Estereótipos
Estereótipos
Capítulo 153 min de leitura

One Shot - parte I

Os olhos de Uchiha Sasuke percorreram o e-mail de novo. Ele gravara o conteúdo lá pela décima sétima vez que lera, mas duas horas depois ainda não conseguia se livrar do choque pós-traumático.

“Querido e adorado sobrinho,

Circunstâncias imprevisíveis e potencialmente preocupantes me fizeram ter que preparar uma viagem de emergência para a filial da Uchihacorp nas Bahamas. Ficarei aqui pelos próximos dois meses de verão para assegurar-me que o futuro patrimônio seu e de seu irmão não seja prejudicado. Mas não pense que isso me fez esquecer meus deveres como seu guardião legal. Em vista da queda visível de suas notas na escola e do proporcional aumento da sua fatura no cartão de crédito, eu estou bloqueando sua conta corrente no banco e suspendendo sua mesada até que você volte a merecê-la. Faço isso pensando em como a experiência pessoal de força-lo a arrumar um trabalho construirá o seu caráter como homem digno de seu sobrenome. Em virtude da ampla carga de deveres sobre meus ombros, estarei incomunicável durante todo o período em que ficar no verão dos trópicos.

PS.: Itachi já está ciente de minhas ordens e está proibido de lhe ajudar.

Com todo o amor de seu tio,

Madara.”

Sasuke se perguntou se a pena para assassinato com o agravante de tortura cruel e desumana era muito longa. Perpetua talvez? Hum... Se ele conseguisse o acervo adequado de livros e uma cela individual, o castigo seria bem suportável... Mas, ai se lembrou que, para essas coisas, era necessário dinheiro. Coisa que — graças a Madara — no momento não tinha. Droga! Fim do plano A.

O adolescente se levantou da cama indo procurar o único consolo acessível no momento. A cafeteira. Sasuke era um viciado nas maravilhas do café desde os seis anos. Enquanto preparava o néctar dos deuses, o email do seu tio – que o Diabo em pessoa queimasse sua alma no inferno enquanto os vermes se refestelavam com sua carne podre — graciosamente lhe mandara, logo depois de fugir na calada da noite. Obviamente Madara amava demais sua vida para dar-lhe a noticia pessoalmente. Ou talvez, fosse só mais um dos seus joguinhos já que: 1, não existia nenhuma filial da Uchihacorp nas Bahamas. 2, Madara não era responsável por nada dentro da Uchihacorp. Era sabido que ele era filho bastardo de um caso do seu avô e queimou todas as poucas chances que tinha de conseguir alguma fatia do império Uchiha quando sua conduta sexual escandalosa ganhou fama. Não que o próprio lamenta-se. Dono de seis boates, três clubes de BDSM, quatro restaurantes e uma cadeia de hotéis, todos oito estrelas, ele não tinha problemas com dinheiro. 3, Madara resolvera sumir justo quando seu caso ‘oh, tããão secreto’, o empresário casado Hashirama Senju, tirou férias.

Sasuke bufou enquanto batia o pão de caixa na mesa. Ele sempre preparou suas refeições, não interfonava para a empregada enquanto estava na cama, envolto com um pijama de seda chinesa. Que moral Madara tinha para insinuar que ele era um gastador irresponsável? Tá legal, suas notas caíram um pouco, mas ele era inteligente o suficiente para recuperá-las. Não era sua culpa que as competições amadoras de MotoCross resolveram cair no meio do ano letivo, aumentado seus gastos e diminuindo seu tempo. Pelo amor de Deus, seus amigos o chamavam de certinho! Ele poderia ser um Nerd!

Conviver com tio Madara era como andar numa montanha-russa com defeito, no meio de um furacão, com uma chuva de meteoros destruindo a cidade. O velho definia o termo excêntrico. Pra falar a verdade, tinha uma foto dele no dicionário ao lado dessa palavra. Madara beirava os quarenta anos com cara de metade disso, apenas pelos milagres da boa genética. Era um verdadeiro lorde em eventos sociais, com a cabeleira enorme sempre brilhante, o sorriso cretino e o humor mordaz. Sasuke morava com ele fazia quatro anos e perdera conta de quantos homens, mulheres, indefinidos, amantes, casos, prostitutas, rapidinhas, amigos-com-vantagens, inimigos-com-tesão, tivera a honra ’?!’ de tomar café da manhã, depois de uma noite repleta de barulhos altos vindos do quarto do tio. Era tão comum ver o homem sair com um terno bem cortado, feito sob medida, para o trabalho ou vê-lo sair de camiseta branca, — expondo, pasmem os músculos bem trabalhados — calças jeans velhas e botas escuras para pegar uma moto e sumir no mundo. Depois ele voltava — horas ou dias – bêbado, cheirando a tudo que é inferninho. Ele tomava um banho, um café quente, um cochilo de trinta minutos e estava novo em folha. Pronto para o segundo round.

Era essa criatura que deixava o sobrinho sem nenhum centavo para ensinar-lhe uma lição de vida. Seu guardião legal. Sasuke se perguntava como o tio tivera permissão de circular entre os homo sapiens sapiens, que dirá conseguir a guarda dele na justiça. Um dos grandes mistérios do universo. Ao lado do inicio da vida. E da morte de Elvis.

