1942

7 Capítulo VI — Fugas


Notas iniciais
Olá pessoas, como vocês estão? Espero que bem. Enfim, quero me desculpar muito mesmo pela demora, mas como já disse antes, a faculdade está me desgastando muito e o tempo livre que tenho só serve agora para fazer trabalhos.
Esse capítulo teria mais partes, mas eu resolvi dividi-lo em dois para que a postagem fique regular pelo menos nesses próximos dias, então, na verdade, esse capítulo eu chamaria novamente como "Chato, porém necessário".
No entanto, espero que gostem dele e vejo vocês lá embaixo!

Julho de 1941

— Kurt foi para a Inglaterra! — Sam entrou em casa feito um trovão, parando quase em cima de Quinn, que lia calmamente em seu canto reservado da sala de estar.

Quinn observou o marido mais atentamente. Sam suava e ofegava como se tivesse vindo do quartel para casa a pé. Nunca o vira tão aflito, nem quando os dois haviam conhecido Hitler nas Olimpíadas de 1936. O garoto também parecia desolado, amassando uma carta entre os dedos da mão esquerda como se isso dependesse de sua vida.

— O que aconteceu? — indagou Quinn, marcando a página onde parara de ler e pousando o livro na mesinha de centro. — O que houve com Kurt?

— Ele foi para a Suíça — repetiu o marido, caindo no sofá ao lado da cadeira de leitura de Quinn. Sam parecia prestes a chorar. — Ele deixou-me esta carta, e...

Ele estendeu o papel para Quinn, que o pegou curiosa. Kurt era um bom amigo dos dois, e sua partida seria sentida não só por Sam, mas também por ela. Com quem mais ela discutiria assuntos levianos, tal como sapatos e roupas, nas reuniões do clube anti-Hitler? Ela desamassou a carta e leu seu conteúdo.

Caro Sam,

Desculpe-me por dizer adeus de uma forma tão brusca e vulgar, mas eu temo que não possa visitá-lo em seu quartel mais.

Preciso fugir. Lembra-se de quando nós conversamos sobre o futuro e eu disse que o meu talvez não fosse aqui, na Alemanha? Bem, isso se torna verdade a partir de agora. Não sei se isso chegará a suas mãos sem ser violado, então eu posso apenas dizer que meu sonho agora se tornou real.

— Sonho? Que sonho? — Quinn interrompeu a própria leitura e levantou os olhos para Sam, curiosamente.

— É algo entre nós dois, que compartilhávamos desde a infância — Sam confessou, desolado. — Somente eu sabia o seu segredo, tal como só Kurt sabia do meu.

Ela sabia que não deveria insistir naquele momento, por isso continuou a leitura silenciosamente.

Decidimos embarcar para a Suíça e de lá irmos para a Inglaterra. Como Tenente-Coronel, sabe que a Suíça é neutra nesse confronto estúpido, e por isso deverá — eu espero — ser mais fácil chegar à Inglaterra por lá.

Queria mandar cartas todas as semanas, mas nós dois sabemos que isso será inviável. Da Inglaterra, talvez nós possamos ir aos Estados Unidos — como o país não está em guerra contra a Alemanha, presumo que sua política seja mais relaxada.

Quem sabe, quando essa guerra acabar, nós possamos nos ver novamente. Até lá Sam, comande esses pequenos alemães da melhor maneira que conseguir e continue liderando Finn e os outros a um plano que finalmente dê certo.

Meus sinceros abraços,

Kurt Hummel

PS: Quinn Evans, eu sei que lerá isso. Então, eu desejo felicidades a você e Sam e peço para que, por favor, cuide do seu marido. Eu sentirei saudades de você, especialmente da sua deliciosa torta de limão.

Quando terminou de ler a carta, Quinn percebeu que lágrimas escorriam por suas bochechas desesperadamente. O marido não chorava, mas seus olhos estavam vermelhos e ele assuava o nariz nas costas da mão.

