13 Ultimatos
2 Capítulo 1 – O fim traz um novo início, o começo se tornou vício
Quando colocada uma esfera de ferro para girar em uma tigela vazia, o movimento permanece até que ocorra a parada. Entende-se que as forças sobre a esfera a impedem de mantê-la eternamente em movimento, por isso, há a existência de dois tempos sobre o evento: o início e o fim. Até mesmo para um corpo inerte houve o começo de seu estado e, como esperado, o seu final. Ou seja, para cada evento da natureza existe sua iniciação de ocorrência e, também, sua finalização. Quando ampliamos nossa perspectiva, o início e o fim são criados ao mesmo tempo, análogos à vida e a morte. O começo existe porque o final existe e o contrário também é verdadeiro. Dessa forma, surge o ciclo, criado através do surgimento e do encerramento de um evento. E, com a perpetuação, torna-se a existência do tempo-espaço ainda mais expressiva. Ao encerrar um ciclo, outro é criado com sua nova origem e seu novo desfecho. Um exemplo clareador para finalizar todo esse desentendimento: a cidade de Breasal. Tendo em mente um ciclo portador de um começo e de um final, Breasal torna-se o material de estudo a ser analisado. Em 1 de março de 1960, no exato momento de sua inauguração, seu fim estabeleceu-se junto ao seu início, criando-se um ciclo. A cidade aos poucos segue circulando em uma tigela imaginária até parar, ou melhor, até o seu encerramento absoluto.
Mas novos questionamentos surgem quando é imaginado esse ciclo. Quando seria esse fim? O que realmente seria um final para aquela cidade? Sua destruição total? Será possível a cidade ter passado por um ciclo menor? E, se sim, por que ainda está em pé? Em seu encerramento absoluto, não terá mais início para ela? E se a sua destruição já ocorreu e não foi notada? Os questionamentos são sempre válidos, pois o ciclo máximo de Breasal não foi completado, sendo assim, nenhuma resposta pode ser formulada. Ainda assim, existem tentativas para encontrar esse fim de ciclo antes mesmo que ele ocorra e, através dele, estimar o que realmente ocorrerá. Há quem concorde e há quem discorde das metodologias empregadas, ainda que a resposta ainda permaneça nebulosa. Apenas uma teoria conseguiu chegar próxima à explicação dos ciclos e, assim, estimar o fim de Breasal. A precursora e criadora de todo esse desentendimento, A Teoria da Dualidade em Ciclos ou Ciclo da Dualidade.
Idealizada por Joha Nhagk, um sacerdote, filósofo e astrólogo, pertencente a uma tribo indígena próxima à Breasal, tornou-se uma figura importante para a astrologia e para a comunidade filosófica. Sua teoria chamou a atenção, pois houve a união entre as ideias do filósofo com a difusão de seus mitos. A expansão de suas ideias foi baseada na junção dos três grandes símbolos de sua cultura: Daia, o Deus do caos; o escudo de oito flechas, símbolo tradicional de sua tribo;a Estrela Vermelha, por seu período de intensificação do brilho no céu da cidade a cada dez anos e meio.Em seu primeiro livro, Joha conta que seu pai, antigo sacerdote da tribo, dizia que a Estrela Vermelha era o olho esquerdo de Daia, por isso atribuíam todo o mal a ela. Além disso, a cada dez anos e meio, o brilho de seu olho intensificava–se e, segundo o conto, quando o Deus piscava, o caos reinava. A única forma de absorver a energia maligna de Daia era através do escudo de oito flechas, o símbolo sagrado, entregue por Linia, o Deus da compaixão. Dessa forma, o escudo possuía o grande poder de absorver e dissipar através de suas flechas a energia projetada pelo caos, diminuindo, assim, o mal.
