14º DP
4 Capítulo 04
Notas iniciais
Dimitri deixou Erik em sua casa, grato pelo amigo não ter insistido em falar sobre sua parceira de trabalho no trajeto.
“Até segunda cara!” – Exclamou Erik acenando para o amigo. Dimitri retribuiu o gesto e acelerou com o carro. Seriam longos vinte minutos até seu apartamento, mas tinha certeza que ao chegar iria dormir até seus olhos dobrarem de tamanho.
Realmente, lá estava ele, esparramado em sua cama de casal ás duas horas da manhã com os olhos o dobro do tamanho de insônia.
Dimitri se revirou em sua cama e sem perceber que estava próximo demais da beirada acabou caindo no chão.
“Droga!” – Xingou baixinho.
Ele apoiou um dos braços na beirada da cama e se ergueu lentamente. Não adiantava ficar na cama fritando como um ovo, então, a passos pesados foi até a cozinha e se sentou á pequena mesa de jantar, olhando pela janela a rua que parecia estranhamente soturna. Não pode deixar de conter um suspiro melancólico e esfregar os olhos cansados, mas que teimavam em traí-lo, não o deixando dormir.
Foi entre esse único segundo em que Dimitri esfregou os olhos que, ao retornar a observar a rua, uma figura apareceu sob a luz do poste da calçada ao outro lado. Foi impossível não se assustar. A figura tinha a forma de um homem, alto, de sobretudo escuro, óculos escuros e Dimitri teve certeza após a observar por alguns segundos que ela estava ali, parada, o observando.
Dentro de si uma mistura de desconforto, curiosidade e receio o preenchia.
A figura começou a marchar rumo a entrada do prédio de Dimitri e ele permaneceu a observando. Quando ela sumiu de vista, ele correu até seu coldre e pegou sua pistola. Se aquela pessoa viesse atrás dele, ele não estaria parado esperando para ser pego.
Então Dimitri se posicionou ao lado a porta com sua arma em mãos e esperou. E esperou. E esperou. Quando deu-se por si, tinha sentado ao lado da porta e adormecido totalmente. Acordou ás sete da manhã com um envelope pardo próximo á sua mão. Aquela era a hora em que o zelador passava fazendo a entrega das cartas do final de semana.
Dimitri se sentiu atordoado, confuso e dolorido. Sua coluna e cóccix com toda certeza estavam avariados pela madrugada mal dormida, sem falar em sua nuca e pernas. Tentou se apoiar nas mãos para se levantar e percebeu que segurava sua arma, então, como um lampejo em sua mente a imagem da figura estranha da noite passada o lembrou do por que estava ali.
Ansiedade tomou conta de seu coração ao notar o envelope pardo ao seu lado. Tomou-o em mãos e caminhou a passos trôpegos até a mesa de jantar. Por um momento hesitou em abrir ou não aquilo. Ele não fazia ideia do conteúdo ou intenção e a lembrança da figura estranha da noite passada ainda o perturbava, mas sua curiosidade sempre o vencia – disso ele tinha plena consciência.
Então, sem mais delongas ele abriu o envelope e tirou seu conteúdo para ver do que se travava.
“Dossiê Aghata Rutier...” – leu em um meio sussurro. “Caro leitor, gostaria de adverti-lo que o conteúdo que segue as próximas páginas é de profundo valor sentimental para a já nomeada Aghata Rutier, portanto, é recomendado cautela no processo de avaliação do mesmo. PS.: Ela provavelmente irá te odiar para sempre quando descobrir que você o leu. Aconselho queimá-lo em seguida.”
Dimitri encarou as folhas A4 em suas mãos, desconfiado. Logo a desconfiança se transformou em irritação. Ele jogou o bloco de folhas sobre a mesa e se levantou sem perceber que algo havia caído de dentro dele. Dirigiu-se ao banheiro e tomou uma ducha para relaxar o corpo rígido da noite mal dormida.
Vestiu jeans e camiseta e olhou no relógio. Eram quase oito horas. Alice chegaria ás nove e ele não tinha se quer tomado café ainda. Tomou o dossiê em mãos e o colocou de volta no envelope pardo. Decidiu que o melhor seria trancá-lo no fundo da gaveta de seu quarto.
Alice chegou mais cedo, completamente feliz por poder finalmente passar o final de semana com o pai. A menina mal se despediu da mãe, que também parecia aliviada de deixá-la sob a responsabilidade de outro.
“Já tomou café?” – Perguntou Dimitri, enquanto a filha o envolvia em um abraço super apertado.
“Não, pai. Tinha acordado sem fome. Podemos comer as panquecas do Gatuno?” – Respondeu ela, sem soltá-lo do abraço e o olhando com os olhos chorões.
Dimitri olhou no relógio: 08:15 – ela não estaria lá a essa hora, estaria? No fundo um pequeno desconforto agitou-se á boca de seu estomago e a lembrança do envelope pardo cruzou sua mente.
“Pai? Está meio distraído.” – Disse Alice, o chamando para a realidade.
“Hum? Ah, desculpe. Não dormi muito bem hoje.” – Respondeu ele.
