14º DP

1 Capítulo 01


Notas iniciais
Degustem, amados leitores... Suas opiniões, sugestões e críticas são mais do que bem-vindas!

Ela passou as últimas duas horas e vinte e três minutos sentada a frente do notebook. Entre um suspiro de frustração e o olhar perdido no nada, finalmente se rendeu segurando a cabeça com as mãos e fitando o teclado infrutífero. Cabeça baixa, peito inquieto. Esse era outro dia vazio.

E ela estava se consumindo naquele vazio.

Era como se a solução fosse quase palpável, a milímetros de distância e ela simplesmente não fosse capaz de alcançar. Incapaz de se mover, compreender.

O celular sobre a mesa vibrou discretamente e a tela de bloqueio se acendeu. Outra mensagem dele. Mas ela não iria responder.

Ainda prostrada sobre o teclado infrutífero deu uma olhada para checar o teor da mensagem. O mesmo das outras três anteriores. E ela não iria responder.

Não hoje.

Dento de si percebeu que por mais que incendiasse o teclado de tanto olhá-lo, nada mudaria. Então, levantou a cabeça e decidiu que tinha que tomar banho.

Debaixo de sua ducha da redenção começou a repassar cada momento, cada situação, pista, depoimento, laudo... Tudo. E, então, foi como se algo estalasse dentro de si. Um clique suave. A solução.

“Eureka!” – Gritou, socando o ar a sua frente.

Ela deveria mudar o nome de sua ducha para ducha da salvação.

—***-

Ele a conhecia o suficiente para saber que poderia mandar vinte mensagens seguidas, talvez ligar outras tantas vezes, mas ela não iria atender. Não hoje.

E isso é exatamente o que o deixa ainda mais frustrado.

Jogado no sofá, trocando de canal sistematicamente, olhou novamente para o celular também jogado ao seu lado. Pensou em enviar outra mensagem. E desistiu em seguida. Se havia alguém tão teimoso quanto ele mesmo era, esse alguém era ela. Bufou ainda mais frustrado.

Foi então que ouviu o som da campainha. Quem seria àquela hora da noite?

Pegou sua 9 milímetros, “só por precaução”, e caminhou até a porta de entrada. A campainha soou insistentemente mais uma vez.

“Quem é?!” – indagou encostado na parede ao lado da porta.

“Abra a porta, Hewns!”

“Inacreditável.” – Resmungou ele, relaxando o corpo e abrindo a porta.

“Você poderia ter avisado que estava vindo. Ou pelo menos respondido minhas mensagens.” – Continuou, encarando-a irritado.

“Sem sentimentos, Hewns. Temos que ir.” – Respondeu ela, fria como sempre.

“Ir? Ir aonde? São duas horas da madrugada!”

“Exatamente. Nós já estamos atrasados se quisermos chegar á tempo. Pegue seu casaco. Lá fora está um gelo. E guarde sua arma, se eu quisesse matá-lo, não faria desse jeito.”

Ele a fuzilou com o olhar e pensou em simplesmente mandá-la ir embora. Bater a porta na cara dela para ser mais exato. E ignorá-la. Ignorá-la pelo resto da eternidade.

AH... Como ele gostaria de ser dramático.

Entretanto, bufando, fez exatamente o contrário. Colocou a arma no coldre, vestiu o casaco, guardou o distintivo no bolso interno do casaco e fechou a porta do pequeno apartamento.

“Aonde vamos?” – Tinha que perguntar, mesmo que contrariado pela atitude de sua parceira, ele reconhecia que ela estava certa. Se Aghata estava ali, àquela hora, só podia significar que ela havia descoberto algo muito importante para o caso dos Bankers e, por isso, realmente não era hora para sentimentalismo.

“Estação Central. O desgraçado está fugindo.” – Respondeu ela, olhando para frente e segurando firme no volante.

Esse caso tinha mexido com ela. Ele não sabia direito o porquê ainda, mas já tinha percebido. Aghata sempre fora obstinada nas resoluções dos casos. Uma amante da justiça. Ninguém poderia negar que apesar de seu gênio um pouco autoritário ela tem paixão pelo o que faz. Mas com os Bankers é diferente. Há um brilho no olhar, quase como se houvesse uma obsessão por detrás de tudo.

