13º Desafio Sherlolly
1 Born to Die
Notas iniciais
__ Você acha mesmo? — Molly perguntou, virando de lado em frente ao espelho. Sorria, mais radiante do que nunca. — Achei que nada estivesse aparecendo, mas você tem razão.
A barriga já estava crescendo. Três meses e meio de gravidez.
__ Eu sempre tenho razão — Sherlock respondeu, afagando a cabeça no travesseiro fofo.
A casa, mais precisamente o quarto, estava sendo banhado pelo sol do domingo de manhã. Fios de luz dourada entravam pela janela, rompendo a escuridão e aquecendo o ambiente. Sherlock, ainda deitado na cama de casal, observava a esposa mudar de posição diversas vezes diante do espelho, apertando a camisola de seda sobre a pele para observar a barriga.
Molly, diante do espelho, estava maravilhada com o que via em seu reflexo. Grávida. Era algo novo – uma sensação inacreditavelmente boa. Veio em excelente hora, já que a legista entrara de férias prolongadas do trabalho uma semana antes de receber a notícia. O resultado do exame saiu em meio a uma crise terrível de enjoo e enxaqueca, e pareceu abrir as nuvens de chuva que rondavam a vida monótona da patologista.
__ E um senso incrível de humildade também, querido – ela disse, voltando a deitar na cama. Beijou o marido entre os lábios levemente, depois levantou e seguiu até a cozinha. – Vai querer chá? – disse. Já sabia que a resposta seria “sim”, mas gostava de ouvi-la saindo da boca do marido.
__ Se você fizer um como o de semana passada, a resposta é sim – ele respondeu, jogando as cobertas para longe.
Colocou os pés descalços no chão, endireitando a coluna e galgando a distância em direção a cozinha. Vestia calças azuis de flanela e uma camiseta branca. Com o robe sobre o pijama, entrou na cozinha sentindo o aroma doce do chá. Molly prendera as longas madeixas ruivas em um coque alto, deixando o pescoço desnudo a mostra. Acabara de colocar a essência na água quente, esperando que se misturassem. Com uma colher, mexia a infusão para que o processo se acelerasse.
__ E então... Como vai o caso da mala? – ela começou, curiosa.
__ Nada demais. É comum, como todos os outros. A mala tem algumas marcas de faca, mas são antigas demais para dizer que quem estava dentro, e que passou 12 horas no bagageiro de um avião, foi morto ali dentro.
__ Apesar de todo o sangue?
__ Apesar do sangue – ele concordou.
__ Mas as marcas no tecido tem os mesmo tamanho das da vítima! – ela disse, tirando a colher do chá. – Não tem outro jeito de...
O telefone tocou na sala. Quem atendeu foi o detetive.
__ Alô?... Ah sim, Sr. Hooper – Sherlock limpou a garganta para falar com o sogro. A voz do Sr. Hooper parecia estristecida, como se algo horrível estivesse acontecendo. – Sim, estamos bem... O bebê? Ele está ótimo... Molly? Ela está me ajudando com o café da manhã... Claro, só um instante.
“Amor, é para você” Sherlock gesticulou com os lábios. Molly largou a colher sobre a mesa, lambeu os dedos – que sujara com alguns biscoitos – e pegou o telefone em mãos. Aproximou-o do rosto, esperando ouvir novamente a voz autoritária e solene do pai.
__ Oi, pai.
__ Molly – o som metálico saiu do autofalante. – Querida, quero que venha para casa.
__ O quê? – ela disse.
__ Aconteceu uma coisa.
“Ai vem bomba” ela concluiu, sentando-se no sofá preto, recostado à parede.
__ O que? Papai, não me esconda nada.
__ É Nádia.
A menção a Nádia a fez empalidecer. Sherlock, que a observava do outro lado do cômodo, sentado em sua poltrona preta, notou que algo de errado estava acontecendo. Molly mordia os lábios enquanto ouvia o pai falar, e olhava para o chão. Algo, de fato, estava errado.