“Então? Vamos ao Gatuno?” – Diante dos olhos brilhantes de Alice ele não pode negar. Suspirou e disse para ela ir descendo as escadas, enquanto ele pegava as chaves do carro.
O percurso até o Gatuno foi animado, pelo menos da parte de Alice. Logo ela estaria fazendo dez anos e nunca foi segredo que seu pai é seu tesouro, então, cada segundo com ele a completava. Ela contou sobre a escola, as amigas, as atividades na escola de música... O problema é que Dimitri estava tendo dificuldades de acompanhar o discurso da filha, que de boba não tinha nada.
“Pai, o que está te preocupando?” – Soltou ela, assim que o carro parou frente ao restaurante lanchonete preferido da pequena.
Dimitri já tinha dificuldade em dissimular para as pessoas num geral, para sua filha quase sempre era um fracasso garantido. Mas aquilo não era assunto para crianças.
“Nada, querida. Apenas o trabalho de sempre.” – Respondeu ele, desligando o carro.
No final das contas, não era mentira.
Alice fingiu dar-se por satisfeita e decidiu que faria de tudo para que o pai relaxasse naquele dia. A tarefa se tornou mais fácil assim que Dimitri constatou que Aghata não estava ali.
“Olha quem veio me visitar!” – Exclamou a senhora Stello com os braços abertos para Alice que retribuiu o gesto com um abraço apertado e um beijo na bochecha da senhora.
Dimitri sorriu com a cena. Era muito bom ver como a filha era calorosa com todos ao redor. Alice era seu tesouro precioso e não havia ninguém que ele amasse mais.
Ambos se sentaram no balcão e Alice não se conteve em pedir suas amadas panquecas doces o mais rápido possível. Quem os atendeu fora Marcus, o caçula da família e amigo mais próximo de Aghata, ou algo assim na perspectiva de Aghata sobre relacionamentos interpessoais— pensou Dimitri.
“E ai cara? Parece cansado.” – Comentou Marcus enquanto colocava o prato de panquecas para Alice e uma caneca bem grande de café preto para Dimitri sobre o balcão.
Dimitri ainda não sabia como classificar Marcus em seu círculo social, mas especialmente naquela manhã toda aquela animação usual que o rapaz sempre exibia e o carisma exacerbado o estava fazendo sentir arranhar a boca do estomago. Seu humor não estava dos melhores, mesmo se esmerando para se controlar em prol de Alice.
“Muito trabalho.” – Respondeu Dimitri com a voz um pouco grave demais, e sem olhar nos olhos de Marcus.
Marcus se orgulhava de ser razoavelmente sensitivo com respeito ao humor das outras pessoas e percebeu o quanto Dimitri estava se esforçando para manter uma parede invisível entre os dois. O que a maioria das pessoas não conseguia identificar sob todo o carisma que emanava de Marcus era o leve sadismo que ele adestrava dentro de si, se deliciando ao ver até onde elas iriam quando postas sob pressão.
“Ah! Eu imagino! Ontem à noite, quando fui ao apartamento de Aghata ela não parecia muito bem também.” – Respondeu Marcus com seu tom casual e uma leve ponta de preocupação.
Por fora a expressão de Marcus passava a ideia que ele realmente compreendia o quanto a rotina da labuta podia ser cansativa e qualquer pessoa se identificaria com ele e se sentiria compelida a compartilhar de seus martírios no trabalho. Marcus cumpria eximiamente seu papel de bar tender.
Mas mesmo sem saber exatamente por que, Dimitri especialmente naquela manhã de sábado estava ainda mais avesso aos bons tratos do rapaz encantador de pessoas do que o normal. Ele não fazia ideia de como interiormente Marcus se deliciava ao observar pessoas e manipular seus sentimentos e reações, mas algo dentro de si se agitava e o fazia recusar a empatia do mesmo.
“Tia Aghata está doente?” – Disse a pequena Alice, preocupada.
“Ela não está doente, querida. Apenas cansada. Assim como o papai.”- Se apressou em responder Dimitri, passando a mão sobre os cabelos sedosos da menina. “Tenho certeza que ela esta descansando agora.” – E sorriu para a filha, tentando passar segurança. Mas Alice era muito mais difícil de convencer do que o pai; e esse traço ele sabia que vinha da mãe.
“Tia Aghata não é assim, pai. O senhor sabe que ela não sabe os próprios limites.” – Rebateu a menina, fazendo Dimitri e Marcus erguerem as sobrancelhas surpresos com a postura adulta da pequena.
Marcus riu e Dimitri passou as mãos no rosto, suspirando pesadamente.
“Eu sei que já disse isso, mas você é muito esperta para sua idade, Alice.” – Disse Marcus, sorrindo para a menina, que se aprumou na cadeira cheia de si.
Mentalmente Dimitri fez uma lista de quantas vezes Marcus o havia sentir arranhar a boca do estomago naquela manhã, mas repreendeu a si mesmo por ser tão cismado, reprimindo sua voz interior que lhe gritava aos ouvidos que o mesmo havia citado Aghata propositalmente e escolhido as palavras a dedo para o provocar ao dizer que fora vê-la de noite em seu apartamento.
“Papai.” – Chamou Alice, o tirando de suas considerações interiores. “Vamos ver Tia Aghata depois daqui?”
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