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2 Capítulo 2 ~ Aborrecentes aprontando
Notas iniciais
19:30h, Cozinha do Edward e da Nessie
─ Não gostei nada de saber que você deixou a Bella te chamar de Nessie ─ resmunguei enquanto terminava de requentar o macarrão que seria a nossa janta. Vanessa apenas riu da minha cara e beliscou uma asinha de frango na panela ao lado.
─ Você tá com ciuminho da Bella ─ zombou ela, sentando-se sobre a pia, de frente para mim, e lambendo os dedos engordurados ─ É sério que ela cuidava tanto de mim?
─ Sim, ela cuidava ─ afirmei, colocando um pouco mais de temperos no molho, para dar uma avivada no sabor ─ E não, não estou com ciúmes dela.
─ Hum... Não é o que tá parecendo, sabe? ─ provocou-me novamente ─ Você acabou de demonstrar, inclusive.
Revirei os olhos, porque minhas atitudes realmente deviam ter passado aquela impressão.
─ Ela é bem bonita.
Encarei minha filha, surpreso com sua constatação; ela não era muito de elogiar pessoas... Hum, mulheres, para mim.
─ Sim. Ela é.
Por que diabos eu tive de concordar verbalmente com aquilo? Havia sido uma péssima ideia, percebi, quando vi os cantos dos lábios de Vanessa lutarem para não se transformarem num sorrisinho presunçoso – mas ela não conseguiu evitar.
─ Então, podemos chamar a Bella bem bonita pra ir no vô e na vó qualquer dia, né? Pra ela checar o espaço pra festa e tals.
Bufei e Vanessa, novamente, riu. Ela, porém, tinha tocado num ponto muito importante e que ainda não tinha sido discutido como deveria.
─ Antes disso, temos que saber se eles aceitam fazer uma festa lá ─ falei, pintando meu dedo indicador com o molho do macarrão e sujando seu narizinho arrebitado. Gargalhei quando Nessie guinchou e me mostrou a língua logo em seguida, mas desviou a atenção para o celular assim que ele vibrou ─ Ei, o que tem nesse celular? Não desgrudou dele o dia todo! ─ Cutuquei seu rosto novamente, frustrado, quando ela pulou da pia para me impedir de ver sua tela.
─ Privacidade, lembra? ─ murmurou ela, colocando o celular dentro do bolso da calça e surpreendi-me ao ver suas bochechas corando. Nessie não era de se envergonhar a tal ponto, pelo menos não de costume.
─ O dever de Matemática?
─ Que dever? ─ ela estava verdadeiramente confusa e aquela era a confirmação necessária para eu saber que ela me escondia algo mesmo. Era para lá de incomum, porque nós sempre compartilhávamos tudo um com o outro, e detestava estar no escuro quanto a acontecimentos em sua vida.
─ Aquele que te fez querer voltar correndo pra casa, lá do escritório da Bella, lembra? Depois que recebeu algo aí em seu celular ─ falei, apontando para seu bolso ─ Está me escondendo algo?
─ Oh... ─ Nessie estava corando de novo e, por um milésimo de segundo a palavra “garotos” perpassou pela minha mente. Mas, se fosse o caso, ela teria me contado, não teria? ─ Deixa de bobagem, pai, você sabe que sempre te conto tudo ─ ela frisou e relaxei, mais aliviado. Ela realmente me contava! ─ Eu só achei que... Você e a Bella mereciam um descanso.
Descanso? Como aquela conversa havia se voltado para mim e Bella de novo?
─ Como é? ─ indaguei-a. E claro, tudo o que Nessie fez foi rir de mim.
─ Tinha muita... Tensão no ar ─ provocou-me ─ E você vai queimar o macarrão, olha aí, a Bella nem precisa mostrar o decote para você se distrair, né? Pensar nela já basta.
─ O... O decote? ─ A imagem de seu colo dançou em minha mente, como se estivesse bem ali, a alguns centímetros de distância e... Ah, merda, Edward, só cale a porra da boca!
Vanessa desatou a rir e se aproximou da panela, assumindo a minha posição de mexer o molho para não queimá-lo.
─ Esse aqui é irmão desse ─ ela apontou para o olho direito e depois para o esquerdo, e foi a vez das minhas bochechas ficarem ridiculamente quentes, o que a fez rir ainda mais.
─ Não...
─ Não adianta nem negar, você não foi muito sutil, e a reação da Bella também não foi ─ Nessie me interrompeu ─ A coitada ficou toda vermelha.
