1818

3 Capítulo 3 Adaptando.


Os dias que se seguiram foram estranhos e tristes, tudo havia mudado. Agnes se trancou em seu próprio mundo, e nele Noah não havia morrido, estava apenas no campos da faculdade, ela fazia de tudo para que não tocassem no assunto e quando tocavam era como se a estivessem matando. Otávio achou outra forma de lidar com o luto, em meio aos seus papeis, quase não ficava em casa e quando estava era como se não estivesse, quanto a mim estava sozinha, mas diferente das outras vezes eu não tinha o Noah para me fazer companhia, não podia simplesmente me trancar em meu mundo para fugir das lembranças, Noah era meu mundo, não tinha como fingir que estava tudo bem quando na verdade estava tudo mal, tudo estava desabando.

Suspirei quando senti a briza suave que vinha dá varanda do meu quarto, sempre que precisava pensar ou apenas me distraí aquele era um bom lugar, eu e Noah costumávamos ficar aqui, era o nosso lugar preferido dá casa.

— senhorita Dclair _ James o nosso mordomo bateu a porta.

— entra.

— a uma moça na sala de espera que deseja vê-la, Jane.

Jane?

— ela disse que era amiga do senhor Noah.

Jane... Eu havia esquecido completamente dela.

— devo dispensa-la senhorita?

Menei a cabeça.

— não, eu vou atende-la _ disse me encaminhando para a porta.

— deseja que eu leve alguma coisa, um chá talvez?

— não, não é necessário, os meus pais estão em casa?

— não, senhorita.

Assenti. Era melhor assim, tudo o que Jane menos precisava era deles querendo saber o porque de Noah te-la escondido deles e quando descobrissem poderiam fazer da vida dela um inferno.

— Jane... _ disse ao entrar na sala, ela estava sentada em um dos sofá com os olhos fixos em uma fotografia minha e do Noah.

— Micaela... _ ela veio em minha direção e me abraçou e embora fosse um ato inesperado, eu gostei, era acolhedor _ desculpe ter vindo, é só que não saberia quando te encontraria na escola.

— tudo bem. _ falei enquanto nos sentávamos _ como você estar?

Ela soltou um suspiro cansado.

— sobrevivendo, e quanto a você?

— tentando, eu acho...

— eu... Eu vim porque antes do Noah... ele pediu que quando ele estivesse no campus eu entregasse uma coisa a você _ ela estendeu para meu campo de visão uma caixinha branca.

Eu olhei para ela sem entender.

— ele queria fazer uma surpresa.

Engoli um seco assentindo.

— obrigada _ falei pegando a caixa e abrindo, dentro havia uma pulseira de colecionar pingente, já havia vários nela, que formavam uma frase: Saudade de você, N.

Que ironia cruel.

***

Suspirei pesadamente quando entrei na sala de jantar, Agnes e Otávio estavam lá, era estranho e surpreendente, geralmente mamãe jantava no quarto e Otávio nunca estava em casa nesse horário.

— boa noite. _ disse quando me sentei.

— finalmente, já estamos esperando a um tempo. _ Agnes me destinou um olhar de desdem.

— eu não sabia que teria companhia para jantar, geralmente eu o faço sozinha.

— Micaela... _ Otávio interviu _ não estamos aqui para brigas, não é uma guerra, contenham-se, as duas.

Agnes assentiu voltando a atenção para a comida, eu fiz o mesmo, não me interessava discutir, só queria acabar logo com isso e ir dormir.

— você volta as aulas amanhã? _ Otávio perguntou depois de alguns segundo.

— sim.

— James falou que você recebeu uma vista hoje, a mesma moça que estava no enterro de Noah, não lembro de já te-la visto antes.

Agnes voltou a atenção para mim, ao que parece interessava a ela também saber quem era Jane.

— era uma amiga do Noah, da escola.

— de que família? _ desta vez Agnes perguntou.

— nenhuma que vocês conheçam.

Ela pareceu que iria falar, mas no final se calou. Otávio deu-se por satisfeito e nós continuamos a refeição em silencio.

***

Eu fitei minha imagem no espelho, minha pela estava mais pálida que o normal, o que realçava a cor do meu cabelo, castanho arruivado, meus olhos azuis pareciam um pouco mais escuros hoje, e eu com certeza havia perdido peso.

— pronta para isso? _ perguntei para a moça de olhos triste no espelho.

Ela me fitou por alguns segundos, depois assentiu.

— certo, então vamos _ falei pegando minha bolsa e saindo.

Era meu primeiro dia de aula desde a morte do Noah, era estranho pensar que a ultima vez em que estivera na escola fora com ele, quando minha vida ainda não estava esse caus. Todos da escola pareciam querer mostrar que se importavam, desde os alunos a professores, davam os pêsames, perguntavam como eu estava me sentindo, haviam feito ate um mural com algumas fotos dele em seu antigo armário, tinha flores, fotos e a camisa do time.

— você gostou? _ Simone perguntou se postando ao meu lado.

— você que fez?

— eu, Laysa e os meninos do time.

Assenti.

— eu gostei, obrigada.

Ela deu um meio sorriso e tocou suavemente meu ombro.

— sinto falta dele.

— eu também, eu também.

O resto do dia foi normal, ou quase isso. Senti um certo alivio quando a aula acabou e eu voltei para casa, entendia que todos queriam ajudar da melhor forma possível, mas no momento eu só queria ficar sozinha, eu e meus pensamentos.

— é nisso que ela tem dedicado o tempo dela agora? _ perguntei para mim mesma quando vi o aglomerado de pessoas cobrirem alguns moveis e tirarem outros da casa _ Samanta... Agnes vai mobilhar a casa novamente? _ perguntei assim que vi a assistente pessoal de mamãe que parecia atordoada no meio da quela bagunça.

— mobilhar? não, estamos apenas vendo o que ficará e o que irar com vocês para Canterbury.

Como?

— como assim vai conosco? nós não estamos de mudança.

— na verdade estamos sim _ Agnes falou entrando na sala _ retire-se Samanta _ ela ordenou com os olhos fixos em mim.

— o que é tudo isso?

— vamos nos mudar no sábado.

Minha boca se abriu em espanto. Ela só podia estar ficando louca.

— não podemos nos mudar, eu nasci nessa casa, tenho amigos aqui.

Seu semblante não se alterou, ela continuou a me olhar sem interesse.

— não estar em discussão, a decisão já foi tomada.

— por você? _ perguntei perdendo a paciência _ você não estar em posição de tomar decisão alguma.

— por nós Micaela, por nós dois. _ Otávio falou se colocando ao lado dela.

Era um absurdo que eles mal se suportavam, mas no quesito ficar contra mim estavam sempre juntos.

— não tem esse direito, vocês não tem esse direito.

— afinal porque quer continuar aqui? Só a lembranças dolorosas nesta casa. _ Agnes falou sem se deixar afetar.

— lembranças do seu filho _ cuspi as palavras com raiva _ lembranças que não devem ser deixadas para trás como vocês querem que fique, mas adivinha só, não adianta se trancar em um escritório ou fingir que ele estar viajando, não dá para fugir disso, ele estar morto e não é mudado de cidade que nós vamos superar.

— não teríamos que superar nada se não fosse por você...

— Agnes...

— você estar me culpado pela morte dele?

— ele estaria aqui se não tivesse optado por salvar você, a culpa é toda sua.

Então era isso. Todos esses dias o olhar de desprezo que ela me destinava era por isso.

— você também acha o mesmo? _ perguntei a Otávio.

— não _ ele disse mas seus olhos o traíram, me olhava com o mesmo olhar de Agnes.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.