— Nós... — disse Quinn depois de um bom tempo. — Kurt nunca se refere a ele no singular, e sim no plural. Ele está com alguém? Esse é o segredo dele?

Sam assentiu, fitando Quinn significativamente.

— Mas ele poderia simplesmente casar com ela aqui — sugeriu a mulher, franzindo o cenho. — A não ser que ela seja judia...

Casamentos entre judeus e alemães puros não era permitido desde 1938. A essa altura, todos os direitos dos judeus estavam no lixo. Com a guerra, tudo piorara relativamente para o lado deles. Em Strausberg, onde moravam, quase não havia mais judeus livres. Haviam alguns mais atrevidos que circulavam pelo centro da cidade, porém eram poucos e raros que enfrentavam o ódio da população.

— Não é uma judia — disse Sam entre dentes. — Não é.

Quinn quase não o escutou.

— Então porque Kurt teve de fugir do país? — Ela sabia que estava sendo terrivelmente inconveniente com a dor de Sam, mas não podia evitar.

— Kurt é homossexual, Quinn! — Sam gritou, finalmente explodindo. — E ele sabe, desde criança, e me contou, mas mesmo assim ele tentou viver a vida normalmente, sabe, que nem nós dois! Ele sempre foi apaixonado pelo Finn. E eu sempre soube, mas eu não podia contar nada por que Kurt seria preso se alguém soubesse disso! Preso, e torturado, talvez levado para aqueles campos nojentos para morrer de tanto trabalhar! Por isso ele fugiu, Quinn, está feliz agora?!

Sam se levantou e saiu da sala batendo o pé.

Quinn ficou sem reação, sentada na sua poltrona de leitura, ainda com a carta de Kurt nas mãos. Sabia que o marido precisava de tempo para absorver a notícia e ela não interferiria nisso, pelo menos não tão explicitamente quanto ao segredo de Kurt.

Quinn engoliu em seco, ainda não acreditando. Kurt era homossexual; ela convivera com ele por cinco anos e embora desconfiasse, jamais saberia se Sam não tivesse lhe contado. Rapidamente lhe veio à sua mente Rachel, a garota que vivia atrapalhando suas decisões em relação a Sam.

Fazia três anos que Quinn não a via, desde o seu casamento. Desde então, ela se mudara, arranjara duas empregadas e finalmente tivera coragem de fazer sexo com Sam. A Quinn Fabray que conhecera e ficara hipnotizada por aquela judia era outra pessoa, muito mais madura e forte que a insegura menina de 1938.

Mas havia noites que Sam tinha que trabalhar até tarde e não voltava pra casa, deixando ela sozinha com suas empregadas, que Quinn deixava sua mente voar para a festa de seu casamento, nos minutos preciosos em que se encontrara com Rachel naquele corredor vazio. Pensava na forma que Rachel a olhava, na forma que sorrira como se soubesse que se veriam novamente e na reverência que Rachel dera a ela.

“Você é a única alemã para quem eu faria uma reverência, então leve isso a sério,” Rachel dissera. Ela nunca se esqueceria daquelas palavras. Eram como uma droga para si quando a relação com Sam não estava em seus melhores dias. Quinn se lembrava do rosto de Rachel e de sua expressão desafiadora e, ela não sabia muito bem como explicar, sentia-se muito melhor do que antes.

— Sra. Evans? — Uma das empregadas, Evelyn, a chamou, acanhada. — Tudo bem com a senhora?

— Com você, Evelyn — corrigiu Quinn. Ela odiava quando as empregadas se referiam a ela como senhora Evans. Mesmo depois de três anos de casamento, ainda não parecia natural. — E sim, está tudo bem comigo. Sam e eu discutimos, mas foi algo breve.

