13 De Maio
1 Capítulo 1
- Não vou.
- Vamos, vô. O senhor vai ficar aqui sozinho?
- Prefiro ficar do que sair. Eu não vou.
- Mas, pai...
- Rosa, minha filha, você vai, pega seus filhos, vai viver a sua vida. Eu não vou, já disse que não vou. Não tenho nada para fazer lá fora. Sou velho, quero morrer aqui.
- O que eu vou fazer sem o senhor?
- O que vai fazer comigo? Eu só vou atrapalhar, não sei fazer nada fora dessa cerca. E vocês têm que ir logo que daqui a pouco o sinhozinho taí pra por os pretos pra correr.
Não houve tempo para mais indecisão: o jovem advogado a quem tinham acostumado chamar de sinhozinho desde que mamava no peito de Rosa já estava ali, de chicote em riste, pondo os preguiçosos para correr a grito de couro. Rosa pegou os dois pequenos nascidos livres, crescidos cativos por falta de opção; e pôs-se a andar, carregada com uma pequena trouxa. Era rica, em comparação aos que caminhavam a seu lado: trazia uma muda de roupa para cada um, um velho lampião de ferro, uma panela de barro, uma faca pequena, surrupiada de última hora à mesa da cozinha, um pouco de charque, meio quilo de pão, seis velas e até mesmo umas moedas de latão.
Era rica.
Olhou para trás, deixava a fazenda. Devia sentir alegria, todos diziam. Aqueles brancos que se rasgavam desajeitados sob as cercas e corriam da bala do capataz diziam que ela tinha de sentir alegria. Não havia alegria maior do que a liberdade.
“Liberdade é a autonomia de estabelecer racionalmente suas próprias regras a serem seguidas”, profetizava aquele branco de sorriso meigo, monóculo e roupas elegantes. Rosa gostava de ouvir aquela conversa, achava bonito o jeito de falar daqueles brancos e, mais do que isso, achava engraçado o jeito sem jeito dos brancos de fazer coisas de preto.
Tudo por uma tal “causa dos pretos”, que ela não entendia direito. Ela também não entendia o que era “autonomia”, mas sabia que compraria a sua tão logo soubesse.
Entristecia abandonar seu velho pai Bento. Virou-se para dar um décimo tchau e encontrou os movimentos nervosos do advogado em volta do velho.
“Ele não é um homem ruim”, pensou. Não conseguia sentir ódio daquele homem de quem cuidara como filho. Mas achava que deveria sentir. Todos à volta sentiam. De todos os lados, alguém lhe dizia o que achar, o que sentir, o que pensar. Ela achava, sentia e pensava diferente de tudo que diziam, mas não tinha coragem de dizer pra ninguém. Preto ou branco, não falava pra ninguém. Sempre dizia concordar com todo mundo.
E achava graça lá no fundo que não concordava era com ninguém. Só com ela.
- Nhô ta bateno ni seu Bento, ‘osa! – berrou Telônio, preto retinto, chegado da África a preço de ouro, sem que inglês nenhum visse.
Rosa sentiu as pernas moles e o coração frio. Nunca vira seu pai tomar uma chibatada que fosse. Mesmo ela, em menina, sentira o peso do couro quando o ódio da finada sinhá pelos apetites sexuais de seu marido caíra sobre ela. Destes apetites, aliás, nascera a menorzinha que saracoteava ao seu lado, vestida em pano xadrez amarrotado, brincando com uma boneca de feno. Alheia ao sofrimento do avô. Rosa abandonou a trouxa no chão e pôs-se a correr irracionalmente de volta à Fazenda.
Lentamente, outros pretos viraram-se de volta também. A princípio, caminharam, caminharam de volta para o lugar de onde sempre sonharam sair. Apertaram o passo, passaram a correr. De repente, corriam e gritavam. Corriam e gritavam e xingavam.
Sinhozinho Doutor Frederico de Ramos e Sousa olhava para seus dois capatazes. Um índio, um caboclo. Dois homens bravos, machos a toda prova. Eles pareciam sem cor, agarrados de súbito a seus paus de fogo. Natário com o pé sobre a cabeça do velho negro teimoso que respirava com força, de olhos bem abertos. Viu medo nos dois homens armados; viu pânico em si próprio. Nunca tinha reparado como eram muitos aqueles pretos de seu pai. Não sabia se tinham nome, o que comiam, nunca fincara pé em uma senzala. Vivera com aqueles pretos a vida inteira, mas agora suava frio à visão deles. Queria que fossem embora, que sumissem, que morressem sem deixar vestígio.
Enquanto eles caminhavam para a saída, submissos como sempre foram, gostou da nova lei. Só ali percebeu o quanto não gostava deles. Não gostava da cara deles, da cor deles, das vozes, das músicas, não gostava de tê-los por perto. Mas nunca lhe havia passado pela cabeça temê-los. Pois bem, agora, a verdade é que se borrava de medo deles. Perdido em seus pensamentos, mal percebeu quando os homens a sua volta deixaram cair as armas e puseram-se a correr na direção contrária daquele mar azeviche que rompera as barragens e descontrolara-se. Correu também, correu sem olhar para trás.
Rosa parou em seu pai, filhos ao lado, ajudou o velho a erguer-se. Virou as costas e caminhou lentamente. Pegou sua trouxa no chão, cruzou o portão, juntou-se aos pretos de outras fazendas, que já tomavam as ruas de terra rumo ao desconhecido. Policiais do Estado passaram a galope, nervosos, derrubando alguns dos muitos pretos cabisbaixos.
Gritavam que havia uma revolta de pretos na fazenda Ramos e Sousa. Brancos que observavam aquela procissão maltrapilha trataram de esconder-se em suas agora alvas casas-grandes. Entre murmúrios, gritos assustados e xingamentos, Rosa ouviu um dos guardas montados dizer:
- Agora que acabou a moleza, esses pretos vão sentir o peso da lei. Eles acham que é fácil assim? Com a liberdade é que vem a obrigação.
E Rosa entendeu o que era a tal da lei áurea dos brancos, o motivo de toda a felicidade que ela não sentia nem via: era ser preto sem casa nem comida. Imersa em seus pensamentos, custou a reparar em seu pai. Quando o fez, viu-o empertigar-se, limpar um fio de sangue que lhe escorria a boca, respirar fundo, soltar o ar e sorrir genuinamente, como sorriem as crianças.
- Levante a cabeça, filha. – disse o velho – Levante a cabeça. Mesmo que você tenha de baixá-la mais mil vezes; levante a cabeça. Levante a cabeça para que seus filhos aprendam a andar de cabeça erguida. Eu e você bem vamos morrer escravos, não importa quantos papéis os brancos assinem. Meus netos, não. Eles vão conquistar o direito de ser negros livres.
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