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“Cara, você está tão fodido.” Risadinhas.

Essa era toda a ajuda que seu melhor amigo, desde infância, Suigetsu, tinha a lhe oferecer. Sasuke olhou para ele, ponderando se poderia descarregar seu ódio naquele ser. Seria tão relaxante. O Uchiha tinha a lembrança de ter lido que um cara em Nova York se salvou da cadeia por bárbaro espancamento, alegando acesso momentâneo de loucura.

“Ei, ei, ei, pode parar emanar a aura de psicopata. Eu quero te ajudar.” Suigetsu era um sacana por natureza, mas tinha instinto de sobrevivência.

“Rir não é exatamente uma ajuda, gênio. Se esforce mais.” Sasuke bufou, mirando o jovem a sua frente. Suigetsu tinha cabelos loiríssimos beirando a brancos e olhos lilases graças à ascendência finlandesa. Seria a epitome de um bom garoto, se não pintasse as pontas do cabelo liso de azul-berrante e usa-se um conjunto de roupas roxas que o faziam meio punk meio fugido do hospício. Uma tremenda agressão visual. Quando Sasuke e ele vagavam por ai, era comum ver pessoas mudando de calçada. O Uchiha gostava de pensar que não era por culpa dele.

“Estou tentando! Você sabe que não sou mentalmente capacitado antes do meio-dia.” Então, por que diabos ele estudava na parte da manhã? “Você ligou pro seu irmão?”

“Madara tinha ligado antes. Itachi me mandou aguentar firme e jogar pelas regras.” De que adianta ter um irmão gênio fazendo doutorado em ciências econômicas em Oxoford, se ele não te mandava dinheiro? Era inútil.

“Fez chantagem emocional?”

“Itachi não tem emoções.”

“Mandou ele se foder certo?” Suigetsu achava que tudo poderia ser resolvido com o um bom foda-se.

“Mais de uma vez. Com veemência”.

“O que ele disse?”

“Que a experiência talvez fosse boa pra mim.”

“Merda nenhuma. Ele estava com medo do Madara.”

“Qualquer ser humano tem medo do Madara. É uma reação natural.”

“Você acabou de dizer que Itachi não tinha emoções.”

“Eu reformulo: Itachi não tem emoções quando não traz vantagens pra ele.”

“Sua família é uma droga.”

“Eu sei.”

“Então voltamos ao ponto inicial: Você está fodido.” Típico de Suigetsu uma argumentação sem sentido que não leva a lugar nenhum. Sasuke estava começando a ficar com dor de cabeça.

“Só relembrando, Sui: você não está me ajudando.”

“Você pediu ajuda ao cara errado, Sasuke. Sou um adolescente rico, esnobe e cretino. Sei gastar dinheiro, não ganhá-lo.”

Sasuke estava chegando ao seu limite com o melhor amigo. Tentou lembrar de todos os bons momentos com ele e se concentrar neles para que ideias de mutilação fugissem da sua mente. Com mórbido prazer, descobriu que os bons momentos eram bem poucos.

“O que eu quero é que você me ajude a arrumar um emprego, imbecil!”

O queixo de Hozuki foi ao chão.

“Você... Quer... Trabalhar?” A frase tinha soado como ‘Você quer ter sexo com Orochimaru?’

“Qual é o problema nisso?”

“Todos!” o adolescente jogou as mãos para o céu. “Penhore algumas coisas da casa! Ou eu te empresto dinheiro! Ou arrume uma namorada que te sustente! Eu não posso ter um amigo proletário. O que você acha que isso faria com a minha reputação?!”

“Você é gay e sabe disso.” O moreno bufou. “Primeiro: sua mesada mal te sustenta, como você vai emprestar dinheiro pra alguém? Segundo: o que você acha que Madara vai fazer comigo se eu sumir com as coisas dele?! Terceiro: acho que você já tinha chegado a conclusão de que sou assexual.”

O jovem de cabelo tingindo fechou os olhos e cruzou os braços em profunda concentração. Os segundos passaram enquanto ele meditava sobre o problema. Suigetsu saiu do transe dando um soco na mesa e apontado para o amigo.

“Você podia se prostituir!” Uma aura negra cobriu a sala.

Sasuke era um Uchiha. Ele era a nata de indiferença fria e desdenhosa. Um ser de intelecto e maturidade superior.

Ele continuou acreditando nisso vinte minutos depois, quando os dois saíram da mansão. A imagem das contusões no rosto do seu amigo não diminuíam em nada a sua convicção.

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Sasuke era uma pessoa socialmente restrita – ou socialmente retardada – dependendo do ponto do vista. Então, além de Suigetsu, só havia mais duas pessoas que ele poderia pedir conselhos... Juugo e Karin. Eles não foram de grande ajuda. Para falar a verdade, não foram de ajuda nenhuma, visto que não tinham ideias. A amizade é um conceito superestimado.

