Um maldito de um amigo secreto. Por que de repente todo mundo ia passar o natal na casa dos pais dele? Não que ele se importasse. Nunca deu muita atenção para feriados. Na verdade, não era nem o fato de ter toda aquela gente – como se só os quatro não fosse ruim o suficiente – que o incomodava. Nem mesmo o amigo secreto que, ironicamente ele tirou o John em um sorteio meio suspeito realizado pela Sra. Hudson, o incomodava. Não. O que o estava deixando inquieto é a presença de Molly Hooper. Há alguns anos atrás ele havia estragado o Natal dela e agora por um motivo desconhecido da humanidade ele estava nervoso com o que poderia acontecer dessa vez.

Mas primeiro ele tinha que pensar no que comprar para o John. Na hora que viu que tinha tirado John, não conseguiu conter um sorrisinho. Aquilo até que poderia ser divertido. Mas não agora. Só parecia patético e desperdício de tempo. Claro que isso não tinha nada a ver com o fato dele não ter nem ideia do que comprar para o amigo.

- Mary, o que eu compro para o John?

- Sherlock, sério que eu terei que te explicar como funciona o amigo SECRETO?

- Eu não ligo. Só quero saber o que compro para o John e acabar logo com isso.

- Ahn, claro. Compre, hm, meias.

- Meias? – Ele podia não ser um gênio do assunto, mas até mesmo Sherlock Holmes sabia que aquilo não era uma boa ideia.

- Está muito frio, e ele reclama o tempo inteiro de frio nos pés.

- Se você diz. – desligou

Meias. É, aquilo era fácil. Resolveria a situação e poderia voltar aos casos. Se Molly fizesse a gentileza de sair de sua cabeça, é claro.

--

Molly não sabia como se sentir a respeito do amigo secreto. Quer dizer, para começar que seria na casa dos pais do Sherlock. Ela estava bem melhor em questão de auto controle perto dele, mas dos pais dele? Aquilo era aterrorizante. E para melhorar ela tirou o Sr. Holmes. O PAI DO SHERLOCK! Não que ela e Sherlock tenham alguma coisa. Ele estava bem simpático ultimamente, mas não é como se de repente ele fosse se declarar.

Ficou tão preocupada em passar o Natal na presença de quatro Holmes que quase se esqueceu de comprar o presente. No dia 23 ela tentava desesperadamente se lembrar de qualquer coisa que Sherlock havia dito sobre o pai, mas não conseguia lembrar de nada.

“Que ótimo. ” Se levantou, pegou seu casaco, o cachecol e... Claro, um cachecol! Ela podia tricotar um cachecol pra ele! Se empolgou tanto com a ideia que quando percebeu o cachecol já tinha quase três metros. “Ainda bem que está frio. ”

--

Dia 25 chegou e só havia uma coisa mais estranha do que ver o Lestrade, a Sally e o Anderson fora de uma cena de crime: ver a Mary e Mycroft conversando como se estivessem discutindo segredos de Estado. Os dois estavam tão entretidos em seja lá o que estavam conversando, que chegava a ser medonho ver Mycroft agindo como uma pessoa normal.

O Sr. e a Sra. Holmes estavam na cozinha, terminando o almoço, John conversava sobre alguma coisa aparentemente muito engraçada com a Sra. Hudson, que ficava encarando todos o tempo todo, mas isso podia ser só o efeito do vinho que eles já haviam tomado em excesso.

Anderson, Sally e Greg também davam risada, e Sherlock tinha a leve impressão de que eles riam dele. E no canto, sozinha, Molly tomava uma taça de vinho, enquanto observava os outros, com um sorriso bobo nos lábios.

- Posso te fazer companhia? – deu um pulo, quase derrubando todo o vinho na roupa. Ela estava muito bonita. Nada de laços gigantes ou brincos maiores que a cabeça. Ela vestia jeans, um suéter colorido muito bonito e com os longos cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo. Talvez informal demais, mas bonita de qualquer jeito.

- Claro. – Seguiu-se um silêncio um tanto desconfortável, em que Molly levantou para pegar mais vinho e para trazer uma taça para Sherlock.

- Obrigado. – mais silêncio.

- Então...

- Amigo secreto. – como se lesse a mente dela.

- Isso é tão...

- Bobo, é. – Os dois riram e tomaram seus vinhos.

- O que você comprou?

- Meias. – Opa. Talvez devesse ter ficado quieto.

- Meias? – Agora ela esperava que ele não fosse seu amigo secreto. Ganhar meias no natal era depressivo.

- É, eu...

- O almoço está pronto! – A Sra. Holmes entrou na sala carregando um enorme peru. Salvo pelo gongo.