Evelyn assentiu, saindo da sala, porém não antes de lançar outro olhar preocupado à patroa. Quinn suspirou pesadamente, se perguntando quando seria a hora certa para confrontar Sam novamente — e, caso isso acontecesse, se deveria trazer o assunto da fuga de Kurt à tona. Ela não gostava de se sentir de fora quando se tratava das dores do marido, mas pelo menos entendia que dessa vez deveria se preocupar menos e dar mais suporte.

Ela se levantou da poltrona de leitura e seguiu em direção à cozinha para checar como Evelyn e Hans estavam conduzindo o jantar àquela noite.


Pouco menos de duas semanas da fuga de Kurt, Quinn recebeu um telefonema de Russell. O pai dizia que a irmã havia recebido uma carta do exército alemão, afirmando que Oliver morrera em uma ofensiva contra a Grécia, quase quatro meses antes.

Frannie estava arrasada, e Judy não conseguia expressar direito seus sentimentos ao falar com Quinn no telefone. Nem a própria Quinn soube o que dizer. A ofensiva alemã contra a Grécia trazia duas preocupações: Oliver e Anton, amigo de Sam do grupo anti-Hitler, estavam incluídos nela.

Sam não tinha notícias de Anton — o que poderia significar duas coisas —, mas Quinn tentou pensar positivamente e se concentrou na tristeza da perda de Oliver. O marido de Frannie era a coisa que mais gostava na irmã. Ele era bonito, inteligente, engraçado e tratava Quinn como uma irmã mais nova, ao contrário de Frannie, que sempre a olhava como se fosse uma sujeira no carpete novo da sua casa. Quinn amava Oliver, talvez mais do que um dia amara a irmã, e sua morte era um choque de realidade.

A guerra estava ali, acontecendo nos portões de sua casa. Definitivamente ela bateria mais vezes nos próximos anos à sua porta, trazendo notícias piores que a morte de seu cunhado.

Russell estava organizando um enterro de honra a Oliver, já que provavelmente o corpo poderia nunca mais voltar para Berlim. Nem toda a influência de Russell no governo seria páreo ao terror da guerra. O enterro estava marcado dali dois dias e Russell quase implorou para que Sam e Quinn fossem. Pelo jeito, Frannie e Oliver não tinham muitos amigos.

Quando Sam chegou em casa na noite depois do telefonema de Russell, Quinn explicou para ele a situação, mas ele não parecia surpreso.

— Finn me contou — disse ele, dando de ombros. Sam e Oliver raramente se falavam, a não ser nas reuniões dos Fabray, mas ela viu nos olhos do marido que ele estava triste com a notícia. — De acordo com ele, Oliver morreu como um herói, salvando a vida de um monte de soldados. Anton desapareceu dentro da cidade — Sam comentou minutos depois, sabendo que a mulher perguntaria sobre o amigo. — Não há sinais dele em lugar nenhum.

Quinn assentiu, sentindo as lágrimas se formarem e abraçando o marido como se o mundo fosse acabar no minuto seguinte. Bem, ela pensou, com essa guerra, nada mais se sabe dessa vida.

Os dias seguintes passaram como um borrão. Quinn só se lembra de estar no carro a caminho do cemitério do lado leste de Berlim, ouvindo Sam assoviar ao seu lado uma melodia suave que ele sempre usava para poder se acalmar. Ela não queria reencontrar a família em uma situação tão horrível, mas percebeu que era o necessário. Talvez a morte de Oliver a aproximasse de Frannie de alguma forma.

Ao ver o Sol brilhando em seu esplendor ao pararem no estacionamento do cemitério, Quinn sentiu-se repentinamente triste. Lembrou-se do verão de 1933, quando encontrara Oliver pela primeira vez. Frannie ainda era suportável àquela época e até havia se tornado legal por alguns momentos enquanto Oliver estivera por perto. Recordou-se de como passara horas conversando com os dois, rindo e dividindo experiências que ela nunca pensou em contar à irmã. Àquelas horas haviam sido umas das melhores horas da vida de Quinn.