Então, o jovem gênio se viu obrigado a lidar com o problema sozinho. Em quatro dias, conseguira ser demitido da cafeteria, da livraria do shopping e da biblioteca da faculdade. Sasuke realizava o serviço impecavelmente, mas de algum modo totalmente misterioso — a boca enorme de Karin — toda a escola soube de seu pequeno problema. O que ocasionou um fluxo ilimitado de menininhas bobas em todos os ditos estabelecimentos. Confusão armada, o garoto perdeu todos os empregos no espaço de um dia. Tinha 11 dólares e cinquenta centavos no bolso e um longo verão pela frente. Sua moto estava entregue às traças, seu tio estava num paraíso tropical entregue aos prazeres do sadomasoquismo e seu suposto melhor amigo morria de rir da sua desgraça.

“Eu já disse que não.” Sasuke murmurou contra o celular.

“Vamos lá, Sasukinho” A voz subiu uma oitava tentando soar convincente. “Juugo e Karin já estão aqui! Nós pagamos a entrada para você, seu cretino! Sei que seu lance é rali de motos, mas...”

“Enduro.” Disse Sasuke, entre os dentes. “Motocross em modalidade Enduro, não rali de motos.”

“Tá, que seja, mais isso é muito louco! Os caras dão saltos insanos! Todas essas acrobacias, parece, tipo, show de circo...”

“Isso é Motocross Freestyle, seu ignorante.”

“Você sabe que eu não ligo a mínima, né? Vem logo, eu sei que você está louco pra ver isso.”

E contra isso Sasuke não tinha argumentos. Ele era louco por motos desde sempre. Uma paixão que partilhava com seu tio. Madara tinha uma tremenda coleção de bebês supermodernos até clássicos raríssimos na garagem. Era Sasuke quem as restaurava e cuidava delas com o carinho que não tinha por coisas vivas. Há dois anos, o adolescente começou a participar de competições de Motocross. As corridas de Enduro eram, de longe, suas favoritas. Na pista de terra, cheia de pedras e obstáculos naturais, ele não era Uchiha Sasuke, sobrinho do magnata louco. Não era o príncipe de gelo do colégio mais caro dos EUA. E não era a criança que sobreviveu a um trágico acidente de carro que o deixou órfão. Ele era só Sasuke. Um piloto. E não havia maior liberdade do que essa.

E, além disso, havia o fato que Suigetsu pagava tudo.

“Encontre-me na entrada da arena.”

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Os adolescentes sentaram na parte mais alta da arquibancada. Karin e Suigetsu dois passos atrás, brigando sobre alguma coisa sem importância. Juugo, como sempre, parecia passivamente feliz por estar com eles. Andava ao lado de Sasuke, perdido no seu mundinho particular.

“Já encontrou um trabalho?” Juugo parecia estar acordando de sonho toda vez que falava. Podia ser fruto de uma personalidade calma. Ou de um coquetel muito louco de drogas.

“Ainda não.” Sasuke bufou. Seu orgulho era única coisa que o impedia de ligar para Itachi, implorando como um patético perdedor. O garoto tinha muito orgulho. Suficiente para quatro vidas. Porém, não se comia orgulho e a despensa da mansão estava esvaziando. A possibilidade de ser um perdedor bem alimentado estava sendo analisada por um ângulo totalmente novo. Orgulho era um pecado capital, no fim das contas e...

“Não se preocupe tanto, Sasuke, você vai arranjar um jeito.” Típico de Juugo. Uma declaração simples esbanjando confiança nas habilidades dos amigos. O adolescente enorme era silenciosamente protetor de todos eles, em especial de Sasuke, pelo qual nutria um afeto beirando a uma devoção natural e sem compromissos.

Sasuke apreciava isso. Ou passou a apreciar quando as desconfianças que o outro nutrisse algum tipo de obsessão doentia se esvaíram com o tempo. Karin e sua paixonite já eram bem difíceis de lidar.

O grupo de amigos, todos com 16 anos, tinham a vida de riqueza e festas que todo o adolescente sonha. Eram tidos como os reis do pedaço, os monarcas da escola. Ou alguma idiotice assim, Sasuke francamente deixou de prestar atenção nos títulos depois que o chamaram de ‘Adônis vestindo Prada’. O garoto levava a fama sem ter feito nada. Tá certo que ele só vestia roupas de marca, era orgulhoso e nascera com boa genética. Mas isso não o fazia um riquinho fútil, retardado. Ele tinha um plano de vida de seis anos. Sério. Estava lá no seu notebook, seu futuro cuidadosamente traçado. Incluindo a faculdade onde iria, cursos de especialização que faria, o lugar onde trabalharia e possíveis lugares para morar. Mostrara para Suigetsu uma vez. Ele o fez jurar nunca mostrar aquela prova incontestável do seu nerdismo para mais ninguém.

“Você quer?” O punk lhe estendeu seu cachorro-quente.

“Não como coisas sujas da rua.” Sasuke resmungou.

“E você me chamou de gay. Fala sério.”

“Pare de atormentar o Sasuke, seu débil.” Karin lhe deu uma tapa na nuca.

“Au! Você é uma puta cruel, Karin!”

“Do que você me chamou?”

“Vai começar.” Juugo disse.

A gritaria nas arquibancadas teve inicio. O primeiro piloto já estava posicionando na base da rampa. Acima deles, havia uma cabine com um locutor de voz extremamente fina, para um homem. Era irritante, mas quando as luzes acenderam e o motoqueiro de nome Gaara saltou mandando um ‘Christ Air’, posicionando os pés na suspensão dianteira da moto, o corpo ficando oblíquo à máquina, completamente solto no ar, a multidão urrou. Sasuke sorriu. Aquilo era diversão.

