18º Desafio Sherlolly
1 Sorte
Notas iniciais
Era um dia comum em Baker Street. Tão comum que me fazia ter ânsias de fumar toda uma caixa de cigarros ou então derrubar a parede com tiros. Mais uma vez. Acho que Sra. Hudson não ficaria feliz se isso acontecesse.
Por onde andavam os criminosos dessa cidade? Será que a culpa era do frio? Droga, o frio nunca impediu Moriarty de fazer nada. Não quero acreditar que aparentemente estou com saudades dele.
Se eu soubesse o que estava para acontecer, teria ficado quieto quanto às minhas reclamações. Esqueçam tudo que eu disse anteriormente, estava perfeito. Perfeito sem nada para fazer. Perfeito.
Maldita lei do atrativo – ou seria atração? – que John tinha mencionado. Só pode ser praga dele. Porque tudo caminhava bem, até que Molly entrou no apartamento com se uma horda de zumbis esfomeados a estivessem perseguindo e estava pálida como um deles.
- Preciso de ajuda.
Foi tudo que ela disse e eu pulei de uma vez só do sofá, ainda de pijamas. Por um segundo, acho que todas as possibilidades do que poderia estar acontecendo passaram por minha cabeça. Ameaça, chantagem, amor impossível, roubo, fraude, perseguição, ciúme. Não, esper. Quem estava sentindo ciúme era eu. Quem poderia estar causando qualquer tipo de preocupação em Molly, deixando-a a ponto de vomitar, que não fosse eu?
Já não bastava eu ter ameaçado Tom para que ele se afastasse dela? O que? Ora, eles nãos e gostavam. Era claro para todo mundo ver. Não foi preciso segui-lo mais de um dia para pegá-lo com outras mulheres. Maldita cópia infeliz!
Molly sentou-se à minha frente, torcendo as mãos no colo e eu estava ficando cada vez mais ansioso. O que estava acontecendo com ela?
Não expus minha pergunta em palavras, apenas a encarei e esperei até que estivesse pronta para dizer o quer que fosse. Em segredo, eu torcia para que fosse qualquer coisa que não envolvesse uma terceira pessoa. A não ser que Molly tivesse assassinado alguém. Eu ajudaria a esconder o corpo.
- Sherlock... – Ela não parava de mexer as mãos e eu estava ficando inquieto também. Será que ela não podia ser mais rápida? – Lembra-se quando te ajudei a fingir a morte?
- Não, Molly. Eu esqueci. Calma, estou brincando. Claro que lembro. – Completei quando ela ergueu os olhos para mim, apavorada. O que isso tem a ver agora?
- Agora sou eu que preciso de um favor...
- Você precisa se fingir de morta? – Minha voz saiu um tom a mais que o normal, eu acho que isso a assustou. Tanto que ela até sorriu.
- Não! Essas peculiaridades eu deixo para você. É que daqui duas semanas vai ocorrer um evento beneficente patrocinado pelo St. Barts. – Não estava entendendo onde ela queria chegar. – E os médicos... Os médicos todos farão algum tipo de apresentação.
- E o que você tem a ver... Oh Deus. Você é médica.
- Obrigada por lembrar, Sherlock. – Eu sorrio diante do desdém na voz dela. – O caso é que eu tenho pavordequalquercoisaempúblicoeuodeioplateia.
Ela disse tão rápido, que não entendi nada. Na verdade, eu não entendi porque em partes eu fiquei observando o rosto dela enrubescer e me perdi por alguns momentos.
- O que?! Fale mais devagar Molly.
Sorri quando ela respirou fundo, tentando voltar a sua palidez.
- Eu tenho pavor de fazer qualquer coisa em público. Eu odeio plateia, pessoas olhando para mim. Começo a tremer, minha voz não sai, meu coração dispara. Não sei como fazer isso!
- Desista, invente uma doença, diga que não pode. É simples. – Tentei não rir da situação, mas confesso que foi uma tarefa árdua.
