17º Desafio Sherlolly

2 Amor além da vida - Capítulo 2


Quatro anos depois.

Estava na central da polícia discutindo sobre um caso quando Molly me ligou. Pedi desculpas por interromper a reunião, mas eu nunca deixava de atendê-la desde o ocorrido. Houveram muitas pedras pelo caminho desde então, e meu medo era que Molly explodisse em dor a qualquer instante novamente.

Do outro lado da linha, ela parecia exausta e preocupada. Molly havia deixado a medicina há tempos, porque dizia não poder mais lidar com mortes e doenças. Desde então vinha se dedicando a pinturas.

– É minha primeira exposição, Sherlock. Eu não consigo organizar os quadros.

Meu coração se despedaça mais um pouco com a voz baixa e desesperada dela. Fecho os olhos e busco em meu palácio mental todos os quadros, enumerando rapidamente ao telefone a ordem em que eles ficarão mais apresentáveis. Molly sorri na linha e apesar de não ser o mesmo sorriso de antes, ainda me aquece da mesma maneira.

– Deixei dois deles no estúdio e acho que não vou conseguir sair daqui para pegá-los...

– Eu busco eles quando sair daqui, pode ser?

– Obrigada. Sherlock... Eu amo você.

– Eu amo você também, Molls.

Pelo menos eu consegui dizer que a amo... Porque quando me dirigia para o estúdio um acidente aconteceu à frente do meu táxi. Saltei do mesmo para tentar ajudar as vítimas em uma confusão de sirenes e gritos. Uma senhora estava presa de cabeça para baixo em seu carro capotado e eu tentei acalmá-la. Foi então um carro que não conseguiu frear a tempo perdeu o controle e me atingiu.

Ouvi ao longe as vozes do socorristas... E depois não ouvi mais nada.

–-- --- ---

– Sherlock.

Não sei de quem é essa voz e não consigo reconhecê-la. De alguma forma estou de volta à minha casa e Ginger, a cachorra de nossa vizinha, late para mim.

– Ei, Ginger. Por que você está brava? — Sempre brinquei com ela ao passar e estranho seus latidos.

– Você não acha estranho que tenha vindo parar aqui tão rápido? — A voz me assusta e vejo uma forma difusa ao meu lado. Um homem, mas também não consigo reconhecê-lo. Meus olhos estão embaçados quando olho para ele.

– Quem é você? Por que não consigo vê-lo? — Tudo se torna uma confusão em minha mente. Como isso é possível? Será que eu ganhei algum problema de visão?

– Ficarei mais visível quando você desejar, Sherlock. Você morreu.

Eu estanco. Como assim eu morri? Não, eu não estou morto. Ginger pode me ver!

– Se eu estivesse morto, precisaria que você me dissesse?

– Sim, acho que você precisa.

Uma lembrança passa por mim. De Marie. De quando Katie ficou tão doente que nós precisamos sacrificá-la. Eu observava Molly conversando com ela tentando consolá-la, mas Marie estava brava. Com raiva do que iria acontecer.

– Vocês vão matá-la. — Ela dizia com lágrimas nos olhos.

– Eu sei que você está revoltada. A morte faz isso. — Molly a olhava com carinho, e acariciava seu rosto. — Katie está sofrendo.

– E então você a mata.

– A ajudarei a morrer, sim. Ela vai para onde todos nós vamos. Como isso pode ser ruim? — Molly sorria fracamente para ela, e Marie parecia aceitar resignadamente o destino da Katie.

Lembro-me também de Ian, e de como acampávamos juntos. De como Molly e eu decidimos que iríamos trocá-lo de escola, porque ele não estava se adaptando e suas notas estavam decaindo.

Chovia em nosso último acampamento. Chovia muito.

Sou tirado de minhas lembranças e ao olhar para os lados percebo que estou em meu enterro. Vejo pessoas chorando por mim. Viro-me e encontro o homem de feições embaçadas novamente. Tento tocá-lo, assustando-me quando vejo minha própria mão.

– Pelo menos está disposto a ver a si próprio. — Ele sorri. — Está perdendo seu medo. Pensou que havia desaparecido? Não o fez. Você apenas morreu.

Apenas morri. As palavras me chocam, ressoam em meus ouvidos. Eu corro até Molly, que está sentada com olhos vidrados em meu caixão. Não é a mesma Molly que eu conheci anos atrás.

A Molly enlutada usa cabelos curtos e severos, passando uma imagem fria. Não existe mais alegria, nenhum vestígio do que ela fora. Um pedaço dela morreu quando perdemos nossos filhos, e a outra parte seria enterrada junto comigo.

Tento tocar seu rosto, vendo em sua pele o caminho que as lágrimas traçaram.

– Por favor, Molly, me enxergue. Eu estou aqui...

Por um instante acho que funciona eque ela irá me ver quando vira o rosto em minha direção, mas então ela olha para outro lado.

Minha alma se parte.

–-- --- ---

De volta à nossa casa, após o meu enterro, eu observo o quadro que ela pintou para mim. É a paisagem do parque onde nos conhecemos e eu estou lá, sentado no mesmo banco, aguardando-a.

Ela inseriu uma casa no quadro. A casa dos nossos sonhos, onde fantasiamos morar quando nos aposentássemos. Talvez criássemos abelhas, ela dizia.

Eu tinha, em segredo, procurado por lugares parecido com aquele parque por toda a Inglaterra. Um lugar onde tivéssemos a nossa casa e nossas abelhas. Levaria Molly para lá e nós ficaríamos juntos até o fim. Mas meu fim chegou antes...

Na sala de estar, ela escreve em seu diário. As palavras são duras e eu quero tirá-la de toda essa dor na qual ela se afunda.

"Escrevo para dizer que meu psiquiatra é um idiota. Ele acha que me tirou do colapso, mas foi Sherlock. Sempre. Somente Sherlock... O interesse dele pela minha arte era uma outra forma dele me amar, e eu sabia disso... Mas nunca disse a ele. Eu o amo... Eu o amo tanto..."

– Eu estou aqui... Eu ainda existo... — Murmuro decepcionado, sentindo lágrimas de fúria brotarem em meus olhos. — Quando isso acaba? — Viro-me com raiva para o homem embaçado.

– Quando você desejar. Acaba quando não desejar machucá-la ainda mais. — É a voz que me responde. Eu não quero machucá-la, nunca quis. Tudo que quero é vê-la bem e feliz novamente, e que ela me veja! Ela precisa saber que estou ao seu lado.

Fico ali naquela noite, vendo-a se desfazer em dor. A ideia de que o homem tenha razão e que eu precise me afastar para que ela melhore parte o que ainda existe de mim. Não quero deixá-la...

Na manhã seguinte eu me vejo seguindo Molly em uma visita até o cemitério. Ela desliza os dedos pela placa onde meu nome está gravado e traz para mim as mesmas flores roxas que Marie tanto gostava. Não quero partir, mas então ela recomeça a chorar e grita meu nome. Um grito que expõe todas as rachaduras de sua alma. Não posso mais ficar.

Deslizo minha mão pelos cabelos dela, tentando tocá-la e tomando a decisão mais difícil de minha vida. A única que me restou. As palavras saem partidas ao meio, como eu me sinto...

– Adeus, amor...

Notas finais
:'(