─ Não... Não era para ter acontecido aquilo, muito menos para você ter percebido ─ resmunguei, passando as mãos pelos cabelos, sentindo-me um pouco nervoso que Vanessa tivesse testemunhado tamanha indelicadeza minha ─ Me desculpe por isso, não é o jeito certo de se tratar uma mulher. Não vai mais acontecer.
Claro, frisei aquilo para que Nessie não achasse certo algum imbecil a encarando daquela forma, como se ela fosse um mero corpo – não que eu achasse isso de Bella, mas era inegável que havia se tornado uma mulher muito atraente, e era difícil desviar meu olhar dela... Do dela, não apenas de seu corpo.
─ Porra, pai. Não disse aquilo pra te recriminar, não, velho. ─ Ela revirou os olhos antes que eu a repreendesse pelo palavrão ─ E não, não te chamei de velho, é só uma expressão ─ explicou-me ─ Apesar que, né... ─ Nessie mexeu as sobrancelhas para cima e para baixo, com gracinha ─ Tá quase trintando, então tu é velho mesmo!
Revirei os olhos e ela deu uma risadinha antes de continuar sua linha de raciocínio:
─ Eu não sou mais criança, percebo certas coisas, já. E tipo, depois da Tânia você nunca mais saiu, nunca mais teve uma namorada. Você não sente falta, não?
Ela não se referia à Tânia como “mãe” e aquilo era outra questão bem agridoce para mim, porque Nessie já era madura o suficiente para entender não só o significado daquela palavra, como também o papel assumido por quem carregava um título daqueles. Havia sido uma escolha dela, desde antes mesmo de nossa mudança para Port Angeles, parar de chamá-la assim.
E se eu sentia falta de namorar? Desde que assumira integralmente o controle da vida de Vanessa, não tinha parado para me preocupar com o assunto. Ela era a minha prioridade, a minha vida se resumia a sustentá-la financeira e emocionalmente e, durante todo aquele tempo, não havia sobrado espaço para mais nada. Então, na verdade, eu nem mesmo sabia se sentia falta daquilo!
─ Não ─ respondi simplesmente, e dei de ombros.
Vanessa estreitou os olhos para mim, como se tentasse ver através de minhas palavras, mas apenas suspirou quando percebeu que eu estava sendo sincero – ou o mais sincero naquele momento. Afastei-me para pegar pratos, copos e talheres para montar nossa mesa, e quase derrubei tudo quando aquela criaturinha tornou a abrir a boca:
─ Bem, de qualquer forma, a gente precisa falar com o tio Emm, né? Porque se ele e a Bella já se pegaram mesmo, pode ser um problemão ela se encontrar com a tia Rose lá na mansão. Eita, pai, cuidado aí! ─ Ela riu de novo quando me viu inclinando o corpo para trás para evitar que os objetos caíssem de minhas mãos.
Estava se tornando cada vez mais estranho pensar na possibilidade de Bella e Emmett tendo alguma coisa – ainda que nunca houvesse me importado com aquilo antes. Era como se aquele reencontro com Isabella tivesse despertado algo em mim que eu nem sabia existir!
16 de janeiro de 2019, 14:30h.
Estava dando “visto” em algumas atividades dos meus pequenos – as crianças do Primário para quem dava aulas –, quando notei o esboço do contrato sobre a mesa da cozinha. Já fazia alguns dias que Vanessa e eu havíamos ido até o escritório de Bella, mas desde então não tínhamos mais discutido sobre o assunto. Era bom que ela se decidisse sobre os itens principais logo, assim poderia garantir que tudo saísse da maneira como gostaria.
Sorri ao notar a letra de Bella como resposta a alguns dos itens, mas, em seguida, senti-me um pouco frustrado porque, em conversa com o meu irmão, naquela mesma noite, ele havia me revelado nada, a não ser pela mesma história: ele e Bella eram apenas amigos. Que não tinha problema algum levá-la para a mansão de nossos pais, e que Rosalie, a esposa dele, a adorava.
Aquilo sim era novidade para mim. As duas nunca pareceram ter se dado bem, mas sempre achei que o motivo seria os ciúmes que ambas sentiam de Emmett. Entretanto, eu realmente nunca tinha passado tempo suficiente com as duas juntas para ter certeza – pois quando Emmett começou a namorar Rose, eu já tinha me mudado para Port Angeles. Com mais dúvidas do que qualquer coisa, decidi deixar aquele assunto maluco de lado e me concentrar naquilo que verdadeiramente importava, na minha única certeza: a festa de aniversário do ser que eu mais amava no mundo!