__ Nádia? O que aconteceu com ela? – seu tom de voz aumentou levemente, proporcional as batidas do coração, que se aceleraram absurdamente em menos de um segundo. – Ela está bem? O que ela tem?
__ Ela... ela... – George Hooper choramingou, do outro lado da linha. Ele estava chorando?
__ Pai, se acalma. Primeiro me diz o que aconteceu.
__ Nádia... está morta, Molly.
__ O que? – ela não acreditava.
__ Sim. Nádia está morta.
O barulho do telefone atingindo o chão acordou Buttercup, o gato preto do casal. O detetive se aproximou da companheira, tentando entender o porquê do choque. Molly, inconscientemente, começara a chorar. Muito. Sentia um vazio no peito, uma sensação horrível – como se faltasse alguma coisa, como se algo estivesse quebrado.
Não podia ser verdade. Ela não queria que fosse verdade. Não podia perder Nádia também.
__ Molly, fala comigo – Sherlock implorava, acocorado em sua frente. Os olhos da legista estavam inundados, e ela mal conseguia enxergar o rosto dele em sua frente. – Por favor, meu amor, me responde. O que aconteceu?
O detetive passou a mão pelo telefone, aproximando-o do rosto. A garganta de Molly tentava cuspir uma simples frase, para explicar a Sherlock o motivo da mudança repentina, mas ela se perdia em meio aos soluços e as tentativas de puxar mais ar. Estava, literalmente, se afogando em lágrimas – não conseguia respirar direito; culpa do choro, que ela não conseguia controlar.
__ Sr. Hooper, o senhor ainda está ai? – ele perguntou, acanhado.
__ Sim, sim, filho. Estou – do outro lado da linha, George secou as lágrimas e respirou fundo, tentando não voltar a chorar.
__ O que aconteceu?
__ Como Molly está? – ele respondeu com outra pergunta.
__ Chorando feito criança. Estou perguntando o que aconteceu, mas ela não consegue responder.
__ Ela já o contou sobre a irmã? Sobre Nádia?
__ Não – conteve o impulso de dizer “se ela tivesse contado, eu lembraria”. Aquela não era a melhor hora para brincadeiras. – Nunca.
__ Nádia é dois anos mais velha que ela. Viciada em drogas, bebidas e jogos de azar. Trabalhava em um pub ilícito. Até ontem.
__ O que aconteceu a ela?
__ Morreu. Overdose e perda de sangue. Encontramos ela ontem de noite, jogada na banheira do próprio apartamento, com uma seringa de droga do lado e os pulsos cortados.
“Molly nunca tinha mencionado Nádia” pensou, enquanto ouvia a voz do sogro.
__ E quero que ela venha aqui para Cardiff. Alguns tios e tias dela já estão aqui.
__ Tudo bem. Eu a levarei.
__ Filho, posso te pedir uma coisa? – a voz de George tornava-se cada vez mais frágil, como se, lentamente, ele estivesse definhando. Sherlock grunhiu positivamente como resposta. – Cuide dela. Um dos pontos mais fracos da minha Molls era Nádia. Pode fazer isso para mim?
__ Sim, senhor – Sherlock respondeu, engolindo em seco.
__ Obrigado. Mais alguns parentes acabaram de chegar. Até mais.
__ Até mais, senhor.
Sherlock desligou a ligação sentindo um peso enorme nas costas. Voltou os olhos para Molly, que chorava mais do que antes. Para ela, aquele parecia ser o único modo de aliviar a dor que sentia – parecia dilacerar a carne. Não, Nádia não. Não queria tudo aquilo de novo. Quando a mãe Alice morreu, o sofrimento fora matador. Passou quase um mês sem sair de casa; chorava todas as noites, lembrando e se torturando com as lembranças de tudo que fizera ao lado da mãe.
Primeiro, Alice. Agora, quem a abandou foi Nádia.