Sam saiu do carro primeiro e abriu a porta para a mulher, que sentiu o vento morno no rosto gostosamente. Ela aprumou-se em seu vestido de verão, tão escuro quanto à noite, e seguiu com Sam para a pequena capela do cemitério.

Como não teria realmente um corpo, a parte do velório fora retirada do programa, deixando apenas uma missa de curta duração antes do enterro. De acordo com Sam, aquilo estava acontecendo com mais freqüência que o normal, o que fazia Quinn estremecer com o pensamento.

Quantos homens estavam enterrados em lugares aleatórios da Europa, sem serem reconhecidos? Quantas mulheres e crianças estavam chorando pela morte de seus maridos e pais, sem ter meios de trazê-los de volta a seus países de origem? Não só na Alemanha, mas em todos os países envolvidos na guerra. Quantas pessoas já haviam morrido naquela guerra sem sentido?

— Quinn! — exclamou Chloë assim que os Evans entraram na pequena capela do cemitério. Não havia muitas pessoas ali, por isso o grito da menina ecoou pelo local estrondosamente.

Chloë se livrou do aperto de Judy e correu até a tia, pulando em seu colo. Todas as pessoas as observavam, o que fez o rosto de Quinn ficar levemente vermelho.

— Como você está, meu amor? — Quinn indagou no ouvido da sobrinha enquanto ela, ainda carregando Chloë no colo, se encaminhava para a segunda fileira de bancos da capela, atrás de Frannie.

Quinn cumprimentou a mãe, que sentava na sua frente junto com a irmã e o pai, com um aceno de cabeça. Ela não era exatamente parte da família de Oliver, por isso evitara a primeira fileira. Embora quisesse evitar Frannie — mas ao mesmo tempo consolá-la pela morte do marido —, sentar-se do lado da família de Oliver iria parecer forçado e estranho.

Ela e Sam sorriram forçadamente a Russell, que os cumprimentou com o poderoso tom de voz de sempre. Frannie, por outro lado, não levantou os olhos em nenhum momento da pequena confusão que sua filha causara, fitando seus sapatos o tempo inteiro.

— Papai não vai voltar, não é? — Chloë ignorou a pergunta de Quinn, mas fez outra, séria demais para uma menina de cinco anos.

— Não, querida — disse Quinn delicadamente, imaginando que dizer a verdade à menina seria menos doloroso do que mentir sobre algo tão terrível. Ela passou a mão nos cabelos encaracolados de Chloë e sorriu tristemente. — Por mais que me doa, ele não vai.

— Você é a única que conta a verdade para mim — falou ela se aninhando nos braços de Quinn. Sam as observava com um sorriso melancólico no rosto. — Mamãe tem chorado pelos últimos três dias e teria me deixado em casa se não fosse pela vovó Judy. Você é real, tia Quinn.

Quinn olhou para Sam, sem saber o que dizer. Seus olhos brilhavam por causa das lágrimas que ela se recusou a deixar cair na presença da sobrinha. Ela pensou em Frannie e Judy, ali na sua frente, escutando o que Chloë acabara de dizer. Se alguma das duas ouviu o que a menina tinha dito e o real significado daquelas palavras, não ousaram demonstrar.

— Bom dia, senhoras e senhores — o Padre disse ao chegar ao altar com sua Bíblia surrada. — Estamos aqui hoje para falar de um homem simples, mas sofisticado em sua maneira. É com um grande pesar que seguirei com a missa dedicada a Oliver Brünni, morto em combate durante a invasão à Atenas.

— Por que precisamos falar sobre isso? — indagou Quinn no ouvido do marido, não deixando que Chloë ou Russell a escutasse.

— Creio que faça parte do programa. — Sam deu de ombros. — Eu aposto que isso foi coisa do seu pai.

— Controlando-nos na vida e na morte — sussurrou Quinn amargamente, voltando a prestar atenção na preleção do Padre.