Nessie ainda gostava de verde, então eu achei os dois temas que, além de combinar perfeitamente com a cor, ainda lhe cairiam como uma luva, tanto fisicamente, quanto por sua personalidade indomável. Ela me xingaria até o fim dos meus dias, mas eu não poderia perder a oportunidade de, pelo menos, dar tais sugestões. Aproveitei para preencher “comes” e bebes”, e também alguns dados meus, como e-mail e o número do meu celular. Já ia me voltando para as atividades das crianças, quando uma vibração me chamou a atenção.
Vasculhei por debaixo de tantos papéis – meus e de Vanessa – até que encontrei o celular dela. Uma luzinha do aparelho piscava, indicando que uma notificação havia chegado. Porra, eu nunca fazia aquilo, mas uma olhadinha não mataria ninguém, certo? Não, aquilo era errado. Eu confiava na minha filha, e ela em mim; não poderia, jamais, quebrar aquela confiança, ou então me tornaria alguém como Tânia, alguém que não era merecedor/digno de estar na vida dela.
Retornei o celular à mesa e, para não sucumbir à tentação de verificá-lo, organizei meus papéis, levantei-me e fui terminar minhas obrigações em meu quarto. Era melhor do que invadir a privacidade de minha filha e chateá-la.
15:10h
─ Pai! ─ Nessie deu duas batidas em minha porta e mal esperou por minha resposta, abriu-a imediatamente ─ Estou indo lá na Bree, temos aquele Projeto de Biologia para terminar.
─ Oh, uau. Antes você costumava me pedir para sair, agora dá só um aviso? ─ perguntei, arqueando uma sobrancelha.
Ela inclinou a cabeça para o lado, respirou fundo e me deu a sua melhor versão do olhar do gato de botas:
─ Eu posso, por favorzinho, ir até a casa da Bree pra gente terminar a joça desse Projeto?
─ Pode ser daqui a pouco? ─ perguntei, sabendo que não adiantaria nada adverti-la pelo seu palavreado ─ Deixe-me só terminar de dar visto nessas atividades que te levo lá.
─ Não precisa não, a tia Angie tá vindo me buscar ─ disse ela e então sorriu quando uma buzina soou do lado de fora de nossa casa.
─ Bem, se ela já está aqui... ─ murmurei ─ É só você e a Bree?
Estreitei meus olhos quando as bochechas dela coraram e ela me sorriu meio sem graça.
─ Tem... A Maggie também ─ respondeu ela, obviamente deixando algo para trás. Nessie suspirou quando arqueei uma sobrancelha ─ E... Hum... ─ Ela estava hesitando demais! (e quase me causando um ataque cardíaco, tamanha a minha ansiedade!) ─ Jake, Diego e Fred.
─ O Jake dos Quileutes? ─ surpreendi-me. Aquele moleque não costumava fazer trabalhos com minha filha e fiquei ainda mais intrigado quando seus olhinhos de menina brilharam à menção do nome dele.
─ É... Paiii, elas estão me esperando ─ Nessie gesticulou para a porta, as bochechas ainda vermelhas, seu tom de voz meio fraquinho, como se ela estivesse constrangida demais para falar mais alto ─ Pos... ─ Ela pigarreou e “aumentou o volume” ─ Posso ir?
─ Pode, moranguinho ─ fiz graça de suas feições, e ela revirou os olhos antes de se aproximar e dar um beijinho em minha testa ─ Mas se comporte e me ligue para ir buscá-la, não fique fazendo a Angela de motorista!
─ Ela está dando carona para todos nós ─ Vanessa riu e deu dois tapinhas em minhas costas ─ Mas enfim, vou-me indo. ─ Ela me deu outro beijo e agarrou o carimbo de “visto” da minha mão, antes de carimbar uma das folhas ─ Eu adoro isso aqui!
Revirei meus olhos e recuperei meu carimbo antes que ela o levasse embora.
─ Tchau pra você também! ─ gritei, assim que ouvi seus passos apressados descendo as escadas ─ E nada de sair beijando esses garotos!
Gargalhei – embora uma pontada de preocupação tenha surgido em meu peito quando pensei na possibilidade de aquilo se tornar realidade – ao ouvi-la praguejar e a porta da frente bater em alto e bom som. Nessie beijando garotos era algo que me dava arrepios e me certifiquei de enviar uma mensagem à Angela, pedindo que ela ficasse de olho naqueles jovens – e inconsequentes – adolescentes.