“Quem está fugindo?” – Perguntou ele, ainda tentando descobrir o raciocínio dela.

“Jonnathan.” – Ela praticamente cuspiu o nome.

Por dentro, ele soube que esse é a causa da quase obsessão de Aghata pela resolução desse caso. A família Banker é uma família tradicional de Irnun (capital de Koity, maior estado do país de Sanaeda) dona da indústria têxtil local. Uma família de prestígio. Jonnathan Louis é o responsável pelas transações da empresa com o exterior e Aghata tem certeza que é ele o responsável pelo sumiço de mais de duas toneladas de mercadoria com destino à Ringsten, país vizinho de Sanaeda e principal importador das indústrias Banker.

O problema é que não há sequer uma pista que aponte Jonnathan como culpado. Todas as informações, depoimentos, laudos de laboratório não deram quase nada, e então, Katarina Suen, superintendente de contas das indústrias decide confessar o esquema de desvio de dinheiro que ela própria havia arquitetado para fazer um verdadeiro rombo nos caixas da empresa e fugir para as Ilhas Collumbia, no arquipélago de Juannes, um paraíso fiscal numa das regiões tropicais mais lindas do mundo.

Portanto, às 18:25 da tarde de ontem, o caso foi dado como encerrado. Katarina foi presa como réu confessa e a família Banker perdeu um terço de seu patrimônio líquido, pois, segundo Katarina, o dinheiro já havia sido transferido e ela não tinha mais acesso à conta.

O roubo do contêiner com as mercadorias seria apenas uma distração para ela conseguir finalizar seu plano.

Mas, então, porque confessar? Bom, segundo ela própria, a morte de seu chefe e antigo dono das indústrias Banker por infarto decorrente do estresse dos acontecimentos, Peter Banker, fez com ela se arrependesse profundamente do que fez.

“Sr. Banker era como um pai para mim. Eu só queria o dinheiro, não que ele morresse. Inclusive, tudo foi arquitetado para que as empresas conseguissem continuar, mesmo após o roubo.” – Declarou ela, com os olhos marejados e a voz embargada.

Após ouvir o depoimento de Katarina, Aghata foi embora sem dizer uma palavra. Na saída da delegacia teve um encontro com Jonnathan que, segundo os pensamentos dela, esbanjava cinismo, satisfação disfarçada e falso horror pela resolução do caso.

Na manhã do dia anterior à Katarina confessar, havia sido o enterro de Peter Banker. Ambos os detetives estavam presentes, assim como a família, os grandes portais da mídia de Irnun, os funcionários das Indústrias Bankers e suas respectivas famílias, Jonnathan Louis e Katarina Suen. Um portentoso evento, assim pode-se dizer.

Dimitri Hewns percebeu que sua parceira não tirava os olhos desconfiados de Jonnathan Louis nem por um instante. E por baixo dos óculos escuros, o olhar dela era como do caçador com sede de sua presa.

“Ele está indo para as Ilhas Collumbia?” – Dimitri perguntou a Aghata, que furara todos os faróis vermelhos que podia e não podia. Eles já estavam a uma quadra de distância da Estação.

“Não. Ele está indo para outro lugar.” – Respondeu ela, estacionando bruscamente frente á grandiosa estação de trem.

Aghata saiu do carro batendo a porta e Dimitri teve de apertar o passo para alcançá-la.

“Fique de olho, ele está por aqui em algum lugar e se não o pegarmos agora, ele vai sumir com a fortuna dos Bankers.” – Disse ela, olhando ao redor.

A Estação estava relativamente cheia. Apesar do horário, Irnun é uma cidade que não pára, além de que é o elo do país com todas as linhas ferroviárias que cortam as terras de Sanaeda.

Ambos correram até o guichê principal.

“Departamento de Polícia de Irnun! Precisamos saber em qual trem Jonnathan Loius está!” – Declarou Dimitri para a atendente, colocando o distintivo sobre o balcão de atendimento.

“Um momento.” – Disse a moça, digitando rapidamente em seu sistema o nome de Jonnathan.

Aghata não tirava os olhos do painel principal que informava o horário e destino dos trens, tentando descobrir para onde o desgraçado poderia estar indo.