Admirado pelos contos, Nhagk trouxe sentido a eles com suas ideias.Para ele, o início do evento é ditado pelo aumento da luminosidade da Estrela Vermelha no céu e só terminará quando a estrela novamente aumentar sua luminosidade. Sendo dessa forma, o ciclo de sua teoria possui o tempo de dez anos e meio. Além da união simbólica, Joha notou através dos ciclos grandes mudanças. Tendo em mente as relações místicas as quais haviam sobre a estrela, o astrólogo, através da observação, tentou buscar eventos que mostrasse o efeito da estrela sobre a humanidade. Em busca de uma exatidão, no momento em que registrou o aumento do brilho, Joha analisou os eventos que ocorriam logo após. Sua conclusão foi a criação do Ciclo da Dualidade. Ao registrar o brilho da estrela, ocorre o fim de um ciclo e o começo de outro. O ciclo anterior acaba em uma tragédia e o novo arrasta-se para uma nova, assim perpetuando-se.Sua teoria só não foi comprovada por completa por não conseguir encaixar o sentido do escudo com oito flechas. Não entendia o porquê de usá-lo como forma de proteção e como de fato ocorria a proteção. Pela falta de conclusão e com sua morte, vários discípulos incorporaram sua teoria aos seus estudos a fim de concluí-la, formando a Escola Filosófica de Joha, em Breasal.
— A dimensão do entendimento deve estar atrelada a ideia de duas igualdades complementares, porém de polaridades opostas, as quais são portadoras de uma gama de eventos presos entre elas, formando-se o ciclo, de período exato, o qual perpetua-se. Através da análise observatória, podemos encontrar evidências satisfatórias as quais provam o Ciclo da Dualidade, incorporada a eventos, tanto macros como micros, do espaço-tempo, lembrando das oito etapas distribuidoras do caos, trazendo à sociedade o favor da adequação pelos ensinos de Joha. — após terminar sua fala, Vincent Porto fechou seu livro e o repousou em suas coxas, seu olhar permaneceu distante por um tempo, mas logo voltou a si quando ouviu os aplausos.
Por um momento, a sua ansiedade havia acalmado-se por iniciara leitura, mas, ao ouvir os aplausos, seu coração voltou a palpitar. Em sua frente, um grupo de oito pessoas espalhadas pelo anfiteatro. Dessa vez, era diferente e a coceira de sua mão direita mostrou ser algo bom. Ele compreendeu as fortes batidas de seu coração ao ver os olhares de emoção marcando o rosto de cada ouvinte presente e focado em suas palavras.Sem dúvidas, para Vincent, foi uma imensa honra apresentar o seu trabalho naquele simpósio e ser reconhecido por isso. Porém, o que realmente lhe trouxe não só a calma como também a satisfação, foi ver no fundo do local sua irmã mais velha, Jojo Porto.Ela permaneceu ali, do começo ao fim, sorrindo e aplaudindo a conquista de seu irmão. As batidas de seu coração era por felicidade. Ele entendia bem o valor daquela cena.Sua irmã não deveria estar presente, há pouco tempo conseguiu um trabalho e faltá-lo poderia prejudicá-la, mas ainda assim marcou presença. A representação do amor entre os dois sempre foi um elo lindo. Ambos entendiam o sofrimento de cada um e, ao ultrapassá-lo a fim de alcançar os sonhos prometidos, deveriam estar juntos para apreciar cada momento de vitória. E a mulher encontrou seu irmão conquistando seu sonho.Mesmo não sendo um rapaz de sorriso aberto, não conseguiu conter-se e entregou a ela. Uma forma de dizer obrigado. Era o bastante para que a moça entendesse.
— Muito obrigado, Senhor Porto, pela exposição de sua ideia. — o mediador do evento chegou até o rapaz e, em um gesto, o agradeceu. — Nesse momento, abro a apresentação para perguntas ao convidado. Por questão de tempo, limitaremos as perguntas a apenas três. — colocando-se a frente, o homem olhou a plateia enquanto um dos funcionários seguia com o microfone até uma pessoa. — Primeira pergunta, por favor.
