13 Ultimatos
7 Capítulo 6 – Você é assim, um sonho pra mim
Húmus. Uma palavra poderosa quando dita nas periferias de Breasal. Era intocável, guardada por um véu ininteligível e, ainda assim, era o suporte para o progresso da região esquecida pelo poder. Foi a fonte primordial a qual trouxe movimento à máquina. O adubo dos famintos, a saúde dos enfermos, o ponto final da discordância. De um cuspe, o pior caiu ao chão e desfez-se para incorporar à terra. O corpo foi reduzido a níveis moleculares para criar a energia funcional. Da decomposição da carcaça podre à alta fertilidade, nutriu os mais saborosos frutos dos mais carentes. Como algo demoníaco, nascido do desejo oculto, seu misticismo era como um sussurro. Ao pronunciá-la, os olhos esgueiram-se a fim de evitar olhar a escaramuça de peões. Tudo porque a palavra era uma grande causadora de sentimentos conflitantes. Diziam ser a consagração de um sonho, outros a lembrança de um pesadelo superado. Contudo, no fim, não era nenhuma das duas opções. A Húmus poderia viver como uma lenda, agindo como um conto antigo e somar-se à calada. No entanto, seu poderio era grande demais para ser ignorado. Além disso, tanta prepotência e autoconfiança, jamais preveriam um tombo tão grande.
A Húmus ditou e arquitetou a distribuição dos domínios em cada distrito periférico, como, também, controlou quase por completa toda a periferia da cidade. Sua autoridade expansiva iniciou-se de maneira repentina, mas logo decaiu na mesma velocidade. Trazendo a frustração de um garoto rico e mimado, pois sua maior obra, a qual inflou seu ego, perdeu-se numa tragédia. A origem deu-se justamente graças à importância, inteligência e o alto valor monetário de Angus Montana, o fundador da Húmus. Ao fato, mesmo com seus benefícios, sua veia instintiva era aguçada. Conseguiu monopolizar o zona de Sangra-d'água praticamente comprando-o ao vender sua imagem. Usando o slogan das Indústrias Montanas, o rapaz adquiriu lotes em dimensões a níveis de bairros, criando conjuntos habitacionais para a comunidade mais carente. A empresa trouxe trabalho e moradia de qualidade para aquela região, mas, como um humano vendendo a alma para o diabo, os residentes de Sangra-d'água tornaram-se totalmente dependentes da influência Montana. Como um tratado.
Ao perceber seu fácil avanço, o rapaz tentou ampliar seu monopólio para as outras comunidades. Porém, diferentes de Sangra-d'água, os outros grupos sociais já possuíam seus mandantes consolidados. Além do mais, existia a dificuldade em aceitar um líder nascido e criado na Cidade Grande. Por tanto, o jovem foi obrigado a juntar-se a alguém natural da periferia. Como uma alternativa milagrosa, Angus criou uma aliança. Algo mais saudável a ele, no fim das contas, pois não precisaria expor ainda mais sua figura, já que, haveria outras pessoas a frente para tal função. Enquanto isso, operaria em segundo plano, inevitavelmente, criando um controle discreto sobre todos as jurisdições desprivilegiadas de Breasal. Como um jogo, a famosa Húmus foi fundada na aliança de sete crianças estúpidas brincando em um jogo de tabuleiro, onde a tábua era a própria cidade. Sentiram-se reis por culpa de uma pequena fama. Dos oito distritos periféricos de Breasal, apenas Canela-batalha não fez parte da nova facção de Angus. O controlador da região, Douglas Nazaré, era velho demais naquele jogo de interesses, logo, não perderia tempo com algo tão ridículo, mas, ainda assim, sua presença era esmagadora e mesmo com as intenções de Angus, jamais superariam às de Nazaré. Daqueles sete envolvidos, Eduardo Nazaré, o filho de Douglas, tornou-se o chefe de Casca-branca. Era uma marionete sem raciocínio. Jamais notaria os motivos de sua entrada na Húmus ser apenas para agir como um bode expiatório. Não perceberam, mas quando ocorreu, a Húmus foi destruída e, infelizmente, levou junto o pobre Eduardo.