Sherlock acomodou o corpo da jovem em seu colo, ninando-a como se nina uma criança. Passou os braços por volta dela, segurando-a contra o próprio peito. Acariciou seus cabelos levemente, até que ela começasse a se acalmar. Molly chorou até dormir.
*
Cardiff, 3 da manhã.
Molly abriu os olhos de supetão.
Sherlock. Precisava encontrar Sherlock. Não entendia o porque. Mas precisava.
Os pulmões tragaram o máximo de ar. Sua cabeça doía como nunca, a barriga roncava e o enjoo estava mais forte do que nunca. Seu coração estava acelerado. Um pouco tonta, tateou o escuro, buscando entender onde estava. Seus quadris estavam afundando em alguma coisa, então supôs que estivesse em uma cama. Enquanto tateava, acertou alguma coisa.
__ Molly! – a voz do marido, assim que chegou a seus ouvidos, eram como música. – Amor, o que foi?
As luzes se acenderam, logo que o moreno passou a mão no interruptor. Estavam em um quarto de paredes amareladas, com as janelas e cortinas fechadas. A porta semi-aberta revelava um fio de imagem do corredor adiante. Em frente a cama, a porta do banheiro fechada impedia que mais luz adentrasse o quarto. Estavam em um dos quatro quartos da casa dos Hooper. Mais precisamente, no quarto de Molly.
__ Sherlock! – colocou os olhos no moreno, automaticamente abraçando-o. Um calafrio percorreu sua espinha ao sentir o toque quente da pele dele. Sentia tanta saudade de Sherlock, como se não o visse há décadas. – Tive um sonho tão horrível.
No sonho, Molly andava por uma colina de grama verde, com um céu azul sobre sua cabeça. Não notara, mas ouvia uma canção em seus ouvidos, vindo de algum lugar misterioso.
Feet don't fail me now
Take me to the finish line
All my heart it breaks every step that I take
But I'm hoping that the gates
They'll tell me that you're mine
Ao fundo, há alguns metros de sua posição, avistou uma pequena casinha – uma cabana adorável, com uma chaminé soltando fumaça e um jardim colorido. Seus pés a levaram até a pequena construção, e a porta se abriu sem que ela a empurrasse.
Walking through the city streets
Is it by mistake or desire?
I feel so alone on a friday night
Can you make it feel like home
If I tell you you're mine
It's like I told you, honey
Dentro, tudo estava empoeirado — cadeiras, poltronas, mesas. Tudo parecia velho e pouco usado, como se o dono as tivesse comprado, usado por alguns meses e parado. O chão não estava sujo, mas poeira levantava toda vez que Molly dava um passo adiante. Todas as janelas da casa, agora ela notara, estavam fechadas por grandes cortinas pesadas que, grudadas as paredes, impediam que qualquer luz entrasse.
Don't make me sad, don't make me cry
Sometimes love's not enough
When the road gets tough
I don't know why
Keep making me laugh,
Let's go get high
Road's long, we carry on
Try to have fun in the meantime
Molly puxou com força uma das cortinas, fazendo com que o pano preto caísse sobre uma mesa, cobrindo-a quase que por inteiro. A luz proveniente da janela revelou três quadros, pendurados lado a lado na parede contrária e cobertos por mantas acinzentadas. Sua curiosidade era mais forte, e ela rapidamente deu um jeito de puxar o pano que escondia a primeira das três. Seu rosto se contorceu em uma mistura de terror e desamparo.
Come and take a walk on the wild side
Let me kiss you hard in the pouring rain
You like your girls insane
Choose your last words
This is the last time
Cause you and I
We were born to die
O primeiro quadro era uma pintura de Alice. A Sra. Hooper, em seus anos dourados, exibia longos cabelos ruivos, como os da filha. Seus olhos azuis expressavam uma doçura inigualável, tal qual como seu sorriso misterioso. O rosto fino e as bochechas coradas davam um toque especial a imagem da jovem. O aterrorizante na pintura eram os dizeres “MORTA: 1959 – 2012”, coloridos em tinta vermelha sobre a imagem da mãe.