Ao todo foram 12 competidores, cada um tinha dois minutos para impressionar os jurados. Aquilo não era a modalidade de Sasuke, mas ele entedia dela o suficiente para explicar aos amigos os nomes das manobras. Tudo era vivo e eletrizante, fazia o garoto comichar para dar um volta com sua moto. O sexto piloto sofreu uma queda feia ao aterrissar de mau jeito em um “Kiss of Death” – a moto ficava perpendicular ao solo no salto e o piloto impulsiona o corpo para cima, formando um ângulo de 90° com a máquina, a cabeça indo em direção ao para-lama dianteiro – fazendo o torneio parar por 15 minutos. Karin escondeu o rosto na manga Juugo até os amigos garantirem que o homem estava vivo. Um pulso torcido fora o saldo de danos de Inuzuka Kiba. Após a pista liberada, o show continuou.

A primeira impressão que Sasuke teve do nono motoqueiro é que ele devia ser de um desses grupos que defendem a preservação da natureza e o uso de energia renovável. Definitivamente era isso, já que sua moto e seu macacão eram ambos laranja berrante. O tipo que podia iluminar, sozinho, toda a arena, dispensando os refletores. Ninguém avisou a esse cara que ele tinha se perdido no caminho para usina de energia? Sasuke fez um trejeito de desdém com a boca. Suigetsu ao seu lado dava risadinhas. Sasuke ponderou se no final das contas, ele era um riquinho esnobe. Talvez ele não devesse julgar tanto as pessoas.

“Agora pra vocês: Uzumaki Naruto.” Soou a voz infernal do locutor. Onde diabos arranjaram esse cara?

Naruto... Naruto? Quem é que se chamava ‘bolo de peixe’? É, Provado. Sasuke não é um esnobe. Sua antipatia era totalmente justificada.

O moreno cruzou os braços se preparando para críticas ácidas, mas elas nunca tiveram a chance de sair da sua boca. No primeiro salto o motoqueiro laranja executou um ‘Backflip Superman’. Simplesmente, um giro de 360° para trás, com a cereja no bolo de que no exato instante que a moto está totalmente de cabeça para baixo o piloto sai dela ficando perpendicular a máquina e ao chão, apenas segurando o guidom. A manobra foi perfeita. Se Sasuke não tivesse anos de treinamento na arte da impassividade – o que inclui não esboçar reação quando seu tio entra no seu quarto às duas da manhã, seminu, cheio de marcas de arranhões e com um longo bastão fino de espancamento, perguntando se você tem lubrificante – seu queixo teria ido ao chão. As arquibancadas foram todas ao delírio no que foi, sem favor nenhum, a melhor apresentação da noite. O tal Uzumaki conseguiu a pontuação mais alta.

Os outros competidores se esforçaram, afinal aquela era a classificatória do torneio internacional, mas no final, o ouro foi para Naruto. O tal Gaara ficou em segundo lugar e o último a se apresentar, um piloto chamando Utakata, em terceiro.

A premiação foi regada a troféus e outras firulas. Sasuke estava longe do pódio então só pode ver duas cabeleiras chamejantes. Uma loira e uma vermelha. Só quando os rostos apareceram no telão é que o menino os viu.

Sua atração por homens fora descoberta no inicio da adolescência. Uma transição simples e sem drama. Um belo dia ele acordou, ligou a TV e viu que preferia corpos fortes e musculosos à peitos e curvas. Ele morava há tempo o suficiente com Madara para aquilo ser uma coisa banal. Cara, eu sou gay... Hum... O que tem de café da manhã?

Mesmo coberto de suor e meio ofegante, aquele Naruto era uma visão. O rosto de traços fortes e marcados, cabelos loiros despenteados, olhos absurdamente azuis e pele com um legítimo bronzeado californiano. Uau, era impressão ou estava ficando quente?

“Sasuke... Sasuke!” A voz de Karin.

“Que foi?”

“Anko me ligou! Festa na casa dela.”

“Já começou?” Suigetsu a encarou “São sete e meia.”

“Começou? Kabuto já vomitou na sala.”

“Adorável.” Murmurou o Uchiha, sarcástico.

“Vamos logo!” Karin se levantou, atropelando todo mundo que ainda estava sentado. Os meninos a seguiram resignados, deixando com Juugo o encargo de pedir desculpas.

“Eu não vou.” Sasuke disse assim que saíram da arena.

“Não seja estraga prazeres, Susu! Vai ter litros de álcool.” Os olhos de Sasuke se apertaram ao som do apelido ridículo.

“Eu não bebo.”

“Música alta a noite toda.”

“Eu não danço”

“Toda a galera da escola.”

“Odeio aglomerações.”

“Dúzias de garotas gostosas e fáceis.”

“Assexual, lembra?”

“Vá se foder, Sasuke!” Gritou Suigetsu, completamente frustrado com seu melhor amigo.

“Deixe o Sasuke em paz.” Falou Juugo, colocando a mão no ombro do punk, conciliador. “Eu também não quero ir. Posso voltar com ele e você e Karin vão para a festa.”