- Não, Sherlock. Eu não posso desistir. Eu não quero desistir. As pessoas já me chamam de rato de laboratório quando acham que eu não estou ouvindo e às vezes sou tratada como uma espécie rara de extraterrestre.
- Teoricamente, qualquer espécie de extraterrestre é rara.
- Não seja um imbecil, Sherlock. Você entendeu. – Ela revira os olhos para mim e eu sorrio. – Se eu desistir, serei a única a fazer isso. E será mais falatório sobre como eu não sei me comportar socialmente.
- Você liga para o que as pessoas falam, Molly?
- Não, na maioria das vezes, não. Mas seria legal ser considerada normal às vezes.
Molly disse isso com tanto pesar que senti uma pontada em meu peito que não deveria acontecer. Mais do que nunca eu percebi que queria ser a pessoa que a ajudaria e a salvaria dessa situação. Eu queria ser um herói para ela. Queria que ela me visse assim ao menos uma vez.
Nossos sentimentos eram confusos atualmente. Nós vivíamos em um chove e não molha, e ninguém dava um passo além de uma linha invisível, silenciosamente determinada. Mas agora eu sentia-me tentado a ultrapassá-la. A me envolver.
- E o que você pretende fazer nesse festival, Molly?
A pergunta parece surpreendê-la e mais uma vez ela fica sem jeito.
- Eu... Hum... Eu queria cantar.
- Cantar? — Essa resposta me surpreendeu. Molly cantava? E eu nunca tinha ouvido antes?
- É, cantar. Eu cantava quando eu era mais nova, mas faz muito tempo que não faço.
- E onde eu entraria nessa história? – Agora eu estava ficando maluco para ouvi-la cantar, mas tentava manter minha imagem séria e impenetrável.
- Preciso de alguém que me ajude a ensaiar. E você é violinista, conhece alguma coisa sobre música. Só preciso que me diga quando está bom e quando não está.
Dei uma festa internamente, mas mantive minha expressão indiferente.
- Hum. Eu não sei, Molly, não acho que...
- Sherlock, você me deve um favor. Um grande favor.
Ergo a sobrancelha, tentando parecer que ainda estou em dúvida.
- Tudo bem. Acho que podemos lidar com isso.
Molly levantou os olhos para mim e sorriu, parecendo confiante pela primeira vez.
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- Por que essa e não essa? – Eu estava no apartamento de Molly. Era nosso primeiro dia de “ensaios” e havia várias letras de músicas espalhadas sobre a mesa. Claro que não conhecia nenhuma, mas ela tinha me mostrado uma que pretendia cantar. E é claro que eu fui atraído por outra, que por algum motivo gostei muito mais.
- Porque eu vou cantar sozinha e essa é um dueto.
Ok, fim do assunto. Ela começou a cantar a música escolhida de forma tímida, mas não demorou muito até que se soltasse. A voz dela era... Perfeita. Acho que eu podia passar o dia ouvindo-a. E realmente o fiz, e não só por um dia. Por vários. E por horas a fio.
- Como você acha que está?
Ela me tira dos devaneios com essa pergunta. Eu a tinha corrigido em alguns tons durante esses dias, mas não havia mais o que ser dito.
- Está ótimo, Molly. Você sabe que está.
Não havia nada mais gratificante que o sorriso que ela me deu com esse ínfimo elogio.
- Vamos fazer uma pausa e tomar um chá, então!
A acompanhei até a cozinha, mas algo ainda me incomodava enquanto ela preparava o chá.
- Molly, posso te pedir uma coisa?
- Como se você precisasse de permissão. – Ela me olha desconfiada, mas continua sorrindo. Eu vou até a sala e reviro as letras das músicas, voltando com a mesma que gostei logo no primeiro dia.
- Pode cantar ao menos o refrão dela?
Molly pareceu um pouco em dúvida e envergonhada, mas pegou a folha da minha mão lendo-a rapidamente. Quando ela começou a cantar, foi como se tudo parasse e nem ao menos percebi que prendia a respiração. Essa era a música. Era essa que ela devia cantar.
Demorei para perceber que estava perdido em pensamentos quando ela parou de cantar. E quando finalmente “acordei”, encontrei-a esperando por uma reação minha.