— Olá, bom dia, meu nome é Richard, sou formado na Escola Filosófica de Joha, possuindo o título de mestre na mesma. Bom, existem várias metodologias e propostas de ensino para colocar em prática a Dualidade dos Ciclos e, sem dúvidas, a sua é muito interessante. Porém a tentativa de transformar a ideia em algo exato, não estaria fugindo da função filosófica da teoria?
— Olá, bom dia. Bom, eu acho justo o seu questionamento, pois os principais pontos de Joha foram fundamentados em questões culturais de sua própria tribo, porém vale ressaltar que até mesmo ele tentou buscar uma lógica aos contos que ouvia, então, não acredito que, no que eu propus, esteja fugindo da função filosófica. — Vincent manteve-se seguro, até porque, era óbvio o quanto a pergunta foi realizada como forma de afronta e, as próximas, teriam a mesma função.
— Olá, primeiramente, muito obrigado pela palestra que nos apresentou, Porto. Bom, sobre o seu método de estudo. A minha pergunta é sobre a limitação dos ciclos em apenas oito partes, tudo por causa do escudo de oito setas ter apenas oito setas, não teria embutido erros ao seu cálculo?
— Bom, não acredito que haja limitação em ter oito ciclos, pois não entendemos qual a dimensão exata desses oito ciclos, tudo depende, porém, ainda assim, meu próximo passo é trazer uma análise científica para mostrar a significância dos meus cálculos.
— Vincent, bom dia, me chamo Leiza Vosquieli e eu sou uma grande admiradora do seu trabalho, ainda mais pelo foco e dedicação que você possui em embasar todo o seu estudo na teoria de Nhagk. Aliás, em especial sobre o estudo do Ciclo Mundial, onde você nos apresenta o Grande Apocalipse Terrestre, mostrando até mesmo a idade máxima que a Terra terá, que é em torno de 11,2 bilhões de anos. Através dessa ideia, sobre o Ciclo Mundial, eu lhe pergunto, você já realizou cálculos para entender o ciclo de Breasal? E, caso tenha realizado, qual seria o fim da cidade? — por um momento o rapaz permaneceu imóvel, sentiu-se exposto, como se a sua mente fosse lida por aquela mulher.
“Por que logo Breasal? Por que a cidade é o material de estudo? O que tem nessa cidade?”
— Fantástica sua pergunta, Leiza, aliás, agradeço por todo o carinho. — ao voltar sua postura, o rapaz analisou bem a questionadora. — Respondendo sua pergunta, sim, eu já realizei os cálculos sobre o ciclo de nossa cidade, até porque foi um dos maiores obstáculos de Nhagk, mas não mostraram-se significativos. Levando em conta o Ciclo Mundial, para a análise de Breasal é um espaço de tempo muito pequeno, até porque, hoje mesmo a cidade está fazendo 53 anos. É menor que o ciclo de uma pessoa, se observarmos. Por isso não há como ainda estimar o fim de Breasal, mas vale ressaltar que devemos observar os fenômenos que virão, já que, hoje mesmo finalizou um dos ciclos da cidade e começou um novo.
— Finalizado, então, as perguntas pessoal, como prometido. — o mediador novamente tomou a frente e fechou a apresentação de Vincent. — Precisamos continuar com a programação do evento, caso seja necessário, o Senhor Porto continuará respondendo perguntas em particular. Obrigado novamente, Vincent, estamos muito agradecidos por sua presença.
O mediador e o rapaz apertaram as mãos e houve uma retribuição em forma de sorriso. O peso nos ombros foi aliviado em partes. Vincent não conseguiu tirar de sua cabeça a pergunta da senhora Vosquieli. Ao descer do palco, o moço entregou o microfone a um funcionário do evento. Andou pelo corredor,ajeitando sua blusa e observando Leiza a anotar algo, até sua irmã ao fundo. O que ela tanto anota? Pensou o rapaz. Mas, de frente sua irmã, a imagem daquela questionadora sumiu e conseguiu focar apenas nos olhos de sua irmã.Sem trocarem palavras, apenas abraçaram-se. Durou um longo período até que, ao lado, seu grande amigo, Andes Crinele, outro filósofo a apresentar no evento, dirigiu-se ao rapaz.