“Que seja! Mexam-se! Anko me falou que tem noticias quentes.” Fofoca era a única coisa que tirava o a atenção de Karin do Sasuke.

“Ok, ok.” Suigetsu foi para o lado dela. “Depois eu conto com detalhes a orgia louca que tive essa noite enquanto vocês estavam em casa assistindo comédia romântica.”

Sasuke lançou seu melhor olhar de desprezo ao casal antes de tomar a direção contrária, com Juugo em seus calcanhares. O vento frio da noite passava por eles, fazendo Sasuke esquecer das distrações da tarde e do rosto marcante de Uzumaki Naruto e voltar a ruminar sobre seus problemas. Juugo sentiu a repentina queda de humor, mas absteve-se de fazer comentários. Sasuke não gostava de ser aplacado como uma criança. Ele não precisava de chavões tranquilizadores do tipo ‘tudo vai acabar bem’.

O clima esfriava rapidamente fazendo os dois apertarem a passo. Juugo os conduziu para um atalho, levando Sasuke por um monte de ruas que ele nunca tinha andando. Ao passar por uma avenida particularmente deserta, os olhos de Sasuke vaguearam entediados pelos estabelecimentos até parar em um. O garoto estancou.

Juugo, percebendo que seu amigo já não o seguia, parou para olhar Sasuke lendo um anúncio pregado numa parede. Ele andou até o moreno, curioso com o que prendera sua atenção. Ali, impressas no papel, estavam as cinco palavras que podiam salvar a pele do Uchiha pelos próximos dois meses.

“Precisa-se de mecânico de motos.”

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“Você tem certeza que está no lugar certo?” Sasuke ouviu pela terceira vez.

“Eu tenho. Vocês precisam de um mecânico de motos. Eu estou me candidatando.” Falou o garoto. Toda a diplomacia e cortesia. Exceto o tom que indicava que estava falando algo muito óbvio a uma criança muito burra.

O homem negro de cabelos completamente brancos, apesar de jovem, suspirou. “Que seja. Não sou eu quem decide. Venha moleque vou te apresentar ao chefe.”

Darui já ouvira falar da expressão ‘choque de realidades’, mas nunca a entendera até esta manhã. Ao abrir a oficina que trabalhava há oito anos e ver um moleque perfeitamente arrumado e perfumado, de um jeito que gritava ‘dinheiro!’, parado, olhando para ele. O garoto tinha aqueles rostos que se viam em revistas. Darui esperou, certo que o menino ia dizer que se perdeu e pedir informações para chegar ao shopping ou a algum lugar igualmente fresco. Não foi o que aconteceu

“Meu nome é Uchiha Sasuke. Eu vim pelo anúncio.” Tá ceeeeeerto. Ok! Onde estão as câmeras? Era pegadinha, né?

Não viu câmeras. A rua estava deserta. E o moleque não gritou ‘Primeiro de Abril!’, mesmo assim ele perguntou, para ter certeza. Obtendo a mesma resposta, mandou o moreninho entrar. Ele tinha muitas coisas para fazer hoje. Que Killer Bee despachasse essa criatura.

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“Deixa eu entender: Você se diz mecânico? E quer o trabalho?”

Se Sasuke achava que o homem que o atendeu era uma massa de músculos surda e desmiolada não se comparava ao futuro patrão. O homem era enorme e intimidante tinha, chifres tatuados na cara, óculos escuros e ouvia ‘50 cent’ num volume alto o suficiente para fazer os vidros tremerem.

“Eu não tenho cursos, mas sou experiente o suficiente.” Falou o Uchiha, tentando forçar a voz a cima da música obscena.

“Sim, sim, porque andou brincando com as motos do titio, já ouvi. Mas escute aqui filho, isso é uma oficina especializada. Recebemos os filhos-da-mãe mais frescos de todo o país pra cuidarmos das suas máquinas. Por que eu deveria pagar 500 dólares por semana a um riquinho sem diploma que só pode me dar meio expediente?”

Sasuke ponderou um pouco, cansado de gritar ele andou até a mesa de Killer Bee, lhe furtando o controle remoto. Ignorando o ‘Hei’ violento ele desligou o som. O silencio ressoando assustadoramente alto.

“Fazemos um trato: eu trabalho aqui hoje. Faço tudo que você mandar e não precisa me dar um centavo por isso. No fim do expediente você diz se me contrata ou não.”

Killer Bee ficou chocado. Ninguém, repetindo, ninguém mexia com seu som. Ele olhou para o adolescente que tinha praticamente metade do seu tamanho e não viu nada além de confiança.

“Você tem bolas, moleque, eu gosto disso.” Ele recostou na cadeira. “Tem uma Suzuki lá fora com problemas no motor. O dono precisa dela funcionando hoje e está disposto a me pagar muito por isso.” Killer Bee colocou os pés em cima da mesa. “Faça sua mágica”

Sasuke deu um meio sorriso arrogante ouvindo o tom descrente do homem “Certo, Hachibi.” Disse ele, usando o apelido esquisito que o outro homem usou.

“E é pra me chamar de senhor, moleque!”