Ele continuou falando sobre os atos de heroísmo de Oliver no campo de batalha, voltando à sua infância e ao fato de que ele deixara uma mulher e uma filha de cinco anos em Berlim.

Quinn visualizou as pessoas que estavam na capela discretamente. Como presumira, o lado esquerdo de bancos estava tomado pela família de Oliver. Ela reconheceu, lá no primeiro banco, a mãe e a irmã de Oliver do Natal de 1935, quando ele pedira Frannie em casamento na frente de todo mundo. A irmã dele tinha mais ou menos a idade de Quinn, mas pelo jeito ainda não se casara — ou seu marido estava em algum front a milhares de quilômetros dali.

Um menino na segunda fileira olhava assustado para o Padre, como se não entendesse o que estava acontecendo. Mais atrás dele estavam três casais na idade de Frannie com seus respectivos filhos, quietos demais para a expressão diabólica de cada um.

Ela voltou sua atenção para o Padre, mas agora que perdera boa parte do culto, não adiantaria muito ouvir seu prelúdio até o fim. Por isso, acariciou os cabelos de Chloë e a manteve perto de seu peito enquanto a menina brincava silenciosamente com Sam.

Quinn nunca se interessou muito pela parte de ser mãe. Adorava crianças, mas não se sentia pronta (pelo menos não ainda) para ter seus filhos. Judy dizia que ela deveria ter um filho o mais rápido possível, pois a juventude logo iria embora e aí, na velhice, ela não teria mais tempo para bebês.

Sentia-se insegura em relação a ter um filho na época de guerra. Parecia ser uma coisa muito estúpida. Para quê Quinn quereria que sua criança nascesse em um mundo parcialmente destruído comandado por um maluco? Não. Quinn queria que seu filho nascesse em um lugar livre, para que ele pudesse viver sem a pressão de ser algo que ele não era.

Decidira que teria um filho com Sam assim que a guerra terminasse. Não importava a pressão que Judy lhe botava todas as vezes que se encontravam, Quinn não permitiria que mais uma alma fosse condenada ao sistema de Hitler.

O Padre disse suas últimas palavras, pedindo para que todos levantassem para uma oração dedicada a Oliver. Depois da oração, Russell, Sam e mais dois outros homens que Quinn não conhecia se encaminharam para perto do caixão vazio, pronto para levarem ao local onde Oliver seria “enterrado”.

Frannie seguiu o cortejo na frente, chamando Chloë para que a menina ficasse ao seu lado. Ela parecia não querer se soltar da tia, mas Quinn convenceu a garotinha de que ficar com a mãe naquele momento era necessário. Frannie não olhou para Quinn, tratando-a como se ela fosse uma simples empregada. Quinn se perguntou o porquê do ódio além do normal da irmã para com ela.

Judy e a mãe de Oliver foram atrás de Frannie, seguidas por Quinn e a irmã dele. O Padre, à frente do cortejo, iniciou uma oração em latim ritmada. Quinn não tinha nenhuma ideia do que ele estava falando, mas presumiu que fossem mais palavras de consolo. Ninguém falou durante o percurso de menos de dez minutos pelo cemitério até a sepultura de Oliver.

Fazia um dia bonito demais para enterrar alguém, pensou Quinn, triste, ainda que metaforicamente. Um dia bonito demais para que pessoas estivessem lutando e matando no meio do nada por um motivo idiota.

Quando Sam deixou o caixão vazio de Oliver ao lado da cova e correu para ficar ao lado da mulher, Quinn o abraçou com força. Não suportaria ver seu marido indo combater outras pessoas inocentes por um ideal que nenhum deles acreditava. Imaginou se a dor de perder Sam seria a mesma que Frannie estava sentindo no momento. Se a dor não seria pior, sabendo que Sam não acreditava em Hitler e que ele se recusaria a matar um homem se não fosse extremamente necessário.