Lost but now I am found
I can see but once I was blind
I was so confused as a little child
Tried to take what I could get
Scared that I couldn't find
All the answers honey
Logo, Molly descobriu a segunda pintura. Novamente, uma onda de terror cobriu seus sentimentos. A segunda imagem era de Nádia. Parecia ser recente, pois os cabelos da irmã mais velha foram retratados curtos e roxos, como ela gostava e fazia questão de pintar todo mês. Os olhos eram como os da mãe, mas os lábios eram mais parecidos com os do pai, um pouco menos curvilíneos. E, como na pintura anterior, os dizeres “MORTA: 1984 – 2014” foram pintados em vermelho.
Don't make me sad, don't make me cry
Sometimes love's not enough
When the road gets tough
I don't know why
Keep making me laugh
Let's go get high
Road's long, we carry on
Try to have fun in the meantime
A legista, num rompante de lucidez, juntou as peças, em um raciocínio maluco, mas que fazia sentido. Alice e Nádia estavam mortas. O que significava que, debaixo da manta da terceira pintura, estaria a imagem da próxima pessoa que a jovem perderia.
Não queria fazê-lo – descobrir a imagem -, mas não conseguiu conter sua curiosidade. Com os olhos marejados, quase a ponto de desabar pelo turbilhão de emoções que sentia, puxou o terceiro pano. Quando seus olhos capturaram a imagem, a patologista desatou a chorar.
Come and take a walk on the wild side
Let me kiss you hard in the pouring rain
You like your girls insane
Choose your last words,
This is the last time
Cause you and I
We were born to die
Sherlock. Era Sherlock no terceiro quadro. Os mesmos olhos azul-esverdeados, as mesmas maçãs do rosto proeminentes, os mesmo cabelos castanhos e cacheados. Sobre a pintura, a mesma frase: “MORTO: 1983 – 2014”.
Não. Não podia sustentar isso. Não podia perdê-lo. Perder Sherlock era como perder uma parte de sua vida, era como ter o coração arrancado à mãos nuas pela Morte. Perder Sherlock, para Molly Hooper, era morrer. Soltou um grito de horror, enquanto observava a tinta vermelha fresca escorrer até a moldura da pintura, como uma gota de sangue.
Come and take a walk on the wild side
Let me kiss you hard in the pouring rain
You like your girls insane
Don't make me sad, don't make me cry
Sometimes love's not enough
When the road gets tough
I don't know why
Keep making me laugh
Let's go get high
Road's long, we carry on
Try to have fun in the meantime
Acordou desesperada. Ter Sherlock ali, ao seu lado, depois de um sonho aterrorizante como aquele, era reconfortante. Só o pensamento de perdê-lo era desolador. Tinha medo. Medo de ficar só. Medo de perder uma das únicas pessoas que se importava com ela. Medo de perder o homem que mais amava em sua vida.
O abraçou com mais força, afundando o rosto em seu peito. Ele retribuiu, passando os braços em torno do corpo frio da esposa.
__ Promete uma coisa para mim? – ela disse, com a voz abafada.
__ Qualquer coisa – ele respondeu, acariciando os cabelos dela com uma das mãos.
__ Promete que nunca vai me deixar? Que nunca vai me abandonar? – sentiu uma lágrima sair dos olhos. As imagens do sonho pareciam tão reais e expressivas, como se, de fato, Sherlock estivesse morto.
__ Molly, eu nunca iria te deixar. Nunca. Te amo mais do que tudo na vida.
__ Quero ouvir você dizer – ela disse. Ele a olhou nos olhos, sorrindo. Beijou-a na testa, abraçando-a ainda mais forte.
__ Eu prometo.
Notas finais
Beijinhos da ruiva,
Amelia.
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