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Dizer que o trabalho na oficina era difícil era um eufemismo cruel. Sasuke trocou cabos, restaurou pinturas e concertou motores até os músculos começarem uma rebelião contra ele. Darui, C e os outros não deram nenhuma folga querendo ‘ver o riquinho pedir penico’. Mas Sasuke era um Uchiha. Ele não se rendia. Ele enfrentava as dificuldades. Ele debochava dos inimigos. Ele precisava de uma aspirina.

Os clientes que chegavam eram de todos os tipos, mas todos, sem exceção, arregalavam os olhos quando era o adolescente que os atendia. Afinal, ele estava totalmente fora do estereótipo de ‘homem grande rude e iletrado’ que se espera como mecânico. A única coisa que ele conseguia seguir era estar sujo. Mas era praticamente impossível ficar limpo naquele ambiente quente.

No fim do dia Sasuke, impressionou todos os seus colegas de trabalho. Ele marchou decidido até a sala de Killer Bee, onde o homem o viu e caiu na gargalhada.

“Parece que você caiu num balde de lixo.” Ele se sacudiu “Mas, você aguentou o serviço e é tão bom quanto diz ser.... Então, bem vindo à bordo, moleque! Quem sabe nós não conseguimos fazer você parecer um homem.”

Sasuke resmungou um agradecimento saindo do lugar com murmúrios de adeus de seus novos colegas de trabalho. Ele andou até sua casa e foi direto para o chuveiro, demorou meia a hora e saiu para seu quarto, caindo na cama. Morto para o mundo.

Depois de duas semanas de dores, cansaço e noites mal dormidas, Sasuke conseguiu se acostumar à nova rotina. Quase ninguém da escola sabia de suas habilidades com as motos, então, no novo emprego, ele estava seguro das suas fãs. Quanto ao trabalho, estava cada vez melhor. Na maioria das vezes ele ajudava com o serviço de Darui, que era um ser completamente zen que parecia funcionar em câmera lenta. Nada irritava Darui. Nada o incomodava. Nada o tirava do gracioso passo tartaruga em que ele levava a vida em geral. C era algum tipo de gênio. Era bom para o grupo, já que ele era quem acalmava os ânimos se surgisse alguma tensão. Tirando o humor sempre péssimo de Karui – a única mulher do lugar –, as conversas sem pé nem cabeça de Omoi – drogas, suspeitava Sasuke – e os surtos de compositor do patrão, com seus raps horríveis, o ambiente não era intragável.

Sasuke agora andava com regatas para lidar com o calor do salão e suas jeans estavam podres e rasgadas. Rendera algumas piadinhas sobre sua ‘magreza’ e seu ‘rostinho de revista’, mas o garoto não podia lutar com a genética. Ele tinha músculos, mas eles eram longilíneos como todo bom Uchiha. Ele nunca seria bombado. Um fato que aprendeu a aceitar desde sempre. E, enquanto pudesse lidar com as motos sem problemas, ele estava satisfeito. Obrigado.

Hoje não parecia ser um dia diferente. Killer Bee cantava algo de sua autoria, que era, bom... Um lixo, como sempre. Karui e Omoi brigavam em algum lugar ao fundo, parecendo uma versão de Suigetsu e Karin. E C dava um jeito numa Honda num canto. Ele ouviu a voz de Darui o chamando.

“Sasuke!” O garoto se virou, vendo o moreno se aproximar, limpando a graxa excessiva das mãos.

“Que foi?”

“Preciso que você suba lá no estoque e pegue a tinta azul marinho.”

O Uchiha quase gemeu. O estoque era um buraco do inferno que nunca viu uma vassoura. Além de ser completamente bagunçado. Sasuke assentiu levemente antes de subir as escadas, infeliz. Isso ia levar metade do dia.

Enquanto vasculhava, pôde ouvir um reboliço no andar de baixo. Uma voz desconhecida gritou ‘Bee, meu velho, preciso de você! Preciso de um milagre!’ O som da risada escandalosa do seu chefe se seguiu a isso e depois um bando de conversas e grunhidos sem nenhum sentido.

Sasuke revirou os olhos, voltando à sua missão. Os minutos se passaram e o garoto finalmente achou a tinta. Descendo com ela numa mão e a outra se batendo, tentando se livrar da poeira. Madara ia pagar por essa. A vingança do menino seria plena.

Os olhos percorreram o amplo salão com motos e equipamentos, agora vazio. Onde diabos tinha se metido todo mundo? Ele olhou para porta que levava à sala de Bee. Darui devia estar lá, mas, quando deu três passos em direção ao seu destino, ele estancou. Sua visão periférica captando algo que não podia ser real.

Mas era. Sasuke se aproximou lentamente, com medo de que sua visão sumisse no ar como uma miragem. Diante dele estava uma moto. Ou melhor, estava uma das máquinas mais perfeitas criadas por mãos humanas. Uma Harley Davidson. Um sonho negro e metálico vindo direto de algum paraíso sem nome. Inicio dos anos oitenta. Lindamente conservada. O garoto andou em volta, congelando de novo. Dessa vez de horror.

A lateral esquerda da moto estava completamente arruinada. Quem foi o infiel que cometera aquela heresia? Pintura perdida. Montes de peças danificadas. Guidom retorcido. Uma violência, um ultraje. O maníaco que fizera aquilo merecia morrer.