Os funcionários do cemitério colocaram o caixão vazio no túmulo. A mãe de Oliver foi a primeira a pegar um pouco de terra e jogar em cima do caixão. Do outro lado da sepultura, Quinn viu Chloë perguntar à mãe o porquê da terra no caixão, mas Frannie apenas a ignorou e jogou a terra no caixão do marido.

Quinn se aproximou e fez a mesma coisa, logo depois da irmã de Oliver. Russell, Judy e os três casais amigos de Frannie foram os próximos. Sam fora o último a prestar a homenagem. Ele e Quinn ficaram mais perto de Frannie por acidente, mas Chloë logo pulou nos braços de Quinn novamente.

— Frannie... — Quinn sussurrou pela primeira vez, chamando a atenção da irmã com um puxão delicado em seu vestido preto. — Sinto muito. Por tudo isso. Se você precisar de alguma coisa, saiba que eu e o Sam estamos...

— Ah, poupe-me — Frannie murmurou friamente quando os funcionários começaram a jogar terra com as pás para cobrir o caixão por inteiro.

Frannie soltou-se da irmã com um movimento brusco e fitou Quinn pela primeira vez naquela manhã. Seus olhos estavam marejados de lágrimas e com uma raiva assassina. Quinn afastou-se um pouco, deixando que Sam levasse sua sobrinha para onde Judy e Russell estavam.

— Ollie estaria vivo se não fosse por Sam — Frannie sibilou nervosamente. — Oliver estaria vivo se você não tivesse dado uma de comportada e casasse com o primeiro homem que papai arranjara para você. Ele estaria vivo... — Frannie avançou mais para perto da irmã, que recuou até bater em uma árvore — se ele ainda fosse o favorito de papai, e não o seu loiro perfeito e charmoso capitão da Juventude Hitlerista!

Os olhos de Quinn estavam arregalados. De repente, Quinn voltara a ser a menina de dez anos, amedrontada e encurralada pela irmã de quinze que a acusava de ter roubado uma de suas bonecas de coleção. Odiava se sentir menor que a irmã e aterrorizada por ela.

— Frannie, a morte de Oliver não é culpa de Sam, muito menos minha — Quinn disse rapidamente. Lágrimas desciam pelas bochechas da irmã, e Quinn suspeitou que ela própria também devesse estar chorando.

— É claro que é! — Frannie retrucou com os olhos em chamas. — Você é a favorita de Russell, sempre foi, e é claro que seu namorado também seria. Papai poderia ter arranjado algo para Ollie em Berlim, ou no interior para que ele não sofresse com a guerra, mas não... Ollie foi para o front na primeira leva! E ele não fez nada para impedir.

“Quanto a Sam, no entanto... Russell não poderia deixar que seu querido genro fosse para a guerra enfrentar seus horrores. Era jovem demais, ele disse à mamãe. Precisa de algo estável, para ele e Quinn. E o que ele fez? Comprou uma casa. Uma casa para você e Sam... E deu a ele o trabalho mais simples de toda a Alemanha: cuidar da Juventude Hitlerista em uma cidadezinha qualquer.

“Ollie deveria estar em algum lugar seguro da Alemanha, comigo ao lado dele. Deveríamos levar Chloë para a escola ao invés de deixar um soldado levá-la. Juntos. Eu e ele. Sempre juntos. Até essa maldita guerra acabar. Juntos...”

Frannie ficou repetindo “Juntos, sempre juntos” por longos dois minutos até Quinn perceber que a irmã não falaria mais nada. Olhou por cima do ombro da irmã e descobriu que eram as únicas ali. Sam e os outros já deveriam ter voltado ao estacionamento, provavelmente se perguntando onde as duas irmãs estariam.