Duas horas e três quilos depois, a Sra. Holmes achou que seria uma boa ideia revelar o amigo secreto. Agora que estavam quase todos bêbados e sonolentos.

- Tá bom, eu começo – falou a Sra. Hudson, indo até a árvore e pegando a maior caixa – Hm, meu amigo secreto ele... Bom, ele é um homem. E ele... Eu não conheço ele direito pra ser sincera e...

- É o Anderson. – interrompeu Mycroft, com cara de tédio.

- É, é o Anderson. Mas como você adivinhou tão...

- Rápido? – falou Mary – oras, é o único homem na sala que você não conhece direito. Não é tão difícil assim de se calcular.

Parecendo mais chateada por não poder falar mais do que realmente por adivinharem, Sra. Hudson se sentou de novo e voltou para sua taça de vinho.

- Bom, acho que agora sou eu – Anderson como sempre pontuando o obvio. – Meu amigo secreto é uma mulher. Ela é... Hm... Baixinha, não. Quer dizer, é, é baixinha.

- Isso não ajuda muito, sabe. – falou John.

- Morena, ela é morena e... Ah, ela trabalha no Barts. – Molly ficou roxa de vergonha. Se levantou para pegar o presente – um pequeno pacote retangular que com certeza continha um livro – e deu de cara um Sherlock furioso. Ele provavelmente nem se deu conta de que estava reagindo assim, mas isso animou Molly, que foi com toda sua cara e coragem dizer seu amigo secreto.

- Meu amigo secreto é um homem. E é um Holmes. – ela olhou para Sherlock, que agora estava pálido, e logo em seguida para Mary, que com um sorriso no rosto a incentivou a continuar. – Ele... Isso é difícil... Bom, digamos que ele não anda com um guarda-chuva em qualquer lugar que vá. – E todos deram risadas. Mary pareceu confusa por alguns instantes, mas logo se recompôs. – E ele faz o melhor pudim de natal que eu já comi! – e agora ela dava risada também, enquanto o Sr. Holmes se levantava, com um sorriso de orelha a orelha e a esmagava em um abraço.

Foi o primeiro a abrir o presente. – Ó! Mas ele é muito bonito! E muito útil, por sinal. – exclamou e já foi logo colocando o longo e azul marinho cachecol. – Muito obrigada! – e abraçou a de novo. Molly gostava cada vez mais dele.

Ufa! Sua parte já foi.

--

Molly havia tirado seu pai.

Quando ela falou que havia tirado um Holmes, seu coração quase veio pela boca. Claro, eles eram em três e pelo sorriso de Mycroft, ele sabia quem era. Mas quando Molly falou do guarda-chuva – nem ele pode conter a risada – Mycroft murchou. Será que o irmão sabia quem todos haviam tirado?

Então ela falou do pudim. Foi meio triste, Sherlock esperava tanto que fosse ele. E aquele cachecol era lindo. Meio comprido demais para os padrões normais, mas ainda assim. Será que Molly poderia fazer um para ele? Quer dizer, será que foi a própria Molly que fez? De qualquer forma já era uma boa desculpa para falar com ela sobre algo que não fosse química e...

- É a mamãe! – ouviu Mycroft dizendo e interrompendo a fala do pai.

Sr. Holmes fez uma cara de indignado. – Mas eu quase nem falei nada!

- Mas esse pacote, o seu tom de voz, o brilho nos seus olhos e a sua pose. Tudo isso grita o nome da mamãe. – É claro que ele estava certo. Mas Sherlock percebeu que não era só isso. Mycroft estava animado demais com tudo isso. E os olhares cumplices com Mary...

- Ok, seu chato, você acertou. – Mas isso não abalou o humor de nenhum dos dois, que se abraçaram e beijaram e fizeram umas graças que Sherlock não entendeu.

A Sra. Holmes então foi tão a árvore e pegou um pacote comprido. De repente Sherlock se pegou torcendo para que não fosse ele.

- Meu amigo secreto ele...

- Sou eu. – falou Mycroft. O sorriso da Sra. Holmes murchou.

- Mas como você sabe?

- É só ligar os pontos. Só faltam três homens, no dia do sorteio você ficou tão feliz que fez três bolos, muito obrigada por isso – comentou com uma careta, enquanto olhava para a própria barriga – e você não daria um guarda-chuva para o Sherlock. – Levantou, e para a surpresa de todos, pegou o presente e deu um abraço em sua mãe. – Obrigada, o meu já está velho mesmo.

- Bom – continuou Mycroft – meu amigo secreto eu não conheço. Não que isso seja de muita ajuda, é verdade. Se bem que isso já elimina o John, o Sherlock, a Mary e a Sra. Hudson – agora ele parecia falar sozinho. – Meu amigo secreto é uma mulher.