Os instintos do Uchiha agiram sobre ele. Esquecendo tudo que pretendia fazer, sua mente lançou-se numa furiosa análise dos danos. Fez uma lista de tudo que precisava para concertos emergenciais na mente. Ele restaurara muitas das joias de Madara. Ele conseguiria salvar esta também. Exame feito, era hora de trabalhar.

Sasuke, toda vez que começava um projeto, se desligava do mundo. Nada além de ver o fruto de sua obra acabada era importante. Ele era assim nas corridas e em todo o resto. O garoto arrastou a moto para um canto da oficina e fez o que tinha que fazer.

O jovem francamente não fazia ideia do tempo que passou até ouvir uma voz rouca e divertida o chamando para realidade.

“Ora... Bee me disse que ela não tinha salvação, mas acho que ele se enganou. Agora, quem diabos é você?”

Aborrecido por ter sido interrompido, Sasuke mal registrou as palavras, ergueu a vista mal-humorada. E pela terceira vez no dia – isso estava ficando repetitivo –paralisou.

Ele reconheceria aquele rosto em qualquer lugar. Era o rosto aparecido em seus poucos sonhos nada inocentes. Em frente a ele, se erguia um homem que tinha, fácil, um metro e oitenta de altura, ombros largos e corpo deliciosamente musculoso. O bronzeado uniforme e a cabeleira loira eram exóticos e interessantes, um comercial de surf ambulante. Os olhos vivos e azuis e marcas estranhas, semelhantes a bigodes, em cada lado rosto. Uzumaki Naruto. É, quer saber? Era verdade. Algumas pessoas são muito melhores pessoalmente.

A garganta de Sasuke secou. Ele se levantou vagamente consciente que seu cérebro entrou em curto-circuito. Naruto usava jeans artisticamente rasgado, uma camiseta laranja e um colete negro. Tudo no homem a sua frente emanava uma energia assustadora. Não ajudava nada ele também estar o encarando intensamente. Sasuke se sentiu exposto, fraco.

Aquilo foi o estalo que quebrou o encanto momentâneo. Uchiha Sasuke não era fraco. E não se comportava como uma garotinha não importa o quão assumidamente gay fosse.

“Eu sou Sasuke. Trabalho aqui.”

“Sério?” Os olhos percorreram seu corpo de cima a baixo. Sasuke não sentiu calafrios. Não senhor. De jeito nenhum. “Você me parece meio novinho pro serviço. A propósito, eu sou Uzumaki Naruto. A moto é minha.” Ele estendeu a mão.

‘Novinho pro serviço’? Esse idiota não sabia com quem estava lidando.

“Bolinho de Peixe? Esse é seu nome?” Sasuke pôs o máximo de incredulidade divertida que conseguiu naquela frase. Ele apertou a mão de Naruto. Era quente e grande. Mais uma vez Sasuke não pensou no que eram aquelas mãos quando empregadas em carícias. Não senhor. Uchihas não fantasiam com desconhecidos. Desconhecidos fantasiam com os Uchihas.

“Au, essa doeu!” Os olhos azuis cintilaram. Não era justo que além da cor, eles pudessem fazer isso. “Culpe o meu avô. A criatividade é dele.”

Sasuke, apesar de ser gay e ter uma indiscutível beleza física, tinha um histórico realmente triste na área de relacionamentos. Ele tinha responsabilidades. Um plano de seis anos. E fracamente nenhum dos candidatos atendia suas exigências. Qual é? Ele não daria a qualquer mortal simplório a honra de sua companhia. Isso alimentava as afirmativas de Suigetsu sobre ele ser assexual. Além do garoto ter zero de conhecimento na área da paquera. Mas, quando alguém lhe dá um sorriso da linha cafajeste e recusa soltar sua mão, mesmo o aperto sendo trocado vários segundos antes, isso é um sinal claro, não é?

“Sasuke, ai está você!” A voz de Darui quebrou a tensão. Naruto rapidamente soltou a mão do Uchiha. “Cadê a tinta?”

Sasuke levou alguns segundos para lembrar o que era tinta. Depois apontou para a mesinha. Darui pegou a lata e se dirigiu a Naruto.

“Lamento cara, mas aqui não está mesmo especializado neste tipo de restauração. Killer Bee ficou de fazer algumas ligações. Você vai esperar?”

“Na verdade, eu acho que vocês tem exatamente o que eu preciso.” Os olhos dele pousaram em Sasuke. “Ele estava dando um jeito na minha princesa. Parecia saber exatamente o que estava fazendo.”

Quem é que chama a moto de princesa?

“Você pode cuidar de um estrago deste tamanho, moleque?” A voz de Bee assustou os três. “Sei que você é bom, mas isso requer um bocado de tempo.”

“Eu acho que consigo. Meu tio já trouxe algumas em pior estado pra eu dar um jeito.”

“Ela, além de ser um clássico, tem valor sentimental.” Naruto disse “Detestaria ter que me desfazer.”

“Se tem tanto valor pra você, como ela acabou neste estado?” Sasuke disse, incapaz de se controlar diante da mutilação que a moto sofrera.

“Um acidente infeliz com minha mãe e duas garrafas de tequila.” Naruto deu de ombros. “Eu não estava em casa, quando cheguei, o estrago estava feito”.

