar sua alma. Quinn tentava lhe oferecer os chás que Evelyn fazia, mas era em vão. Por alguma razão, Rache ainda desconfiava das empregadas de Quinn.

— Elas estão comigo — reafirmou Quinn pela quinta vez em um mesmo dia, quase uma semana depois de Rachel chegar a sua casa.

Rachel deu um muxoxo de impaciência. Quinn suspirou, cansada. Mais uma vez, a maior qualidade de Rachel estava se tornando seu pior pesadelo.

— Fabray, quando se vive muito tempo nas ruas como eu, aprende-se a desconfiar das pessoas — Rachel retrucou sabiamente. — Não se aceita ajuda dessa forma. Sua persuasão pode não ajudá-la nesse momento.

Quinn revirou os olhos. As duas ficaram alguns minutos em silêncio, com Rachel observando o teto vivamente e Quinn folheando uma revista que Judy deixara ali, alegando que a filha precisava de algumas dicas de moda em meio à guerra.

— Porque você me chama de Fabray? — indagou Quinn subitamente, querendo mais uma chance de conversar com Rachel.

A judia deu de ombros, sem fitá-la. A outra estreitou os olhos e deixou a revista de lado.

— Ainda não confia em mim também, não é? — questionou de mansinho.

Rachel não respondeu, continuando a fitar o teto. Antes que Quinn pudesse dizer algo, Hans enfiou a cabeça pela porta e sussurrou com urgência:

— Sra. Evans, sua mãe no telefone.

Quinn lançou um olhar de pena à Rachel, que continuava a ignorá-la, e saiu do quarto. Ao ouvir a voz de Judy pelo telefone, Quinn ainda mantinha o pensamento em Rachel. Como conseguiria ganhar a confiança daquela mulher, que já sofrera tanto nos últimos anos?

— Quinnie? — chamou sua mãe, preocupada. — Está me ouvindo?

— Desculpe, o quê?

— Eu estava perguntando se nós poderíamos passar o fim de semana aí, querida — repetiu Judy pacientemente.

O sangue de Quinn gelou. Como poderia tratar de Rachel com seus pais e Frannie ali? Seria impossível. Ela nem terminara de arrumar o porão para que Rachel ficasse nele, e não poderia mandá-la embora, tampouco. Mas também não poderia negar o pedido da mãe sem uma razão muito boa, o que obviamente não tinha no momento.

— Porque querem vir para cá? — Quinn perguntou de modo evasivo.

Judy pigarreou e hesitou por alguns instantes, mas finalmente disse:

— Seu pai diz que há grandes chances de acontecer um bombardeio em Berlim no fim de semana, e precisamos de um lugar seguro para ficar, uma vez que não temos porão.

Quinn conhecia sua mãe tão bem que teve certeza que ela ficara vermelha com o pedido. Os Fabray não eram conhecidos por pedirem favores que os rebaixassem alguma forma, mesmo para seus próprios parentes. De repente, se perguntou se fora por isso que seu pai não ligara, e sim sua mãe.

— Eu falei que era uma boa ideia construir um porão quando construíram a casa — Quinn sussurrou em tom de piada. Judy riu fracamente. — É claro que podem vir, mãe — concordou ela, vencida.

Judy agradeceu e murmurou que estariam em Strausberg no dia seguinte. Quinn colocou o telefone de volta no gancho, parecendo perceber o que tinha acabado de fazer. Hans continuava ao seu lado, esperando por instruções, embora ela também tivesse um olhar perdido no rosto.

— Vamos limpar o porão — disse Quinn, determinada. — Minha família virá para cá amanhã e temos que preparar tudo para eles.

Hans não questionou a ordem. Quinn quase desejou que ela o fizesse. Ela suspirou, e voltou-se para retornar ao quarto de Rachel.

— Eu vou embora.

— Não.

— Fabray, seus pais estarão aqui em minutos. Estou melhor, posso fugir.

— Não — Quinn repetiu categoricamente. Ela não deixaria Rachel fugir da proteção dela, não novamente. — O porão está pronto para abrigá-la. Levante-se.

Rachel xingou baixinho, mas se deixou levar por Quinn. Ela tentou ao máximo andar por si só, embora ainda parecesse um pouco fraca. O coração de Quinn parava por alguns instantes toda vez que Rachel ofegava ou demonstrava algum tipo de dor.

