17º Desafio Sherlolly
2 Encantada - Capítulo 2
Notas iniciais
Molly arrastou a tampa de metal para o lado e se chocou com o que viu. Ela estava simplesmente saindo de um bueiro bem no meio da Times Square. Ela ficou deslumbrada com todas aquelas luzes, painéis luminosos, e as pessoas a olhavam como se ela fosse de outro mundo. Bem, ela era de outro mundo. Com certa dificuldade, ela conseguiu sair do buraco onde se encontrava, pois seu vestido era muito grande. Uma buzina veio em sua direção. Teve que sair correndo para não ser atropelada por um caminhão e mesmo assim quase foi atropelada por um carro que vinha no sentido oposto. O que acabou gerando uma pequena colisão com um taxi.
–Sai da rua mulher! Está maluca? – Gritou um dos motoristas.
Finalmente Molly conseguiu chegar à calçada que estava lotada de pedestres, eles a empurravam de um lado para outro.
–Sinto muito. Com licença. Será que algum de vocês, alguma alma bondosa, poderia me informar onde fica o castelo? — No meio da confusão de pessoas, um anão saiu debaixo da saia de seu vestido.
–Presta atenção minha filha! Não olha por onde anda? – O anão resmungou.
–Zangado! – Molly gritou radiante achando que ele era um dos anões da Branca de Neve.
–Francamente, fala sério?
–Acho que não, e... Ei, espere. Para onde você está indo? Por favor, pode me dizer o caminho para o castelo? – Mas o anão se perdeu na multidão.
Molly continuou perguntando incessantemente sobre o caminho para o castelo, mas ninguém lhe ajudou. Depois muito tempo andando sem rumo, e com a cidade praticamente vazia, ela encontrou um morador de rua sentado na calçada.
–Olá, bom velhinho! Posso me sentar com o senhor? – Molly se jogou ao lado do velho e continuou: — Estou muito cansada e estou com medo. Nunca estive tão longe de casa antes e não tenho a menor ideia de onde estou. Se alguém pudesse ser um pouco gentil comigo, me dizer um “alô” amigável, ou mesmo me dar um sorriso, tenho certeza que isso levantaria meu ânimo. – O velho lhe concedeu seu sorriso sem um dente sequer e Molly, com uma expressão decepcionada, disse: — O senhor tem um sorriso adorável. – O velho mais que depressa arrancou a tiara de brilhantes da cabeça de Molly e saiu correndo, rindo. –Aonde o senhor vai? Isso é meu! Traga já de volta! É meu! Eu preciso disso! O senhor...não é um velhinho muito educado! – Esbravejou Molly.
Os primeiros trovões e relâmpagos deram sinais de vida e logo Molly estava, além de sozinha, molhada.
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–Não vai ficar com ele de jeito nenhum, Ethan.
–Você só o quer porque eu quero.
–Não deixarei que fique com ele!
–Esqueça. Hank fica comigo.
–Espere um pouco. Estou confuso. Quem é Hank? – O advogado de uma das partes perguntou.
–Hank Aaron. Milwaukee Brave. A figurinha de calouro dele de 1954. – O homem respondeu.
–É uma figurinha de beisebol? Então a questão é essa? Uma figurinha de álbum de beisebol? –Sherlock, o advogado da outra parte, perguntou indignado.
–Você nunca amou Hank como eu! – O homem gritava desconcertado para a mulher a sua frente.
–Você nunca me amou como ama o Hank!
–O que eu fiz para deixar você assim?
–Sherlock? – A secretária interrompeu.
– Sim?
–Está na hora.
A discussão na mesa continuava acalorada quando Sherlock avisou que precisava pegar sua filha no colégio. A sessão continuaria no dia seguinte às nove horas. Saiu apressado da sala, com um ar cansado e sua secretária aconselhou:
–Após um dia inteiro disso, você ainda quer ficar noivo?
–Ah, por favor! Eles se casaram de repente, por um capricho. Comigo e com Janine não será assim.
–Sei. Nada de loucuras românticas para você, certo? – O ajudou a vestir o casaco.
–Ah, francamente! Somos racionais.
–Velhos! – Ela continuou.
–Estamos conhecendo nossos pontos fracos e fortes.
–Desse jeito parece que vão construir uma ponte. Já contou pra sua filha?
–Não. Ainda não. Vou contar hoje a noite. Comprei um presente para ajudar.
–Com uma notícia dessas, espero que você tenha comprado um pônei.
–Não. Algo muito melhor.
–--
Mais tarde, Sherlock estava com Claire em um taxi voltando pra casa, quando lhe entregou o embrulho.
–Um livro? – A menina olhou com desprezo para o presente.