Forks, como a cidade pequena que era, me permitia ter o contato da maioria dos pais dos amigos – ou melhor, amigas— de Vanessa. Ela, Bree e Maggie eram praticamente inseparáveis desde o Jardim de Infância – a não ser pelo período em que havíamos morado em Port Angeles – e eu era grato por seus pais terem acolhido tão bem a minha filha, como se fossem deles.
Ia tornar a “vistar” as atividades, quando uma folha diferente me chamou a atenção. Era o esboço do contrato da festa e gargalhei novamente ao ver as considerações de minha filha às minhas sugestões de “Merida” e “A Pequena Sereia” como tema: Nessie havia colado um post-it deixando bem clara a sua posição: “É uma festa de 15 anos, não de 5”.
Tudo bem filha velha, mas eu já vi festas de 15, ou 16 anos com o tema “A Bela e a Fera” e as adolescentes pareciam bem felizes.
Nessie também tinha acrescentado seu próprio e-mail e número de celular junto aos meus, e umas porcarias para a alimentação de seus convidados. Aquilo não estava nem um pouco correto! Coloquei minhas próprias observações a respeito de suas escolhas e deixei a folha em seu quarto antes de finalizar meus “vistos”.
26 de janeiro, 14:20h, Bella’s Festas
─ E então é isso, o meu pai chatão aqui acha que é legal encher minha festa de “comidas saudáveis” ─ Nessie terminava de resmungar à Bella sobre nossa falta de consenso em decidir a alimentação a ser servida durante sua festa.
Bella parecia estar reprimindo o riso enquanto nos observava em nossa pequena discussão. Em seus olhos, porém, estava claro com quem ela concordava – e não era comigo.
─ Poxa vida, é uma festa, quem é que espera comer coisas saudáveis numa festa? ─ Vanessa continuava a reclamar.
Revirei meus olhos e sabia que seria voto vencido assim que Bella abrisse a boca. Sabia que ela me convenceria num piscar de olhos – ou estalar de dedos – a ceder em prol das decisões da minha filha.
─ Edward... ─ começou ela, com seu tom de voz mais gracioso ─ Não é que eu não concorde com você, mas... É uma festa... De adolescentes, aliás, para uma adolescente. Você costumava comer porcarias pelos cantos o tempo todo, por que não deixa a sua filha comê-las por uma noite?
Nessie sorriu, entendendo de que lado Bella estava.
─ Está bem. Deixe as porcarias, mas ainda não entendi como elas se relacionam com a cultura latina ─ resmunguei, gesticulando na direção da folha ─ Achei que escolheria coisas mais temáticas ─ dirigi a última parte para minha filha.
─ Eu só não queria deixar mais espaço para as suas ideias mirabolantes. ─ Nessie ergueu o queixo em desafio e Bella deu uma risada ─ Aliás, não entendi até agora por que você colocou “Margaridas” ali na decoração.
Sim, ela não tinha entendido – e havia deixado bastante claro com sua seta acompanhada de pontos de interrogação. E ela continuaria sem entender. Bella me encarava com certa diversão no olhar – e antes que pudesse me perguntar o motivo, ela se desviou para Vanessa:
─ Margaridas representam as donzelas, a paz, a bondade, o afeto e a pureza. É um significado bonito, para uma flor igualmente bela.
─ Você só pode estar de brincadeira! ─ Vanessa exclamou e olhou para mim com os olhos estreitos. Encolhi-me na cadeira com seu tom intimidante até me lembrar de que eu era o seu pai.
─ Como você sabia? ─ perguntei à Bella, surpreso por seu conhecimento em flores.
─ São as minhas flores preferidas ─ respondeu, e sorri ao ver suas bochechas se tornando vermelhas pela primeira vez naquela tarde.
─ Ah... ─ eu estava meio sem graça por não me lembrar daquilo.
Havia uma memória, há muito escondida, de seu aniversário de 15 anos, o último que presenciei antes de me mudar para Port Angeles, em que Emmett lhe dera um buquê imenso de margaridas brancas – eu tinha tantos motivos para desacreditar em sua “apenas amizade”! Acho que, inconscientemente, eu havia querido que Vanessa fosse tão boa e pura quanto Bella era naquela época.
─ Suas preferidas, Bella? ─ Nessie pareceu meio intrigada ─ Então pode deixá-las, mas só as brancas para não interferir na paleta de cores.
Porra, ela só concordara com as flores, porque eram as preferidas da Bella? O que diabos Vanessa achava que estava fazendo?
─ Argh, pai! ─ Ela revirou os olhos ─ Com ciúmes da Bella de novo?
