17º Desafio Sherlolly

3 Amor além da vida - Capítulo 3


Corro pela rua onde sofri o acidente. Corro até a exaustão e então eu desmaio. Não sei quanto tempo se passa até que eu acordo, e quando o faço é como se eu estivesse dentro do quadro que Molly pintou para a mim. Sorrio. É perfeito.

Há flores de todas as cores vibrantes que é possível. O banco onde nos conhecemos está lá, embaixo de uma grande e imponente árvore. Com curiosidade, seguro em minha mão uma das flores e ela se desmancha em tinta. Como isso é possível? Como posso estar dentro de um quadro? Fico fascinado e chocado ao mesmo tempo.

Viro-me depressa quando escuto um barulho próximo a mim e meu coração dispara quando a vejo. Katie! Ela pula em meus braços, derrubando-me e me lambendo animada. Percebo agora o tamanho da saudade que eu também sentia dela. Corro com Katie por todo o jardim, perseguindo-a e me sentindo livre. Estou no céu dos cachorros!

– Um lugar para onde todos vão não pode ser ruim, não é, garota? — Sorrio para ela, que continua pulando em minhas pernas, como fazia quando eu chegava em casa após um dia todo fora e acaricio seus pelos.

Paro e olho para o cenário a minha volta. O sorriso não sai do meu rosto, percebendo pela primeira vez que...

– Talvez não esteja no seu céu! Talvez esteja no meu!

Grito por Molly, mas dessa vez estou feliz. Sei que a reencontrarei aqui no céu um dia e viveremos em nosso paraíso, como planejamos. Quero que ela fique bem, que siga em frente até que a gente possa se reencontrar. Que seja feliz.

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Minha atenção é atraída para um lago que parece ser... De tinta? Deus, isso é impossível! Não tenho muito tempo para refletir sobre até que vejo John... John Watson. Aqui?

John fora meu melhor amigo desde que éramos crianças... Até que ele faleceu pouco tempo antes do dia em que conheci Molly.

– John! — Estou incrédulo ainda. — Era você! Quando eu morri... Era você o tempo todo... — Um misto de alegria e raiva por ter sido enganado passa por mim, mas ainda não consigo parar de sorrir.

– Achei que tivesse me reconhecido. — Ele diz isso como se não fosse nada de mais, e eu não contenho minha risada.

– Você continua feio.

John não dá bola para o meu comentário, apenas sorri enquanto olha em volta.

– Belo lugar você tem aqui. — Digo para ele. Será que esse é o céu de John?

– Não. Você que está inventando tudo isso. Ficamos inseguros a princípio, então precisamos de segurança e conforto. Construímos nossos arredores, Sherlock. Mas você é o primeiro cara que conheço que usa tinta de verdade. — Nós rimos. Eu tinha razão. É o meu paraíso. — Tudo aqui é feito a partir de coisas que você viu ou vivenciou.

O lugar em que quero passar a eternidade se resume ao quadro de Molly, assim como toda minha vida se resume a ela.

– Mas existem coisas aqui que ela não pintou... Como aquele pássaro. — Aponto para um lindo pássaro cor de fogo, como uma fênix. Não lembro de já ter o visto alguma vez.

– Molly te deu um ponto de partida, como segurar em um corrimão. E você está criando um mundo inteiro a partir de sua imaginação, de tudo aquilo que ama.

Olho meio em dúvida para ele e para o pássaro.

– Por que ele não se mexe?

– Irá... Quando você quiser.

Mantenho meu olhar fixo nele e o imaginando voando pelo céu que eu criei. Surpreendo-me quando ele o faz, mergulhando no lago e trocando de cores conforme eu imagino. Ele passa voando por cima de minha cabeça e... Tinta verde cai sobre mim.

– Eu não fiz isso.

– Não, eu fiz. — John ri da minha cara toda suja e sinto desejos de vingança.

– Como posso fazer elefantes voarem?

Com uma inteligência pouso usual, John muda rapidamente de assunto.

– Molly fez uma casa para você?

Viro-me na direção para onde ele olha e vejo nossa casa ali, pintada.

– Sim... — Respondo nostalgicamente. — A nossa casa dos sonhos.

Vamos até ela e sinto-me invadido por memórias e sentimentos ao passar pela porta e ver ali, exposto, tudo que eu imaginava ser a casa em que moraria com Molly até o nosso fim.

– Sherlock, nós vemos o que queremos ver. — E dizendo isso, John desenha um porta na parede com o dedo e a empurra, abrindo uma passagem para um mundo ainda maior. A continuação do meu quadro, como se fosse uma outra tela. Nela há uma árvore com flores roxas. Nossas flores.

– O que é aquela árvore? Nunca a vi nos quadros...

John parece curioso e, assim como eu, surpreso.

– Vamos dar uma olhada.

– É completamente novo. — Reconheço como sendo parte do quadro que Molly fez para mim, mas essa parte estava em branco quando eu estava vivo. — Como posso ver essa pintura depois de morto? Para um especialista, você está bem surpreso, John.

– Vocês namoraram muito tempo?

Não entendo... John está pensativo, perdido com os olhos fixos na árvore e me fazendo perguntas irrelevantes.

– Não, na verdade. No momento em que nos conhecemos, nós...

– Almas gêmeas.

– O que? — Agora quem está surpreso sou eu.

– É extremamente raro, mas existe. Sintonizada uma na outra. Aparentemente mesmo depois da morte. Vocês estão se comunicando através da pintura dela! Nada que eu já tivesse visto antes... É intrigante!

Sorrio para a árvore, tendo a esperança de que Molly está se recuperando, mas então as flores dela começam a cair e voar para longe... Meu sorriso morre e a dor volta a tomar conta de mim. Molly está destruindo a pintura. Ela não está melhorando, ela está caindo...

A certeza de que as coisas não estão caminhando da forma correta paira sobre mim. Enfureço-me ao mesmo tempo em que viro uma massa envolta de tristeza. O combinado não era eu partir e Molly ficar bem? Por que isso estava acontecendo agora? Por que as coisas não estavam melhorando?

– Eu amo você... — Sussurro, mas sei que ela não me escuta. Minhas lágrimas caem no mesmo ritmo em que a árvore perde suas flores, simbolizando as lágrimas que sei que Molly derruba do outro lado do nosso quadro.

Notas finais
Calma, pessoas... Uma hora a tristeza acaba... Ou não... hauahauahau