Quinn queria abraçar a irmã, que soluçava e chorava ainda murmurando “Sempre juntos”. Ela não abraçara Frannie desde que tinha sete anos de idade, pelo menos não tão ternamente quanto antes. E se Frannie a rejeitasse? Quinn não sabia o que fazer. Afastou-se da irmã, mas não a deixou chorando no meio do cemitério: passou o braço pelos ombros dela e a fez andar até onde presumiu que a família estava.

Ao chegar ao estacionamento, Sam fitou as duas com um olhar surpreso, que Quinn ignorou. Passou direto por ele, entregando Frannie aos cuidados de Judy, que sempre entendera a filha mais velha mais do que ninguém.

— Ela começou a gritar comigo sobre Oliver e a chorar torrencialmente — Quinn disse para Judy, que não hesitou ao abraçar Frannie. Chloë, nos braços de Sam, viu a mãe aos prantos e fez bico, ameaçando chorar também.

— Acho que é apenas um choque por causa do que aconteceu — Russell disse obviamente, fazendo Quinn revirar os olhos.

Nenhum deles sabia lidar com notícias ruins, Quinn tinha certeza disso. A morte de Oliver era apenas algo que os Fabray ignorariam pelo resto de suas vidas. Abririam um sorriso falso e encarariam o mundo sem nenhum pudor. Ela admirava isso, mas achava que a política de felicidade constante do pai algum dia iria explodir de tal maneira que nenhum deles conseguiria voltar ao que eram antes.

A pequena faísca da infelicidade de Frannie viera no Ano Novo de 1937, quando Sam pedira Quinn em namoro. A morte de Oliver era o início de um incêndio enorme que, ela sabia, causaria a destruição da saúde mental da irmã. Por menos que gostasse de Frannie, ela não merecia tal sofrimento.

Aquilo era a guerra, Quinn pensou resolutamente enquanto observava Judy levar Frannie ao carro. Chloë queria seguir a mãe, mas, pela primeira vez, Russell fez algo sensato: deixou que Quinn e Sam cuidassem da sobrinha pelo resto do dia enquanto Frannie se recuperava um pouco. Era a guerra que estava causando aquela desgraça em sua família.

Quinn olhou para Sam de soslaio e sentiu um nó na garganta. Ele seria o próximo. Com os avanços alemães, logo os melhores oficiais iriam para o front, e Sam se esforçara o bastante sozinho para ser um dos melhores militares da área metropolitana de Berlim. Eles o escolheriam para comandar uma tropa de soldados inexperientes em luta contra qualquer outro país Aliado, e isso deixava Quinn aterrorizada.

— Vou ver a mamãe de novo? — indagou Chloë no banco de trás do carro de Quinn e Sam com um olhar perdido no rosto.

Quinn sorriu, complacente. Sam olhou para a sobrinha pelo retrovisor tristemente, lançando depois à mulher um olhar significativo.

— Claro que vai, meu amor — Quinn respondeu bondosamente. — Claro que você vai...

Chloë ouviu as palavras da tia e abriu um sorriso. Deitou no banco e, um tempo depois, Sam e Quinn ouviram o ressonar baixinho dela, indicando que a sobrinha dormira.

Notas finais
E aí, o que acharam? Dá para ver agora que a guerra está infiltrada na vida de Quinn e que isso só vai piorar daqui pra frente. Eu não sei muito bem quanto tempo levava para a família saber da morte do ente querido no campo de batalha, mas presumi que quatro meses era o suficiente.
A relação entre a Frannie e a Quinn é, pra mim, uma das coisas mais legais de se escrever nessa fic. E eu também gostava do Oliver, mas as mortes são necessárias quando se trata de uma fanfic sobre guerra. Também gostei muito de escrever que a Quinn ainda pensa na Rachel mesmo depois de três anos sem vê-la.
Não esqueçam de deixar seus reviews com xingamentos, elogios e sugestões e, eu espero, vejo vocês na semana que vem com um capítulo novíssimo cheio (mais uma vez, eu espero) de Faberry!
Beijos e até lá :)