“Temos um problema, senhor.” – A atendente parecia confusa.

“Qual problema?” – Indagou Aghata, irritada.

“Há duas passagens só de ida com destinos distintos em nome de Jonnathan Louis Hedi. Ambas com saída em quinze minutos.” – Respondeu a moça.

“Plataforma de saída e destino, por favor.” – Requereu Aghata.

“Plataforma 3, trem com destino ao leste do país, parada final em Fourtine, poltrona 45B; e Platafroma 9, trem com destino ao sul do país, Parada final em Portdiem, poltrona 78A.”

A detetive saiu correndo em direção a plataforma 9, exclamando para que seu parceiro fosse para a outra plataforma. Ele também saiu em disparada, mas desconfiado da escolha da parceira. A escolha mais acertada para ela que queria tanto pegar Jonnathan com certeza seria a Plataforma com destino ao leste do país.

Principalmente pela parada final ser em Fourtine, a principal cidade fronteiriça de Sanaeda, que dá acesso a três países distintos por terra e ainda mais rotas de fuga por via aérea. Ao sul, tudo o que Jonnathan teria como rota de fuga seria o porto de Portdiem, uma rota muito mais limitada do que o aeroporto de Fourtine.

No caminho, Dimitri sentiu por instinto que a colega estava certa e que ele tinha que ir atrás dela. Aghata não erraria dessa forma. Ela o tinha enviado de propósito para o outro lado. E ele sabia que isso não cheirava nada bem.

Levou a mão ao coldre e percebeu que sua arma não estava lá. Aquela foi a confirmação de que Aghata não estava planejando algo nada bom. Mudou o curso em direção a plataforma 9, correndo com todas as forças para encontrá-la antes que fizesse alguma besteira.

Já na Plataforma 9, Aghata invadiu o trem mostrando o distintivo para o guarda que tentou a impedir. Saiu em disparada rumo à poltrona 45B, segundo vagão, apenas para encontrá-la vazia.

Por um momento, a confusão a abalou. Ela olhou para os lados e viu através da pequena multidão, do outro lado da plataforma, os cabelos loiros de Jonnathan que estava sentado à janela do trem ao lado, olhando fixamente para ela, um sorriso discreto de vitória estampado no rosto.

Ela levou a mão á pistola o encarando com ódio quando o trem dele deu partida ganhando velocidade rapidamente. Ele tinha ganhado. De alguma forma a tinha enganado.

“Aghata!” – Ouviu seu parceiro exclamar. Ele acabará de romper pela porta do vagão e correu até ela, ofegante e alarmado.

“O que raios você pensou em fazer?!” – Continuou ele, irritado.

Mas sua parceira não respondeu. Nem ao menos lhe dirigiu o olhar. Simplesmente jogou a 9 mm furtada do parceiro na poltrona e saiu do vagão.

Dimitri olhou para a arma sobre a poltrona 78A e percebeu que eles tinham falhado. Jonnathan não estava ali. Desceu do vagão e avistou sua parceira do outro lado da plataforma.

“O que aconteceu?” – perguntou ele, assim que a alcançou.

“Para onde o trem que saiu daqui foi?” – Perguntou ela, olhando fixamente para os trilhos abaixo deles.

“O letreiro diz: Trem com destino ao sul de Sanaeda, Parada Final em Perseud. O que aconteceu?”

A detetive não respondeu novamente. Permaneceu olhando fixamente para os trilhos, punho fechados ao lado do corpo, sua raiva era quase uma áurea palpável ao seu redor.

Por fim, ela respirou fundo e olhou para seu parceiro. Parecia outra Aghata para ele.

“Vamos embora.” — Disse ela.

“Como?” – Ele não estava entendendo mais nada.

“Jonnathan não está mais aqui. E já são quase quatro horas da manhã. Se conseguirmos dormir uma hora e meia será muito. Vamos para casa.” – Respondeu ela, serena, quase como estivesse contando como foi a pescaria com a família no final de semana.

“Aghata, você está bem?” – Dimitri estava realmente preocupado.

“Vamos logo.” – Disse ela, virando as costas para ele e caminhando em direção á saída da Estação.