“Isso vai custar uma nota alta, você sabe, não é, moleque?”

“Você é um mercenário, Bee” Naruto choramingou. “Pense na nossa amizade”

“Nossa amizade não pode pagar as minhas contas, agora, seu dinheiro pode.” Bee se virou para Sasuke. “Você vai ter dedicação exclusiva pra esta moto. Quero ela nova.”

Sasuke deu ombros “Sem problemas.”

“Temos um negócio, lourinho?”

“Claro que sim, Hachibi.” Naruto murmurou, derrotado.

“Excelente.” Bee girou os calcanhares e voltou para sua sala. Darui voltou ao trabalho e Sasuke também. Vivamente consciente dos olhos de Naruto o observando. Ele fez o melhor para ignorar, mas o loiro não se mexeu. Achando a situação incrivelmente incômoda, Sasuke murmurou, sem se virar. “Como você conseguiu essa moto?”

A voz de Naruto veio de algum ponto atrás dele. Perto. Muito perto.

“Ela era de um velho ranzinza da minha cidade. Eu a vi voltando da escola, tinha 14 anos. Bati na porta dele decido a comprá-la. Ele riu da minha cara e cobrou duas vezes o valor dela. Arrumei dois trabalhos e juntei cada centavo que ganhava neles e dos meus pais por 21 meses. Bati na porta dele de novo. Ele nem se lembrava de mim. Coloquei uma sacola com todo o dinheiro na frente dele e pedi as chaves. O velho entrou em choque. Me deu as chaves e eu a levei pra casa.” Naruto riu da lembrança. Aquele som maravilhoso fez Sasuke ficar oprimido com a presença do homem. Ele se virou e Naruto continuava o olhando com aqueles olhos deslumbrantes. “Eu sempre fui um moleque teimoso e me tornei um homem teimoso. Não sei ouvir não como resposta. E, por causa disso, sempre consigo o que quero.” Ele sorriu e Sasuke teve a súbita visão do dia nascendo. “Sempre, Sasuke.”

Naruto se afastou e saiu da oficina e Sasuke se obrigou a não observá-lo como um animal babando. Assim que ele saiu, a temperatura da sala pareceu cair vários graus, o ar ficou mais respirável e o peso que oprimia seu peito sumiu, mas o alivio não foi nem um pouco bem-vindo. Sasuke suspirou. Aquilo não era nada bom. Nada bom mesmo.

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Sasuke não conseguiu dormir direito naquela noite, mesmo estando tão cansado como sempre. Começou a repetir para si mesmo que o motivo para aquela insônia era que as altas doses de cafeína, consumidas a maior parte da sua vida, estavam cobrando seu preço, de repente. Era uma explicação razoavelmente lógica. Mas, toda vez que afofava os travesseiros, procurava uma posição confortável e fechava os olhos, a imagem de um loiro, lindo e musculoso vinha a sua frente. Às vezes acompanhando o som maravilhoso de uma risada rouca que parecia percorrer todo seu corpo, o fazendo vibrar em ressonância e...

Droga Sasuke, foco... Foco!

Após o fim do expediente na oficina, o garoto foi direto para casa, mais rápido do que uma bala. E lá, pela primeira vez em sua memória, mandou a conduta Uchiha ao inferno e fez uma busca sobre Uzumaki Naruto na internet. Em 15 minutos tinha tudo. Vídeos das apresentações, entrevistas, ficha pessoal, até a página do Facebook. Descobriu que estava certo sobre suas suposições iniciais. Naruto era da Califórnia, tinha 23 anos e era a nova sensação nas competições de Motocross Freestyle, sempre fazendo as manobras mais insanas. E tinha um histórico de bebedeiras, festas, brigas e inúmeros casos suficientes para conseguir a alcunha de ‘bad boy’. De fato, voavam fofocas sobre ele no circuito, algumas francamente assustadoras. O menino suspirou, o loiro era o típico cara que seus pais te avisam para manter distância e, obviamente, isso só o fazia mais tentador.

O Uchiha desligou seu notebook se jogando na cama. Sasuke sempre foi uma pessoa racional. Sempre traçava projetos para tudo. Ele precisava disso. Ele era um Uchiha, afinal das contas. As pessoas sempre esperavam o melhor dele, nada menos. Depois da morte de seus pais, a pressão ficou pior, já que seus únicos parentes consistiam no seu irmão e no seu tio. Ambos, cada um a sua maneira, prodigiosos. Itachi foi a pessoa mais jovem a conseguir ingressar no doutorado de Oxford. Madara foi de bastardo-sem-nenhum-tostão a magnata excêntrico queridinho das colunas de fofocas. Sasuke era a última ponta do triunvirato, tinha que fazer jus a seu nome. Podia soar melodramático, mas era assim que o adolescente se sentia. Ele tinha um plano de seis anos. Ia terminar o ensino médio e ir pra Yale¹. Nada poderia mudar o rumo seguro da sua vida, ele não ia se desviar nem pelas motos, nem por um motoqueiro incrível com uma charmosa má reputação.

Continua...

1- Yale é uma das universidades privadas mais prestigiadas do mundo. Fica em Connecticut, EUA e faz parte da Ivy League. A instituição possui uma histórica rivalidade com Havard.


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