–Ah, vamos lá filha. Não me olhe assim. Sei que não é aquele de contos de fadas que você queria, mas é muito melhor. –O livro se chamava Mulheres Importantes dos Nossos Tempos e tinha na capa a foto de varias mulheres que se destacaram no último século. – Olhe só isso. Está vendo? Rosa Parks. Madame Curie. Foi uma mulher notável que dedicou a vida à pesquisa... Até que morreu... Envenenada por radiação.
–Ela...morreu? – A menina se espantou.
Por sorte o celular de Sherlock começou a tocar e assim não precisou dar mais explicações à menina de como se morre de radiação – Quem pode ser? Alô?
–Oi, querido! Que tal eu levar Claire para a escola amanhã de manhã?
–Amanhã de manhã está ótimo! Às sete e meia?
–Está com ela agora?
–Sim, ligo pra você mais tarde.
–Tudo bem. Tchau.
–Era a Janine. –Sherlock falou para Claire – Ela se parece muito com as mulheres de seu livro. – Ele se endireitou no banco do carro e continuou: — Querida... Eu vou pedi-la em casamento.
–O quê? – Claire parecia não acreditar no que estava ouvindo.
–Sim. Gosta dela, não gosta? Nós todos nos damos bem.
–Onde ela vai morar?
–Vai morar com a gente.
–Vou ter que sair do meu quarto?
–Não, claro que não. Vamos lá, vai ser ótimo. Juro. Ela não vai tentar tomar o lugar da sua mãe.
–Ela vai ser minha madrasta?
–Será uma ótima madrasta e ela vai te levar pra escola amanhã, só você e ela, para que vocês tenham uma conversa de gente grande.
–Mas eu só tenho seis anos.
–Não será assim pra sempre. – Sherlock olhava para Claire com pesar, pois sua garotinha não seria criança para sempre.
–--
A chuva caia sobre Nova York incessantemente. Molly estava ensopada quando avistou o anúncio de um cassino. O anúncio era um castelo de contos de fadas, cor-de-rosa e iluminado. Molly achou que finalmente tinha encontrado o castelo que tanto procurava. Correu em direção ao “castelo” – Olá! Sou eu, Molly, de Andalasia! Olá! Tem alguém em casa? Por favor, abram a porta! – Nesse instante Molly já estava em cima da marquise, batendo na suposta porta do castelo. – Está muito frio aqui fora!
O taxi onde estavam Sherlock e Claire tinha acabado de parar no farol na mesma rua onde Molly estava.
–Papai, por que uma princesa está no cartaz do castelo?
–É uma propaganda. Aquilo lá é um manequim filha.
–Ela é de verdade papai!
–Não, não é.
Claire abriu a porta do taxi e saiu correndo em direção ao anúncio. -Claire! Volte aqui! O que está fazendo? Claire! Pare! –Sherlock se soltou do cinto de segurança e correu atrás da menina que já tinha atravessado a rua e estava observando a princesa em cima da marquise.
–Princesa!
Sherlock agarrou Claire pelos braços e ordenou: — Nunca mais faça isso!
–Olha papai! Olha! – Claire apontou na direção de Molly para que Sherlock visse do que ela estava falando.
Molly continuava tentando contato com “alguém” de dentro do suposto castelo.
–Tem alguém aí? Conhecem Tom? Por favor, tem alguém em casa?
Sherlock ao olhar aquela moça em cima da marquise vestida de um jeito estranho, percebeu que precisava fazer alguma coisa.
–Ei, moça!
Molly virou-se de repente — Ah, olá. Será que você poderia... — mas não houve tempo dela terminar a frase, se desequilibrou e caiu, ficando pendurada na marquise por uma só mão.
Sherlock correu para debaixo da marquise – Não se solte! Espere!
–Ah, não! – Molly não conseguiu se segurar e acabou caindo bem cima de Sherlock.
–Você está bem? – Ele perguntou ao mesmo tempo em que olhava para seus próprios braços, ainda não acreditando que não havia se machucado.
–Sim, estou. – Molly respondeu enquanto saia de cima de Sherlock e se levantava.
Claire assistindo toda a cena, também quis entender o que uma moça vestida de noiva estava fazendo em cima de uma marquise àquela hora da noite – O que você estava fazendo lá cima? – A garotinha perguntou.
–Estava procurando ajuda. É que eu fiquei andando demais, por muito tempo hoje, e ainda não encontrei ninguém que pudesse ser gentil comigo. – Molly se lamentava.
–Sim, seja bem vinda à Nova York – Sherlock disse.
–Ah, obrigada! – Molly sorriu agradecida.
–Certo. Muito bem, tem certeza que está bem?
–Ah, sim. Estou sim.