Bufei, o que desatou em suas gargalhadas e no olhar surpreso de Bella:
─ De novo?
─ Meu velho achou ruim eu ter deixado você me chamar de Nessie. Não gosto muito que me chamem assim, mas soou carinhoso vindo de você.
─ Ah, e de mim soa como? ─ perguntei meio irritado. Que merda, eu estava mesmo com ciúmes!
─ Como o meu pai tentando me irritar. ─ Vanessa deu de ombros.
Revirei os olhos com sua resposta e passei as mãos pelos cabelos.
─ Sabe que era assim que eu te chamava quando era pequenininha? ─ Bella perguntou, a expressão saudosa em seu rosto me indicando que ela estava mergulhando em suas próprias memórias. Não demorou muito para seu rosto corar de novo, e então balançou a cabeça, como se estivesse voltando para o presente.
Ela certamente se lembrava dela e Emmett. Pensar nos dois juntos se tornava cada vez mais estranho, como se algo em meu peito me dissesse que aquilo não estava – nem nunca estivera – certo. A cada segundo que passava em seu escritório, era como se uma nova porta se abrisse entre nós, e eu me sentia aquecido só de imaginar o que aconteceria quando já tivéssemos aberto todas elas.
─ Você é uma fofa, Bella ─ Nessie murmurou com um sorriso e, novamente o rosto de Bella se aqueceu.
─ Achei que fosse você a adolescente fofa prestes a se transformar numa mulher ─ Bella brincou e eu engasguei com minha própria saliva. Mulher? As duas riram de minha expressão embasbacada e foi a morena linda quem continuou a falar ─ Não é um rito de passagem essa festa?
─ Não? ─ minha resposta em tom de pergunta só serviu para as duas rirem ainda mais de mim, como se estivessem num complô.
─ Mas então, Bella, precisamos combinar sua visita lá na a vó e no vô. E também nossa ida à Seattle ─ Vanessa disse, ignorando completamente o assunto anterior (o que era relativamente positivo porque me dava calafrios só de imaginar que ela estava se tornando uma mulher).
─ Temos mesmo, mas antes... ─ Bella apontou para a folha ─ Temos que terminar isso aqui. Você parece ansiosa demais por essa minha visita aos seus avós.
─ Sim, quero ver você lá... Hum, por nada em especial. ─ Vanessa estava claramente tramando alguma coisa e eu esperava que não envolvesse uma confusão com a sua tia Rosalie.
Bella parecia tão desconfiada quanto eu, mas voltou-se para o nosso quase- contrato. Assim que concordamos com a maioria das coisas – inclusive com o acréscimo da alimentação, Bella começou a digitar nossas opções em seu computador e, logo, imprimiu duas cópias do contrato pronto.
─ Como suas opções de comida são bem específicas, vou ter que verificar com o meu fornecedor se ele tem como fazê-las e também os preços ─ explicou ela ─ Vou deixar esse com vocês... ─ Apontou para uma das folhas ─ E assim que tiver os preços, ligo para... Qualquer um dos dois, daí nos encontramos novamente e vocês assinam tudo.
─ Tudo bem, Bella. Mas dependendo da hora ligue para o meu pai, pois ele tem mais tempo disponível ─ Vanessa teve a audácia de dizer.
─ Quem é que passa horas trabalhando, mesmo? ─ resmunguei.
─ A Bella, disso eu tenho certeza ─ ela me provocou e me mostrou a língua ─ Por falar nisso, Bella, se tiver algum tempo disponível essa semana, o meu pai precisa de companhia para o almoço na sexta-feira. Vou para a Bree novamente para terminarmos o Projeto, então vamos todos almoçar lá na tia Angie.
─ Como é? Tá achando que vai ficar indo pra casa da Bree o tempo todo, é? Nada disso, marca esse trabalho lá em casa que quero ficar bem de olho em vocês ─ ordenei ─ Almocem lá em casa.
Vi as bochechas de Nessie corando enquanto uma expressão de raiva assumia o seu rosto e meneava com a cabeça na direção de Bella. Não que eu não quisesse almoçar com ela... Eu queria? A morena mordia o lábio inferior ao fitar a própria mesa. Ah, merda, ela estava achando que eu não queria a companhia dela, só podia ser, pela minha reação!
─ Bella, teria algum problema você organizar esse bendito almoço lá em casa? ─ perguntei ─ Aí... Você aproveita e come lá com a gente ─ completei, sorrindo quando vi seu rosto corado voltando a me encarar. Ela assentiu rapidamente e, ainda sem dizer uma palavra, pegou outra folha e escreveu algo antes de nos mostrar suas ideias.