- A... A outra está melhor. – Menti descaradamente para não magoá-la e não sei desde quando eu fazia esse tipo de coisa.
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“Você pode ir comigo?”
Recebi a mensagem de Molly logo cedo, no dia do evento. É claro que eu iria com ela. E ainda não que não tivesse dito isso estava subentendido, não estava?
“Não perderia você vermelha no palco por nada.”
“Idiota.”
E foi assim que agora nos encontrávamos na coxia de um palco improvisado, esperando pela vez de Molly. Ela retorcia as mãos novamente, como naquele primeiro dia em meu apartamento e sua voz saía tremida quando ela falava. Tentava não deixá-la mais nervosa e só ficava ali, respondendo o que ela perguntasse.
Quando um organizador improvisado que reconheci como um recepcionista do St. Barts veio chamá-la, todo o resto de cor que existia sumiu de seu rosto. Não resistindo a um impulso que não me era natural, eu segurei suas mãos, fazendo com que ela parasse de retorcê-las.
- Vai dar tudo certo, Molly. Você não me fez passar duas semanas ouvindo você para fazer feio agora, não é?
Ela não conseguiu me responder, e sua tentativa de sorrir falhou. Molly estava terrivelmente desesperada e isso me incomodava muito.
- Finja que está cantando para mim. – Beijei-a delicadamente nos cabelos e ela se virou para ir até o palco. Observei-a respirar fundo e ultrapassar a cortina. Ouvi os aplausos e imaginei o quão em pânico ela estava.
Fiquei espiando por uma fresta e acompanhando as batidas do início da música com os dedos sem ao menos perceber.
Um, dois, três... Molly não começou a cantar. Droga, droga, droga. A música começou de novo, e mais uma vez ela travou. Havia um silêncio constrangedor na plateia, e agora? Molly me procurou pedindo por ajuda. Ela era praticamente uma cliente. Eu precisava ajudá-la.
- Ora, ora, ora. Achei que você fosse me esperar, Molly. Oi pessoal, tive um imprevisto.
Sim, eu estava no palco. Sim, eu peguei o primeiro microfone que vi. E sim, eu estava fazendo isso.
Colei meus olhos ao dela, fazendo-a se focar em mim. A banda recomeçou a tocar a música que Molly cantaria.
- Não essa, pessoal.
Do you hear me, I'm talking to you
Across the water across the deep blue ocean
Under the open sky oh my, baby I'm trying
Eu comecei a cantar e banda me acompanhou. Pelo menos isso! Ao final do meu trecho, Molly tinha que começar o dela. Ela precisava começar. E ela não me decepcionou.
Boy I hear you in my dreams
I feel you whisper across the sea
I keep you with me in my heart
You make it easier when life gets hard
Suspirei aliviado. Tudo isso valeria a pena no final. Ela sorria confiante para mim agora, quando cantamos juntos as próximas estrofes. Há frases em que ela parece estar dizendo de verdade para mim, e não só cantando. E há frases que eu realmente quero dizer a ela. Nos perdemos em nosso dueto solitário enquanto nos encarávamos.
A música acabou tão rápido que nós só reparamos quando todos começaram a aplaudir. Molly quebrou nosso contato visual para olhar para todos e agradecer timidamente. Só quando nos viramos para sair do palco foi que percebi que estávamos de mãos nadas e continuamos assim. Não sei em que momento tínhamos dado as mãos.
- Ah meu Deus, obrigada, Sherlock, obrigada! Ah... Desculpe. – Molly tenta soltar minha mão quando percebe que elas ainda estão unidas, mas eu a seguro ainda mais forte, com a letra da música rondando meus pensamentos. Sem dizer nada, e vendo a expressão de interrogação que se forma no rosto dela, aproximo-me de repente e a beijo. Calmamente a princípio e aprofundando quando ela retribuiu, puxando-me para junto dela.
E sim, eu sei que sou sortudo. Sortudo por ainda ter a oportunidade de tê-la.
Notas finais
E é isso! Até a próxima! :*
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