–Quer que eu chame alguém? – Sherlock tentava ajudar.
–Bem, eu acho que não conseguiriam ouvi-lo daqui.
– O... O quê? — Sherlock a olhou não entendendo nada quando novamente os trovões recomeçaram. Ele não teve outra opção a não ser levá-la para sua casa.
–--
–Claire, mostre o caminho para ela ok? – Sherlock falava enquanto saía do elevador.
Molly estava contando para Claire como ela havia chegado até aquele lugar tão estranho para ela. – E aí, a velha bruxa me disse para... – o vestido de Molly, por ser grande demais, ficou preso na porta do elevador e Sherlock precisou ajudá-la a sair –... olhar para dentro do poço e fazer um pedido. Mas devo ter olhado muito fundo, pois caí lá embaixo. Aí eu fui caindo, caindo. Depois, consegui sair por esse buraco redondo e fiquei muito perdida, até cair lá de cima do castelo. E agora estou aqui com vocês! – Claire a olhava encantada com a história que Molly estava contando.
–Isso acontece muito com você? Você vive caindo dos lugares? – Sherlock perguntou.
–Bem, geralmente alguém vem e me segura.
–Ah.
–Mas não se preocupem, eu tenho certeza de que Tom já está me procurando. Com certeza, pela manhã, ele virá me salvar. Me levará pra casa e poderemos trocar um beijo de amor verdadeiro. – Molly falou alegremente.
–Beijo de amor verdadeiro?
–É a coisa mais poderosa do mundo. – Molly falou para Sherlock.
–Sei... — Sherlock abria a porta do apartamento.
–Se ao menos eu encontrasse um lugar para descansar esta noite.
–Que tipo de lugar?
–Não sei. Talvez uma relva ou uma árvore oca.
–Uma árvore oca?
–Ou uma casa cheia de anões. Ouvi dizer que eles são muito hospitaleiros.
–Como eu já havia dito, só posso deixá-la entrar por um minuto. Secar suas roupas e dar um telefonema. E você mocinha – virou-se para Claire – já passou da hora de ir pra cama. Vamos entrando.
–É muita gentileza de sua parte. – Molly tentava entrar no apartamento, mas mais uma vez foi impedida pelo seu vistoso vestido bufante. Sherlock olhava a cena incrédulo.
–Onde é que você arrumou esse vestido?
–Você gostou?
–Não, só estou pergun... – Foi interrompido por Molly.
–Eu colhi a seda dos meus amigos bichos-da-seda e o teci com minha roca de fiar.
Claire, que já estava dentro do apartamento, perguntou: — Você fez tudo sozinha?
–Bem, os ratinhos e coelhos me ajudaram a costurá-lo. – Claire pegou o braço de Molly e puxou na tentativa de ajudá-la entrar no apartamento. Fez força daqui, fez força dali e quando finalmente conseguiu entrar, rolou no meio da sala. Sherlock ajudou com um pequeno empurrão em suas costas. Estirada no chão, Molly sorriu de ponta cabeça para Sherlock que ainda estava na porta.
–Eu acho que vou chamar um táxi pra você. – Ele decidiu.
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Sherlock procurava o número do taxista quando Claire interrompeu: — Ela não pode dormir aqui papai?
–Não. Definitivamente não. – Claire saiu suspirando indo de encontro a Molly que estava sentada no sofá.
–Você é mesmo uma princesa?
–Ainda não. Mas... em breve eu vou ser. – Bocejou e deitou no sofá caindo no sono imediatamente. Claire tocou seu braço duas vezes e saiu correndo em direção ao pai.
–Olha papai, ela está dormindo mesmo.
–Ah, não. Não acredito. Isso não. – Sherlock se aproximou do sofá onde Molly dormia enquanto Claire protestava.
–Você não vai mandar ela embora, vai papai?
–Quero que vá dormir, por favor.
–Mas acho que ela pode ser uma princesa mesmo!
Sherlock ajoelhou-se na frente de Claire e explicou: — Querida, só porque ela usa um vestido esquisito, não significa que ela seja uma princesa. Ela é uma mulher seriamente perturbada, que apareceu no meio da noite do nada.
–Então, não vamos deixá-la ficar?
–Não. – Sherlock plantou um beijo na testa da menina – Veste sua camisola e vai dormir. Boa noite. – Claire saiu da sala cabisbaixa.
Sherlock ligou para a Central de Taxi e quando o atendente lhe perguntou para qual endereço a passageira ia, ele se deu conta que não sabia e acabou por desligar o telefone. O máximo que conseguiu fazer a partir daí, foi sorrir ao olhar para a mulher de vestido esquisito que dormia em seu sofá.
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