— Foi fantástica sua apresentação, amigo, meus parabéns. — Andes colocou sua mão sobre o ombro de Vincent. — Mas agora precisamos falar sobre algumas coisas do trabalho, certo?
— Verdade. — ao responder, soltando sua irmã de seu abraço, os irmãos encararam-se em um sorriso gentil.
— Hoje é o aniversário da cidade. Não está interessado em aproveitar um pouco da festa mais tarde? — a mulher segurou o queixo de seu irmão e o balançou. — Ainda mais que o papai está em casa, seria bom passarmos juntos com ele.
— Não vai dar, irmã, tenho muito trabalho ainda pra fazer e, também, tenho que analisar os eventos que ocorrerão hoje. — após terminar, suspirou. — Muito obrigado mesmo, irmã. Vou ter que ir agora, tudo bem?
— Tudo bem sim, vai lá que também tenho que ir agora, foi ótimo ver seu sucesso, maninho. — antes de retirar-se, ela puxou a orelha do rapaz, um costume desde crianças.
Após saírem do anfiteatro e despedirem-se de Jojo, Vincent e Andes caminharam até uma lanchonete bem ao lado do local de apresentação. Os olhos de ambos admiraram a rusticidade da Escola Filosófica de Joha, trabalhada em madeira e pedra. Não há como comparar com uma grande universidade, trazendo vários blocos, pelo contrário, a escola parecia mais uma grande mansão europeia. De qualquer forma, era o suficiente para comportar seus alunos integralmente no local e ainda ter o museu da vida de Nhagk. A beleza do local está no fato da necessidade de estar conectada à natureza. A localização da escola era no distrito Pau-marfim, quadrante 2, setor C, bairro Nhagk. A região mais próximo a Floresta das Sapucaias. Além disso, o próprio local possui inúmeros jardins, feitos com o intuito de trabalhar a mente e o corpo junto à natureza. Sem dúvidas, no último caso, era tudo o que Crinele mais admirou naquele local, pois seus estudos filosóficos eram focados na teoria da Dualidade em Ciclos aplicada à natureza. Um filósofo e ecologista. Caso conseguisse a bolsa naquela escola, poderia, enfim, terminar todos os seus fundamentos criados.
— Andy, quero que você me faça um favor, tente entrar em contato com aquela mulher que realizou a pergunta sobre o Ciclo Mundial. — já sentado, Vincent encarou de forma séria seu amigo em frente. — A pergunta dela foi muito pertinente aos nossos assuntos.
— Também notei o nível da pergunta dela, aliás, hoje a cidade está passando por uma troca de ciclo. — ao agarrar sua mochila, Andes retirou uma bolsa de pano escuro e uma folha de papel amassada. — A gente tem que começar a tomar atitude agora, Vin. — ele abriu a folha e revelou o mapa de Breasal, após aberta, retirou de dentro da bolsa de pano várias peças brancas, lembrando os peões do xadrez. — Os domínios da cidade ultimamente estão distribuídos dessa forma. — enquanto dizia, o rapaz ia colocando uma peça em cada distrito do mapa, deixando apenas o centro e outros dois distritos periféricos sem nenhuma. — Sangra-d’água nas mãos de Angus, Canela-batalha nas mãos de Douglas, Pau-sangue nas mãos de Detyr, Catuaba nas mãos de Lincoln, Capitão-do-mato nas mãos de Jung, Lapacho nas mãos de Marielle… — ao pegar a última peça do conjunto, o rapaz a colocou no centro do mapa. — E a Cidade Grande nas mãos do governador Jon Smith. — ao terminar de montar a estrutura, Andes virou-se para o seu amigo. — Caso todos essas pessoas caiam, o caos reinará em Breasal.
— E, assim, instalando o caos aqui, forma-se o novo ciclo nesta cidade. — Vincent finalizou o raciocínio jogando todas as peças daquele falso tabuleiro no chão.
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