1º de fevereiro, 07:35h, Varanda do Edward e da Nessie
─ Obrigado por passar aqui esse horário, Bella, e pela ajuda com hoje. Pode vir a hora que quiser para organizar tudo ─ falei para ela, após trancar a porta de casa e entregar-lhe a chave.
─ Não há de quê ─ Bella disse baixinho e arrepiei-me quando meus dedos roçaram na palma macia de sua mão direita. Suas bochechas, como de costume, ficaram adoravelmente coradas e ela se afastou rapidamente, como se meu toque a deixasse desconfortável (o que provavelmente era o caso, se ele a fizesse se lembrar de meu irmão).
Ela cruzou os braços, talvez, numa tentativa de se aquecer do frio matinal – Bella vestia apenas uma blusa de mangas compridas – mas aquilo só atraiu meus olhos para o seu busto – cujos faróis começavam a se acender e precisei me esforçar para ignorá-los. Suas coxas e seus quadris estavam mais largos do que antes – ou assim eu achava, porque nunca tinha parado para olhá-la com tanta atenção –, mas seus pezinhos eram pequenos e delicados – como pude notar pelo tamanho de seus tênis. Quando voltei minha atenção para o seu rosto, Bella estava com o cenho franzido, mas mantinha os braços ainda cruzados. Apesar de alguns centímetros de distância nos separarem, eu consegui enxergar sardinhas em seu rosto e pude notar como seus lábios quase formavam um perfeito coração. Quando foi que ela tinha crescido tanto?
Da primeira vez que nos reencontramos, já tinha notado sua transformação em uma mulher, mas, comparando com aquele dia, parecera superficial demais. Não pude resistir e, quando vi, minha mão direita já tocava seu rosto suavemente. Era ainda mais macio do que sua mão e logo se aquecia com o seu rubor. Seus olhos castanhos se arregalaram em surpresa, mas conforme Bella se acostumava com o meu toque, foram se fechando até ela mesma inclinar a cabeça em direção aos meus carinhos. Porque era impossível não acariciar sua pele. Era impossível não me atentar à mulher linda à minha frente, ainda que fosse errado desejar alguém que já tivesse pertencido ao meu irmão. Desejar? Eu estava desejando aquela meni...
Mulher! Ela já era uma mulher! Seus lábios rosados estavam entreabertos e mal notei como havíamos nos aproximado fisicamente; conseguia sentir perfeitamente o seu perfume de morangos – aquilo não tinha mudado desde a adolescência – e seu hálito de pasta de hortelã. Algo inexplicável quase explodiu dentro de mim – era como se eu sentisse pequenos fogos de artifício em meu estômago – quando Bella sussurrou o meu nome. Se eu me inclinasse – só um pouco – poderia calá-la com meus próprios lábios, mas além de rude, seria inapropriado. Estaríamos, os dois, manchando a memória de seu passado com Emmett; talvez, ela mesma estivesse confundindo tudo. Eu não era o meu irmão, e jamais poderia lhe dar a vida que ele a teria dado.
Eu já era pai, era bem mais velho, e tinha muito mais responsabilidades. Não seria justo fazê-la arcar com as consequências das minhas escolhas. Roubei um beijo em sua bochecha e ela suspirou ao mesmo tempo em que, novamente, me permitia ver a imensidão chocolate de seus olhos. Uma buzina nos despertou e franzi o cenho ao olhar para um carro estacionado ao meio-fio junto ao meu.
─ Mas que caralhos! ─ Vanessa xingou ao tentar abrir a porta do lado de dentro. Ops, acho que eu tinha trancado a porta cedo demais! ─ Cadê a droga da minha chave?
Bella, mais rápida do que eu, colocou a chave na fechadura e abriu a porta.
─ Mas o que... Ah, oi, Bella, você por aqui tão cedo! ─ Vanessa sorriu e abraçou-a apertado. Não era algo que ela (ou eu) estivéssemos esperando.
─ Oi, Nessie ─ Bella murmurou, afagando as costas de minha filha ─ É sua carona?
─ Sim, já que o meu velho vai buscar a gente na escola, a tia Angie vai nos levar.
Bufei com o “meu velho” e as duas riram.
─ Então vai lá para não se atrasar ─ disse Bella e deu um beijo carinhoso na testa de Vanessa, cujos olhinhos brilharam enquanto fitavam os da morena.