- Donovan. – responderam Mary e Sherlock ao mesmo tempo.

Com cara de decepcionado por ter falado demais, entregou o presente para Sally e foi abrir seu presente.

Com o nervosismo que ela demonstrava, Sherlock logo calculou que ela havia tirado o Lestrade – e estava certo.

Aquilo não acabava nunca! Ele só queria poder falar com a Molly.

Mas... Desde quando ele estava tão interessado em Molly Hooper? Não, ele só queria poder entregar o presente logo e se desculpar. Se desculpar. Ele nunca se desculpava. E teoricamente nunca se envolvia também. E agora se pegava pensando em Molly o tempo todo. Aquela Molly que fazia tudo que ele pedia, mesmo que fosse ilegal. Aquela Molly que deu três tapas na cara dele. Aquela Molly que o enfrentou e que cedeu seu quarto quando ele precisava se esconder. Aquela Molly que...

- Sherlock!

- O que?

- Quer começar?

- Começar? Quem me tirou?

- Ninguém te tirou ainda Sherlock. Sally tirou Greg, que tirou a Sra. Hudson. Alguém precisa começar de novo.

- Ah, ok, eu vou. – Pra ele não importava, só queria acabar logo com aquilo.

Ele se levantou e foi para o meio.

- Meu... – foi então que percebeu que só faltavam três pessoas: ele, Mary e John. Caminhou até John, entregou o presente e voltou para seu lugar.

- Sherlock, não é assim que se brinca! – mas logo Mary começou a rir.

- Oras, não tinha mesmo porque descrever, só sobramos nós três! E considerando que todo mundo tirou alguém, qualquer dica que ele desse ficaria óbvio. Sendo assim... – se levantou e entregou o presente para Sherlock, que deu um beijo em sua testa.

Logo em seguida parou em frente ao John, que estava com cara de decepcionado.

- E eu que passei tanto tempo pensando no que falar! – entregou o presente para a esposa e deu um forte abraço.

- Não é como se eu já não soubesse – ela sussurrou e ele fez cara de indignado.

- Mas como você já sabia?

- Querido, você não sabe ser discreto. Eu descobri no momento do sorteio. Você abriu um sorriso tão grande e ficou me olhando com os olhos brilhando. Além das perguntas indiscretas.

---

Molly estava impressionada. Como foi que Mary conseguiu? Ela parecia saber exatamente quem tirou quem. Ela e Mycroft. Bom, talvez estivesse na cara e ela que não soube ligar os pontos.

Quando finalmente John entregou o presente da Mary, cada um foi para um canto, abrir o seu. Ela já sabia que era um livro, só não esperava que ele fosse acertar em cheio no livro: O Inimigo Secreto, de Agatha Christie. Começou a rir sozinha. O quão irônico era ganhar esse livro em um amigo secreto?

- Obrigada, Anderson! — e deu abraço nele, o que o deixou meio sem graça e muito vermelho. – Mas como você adivinhou?

- Ah, bom, na verdade eu só descobri que você gostava de Agatha Christie e gostei do trocadilho com a brincadeira.

- É, e era o único que me faltava.

- Sério? Que sorte então. – e saiu sorridente.

Ia folhear o livro, mas viu Sherlock sentado sozinho. Aproveitou o bom humor para entregar o presente.

- Gostou do amigo secreto?

Ele não se deu ao trabalho de olhar para ela, apenas apontou para John, que só agora abria o presente e ficou espantada com o quão feliz ele pareceu em ganhar meias.

- Eu achei que você estivesse brincando quando falou em dar meias.

- E eu nem imaginava que você havia tirado meu pai.

Ela gostou do que ouviu. Ciúmes. Ele ainda estava com ciúmes. Decidiu que era uma boa hora para entregar o presente.

- Pra mim? – ele parecia surpreso. E conseguiu ficar ainda mais vermelho que o Anderson quando viu o pequeno cachecol roxo. — E eu ia pedir pra você fazer um para mim. Muito obrigado.

Meio sem saber o que fazer, estendeu um pacote para ela.

- Mas...

- Considere como um pedido de desculpas. Eu fui um idiota naquele natal e queria corrigir isso. Por que você está rindo?

Ela não sabia como falar aquilo. Então apenas levantou, abraçou-o e deu um beijo em sua boca.

- Obrigada. Só faltava esse. – e ficou encarando um Sherlock atônito. – Sherlock!

- Ahn? O que? Ah, desculpe, eu...

- Vamos sair daqui. – e aproveitou que estavam todos distraídos, puxou Sherlock para fora da casa, não esquecendo de pegar os dois exemplares de O Inimigo Secreto.

Notas finais
E ai, ficou legal?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!