— Hoje coletei informações que podem lhe interessar, Angus. – ao pegar sua xícara de café, Tobias Helena sentou ao lado de seu superior para conversar. – Por certo, você tem razão. É perceptível que ultimamente anda surgindo uma alienação nos Grupos de Ponte. – ao tomar o líquido, notou a falta de açúcar, amargando sua garganta e contorcendo levemente seus ombros. – Er… Explica a crescente violência em certas comunidades.
Como nota, o surgimento do termo Grupo de Ponte surgiu no antigo Bastião através de um passatempo chamado Monte o Grupo. Uma reformulação do jogo Polícia e Ladrão, nessa brincadeira incluíram mais duas figuras, além das clássicas, as duas pontes e os inocentes. As pontes tinham funções diferentes. Uma levaria os inocentes para o mundo do tráfico, trabalhando para os ladrões, e a outra transformaria os inocentes em policiais. Como uma forma de não usar as palavras gangue, máfia ou quadrilha, por culpa do peso as quais traziam consigo, começaram a difundir a terminologia Grupo de Ponte. Em um dicionário local, seria traduzido como o delinquente o qual leva o homem com dignidade à falta de caráter. Porém, de fato, o termo referiu-se a um grupo de menor dimensão, sendo composta, em maioria, por vários marginais tentando buscar o monopólio sobre um bairro ou setor de algum distrito. Não chegam a níveis de um domínio, até porque, esses grupos quase são nulos em áreas consolidadas, pois, ou juntam-se ao poder central ou são destruídos. Exemplos extremos. Em Canela-batalha não existe nenhum Grupo de Ponte, já em Mulungu, onde não possui nenhum líder à frente, existem vários.
— Eu já imaginava isso. – com as mãos afundadas sobre seus cabelos, Angus jogou seus fios loiros para trás, dando-lhe uma melhor visão de seu subordinado. – Mulangu e Casca-branca andam vulneráveis sem um líder central, dando margem pra esses insetos tentarem subir no poder, mesmo não tendo inteligência suficiente para se sustentarem.
— Realmente, mas não é certo chegar a uma conclusão tão rápida assim. – a estranheza de Montana o fez estreitar os olhos. – Existe um financiamento oculto nessas batalhas.
— Esses malditos.— ao socar a mesa de madeira escura, o eco tomou a sala, chamando a atenção até mesmo das pessoas posicionadas no lado de fora. – Faz todo o sentido. Financiando um desses vermes, aqueles milicianos conseguem elevar um grupo e com isso eles ganham o poder sobre as áreas frágeis. – ao notar seu descontrole, tentou recompor-se, seu desconcerto o deixou menos elegante.
— Na verdade, essas finanças estão ocorrendo apenas no distrito de Casca-branca, já em Mulungu, pode ser ainda mais problemático. Um evento me chamou a atenção. – o rapaz tirou de seu bolso três fotografias, colocando-as sobre a mesa. – Lembra da loja de jardinagem com o nome Beleza de Mulungu? Localizada em Pau-marfim.
— Sim, é uma loja próxima à muralha sentido Mulungu. O nome mesmo é uma afronta à Cidade Grande, até porque, o pessoal que comanda lá é periférico. – sobre a sobrancelha de Angus, uma dor começou a surgir.
— Era, no caso. – ao terminar forçadamente seu café, Tobias, em um vício, começou a morder seu medalhão enquanto dizia. – Aquela área estava ganhando um aumento de gente da periferia e, por isso, alguém denunciou falando que lá funcionava um suposto tráfico de drogas escondido. Não deu outra, acharam ecstasy e prenderam o dono. O mais engraçado é que com a apropriação do governo, acabaram construindo um enorme prédio que vai ser inaugurado daqui um mês. – em um sorriso, tentando buscar um suspense, o rapaz empurrou as fotos para perto de seu cliente. – Agora a questão é, o que vai ser esse enorme prédio? Essas fotos podem te dar uma ideia. – Montana curvou-se para espiar as fotos.