─ A gente se vê depois, então ─ Nessie murmurou e Bella assentiu ─ Tchau pai! ─ Ela ficou na ponta dos pés para beijar minha bochecha e, sem nem esperar minha resposta, saiu correndo em direção ao carro.
─ Acho melhor a gente ir, não quero te atrasar ─ disse Bella, tornando a trancar a porta e colocando a chave em sua pequena bolsa transversal.
─ Concordo, ainda tenho que bater o ponto. ─ Pisquei para ela, que voltou a corar. Era engraçado ver como Bella ficava vermelha com pequenos gestos meus ─ Como chegou aqui? ─ perguntei, só então percebendo que não havia outro carro, além do meu, na rua.
─ Hum... Pedi um carro de aplicativo ─ respondeu-me.
Suspirei, certificando-me do horário em meu celular:
─ Se você me garantir que seu pai não me dará uma multa, posso te deixar no escritório ─ brinquei. O pai de Bella era Charlie Swan, o chefe de Polícia da cidade e piadas sobre ele nos prendendo durante a adolescência era o que não faltavam naquela época.
─ Não precisa se incomodar ─ disse Bella, depois de dar uma risada.
─ Não será incômodo algum, venha! ─ E antes que pudesse me conter, estava lhe oferecendo minha mão direita. Bella hesitou e eu já ia inventar um gesto estranho para disfarçar, quando ela colocou a mão dela na minha. Arrepiei-me novamente, mas precisava admitir que estava gostando da sensação.
Guiei-a até meu carro e abri a porta do carona para ela, que sorriu em agradecimento. Talvez estivesse ficando meio louco, mas não me negaria a levá-la todos os dias ao trabalho, se me rendesse mais sorrisos como aquele.
13:30h, Sala de Estar do Edward e da Nessie
─ Sabe... Eu estou realmente surpreso, achei que ia pegar a comida com o seu fornecedor, não fazê-la ─ disse à Bella, saboreando o frango à parmegiana que ela havia preparado. Estava perfeitamente delicioso; ela realmente não podia negar suas raízes italianas!
─ Hum, não é assim que funciona, sabe? Precisaria de mais tempo para contatá-lo ─ admitiu ela, dando um pequeno sorriso que combinava com suas bochechas vermelhas de constrangimento.
─ E por que aceitou fazer essa organização? ─ perguntei. Queria saber mais; talvez, ela estivesse tentando se aproximar de nós como uma desculpa para retomar seu relacionamento com Emmett. Duvidava que funcionasse, pois ele e Rose eram como uma coisa só, mas como poderia ter certezas?
─ Gosto de vocês ─ ela respondeu e bebericou seu suco de uva ─ Passei tantos anos longe, e achei que seria legal passar um tempo a mais com vocês... Fora da organização da festa da Nessie.
Ah, Bella era tão adorável!
─ É um ótimo motivo ─ murmurei. Ainda achava que parte de sua resposta envolvia, indiretamente, o meu irmão mais novo, mas ela não o havia citado (e sabia que ele era casado, então talvez estivesse sendo eu a trocar as bolas. Bella não era de cobiçar o homem alheio).
─ Toma aqui, vocês dois. Tinha comprado um pra cada, mas a Maggie comeu dois, então vocês vão ter que dividir ─ Nessie surgiu do nada, nos oferecendo um pão de mel que eu sabia ser vendido por uma de suas colegas na escola. Vanessa estava, anteriormente, almoçando (ou melhor, fazendo uma algazarra) junto de seus amigos na mesa da cozinha (que era pequena demais para 8 pessoas, e por isso eu e Bella estávamos na sala).
─ Obrigada, Nessie! ─ Bella agradeceu, pegando a casquinha de chocolate envolta num saquinho plástico.
─ E sabe, eu tava pensando em encomendar alguns pra minha festa, o que você acha, Bella?
─ Isso aí é com o seu pai. ─ Bella meneou com a cabeça em minha direção ─ É um gasto a mais que não posso aceitar, ou recusar.
─ Faça o que quiser ─ disse à minha baixinha. Já tinha provado aqueles pães de mel algumas vezes e eles eram muito saborosos ─ Mas vê se ela não pode fazer um preço de atacado, meu bolso agradece.
Nessie deu uma risadinha e me agradeceu antes de me abraçar pelo pescoço e beijar minha testa. Toda aquela organização de festa a tinha deixado estranhamente mais carinhosa, mas eu jamais reclamaria de suas demonstrações de afeto.
─ E aquele perfume de mulher no seu carro hoje, hein? ─ Ela me perguntou e se sentou no braço do sofá, ao meu lado, com um sorrisinho besta no rosto. Do meu outro lado, senti Bella tensionar ao passo em que seus olhos se arregalaram ligeiramente.