Quinn passara a madrugada inteira tentando convencer Rachel a ficar em sua casa enquanto Hans e Evelyn limpavam o porão rapidamente para que abrigassem a judia. Em um primeiro momento, ela se recusou terminantemente e fez vários esforços para se levantar e sair andando noite afora. Quinn sempre a continha, mas estava ficando cansada das discussões.

Não importava o quanto de vezes ela falava para Rachel que não deixaria que nada acontecesse com ela, a mulher ainda tinha um pé atrás e um olhar desconfiado todas as vezes que conversavam. Quinn tentava entender o ponto dela, se ver na mesma situação, porém era difícil. Rachel não estava lhe dando espaço nem para isso ao se recusar a contar sua estória nos campos de Hitler.

Era como se fossem gato e rato, correndo uma atrás da outra em busca de respostas que não iriam conseguir tão cedo.

Com o passar das horas, Rachel foi se tornando mais maleável à proposta de Quinn. Quando Russell ligou para avisar que estavam saindo de Berlim, ela ainda hesitava, embora estivesse muito mais compreensiva que no começo da noite. Por fim, cerca de dez minutos antes dos Fabray chegar, Rachel concordou.

— Não sei como você vai fazer isso, Fabray — confidenciou Rachel assim que se acomodou no porão —, mas admiro sua coragem.

Quinn corou, e sorriu. Estava tão cansada que pensou que nunca mais iria expressar outros sentimentos além de raiva e decepção na vida.

— Se nós sobrevivemos a isso, estará me devendo uma — ela retrucou, e Rachel riu.

Evelyn apareceu na escada do porão e anunciou:

— Sra. Evans, seus pais estão aqui.

Quinn engoliu em seco. Era agora ou nunca, pensou. Se seu pai quisesse fazer uma excursão pela casa como da última vez que estivera ali, inspecionando como a filha estava cuidando do imóvel que ele comprara, ela estaria perdida. Torcia para que Russell ficasse apenas entre a cozinha e o quarto de hóspedes, assim como sua mãe.

— Não vai acontecer nada de errado, senhora — disse Hans enquanto as três ouviam a risada escandalosa de Russell na sala de estar. — O seu plano vai dar certo. Ela vai ficar bem.

Quinn estranhou que Hans estivesse mais confiante que ela própria, mas assentiu. O plano era, em sua essência, simples. Caso algum membro da família Fabray resolvesse descer ali, encontraria um pano tampando as escadas e o local onde Rachel se encontrava escondida. Quinn diria que era uma reforma para que o porão ficasse preparado para algum ataque aéreo inglês, e esperava que fosse uma desculpa convincente.

— Fabray, você tem que ir — avisou Rachel. — E rápido.

Ela concordou e começou a subir as escadas, com Hans em seu encalço. Quinn não olhou para trás, e esqueceu Rachel por alguns minutos. Era hora de se tornar a filha de Russell Fabray.

— Tia Quinn! — exclamou Chloë, correndo para a mulher.

Ela pegou a menina no colo, e logo percebeu que a sobrinha estava mais pesada que da última vez que a vira. Em alguns meses completaria cinco anos, e parecia enorme para a idade. Russell falava em colocá-la numa escola hitlerista e Judy apresentava-a como a melhor criança que já criara para os amigos (para ela, Quinn era briguenta demais; Frannie, por outro lado, era muito chorona).

Frannie quase não tinha participação na vida da filha. O choque da perda de Oliver continuava lá todas as vezes em ela e Quinn se encontravam — como os olhares assassinos e ameaças singelas de tortura. Mesmo que não levasse a irmã a sério, Quinn se preocupava demais com ela — ou melhor, com a saúde de Chloë. Crescer no meio de uma guerra com a mãe travando uma luta interna com a loucura não era o tipo de educação modelo que seu pai prezava.

— Como você está? — indagou Quinn à sobrinha, abraçando-a com força. — Vovó tem cuidado bem de você?

— Sim! — respondeu Chloë, lançando um olhar preocupado à mãe, que se sentava no sofá de Quinn como se fosse morrer ali. — E a mamãe também! Eu estou aprendendo a ler com elas.

— Ler? — Ela arqueou as sobrancelhas aos pais, que observavam a cena com olhares divertidos. — Isso é ótimo! Daqui a uns dias, você vai poder ir para a faculdade igual a mim.