— Isso… – nas fotos, o interior do prédio mostrando ser um laboratório.— Preocupante. – poucas situações eram capazes de fazer um Montana sentir nojo, uma delas era sentir medo. – Obrigado pela informação, Tobi, foi de grande importância. Seu pagamento será efetuado na saída, converse com Alpaca. Agora, pode retirar-se, por favor. – Angus apontou a saída a Tobias.
Como um bom ouvinte, o rapaz levantou e retirou-se da sala, deixando seu chefe sozinho para atrofiarem seu próprio ódio. Em realidade, pouco importou-se com todo o drama acerca das fotos, até porque, era apenas um informante. E como o Montana sempre o pagou bem, manteve-se trabalhando a favor do grupo. No entanto, caso houvesse alguma pessoa pagando Helena em uma quantia mais alta, não pensaria duas vezes em trair seu chefe. Negócios sempre serão negócios. Caminhando pelo corredor, encontrou-se com Tereza Flinneze, em pé, aguardando o fim da conversa. A passagem de Tobias por Tereza foi realizada junto a um sorriso e cumprimentotímido. De certa maneira, ele tinha uma atração pela mulher e, bobamente, tentou ser gentil com ela. Já na outra posição, em falsidade, Flinneze apenas sorriu educadamente, mas, logo após a passagem de Helena, seu rosto alterou–se para asco.
— Esse cheiro de Assovio… Detesto essa raça. – resmungou Tereza.
No escuro e diante de um notebook ligado, Angus colocou sobre o teclado as fotos ganhas. A falta de luz naquele local deu-se pela dor de cabeça latejando sobre os olhos do jovem, porém era questão de tempo, pois havia tomado sua medicação. A tela do computador reproduzia um vídeo qualquer, porém o jovem se quer concentrou–se naquela atividade. Seus pensamentos perderam-se em uma lembrança, quando ainda era um membro da Húmus e, por acaso, viu um projeto do governo em criar uma arma biológica. A sua preocupação fez suas mãos tremerem de nervosismo. Em um alívio, seu raciocínio foi interrompido por batidas comedidas na porta e uma voz anunciando a entrada de um grupo. O homem concordou, até porque, já havia dado a hora da reunião. Aos poucos, entraram pessoas em fila com um silêncio digno de um templo. Com aquela escuridão, o único rosto nitidamente visível, por causa do notebook, era o de Montana, o resto da comitiva seguia em anonimato.
— O que foi, xuxu? Parece triste. – disse a silhueta mais próxima a sua direita.
— Uma grande problemática resolveu apresentar-se à minha frente, mas nada que me surpreendesse também. – Angus afundou no assento. – Deveria ter destruído aqueles corruptos antes, quando tiver a oportunidade.
— E por que você fala isso? – ao fundo, a última pessoa a sentar-se, questionou o desabafo colocando um caderno e algumas sementes sobre a mesa.
— Por culpa da época da Húmus. Controlávamos todo o tráfico, monopolizando todo o poder da cidade em uma única organização. Só faltou colocar o ponto final, a organização destruindo de vez esse governo que temos e instalar um novo sistema, mas o fracasso segue aqueles inúteis… Agora, é o governo que quer me destruir. – a dor de cabeça intensificou-se, obrigando o rapaz a fazer uma massagem em sua testa.
— Bom, entendo o seu medo, chefe, mas é um pouco difícil perdermos o nosso poder, do jeito em que anda as coisas. – disse a silhueta próxima a Angus, porém situada à esquerda. – Nosso grupo anda crescendo pelas periferias e já temos papel fundamental na presença do mercado clandestino da cidade. O nosso domínio, mesmo não expandido, é essencial para os outros.