─ Que? ─ Nessie estava doida?
─ No banco da frente, ué ─ minha filha retrucou ─ Senti quando você foi nos buscar. Você tá me escondendo alguém? Tá namorando e não me contou?
─ Quanta besteira, criatura! É claro que não! ─ Revirei meus olhos ─ A única mulher que esteve em meu carro hoje foi a Bella, levei-a até o escritório dela antes do meu expediente.
─ Aaaah, agora entendi ─ Nessie falou, o mesmo sorrisinho provocativo nos lábios ─ Bella, você é muito cheirosa. Se papai tivesse uma namorada, com certeza teria ficado com ciúmes de você, mas como ele não tem... Eu acho, então pode ficar com ele, você mesma!
E ela saiu, soltando aquelas palavras em formato de elefante – que nos deixou encabulados por bons minutos. Foi Bella, sempre a corajosa, que tocou no assunto:
─ Namoradas?
Balancei a cabeça negativamente antes de olhá-la; Bella me esboçou um sorriso e então suspirou e jogou a cabeça no encosto do sofá de maneira dramática, como se soubesse que lhe devolveria a pergunta. E eu devolvi.
─ Não gosto de meninas desse jeito ─ ela brincou. Com mais um suspiro, contou-me que ainda estava solteira.
Ainda, como se realmente não tivesse namorado meu irmão. E ela ficou bem irritada quando voltei a questioná-la sobre ele:
─ Edward! Quantas vezes eu e Emm precisaremos negar que já estivemos juntos? Não faz o menor sentido as pessoas não acreditarem na gente!
─ É que Bella, vocês viviam grudados. Preciso te lembrar quanto tempo vocês passavam juntos no quarto dele?
─ Puta que pariu! ─ Ela revirou os olhos, mas suas bochechas coradas me mostravam que estava constrangida com o tema ─ Estou solteira, Edward, desde sempre, nunca namorei. O cara que eu gostava, na época da escola, não queria nada comigo, tá bom?
─ Oh! ─ Daquilo eu nunca soubera! ─ Quem era o idiota?
Bella suspirou e negou com a cabeça. Ela jamais me revelaria um segredo daqueles, eu sabia, mas não custava nada tentar.
─ E ele não era idiota, só não estava interessado. Não se pode obrigar uma pessoa a gostar da outra, não é?
─ Depende do ponto de vista ─ murmurei e ela me olhou com uma expressão surpresa ─ Você tem todo o direito de não gostar de uma pessoa, mas não pode ser babaca com ela. Se esse cara foi rude com você, quando recusou os seus sentimentos, então ele foi sim, idiota.
─ Ele não recusou ─ Bella disse baixinho e baixou os olhos para o seu prato, já vazio, enquanto corava novamente.
─ Então... Estou confuso aqui, Bella, como sabe que ele não queria nada com você? ─ perguntei, curioso. Talvez, uma de suas amigas tivesse descoberto por ela, mas não parecia o caso. E não era difícil perceber como Bella era querida, em diversos aspectos, em sua época do colegial. Ainda que eu estivesse longe, na época, era fácil saber o que se passava numa cidade tão minúscula quanto Forks.
─ Ele era mais velho, mais experiente, mais... Tudo ─ murmurou e percebi que sua voz estava um pouco embargada (e seu rosto ficou ainda mais vermelho). Ela fechou os olhos com força por alguns instantes e só voltou a abri-los, percebi, quando teve certeza de que não choraria na minha frente. Descrevia-me um clichê: a adolescente sonhadora que se apaixonava por um cara com, talvez, o dobro de sua idade que lhe promete mundos e fundos, mas, na realidade, só quer uma coisa dela: sua inocência. Estava grato, de certa forma, por Bella não ter caído nos encantos de sua paixonite, embora ela claramente ainda se afetasse com suas lembranças.
─ Tenho certeza de que foi melhor assim, Bella. Esse tipo de relacionamento geralmente não dá certo ─ falei, aproveitando que já tínhamos certa intimidade para pegar em sua mão (que estava sobre uma das almofadas) e afagá-la.
─ Talvez você tenha razão ─ ela continuou em falando em tom baixo e forçou um sorriso.
Foi quando um “psiu” seguindo de um “ai” ressoou pela sala que percebemos que a barulhada vinda anteriormente da cozinha tinha se cessado já há algum tempo. O que aqueles aborrecentes estavam aprontando?
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