Russell torceu o nariz, mas Judy aprovou o comentário. Quinn deixou a sobrinha no chão e pediu para que Hans a levasse para um quarto exclusivo dela quando estava ali. Deveria pertencer a seus filhos, como sua mãe deixava claro com inúmeras alfinetadas, mas Quinn considerava Chloë como sua filha — e Sam também.

Ela abraçou os pais e acenou para Frannie, que, como sempre, ignorou-a.

— Fico agradecida que nos deixou vir para cá, Quinnie — sua mãe disse, fazendo as honras de Russell. — As coisas em Berlim... Bem, acho que você sabe como estão.

Quinn assentiu. A guerra estava se alongando por tempo demais, o que não era boa coisa para a Alemanha. Mesmo que Hitler não pronunciasse isso nos programas de radio, Finn dizia-lhe o contrário.

— Não é nenhum problema — ela se ouviu dizendo. Na sua cabeça, a voz de Rachel gritava: É um problema, sim! — Evelyn, por favor, leve as malas dos meus pais para o quarto deles.

Evelyn ergueu as sobrancelhas, como se quisesse prevenir Quinn de algo. Com um choque, ela se lembrou. Nenhuma das três tivera tempo de arrumar a cama do quarto de hóspedes, afinal Rachel se mudara para o porão em questão de minutos. Quinn engoliu em seco. Seu pai obviamente notaria isso. Como iria se livrar de uma pessoa que tinha contato direto com o alto escalão do exército alemão?

— Brittany partiu há pouco tempo, então eu peço desculpas pela bagunça — disse Quinn de repente.

Judy franziu o cenho, mas concordou. Russell nem na sala estava mais, e sim na cozinha, perguntando aos gritos o que teria para o almoço. Ela suspirou aliviada quando Evelyn subiu as escadas para colocar as malas no quarto. Um dos problemas estava resolvido.

O que dissera era apenas parcialmente mentira. Brittany estivera em sua casa na semana anterior à chegada de Rachel, contando como iria tentar fugir para a Suíça com a filha da empregada que beijara quando tinha treze anos.

Quinn sentiu-se culpada por ter julgado o amor de Brittany e da garota, mas a pequena explosão que tivera em seu quarto na noite antes do casamento estava a muito esquecida. Sem nenhum ressentimento, ela inclusive encorajou Brittany a seguir seu destino com a tal garota, que se chamava Santana. Ela só esperava encontrar a antiga amiga quando a guerra acabasse.

— Quinnie! — seu pai chamou da cozinha. — Onde você esconde os seus biscoitos?!

Judy revirou os olhos.

— Seu pai ainda não entende que produtos de luxo como biscoitos não existem em época de guerra — sua mãe disse tristemente, puxando Quinn para a cozinha. — Vamos ver se você aprendeu a cozinhar com Hans e Evelyn.

Rachel tentou não se mover nas quarenta e oito horas em que ficou no porão da casa dos Evans.

Tentou, e foi bem sucedida. Não se mexia para praticamente nada, a não ser levar a comida à boca e mastigar. Pelo resto do tempo, ela permaneceu em silêncio e imóvel, imaginando o que a família Fabray estava fazendo lá em cima.

Não reclamou. Estava acostumada a isso. Na verdade, o porão dos Evans era mais aconchegante que os outros aonde tinha dormido por dois motivos: ela tinha comida e um cobertor. Depois de tudo que havia passado, ter o prazer de se esconder e dormir à noite inteira sem se preocupar tanto com a Gestapo ou a SS, fazia Rachel repensar toda aquela estória de ficar ou não na companhia de Quinn e suas empregadas, por menos que confiassem nelas.

A verdade era que Rachel estava cansada. Ela estava cansada de fugir, de fingir ser outra pessoa, de ser espancada só por ter a religião diferente... A lista era enorme. O cansaço que Hans alegava ver em seus olhos era mais psicológico que físico. Seu corpo estava se recuperando com os cuidados de Quinn, mas sua mente... Levaria um tempo para esquecer tudo o que havia visto desde que a guerra começara.

A consciência dela ia e voltava durante o tempo da estadia dos Fabray. Seus pesadelos sobre os campos de concentração estavam mais vívidos que o de costume. Quase sempre, ela tinha que se impedir de gritar quando acordava de um sonho. O cheiro morte dos judeus invadia seu olfato e ela fazia força para não vomitar ou fugir correndo do escuro do porão.