— Fico feliz ao ouvir isso, mas, ao mesmo tempo, preocupado. Segundo um Assovio, houve movimentações milicianas as quais vão contra qualquer interesse meu. Além disso, aos poucos aqueles ratos aproximam-se de mim. – ao referir-se de tal foram, os anônimos rapidamente perceberam a irritação de seu superior, ajeitando a postura de todos. – Por isso convoquei essa reunião de última hora. Preciso de ideias para duas circunstâncias que me atormentam: alguém como chave para tirar o foco de mim e ideias para um novo controle sobre os distritos.
— Bom, já que é assim, havia pensando em uma alternativa para isso já faz um tempo… – ao levantar a voz para falar, a pessoa em questão parecia brincar com a caneta em mãos, sem contar o sotaque peculiar. – Poderíamos usar as eleições da cidade para ganhar vantagem.
— Prossiga, por favor.— um sentimento de esperança, aliviou as mãos trêmulas de Angus.
— Com as eleições para a prefeitura acontecendo, poderíamos usar de um candidato para fazer uma certa propaganda dele, o que criaria, de certa forma, uma aliança, acredito. – a voz voltou a falar e, em sua mão, a caneta brincante. – O que facilitaria nossas ações na periferia e também ganharia poder dentro da Cidade Grande, pra falar a verdade. E sendo uma pessoa da nossa confiança, ficaríamos mais a par dos bastidores de certas figuras ali.
— Interessante… – O rosto de Angus expressou melhor ânimo. – Me veio em mente uma pessoa que poderia ser esse alguém de confiança. Realmente, ela seria uma ótima candidata a prefeita da cidade. Até que eu tenha a resposta, preciso de calma para repensar todas as possíveis situações contra essa jogada e, assim, criar um rumo mais favorável. – a dor expressou-se novamente. – Pessoal, vou ter que me retirar um pouco, peço que continuem com a reunião, se quiserem. Sobre como anda as negociações, passem para Alpaca os relatórios de cada área, por favor. Com licença.
Sem notar o desconforto do rapaz, o grupo continuou por ali discutindo sobre ações e iniciativas, porém de maneira mais informal. Angus, de pé, encheu seu peito de ar e o prendeu por um tempo. Uma ação a fim de controlar sua ansiedade ou o soluço formado por conta da agitação a qual ele queria conter. Após soltar o ar, o homem pegou o notebook e as fotos em cima da mesa. Com passos tímidos, retirou-se da sala sem dizer nada a ninguém, fechando a porta como uma criança fugindo das obrigações. Estreitando seus grandes olhos por entrar em um outro ambiente um pouco mais iluminado em comparação ao anterior, o aperto em sua garganta o fez lembrar novamente de um momento. Ao passar pelo corredor, deslizou a ponta de seus dedos sobre o acabamento na altura de seu ombro, relembrando de quando Lincoln o havia dito o quanto adorou aqueles detalhes. A nostalgia era algo triste de controlar. Logo atrás, como dois fantasmas, surgiram Alpaca e Tereza.
— Entregaram todos os relatórios? – o jovem, mesmo sem olhar para trás, percebeu os relatórios nas mãos de Alpaca. – Bom, então, por hoje é só isso mesmo.
— Você parece muito cansado, Angus, saindo dessa forma da reunião. Ou, se não for um comentário tão ousada, um pouco deprimido. – desabafou Tereza.
— Infelizmente, sim, parece que tudo o que eu tento segue para o fracasso. – caminhando junto a quem lhe fazia companhia, sua mão direita seguiu a frente de seus olhos cansados. – Estou com dor de cabeça diante de tudo isso. Mas, conforme as ações desses milicianos, não tem como ficar tomando água de coco de frente ao mar esperando que tudo fique bem.
— Entendo sua preocupação, mas você deve ir com calma, nem tudo é esse desespero todo. – algo bonito em Flinneze era sua dedicação em trazer algum conforto ao seu superior.
— É, você deve ter razão, mas enquanto Jon Smith existir, não há como ter paz em minha casa. — ao terminar de dizer, notou um movimento em seu bolso, seu celular o chamou. Linko-n. Talvez, para o rapaz, poderia existir algum Deus olhando por ele e tentando, de alguma forma, trazer alguma alegria para o jovem Montana.
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