Rachel pensava, também, em como diria a Quinn que estava apaixonada por ela. Não era uma informação que queria compartilhar, especialmente numa situação tão delicada como aquela. E se contasse para Quinn que o motivo de ela estar renegando tanto contar sua estória era porque não queria que fosse muito óbvio? Que estava observando Quinn, desejando ter mais de cinco minutos com ela desde 1936? Era algo muito estúpido. Quinn tinha seu marido, seus pais e uma sobrinha como porto seguro...

E o que Rachel tinha? Um melhor amigo na Inglaterra que não via tinha quatro anos. Seus pais estavam mortos. E, se por acaso ela saísse dali e desse de cara com a SS, estaria morta em questão de dias. Morreria em um campo de concentração, ou fuzilada no meio de uma estrada abandonada caso os policiais fossem mais misericordiosos.

Quinn Fabray era a única maneira de ela sobreviver ao caos que Hitler instaurara na Alemanha.

Rachel não tinha ideia de quanto tempo havia se passado quando ouviu a risada escandalosa de um homem e algo como, “Nos vemos logo!”, que soava quase como um trovão. Imaginou Russell Fabray, mais gordo que naquela foto do jornal de 1936, o cabelo loiro cortado rente e as rugas de expressão de um sorriso forçado.

Pensou em Quinn, com aquele ódio escondido pelo governo amado do pai, abraçando-o, e sentiu ondas de raiva passarem por seu corpo. Rachel percebera na última semana o quanto Quinn não gostava do pai toda vez que o citava.

A porta do porão foi aberta vagarosamente tão logo o barulho do hall se dissipou. Rachel piscou várias vezes por causa dos raios de sol que invadiam seu esconderijo pela primeira vez em dois dias. Por causa dos lençóis, não podia ver quem estava ali, mas ficou feliz pela iluminação. Mais um tempo no escuro e ela ficaria maluca.

— Srta. Rachel? — Era Hans. Rachel tentou falar algo, mas dois dias sem abrir a boca a não ser para comer transformou sua frase em um grunhido. — Os pais da senhora Evans já foram. Se quiser subir para o quarto de hóspedes, ele é seu.

— Não — Rachel se ouviu dizer determinadamente. — Ficarei aqui.

— Chamarei a senhora Evans, então — disse Hans, e saiu, levando a luz do sol consigo.

Rachel contou exatos cinco minutos até Quinn aparecer. Ao contrário da empregada, ela foi até onde Rachel se encontrava deitada. Quando seus olhares se encontraram, Rachel percebeu que Quinn estava aliviada que a família tinha partido.

— Sobrevivemos — Quinn murmurou finalmente, abrindo um sorriso. — Está me devendo uma.

Rachel assentiu, sentando-se na cama. Cada músculo de seu corpo doía. Ficar deitada por quarenta e oito horas não era nada divertido como imaginara, pensou. O rosto de Quinn mudou para uma expressão preocupada, mas Rachel fez um aceno de mão, dizendo que estava tudo bem. De alguma forma, ver Quinn a fazia sentir-se melhor.

— Sei o que vai pedir — Rachel disse, fitando a mulher. — Minha estória.

Quinn concordou, e abriu um sorriso amarelo, como se pedisse desculpas por ser tão insistente.

— Sente-se, então. — Rachel suspirou. Ela nunca se sentiu tão focada em algo como naquele momento. — Tenho algumas coisas para contar.

Notas finais
E aí, o que acharam? Pessoalmente, eu queria ter detalhado mais algumas coisas, mas vamos deixar isso para o próximo capítulo. Eu vou tentar o máximo para escrevê-lo em duas semanas para postá-lo aqui no meio de julho, enquanto lido com os trabalhos de final de semestre e provas, embora eu não garanto nada.Quanto à outra fic que estou escrevendo... ainda não terminei os primeiros capítulos, mas já estou louca para postá-la aqui. Estou sonhando com as férias em agosto para que eu possa lidar com essas duas fics KKKKK Enfim, espero que tenham gostado dessa maior interação Faberry e, se possível, deixem seus reviews com xingamentos, elogios e/ou sugestões, beleza?Até o próximo capítulo!